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sábado, 6 de setembro de 2014

Pepe Escobar: — OTAN, libertadora do “Jihadistão”?

5/9/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Empurra teu carro e teu arado
Por cima dos ossos dos mortos …
William Blake (1757-1827), 


Abu Bakr al-Baghdadi (Califa Ibrahim)
O Califa Ibrahim, codinome Abu Bakr al-Baghdadi, autodeclarado líder do Estado Islâmico, ex-Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL, ing.) realmente não tem veia de marketing & Relações Públicas que preste! Quando o show estava pronto e agendado, para que a OTAN salvasse a Ucrânia e a civilização ocidental – pelo menos no plano retórico – das garras daquele Império do Mal remixed, a Rússia... Vem o Califa e, tendo acessado seu caríssimo relógio mágico, intromete-se na programação, com mais um daqueles seus especiais de “cortem a cabeça deles!”.

Muito adequadamente, houve desconfianças e sobrancelhas arqueadas, que duraram até que toda a sopa-de-letrinhas das agências de inteligência dos EUA solenemente confirmaram que o EI, sim, realmente degolara mais um jornalista norte-americano em vídeo (de Barack Obama, presidente dos EUA: “Ato de violência horrífico”).

E então, sem mais nem menos, vem O Califa, repica e proclama ao mundo que seu próximo alvo será ninguém menos que o presidente russo Vladimir Putin. Estaria falando pelo recentemente posto em ostracismo príncipe Bandar bin Sultan da Arábia Saudita, codinome Bandar Bush?

Em tese, tudo estaria resolvido. O Califa passa a ser prestador contratado de serviços para a OTAN (ele já trabalha no ramo, praticamente...). O Califa degola Putin. O Califa liberta a Chechênia – serviço rápido, não aquela coisa terrivelmente embaraçosa, confusão sem fim, no Afeganistão. O Califa, de enfiada, já ataca logo os BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O Califa vira Secretário−Geral−Sombra da OTAN. E Obama finalmente para de reclamar que seus telefonemas para Putin só caem na caixa postal.

Ah, se geopolítica fosse simples como filme tranca−quarteirões da Marvel Comics.

Ora! O Califa deveria saber – dado que, em grande medida, é produto Made-in-the-Ocidente, com substancial input de petrodólares do Conselho de Cooperação do Golfo – que a OTAN jamais lhe prometeu um jardim de rosas.

David Cameron e Barack Obama
Assim aconteceu, previsivelmente, que aqueles ingratos, Obama e David Cameron, primeiro-ministro britânico – oh yes, porque o “relacionamento especial” é tudo que importa na OTAN, os demais são figurantes – juraram sair à caça do Califa com uma ampla (quer dizer... Não é assim tãããão ampla) “coalizão de vontades”, com os suspeitos de sempre do Conselho de Cooperação do Golfo plus Turquia e Jordânia, bombardeando o Curdistão Iraquiano, partes do Iraque sunita e até a Síria.

Afinal de contas, o presidente da Síria “Bashar al-Assad-tem-de-sair”, não mais “a brutalidade de Assad” na formulação de Cameron, é o verdadeiro culpado pelas ações de O Califa. E tudo em nome da Guerra Global ao Terror à moda da Operação Liberdade Duradoura Forever.

Agora, me tragam aquele Califa Eslavo

Entrou água, pode-se dizer, na festa do secretário-geral (em final de mandato) da OTAN Anders “Fog(h) da Guerra” Rasmussen. Afinal, estava combinado que aquele seria o “momento crucial”, na cúpula da OTAN em Gales, quando a OTAN alcançaria o píncaro de sua Guerra Fria 2.0, resgatando “os aliados”, todos os 28, das profundas tenebrosas da insegurança.

Basta ver a réplica de um glorioso Magnata Eurocombatente plantada lá, em frente ao hotel onde acontece a reunião da OTAN na cidade de Newport, sul de Gales.

Putin expôs um plano de paz para a Ucrânia
E, cúmulo dos cúmulos, aquele maldito Califa Eslavo do Mal, Vlad Putin em pessoa, construiu um plano de paz de sete itens, para resolver o sorvedouro ucraniano – bem quando o imponente exército de Kiev foi reduzido a estrogonofe pelos federalistas e/ou separatistas no Donbass. O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko – que até praticamente ontem ainda berrava “Invasão!” a plenos pulmões – soltou longos suspiros de alívio. E até revelou, detalhe, que Kiev estava recebendo armamento de alta precisão de país sem nome, que só pode ser EUA, Reino Unido ou Polônia.

A coisa toda gerou grave problema, porém. Contra quem/o quê a OTAN defenderá a Civilização Ocidental, se tudo que se disse até hoje sob o rótulo “agressão russa” aparece agora sobre o palco identificado como mapa do caminho para a paz?

Donald Rumsfeld
Não surpreende que os 60 chefes de estado e de governo com respectivos Ministros da Defesa e de Relações Exteriores – que brindaram o mundo com invasão “soft”/furo consentido do “anel de aço” que cerca Newport impedindo que se aproximem as hordas de manifestantes protestantes – tenham ficado confusos, com cara de zonzos.

Mais de 11 anos depois de “Choque e Pavor”, ainda vivemos em mundo rumsfeldiano. Foi o ex-chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld, quem, no governo de George “Dábliu” Bush, conceptualizou a “Velha Europa” e a “Nova Europa”. “Velha”, a das bonecas venusianas. “Nova”, dos marcianos muito machos.

A “Nova” apoiou totalmente a operação Choque e Pavor e a subsequente invasão/ ocupação do Iraque. Hoje, apoia – de fato implora, suplica – que a OTAN encare a Rússia.

A “Velha”, por sua vez, tenta pelo menos salvar um espaço de negociação com Putin. E no final a amada prudência [orig. dear prudence (NTs)], exercida especialmente por Berlin, foi recompensada pelo plano de paz de Putin.

Pelo sim pelo não, para não frustrar demais o Império do Caos, Paris anunciou que não entregará a Moscou no prazo agendado os primeiros dois navios porta-helicópteros militares Classe Mistral comprado pelos russos. Claro que a OTAN condenou fortemente a Rússia na questão Ucrânia, e a União Europeia seguiu-a com ainda mais sanções.

Quanto a Fog(h) da Guerra, continua a repetir sua retórica de Marte Ataca! (ver OTAN Ataca!, redecastorphoto, 4/9/2014). Tudo culpa de Moscou. A OTAN é só inocente força só de apaziguamento – sólida e poderosa. Ao mesmo tempo, a OTAN não seria doida de pôr-se a começar a apontar a Rússia como inimiga direta.

Protestos anti-OTAN começaram em agosto
E a polícia galesa filmou tudo e todos...
Protestos anti-OTAN também em Newport
Assim sendo, como Asia Times Online noticiou, a OTAN no máximo ajudará a treinar forças de Kiev; o desempenho delas no Donbass mostrou que precisam muito de treino. Mas não haverá “integração” da Ucrânia – apesar de toda a histeria que se ouviu vinda de Kiev e bem com Polônia e os estados Bálticos clamando por bases permanentes. O novo elemento será a Força de Resposta OTAN-remixed (NRF) a qual, por falar dela, jamais antes foi usada.

A NRF já vem até com slogan “marketado”: “Viaje leve e ataque pesado”. Um batalhão de 800 homens capaz de atacar em dois dias e uma brigada de 5 mil, para ataque em de 5 a 7 dias. Bem... Se seguirem o padrão “viaje leve”, dificilmente conseguirão impedir que O Califa anexe vastas fatias do Jihadistão, com seu comboio de flamantes Toyotas brancos. Sobre “ataque pesado”, informem-se com os pashtuns no Hindu Kush, para saberem do que se trata.

Assim foi que Gales gerou a NRF; “rotação” permanente e permanentes bases avançadas para “proteger” a Europa Central e Oriental; e todo mundo soltando dinheiro (nada menos que 2% do PIB de cada um dos 28 países-membros, de agora até 2025). E isso no meio da terceira recessão europeia em cinco anos.

Agora comparem o atordoante orçamento militar conjunto da OTAN, de 900 bilhões de dólares norte-americanos (75% de todas as despesas monopolizadas pelos EUA), com o orçamento da Rússia, de apenas $80 bilhões. Depois, a “ameaça” é Moscou!

Desnecessário acrescentar, mesmo sob todo esse som e fúria, Gales não conseguiu pôr a OTAN num sofá freudiano – para analisar em monólogo sem fim o fracasso abjeto da “aliança” nos dois pontos, no Afeganistão e na Líbia.

Líbia - antes (E) e depois (D) da OTAN
(clique na imagem para aumentar)
No Afeganistão, o Talibã basicamente controla anéis que cercam as bases da OTAN e movimentos de “ataca pesado”, que desmoralizam completamente a “aliança”. Foi a OTAN em modo GGT (Guerra Global ao Terror).

E na Líbia, a OTAN criou um estado falido devastado por milicianos e chamou a coisa de “paz”. Foi a OTAN em modo R2P (Responsabilidade para Proteger).

OTAN libertadora do Jihadistão? O Pentágono não dá a mínima. O Pentágono quer GGT eterna. A think-tankelândia dos EUA está em êxtase, agora que a OTAN encontrou “renovado propósito” e a sobrevivência de longo prazo da aliança está assegurada por uma “ameaça unificada”. Tradução: Rússia.

Assim sendo, O Califa não está exatamente tremendo em suas botas de deserto Made-in-USA. Até sonha em pôr as mãos no Califa Eslavo em pessoa. Como é que Marvel Comics nunca pensou nisso?!
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan Nimble Books, 2009.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Governo da Rússia apresenta: “Plano Putin” para pôr fim ao conflito na Ucrânia

3/9/2014, Presidência da RússiaVladimir Putin
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin - Plano de 7 pontos para a Ucrânia
Vladimir Putin expôs o plano em conversa com jornalistas, no final de sua visita de trabalho à Mongólia.

Para pôr fim ao derramamento de sangue e estabilizar a situação no sudeste da Ucrânia, entendo que as partes envolvidas naquele conflito devem aceitar imediatamente e coordenar as medidas necessárias para os seguintes passos:

1. Pôr fim imediato a todas as operações ofensivas por forças armadas, unidades armadas e milícias em todo o sudeste da Ucrânia e nas áreas de Donetsk e Lugansk.

2. Retirada das unidades das forças armadas da Ucrânia, para distância da qual seja impossível que atirem contra áreas populosas usando artilharia e todos os demais tipos de sistemas de lançamento múltiplo de foguetes.

3. Dar plena autorização para monitoramento completo e objetivo, a ser feito por monitores internacionais, que verificarão o cumprimento do cessar-fogo e monitorarão a situação na área segura criada pelo cessar-fogo.

4. Excluir todo o uso de aeronaves militares contra civis e áreas populosas na zona de conflito.

5. Organizar a troca de indivíduos aprisionados, a ser feita em termos de ‘'todos em troca de todos'’ e sem qualquer precondição.

6. Abrir corredores humanitários para refugiados e para entrega de ajuda humanitária em cidades e áreas populosas nas regiões do Donbass – Donetsk e Lugansk. 

7. Possibilitar que brigadas de construção e reparos cheguem às áreas mais destruídas da região do Donbass, para iniciar a operação de reparos e reconstrução de prédios e instalações de uso social e da infraestrutura de apoio à vida, de modo a ajudar a região a preparar-se para o inverno.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Imprensa−empresa pró−guerra ignora Plano de Paz de Putin

13/5/2014, [*] Mike Whitney, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Didier Burkhalter, da OCSE e Vladimir Putin, Presidente da Rússia em 6/5/2014

Permitam-me repetir que, do ponto de vista da Rússia, a culpa pela crise na Ucrânia é dos que organizaram o golpe de estado em Kiev dias 22-23/2/2014 (...) Mas, seja quem for, é absolutamente necessário encontrar algum meio para resolver a situação como a temos hoje (...)  E como eu já disse é preciso que haja diálogo igualitário e geral entre as autoridades em Kiev, e representantes da população no sudeste da Ucrânia. Não sei se uma rodada de conversações Genebra-2 é projeto realista, mas... Entendo que se queremos encontrar solução de longo termo para essa crise, temos de ter diálogo aberto, honesto e igual. Não há outra saída. [Vladimir Putin, Presidente da Rússia, Declaração à Imprensa, Reunião da Organização do Conselho de Segurança da Europa (OCSE), Moscou, 7/5/2014.


Tantos jazem sob o granito eterno
Mas os que são honrados nessa pedra,
Que ninguém os esqueça.
Que nem um deles seja jamais esquecido
[Olga Berggolts, “Leningrad”]



Na 4ª feira (7/5/2014), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez uma proposta para pôr fim à violência na Ucrânia, em reunião da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa, OCSE, em Moscou. Infelizmente, a maioria dos norte-americanos nunca foi informada sobre essa proposta, porque a imprensa-empresa norte-americana não noticiou a declaração e a proposta do presidente Putin. A razão pela qual a imprensa-empresa age como age é que não deseja que a opinião pública “descubra” que o presidente Putin NÃO É a caricatura que o sórdido “jornalismo” norte-americano inventou que ele seria, mas governante pragmático, que tem interesse em chegar logo a solução pacífica para uma crise que ele não inventou nem jamais desejou. Eis o que disse o presidente Putin:

Entendemos que a coisa mais importante agora é iniciar diálogo direto, genuíno, aberto, entre as autoridades de Kiev e representantes do sudeste da Ucrânia. Esse diálogo dará ao povo do sudeste da Ucrânia a chance de ver que seus direitos legítimos sejam realmente assegurados na Ucrânia.

São palavras de um “monstro−KGB” sedento de sangue, movido a sonhos de expansão territorial e expansão imperialista, ou, em vez disso, são palavras de governante responsável, que quer facilitar um cessar-fogo até que as cabeças esfriem e se possam pensar em melhor negociação de paz?

Você, leitor, foi informado de que Putin propôs “diálogo genuíno entre Kiev e os representantes do sudeste da Ucrânia”? O jornalismo, os jornais, os jornalistas não existem para distribuir informação, de modo que cada leitor possa construir sua própria opinião sobre Putin? Ou você entende que o jornalismo imprensa−empresa teria o direito de esconder a informação que decida esconder, se assim interessar aos patrões−anunciantes corporativos de cada jornal, de cada jornalismo e de cada jornalista? O que, afinal, se deve entender por “imprensa livre”?

Em seu discurso, Putin fez várias concessões, que merecem destaque. Por exemplo, concordou em afastar seus soldados da fronteira ucraniana onde permaneceram como muralha de contenção contra o governo de Obama, desde que o golpe de estado em Kiev começou a atacar, já há mais de duas semanas. Putin aceitou retirar seu exército, mesmo sabendo que estava enfraquecendo as defesas russas. Não é questão de somenos, de fato é importante questão de segurança nacional, e é responsabilidade primária básica do presidente, o tipo de responsabilidade que Putin jamais encarou levianamente, sobretudo quando há doidos neonazistas armados até os dentes, nos arredores, ameaçando matar russos étnicos onde os encontrem. Pois Putin fez essa concessão, na esperança de que um gesto de boa fé pudesse ajudar a pôr fim à violência. O presidente Putin disse, precisamente, o seguinte:

Já retiramos nossas forças e agora já não estão na fronteira ucraniana, mas de volta aos exercícios de rotina, nos campos de treinamento. É coisa fácil de confirmar, usando técnicas de coleta de inteligência, inclusive dos satélites, pelos quais onde nossos soldados podem ser facilmente vistos. Ajudamos a distribuir essa informação aos observadores militares da OSCE, e acho que, assim, também contribuímos para acalmar a situação.

É coisa que soe como mentira de um pervertido? É claro que não. Por isso, precisamente, os jornais, os jornalismos e os jornalistas não querem que ninguém ouça/leia o que o presidente Putin tem a dizer. Porque desmente o delírio “jornalístico”, segundo o qual “Putin é Satã”.

Putin é sujeito que atira sem sacar e diz o que quer dizer. Não é mentiroso. As pessoas percebem isso, motivo pelo qual a imprensa-empresa ocidental jamais o mostra ao vivo, nem jamais publica suas falas e discursos. Exclusivamente porque temem que os leitores e telespectadores acreditarão no que ouvirem−lerem e, onde e quando assim acontece, toda a propaganda pró-guerra à qual toda a imprensa−empresa ocidental está dedicada, é desmascarada.

John "Fraud" Kery
Fato é que as pessoas sabem, por instinto, quando o sujeito mente deslavadamente. As pessoas sabem ver, imediatamente, a diferença que separa um sujeito claro, como Putin, e uma fraude ambulante, com Kerry. Por isso Putin tem de ser escondido. Para isso, precisamente, serve a imprensa−empresa como a temos: para não noticiar.

Putin também pediu aos representantes das regiões sudeste da Ucrânia que adiassem o referendo marcado para o dia 11/5/2014 [o referendo não foi adiado (NTs)].

Por que pediria tal coisa? Afinal, se realmente quisesse “reconstruir” o Império Russo, como dizem seus críticos, teria de desejar que o referendo fosse realizado e exibisse, precisamente, o resultado que mais o interessaria: o mundo veria que o leste rejeita o governo da Junta−de−Kiev e exigiria maior autonomia em relação ao governo central de Kiev [exatamente o resultado que já se conhece hoje, depois de realizado o referendo (NTs)]. Mas Putin não quer nada disso. O que ele quer é pôr fim aos massacres, motivo pelo qual pediu que se adiassem os referendos, para não dar à junta dos neonazistas em Kiev pretextos para mais ataques e mais massacres. Putin não tem interesse algum em ver a Ucrânia rasgada em farrapos, reduzida à anarquia que se vê hoje no Iraque, por ação de inimigos que usam o país como rinha de exercício de suas ambições geopolíticas. Putin quer restaurar a estabilidade e a segurança. Quer o fim das hostilidades. Eis, exatamente, o que ele disse:

Solicitamos aos representantes das regiões sudeste da Ucrânia e apoiadores da federalização, que transfiram o referendo marcado para 11 de maio.

OK. Significa, então, que Putin recuou os próprios soldados, afastando-os da fronteira; e pediu que ativistas pró−Rússia adiem a votação que, com certeza, exigirá maior autonomia política. São duas concessões muito significativas. Mas... Por que Putin está fazendo o que está fazendo?

Será que tem alguma carta escondida na manga? Está tentando enrolar os inimigos, antes de ordenar ataque massivo, total, contra Kiev?

Falemos sério. Basta de tolices. Putin não quer tomar a Ucrânia; essa é conversa−terrorismo dos neoconservadores norte-americanos. Putin já tem problemas que cheguem, sem somar a eles a ocupação da Ucrânia. Por que, afinal, anexaria estado falido, falhado, quebrado, que desliza rapidamente para o fundo de Depressão das grandes? Por que faria tal coisa?!

Nesse caso, por que faz tantas concessões, tão rapidamente? Talvez porque esteja com medo? Talvez porque tema uma confrontação com a OTAN e os EUA, e, por isso, estaria tentando salvar seu front ocidental, antes que a guerra ecloda? É isso? Putin não passa de covarde?

O "pivoteamento" dos EUA para a Ásia
Segundo a imprensa−empresa ocidental, sim, Putin é covarde, mas isso porque a cobertura só tem olhos para a disposição para recuar os próprios soldados, o que quase faria crer que as políticas de linha−dura de Washington estariam funcionando, em vez de, como de fato estão, só tornarem as coisas cada dia piores, para o próprio ocidente.

O único detalhe que ABSOLUTAMENTE JAMAIS FOI NOTICIADO, CITADO, REFERIDO OU COMENTADO em toda a cobertura ocidental é o Plano de Paz de Putin para pôr fim à violência.

O PLANO DE PAZ DE PUTIN NÃO É JAMAIS NOTICIADO, porque a imprensa−empresa não quer que Putin apareça no lugar que, de fato, lhe cabe nessa guerra−golpe: Putin é o único estadista realmente interessado em gerar paz e cada vez mais paz. Isso, precisamente, não interessa ao ocidente.

Putin não tem medo de nada e de ninguém. Não terminará como Gaddafi ou Saddam. Mas, sim, está preocupado. Está preocupado, porque os EUA obram para tentar bloquear o acesso da Rússia ao seu maior mercado, a União Europeia. A Rússia não pode simplesmente redirecionar seu gás, do oeste (União Europeia) para o leste (China), como tantos “especialistas” parecem crer que fará. A loucura−imbecilidade é total. A Rússia precisa da Europa, como a Europa precisa da Rússia. É essa relação comercial/de trocas, tradicional, forte e natural, que Washington quer sabotar, para que possa meter as garras diretamente na Ásia Central. Trata-se, afinal, disso e só disso: do tal “pivoteamento” para a Ásia, de Obama.

Assim sendo, sim, claro, o interesse de Putin pela paz não é exclusivamente altruísta. Trata-se, também, é claro, de dinheiro, muito, muito dinheiro. Mas... e daí?! Que diferença faz isso? Putin não é limpo e puro como um querubim. Mas... e daí?! O fato que realmente conta é que Putin trabalha a favor da paz – e a paz não beneficiará apenas Moscou, mas toda a Europa e também a Ucrânia.

O único “agente” ao qual a paz não interessa é Washington. E por isso, precisamente, a imprensa−empresa oculta e omite qualquer informação que promova mais paz que guerra, que contribua mais para desarmar, que para armar, exércitos e espíritos. Por quê? PORQUE WASHINGTON DESEJA GUERRA.

Como os EUA veem o Oriente Médio e a Ásia
(clique na imagem para aumentar)
A guerra é o veículo para quebrar a Federação Russa em inúmeros estadetes microscópicos que não ameacem as bases militares dos EUA espalhadas pela Ásia. A guerra é o meio pelo qual Washington pode pôr-se a se pivotear, cercando a China, para controlar o futuro crescimento do Império do Meio. A guerra assenta o caminho para instalar postos avançados dos EUA na Ucrânia e subverter qualquer possível integração econômica crescente entre Rússia e Europa. A Guerra é a única política que os EUA são capazes de propor e fazer avançar, porque a guerra favorece os interesses dos norte-americanos. Ponto. Parágrafo.

Washington de modo algum alcançará seus objetivos estratégicos ou econômicos, se não houver guerra. Por isso, precisamente, a atual situação é tão preocupante, porque – a julgar pela sordidez da retórica que está sendo gerada na Casa Branca e de lá repercute pela imprensa−empresa para o mundo, o Departamento de Estado dos EUA e todos os conglomerados industriais−comerciais de imprensa−empresa: Obama CONTINUARÁ A PROVOCAR MOSCOU até obter a reação que deseja obter.

Já morreram 40 pessoas em Odessa; não bastaram; na próxima provocação, Washington mandará matar 400, 4 mil ou 400 mil. Não importa o número. Custe o que custar. Madeleine Albright, há algum tempo, quando lhe perguntaram se as sanções contra o Iraque valiam o custo de meio milhão de mortos, respondeu sem um segundo de vacilação ou hesitação: “Entendemos que sim, valem o que custam”.

Custe o que custar. Não importa quantos morram. A isso se reduz, numa linha, a política externa dos EUA.

Putin disse também que:

A responsabilidade pelo que está acontecendo na Ucrânia cabe ao que tomaram o poder por golpe, anti−constitucionalmente. (...) E aos que apoiaram essas ações e lhes asseguraram suporte financeiro, político, de informação e todos os tipos de suporte, e empurraram a situação até que se converteu nos trágicos eventos que aconteceram em Odessa. É de gelar o sangue. Todos viram os filmes dos eventos de Odessa.

Hordas nazi-fascistas, apoiadas pelos EUA, sob comando da Junta-de-Kiev, atearam fogo na Central Sindical em Odessa e assassinaram pelo menos 48 e feriram gravemente mais de 150 pessoas em 2/5/2014
Tentem imaginar Obama dizendo frases semelhantes. Imaginem Obtama preocupado com as pessoas que morreram em Odessa. Difícil, até, imaginar a cena. Agora, Obama com certeza já assistiu também aos mesmos filmes de que Putin falou. Com certeza já viu pessoas jogando-se pelas janelas, com as roupas em chamas. Já viu seus aliados neonazistas jogando pessoas pelas janelas; já viu os restos calcinados de vários cadáveres nas fogueiras. Pois viu... e não disse uma palavra! Permaneceu calado. Não protestou porque aqueles matadores de civis em fogueiras neonazistas são aliados dos EUA e das políticas dos EUA. A atitude de Obama é parte do cálculo político: gente não conta; só a política conta. Obama não é diferente de Albright nem de qualquer outro alto funcionário do establishment político dos EUA, no que tenha a ver com negócios e guerras. São todos iguais. A vida nada significa para eles. A única coisa que interessa é o que os doadores de suas campanhas eleitorais determinem como “interesses” seus, deles e só deles.

Assim sendo, o que Putin realmente deseja?

Eis o que ele disse:

A Rússia requer com urgência que as autoridades de Kiev cessem todas as operações militares e punitivas no sudeste da Ucrânia

Significa, precisamente, em outras palavras, que Putin que paz.

Desgraçadamente, a gangue de Obama estrangulou o Plano de Paz de Putin, ainda no berço. Ontem mesmo o regime−fantoche apoiado pelos EUA que “governa” Kiev prometeu ampliar os ataques contra manifestantes no leste. Segundo o Secretário de Defesa neonazista de Kiev, Andriy Parubiy:

A operação de contraterrorismo continuará sem mercê, contra a presença de terroristas e grupos insurgentes na região de Donetsk.

Quanto ao apelo de Putin, pela paz, Arseniy Yatsenyuk, o “Yats” fantoche−primeiro−ministro amigo de Victória Nuland, desqualificou-o completamente; para ele, não passaria de “um peido”.

Assim sendo... aí está! A ameaça da paz foi rapidamente neutralizada; Obama e seus amigos neonazistas neofascistas receberam luz verde para prosseguir na estratégia de esfacelar a Ucrânia, assassinar milhares de civis e implantar a OTAN no perímetro oeste da Rússia.

Por isso, precisamente, a imprensa−empresa privada ocidental absolutamente não noticiou sequer uma palavra do Plano de Paz de Putin: porque o plano de Washington prevê sempre mais e mais guerras, e nunca, jamais, pode prever alguma paz. É disso que se trata.
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[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por um reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition
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