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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Pepe Escobar − A guerra saudita do petróleo contra Rússia, Irã e EUA

15/10/2014, [*] Pepe Escobar, RT− Russia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pescador lança sua rede no porto de Dubai
A Arábia Saudita iniciou uma guerra econômica contra alguns produtores selecionados de petróleo. A estratégia mascara a verdadeira agenda da Casa de Saud. Mas funcionará?

Para o vice-presidente da russa Rosneft, Mikhail Leontyev,

(...) os preços podem ser manipulativos (...) a Arábia Saudita começou por oferecer grandes descontos no petróleo. É manipulação política, e a Arábia Saudita está sendo manipulada, o que pode acabar mal.

É indispensável uma correção: os sauditas não estão sendo manipulados. O que a Casa de Saud está fazendo é disparar “Tomahawks de boatos”, insistindo que estariam ótimos com o petróleo a US$ 90 o barris; até a US$ 80 pelos próximos dois anos; e até a US$ 50-US$ 60 para clientes da Ásia e norte-americanos.

A verdade é que o Brent cru já caiu a menos de US$ 90 por barril, porque a China – e a Ásia como um todo – já estão reduzindo o crescimento econômico, embora em grau menor, comparado ao ocidente. A produção porém permanece alta – especialmente na Arábia Saudita e Kuwait – mesmo com bem pouco petróleo líbio e sírio no mercado e com o Irã forçado a cortar milhões de barris/dia na produção por causa da guerra econômica dos EUA, também chamada sanções.

A Casa de Saud está aplicando estratégia altamente predatória, que se resume a reduzir a fatia de mercado de seus concorrentes, no médio para longo prazo. Pelo menos em teoria, pode tornar miserável a vida de vários atores – dos EUA (desenvolvimento de energia, fracking e perfuração em água profunda que se tornam não lucrativos), aos produtores de cru pesado, azedo [orig. sour] como o Irã e a Venezuela. Mas o alvo principal, que ninguém se engane, é a Rússia.

Nada mais fácil que uma estratégia que fira simultaneamente Irã, Iraque, Venezuela, Equador e Rússia ser vista como jogo de poder a favor do “Império do Caos”, com Washington acertando negócios com Riad. Negócios que implicariam que bombardear o Califa Ibrahim, líder do ISIS/ISIL/Daesh, seria só um prelúdio para bombardear as forças de Bashar al-Assad; em troca, os sauditas baixariam os preços para ferir os inimigos do “Império do Caos”.

Mas é muito mais complicado que isso.


Jogue a culpa em Washington

O orçamento russo para 2015 exige que o petróleo permaneça, no mínimo, a US$ 100 o barril. Mesmo assim, o Kremlin está obtendo empréstimos de nada menos que US$ 7 bilhões em 2015, dos “investidores externos” usuais, mais US$ 27,2 bilhões internamente. Não se vê nem sinal de terremoto econômico.

Além do mais, o rublo já caiu mais de 14% desde julho, frente ao dólar norte-americano. Por falar nisso, as moedas dos principais países BRICS também caíram: 7,8% o real do Brasil; 1,6% a rúpia indiana. E a Rússia, diferente do que se via na era Ieltsin, não está quebrada: ainda tem reservas de, pelo menos, US$ 455 bilhões.

O objetivo da Casa de Saud, de tentar atropelar a Rússia como principal fornecedor de petróleo para a União Europeia não passa de delírio-sonho: todas as refinarias da União Europeia teriam de ser praticamente refeitas de alto a baixo, para processar o cru saudita, que é leve; e isso custa uma fortuna.

Geopoliticamente, a coisa fica ainda mais saborosa, quando se vê que a estratégia central da Casa de Saud é jogar a culpa de tudo em Washington, por não ter cumprido a promessa de “Assad tem de sair”, nem realizado a obsessão dos neoconservadores de bombardear o Irã. É ainda pior (para os sauditas), porque Washington – pelo menos por hora – parece mais concentrada em derrubar o Califa Ibrahim do que em derrubar Bashar al-Assad e pode, talvez, estar a um passo de assinar um acordo nuclear com Teerã, como parte das conversas com o P5+1, dia 24 de novembro de 2014.

No front da energia, o pior dos pesadelos da Casa de Saud seria ambos, Irã e Iraque, tornarem-se rapidamente capazes de tomar o lugar dos sauditas como produtores swing chave de petróleo no mundo. Daí vem o ímpeto dos sauditas para privar os dois países da muito necessária renda do petróleo. Pode funcionar – com as sanções mordendo Teerã ainda mais fundo. Mas Teerã sempre pode compensar, vendendo mais gás para a Ásia.

Aqui, afinal, está o xis da questão. Uma depauperada Casa de Saud acredita que possa forçar Moscou a abandonar o apoio que dá a Damasco; e Washington a não assinar acordo algum com Teerã. Tudo isso, só vendendo petróleo abaixo do preço médio. É sinal de desespero. E, além disso, pode ser interpretado como a Casa de Saud sem saber o que faz – se não a estiver ostensivamente sabotando – da tal coalizão dos covardes/sem noção, em sua campanha contra os bandidos do Califa Ibrahim.

Para completar essa pintura sinistra, a Europa talvez seja esquecida, para arrastar-se como puder durante o inverno – mesmo sabendo-se dos problemas de suprimento de gás com a Rússia − por causa da Ucrânia. Ainda assim, os preços baixos do petróleo dos sauditas não impedirão uma quarta recessão em seis anos, que já está na esquina, à espera da União Europeia.

Foto: Hamad I. Mohammed

Para o leste, jovens russos!

A Rússia, entrementes, olha lenta, mas firmemente, para o leste. O vice-premiê da China, Wang Yang, resumiu com clareza:

A China quer exportar para a Rússia produtos competitivos como produtos agrícolas, equipamento de petróleo e gás; e está pronta para importar produtos de engenharia da Rússia.

Acrescentem-se aí os alimentos importados em quantidades maiores da América Latina, e nada sugere que Moscou esteja encurralada nas cordas.

Uma delegação chinesa de peso considerável, chefiada pelo premiê Li Keqiang acaba de assinar um pacote de negócios em Moscou, que vão da energia às finanças, e de navegação por satélite a cooperação nas ferrovias para trens de alta velocidade. Para a China, que já superou a Alemanha como principal parceira comercial da Rússia em 2011, esse é puro jogo de ganha-ganha.

Os bancos centrais de China e Rússia acabam de assinar acordo crucial, de três anos, para troca bilateral da moeda, de 150 bilhões de Yuan. E o negócio é prorrogável e expansível. A City de Londres reclamou muito, mas reclamar é o que mais fazem.

Esse novo acordo, deixa de lado o US dólar. Não surpreende que seja, hoje, item chave da guerra econômica por procuração, de salve-se quem puder, entre EUA e Ásia. Moscou saúda o acordo, é claro, porque consegue neutralizar muitos dos efeitos colaterais da estratégia saudita.

A parceria estratégica Rússia-China está em ascensão desce o “negócio de gás do século”, “epocal” (pela definição de Putin), de US$ 400 bilhões e para 30 anos, assinado em maio. E as reverberações econômicas não vão parar.

Haverá com certeza um alinhamento das Novas Rotas da Seda comandadas pelos chineses, com uma ferrovia Trans-Siberiana modernizada. Na reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] em Dushanbe, o presidente Putin elogiou o “grande potencial” do desenvolvimento de um “sistema comum de transporte SCO” que ligue “a ferrovia Trans-Siberiana russa e a linha principal Baikal-Amur” com as Rotas da Seda chinesas, “beneficiando assim todos os países na Eurasia”.

Moscou está progressivamente levantando as restrições e agora está oferecendo a Pequim quantidade imensa de investimentos potenciais. Pequim está ganhando progressivamente acesso não só às matérias primas russas muito necessárias, mas também ganhando acesso a tecnologia de ponta e armamento avançado.

Pequim receberá sistemas de mísseis S-400 e jatos de combate Su-35, logo no primeiro trimestre de 2015. Depois, na sequência, virão o novíssimo submarino russo, Amur 1650, além de componentes para satélites alimentados por energia nuclear.

Foto: Hamad I. Mohammed

A estrada é pavimentada com Yuan

Os presidentes Putin e Xi, que já se encontraram nada menos que nove vezes desde a posse de Xi, ano passado, estão metendo muito medo ao Império do Caos”. Não é de estranhar; a prioridade número 1, dos dois e compartilhada, é morder a hegemonia do dólar norte-americano – e especialmente do petrodólar – no sistema financeiro global.

O Yuan está sendo negociado na Bolsa de Valores de Moscou – a primeira Bolsa fora da China a oferecer negócios regulados com o Yuan. Ainda está em apenas US$ 1,1 bilhão (em setembro). Importadores russos pagam com Yuan, em vez de dólares, por 8% de todos os bens chineses, mas a coisa está crescendo depressa. E crescerá exponencialmente, quando Moscou finalmente decidir aceitar Yuan no “negócio de gás do século” com a Gazprom, de US$ 400 bilhões.

Assim caminha o mundo multipolar. A Casa de Saud usa a arma-petrodólar? O contragolpe é aumentar o comércio numa cesta de moedas. Adicionalmente, Moscou manda um recado à União Europeia, que está perdendo grande parte do comércio russo, por causa das tais sanções contraproducentes, o que acelera a próxima recessão na União Europeia. Guerra econômica também é via de duas mãos.


A Casa de Saud pensa que pode jogar um tsunami de petróleo no mercado, apoiado por um tsunami de “noticiário” e “opiniões de especialistas” – criando a ilusão de que os sauditas controlariam os preços do petróleo. Não controlam. Na exata medida em que essa estratégia saudita está condenada ao fracasso, Pequim vai apontando o caminho a seguir para fora do pântano: negociar em outras moedas estabiliza os preços. No frigir dos ovos, os únicos perdedores serão os que insistirem em comerciar em dólares norte-americanos.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

sábado, 6 de setembro de 2014

Pepe Escobar: — OTAN, libertadora do “Jihadistão”?

5/9/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Empurra teu carro e teu arado
Por cima dos ossos dos mortos …
William Blake (1757-1827), 


Abu Bakr al-Baghdadi (Califa Ibrahim)
O Califa Ibrahim, codinome Abu Bakr al-Baghdadi, autodeclarado líder do Estado Islâmico, ex-Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL, ing.) realmente não tem veia de marketing & Relações Públicas que preste! Quando o show estava pronto e agendado, para que a OTAN salvasse a Ucrânia e a civilização ocidental – pelo menos no plano retórico – das garras daquele Império do Mal remixed, a Rússia... Vem o Califa e, tendo acessado seu caríssimo relógio mágico, intromete-se na programação, com mais um daqueles seus especiais de “cortem a cabeça deles!”.

Muito adequadamente, houve desconfianças e sobrancelhas arqueadas, que duraram até que toda a sopa-de-letrinhas das agências de inteligência dos EUA solenemente confirmaram que o EI, sim, realmente degolara mais um jornalista norte-americano em vídeo (de Barack Obama, presidente dos EUA: “Ato de violência horrífico”).

E então, sem mais nem menos, vem O Califa, repica e proclama ao mundo que seu próximo alvo será ninguém menos que o presidente russo Vladimir Putin. Estaria falando pelo recentemente posto em ostracismo príncipe Bandar bin Sultan da Arábia Saudita, codinome Bandar Bush?

Em tese, tudo estaria resolvido. O Califa passa a ser prestador contratado de serviços para a OTAN (ele já trabalha no ramo, praticamente...). O Califa degola Putin. O Califa liberta a Chechênia – serviço rápido, não aquela coisa terrivelmente embaraçosa, confusão sem fim, no Afeganistão. O Califa, de enfiada, já ataca logo os BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O Califa vira Secretário−Geral−Sombra da OTAN. E Obama finalmente para de reclamar que seus telefonemas para Putin só caem na caixa postal.

Ah, se geopolítica fosse simples como filme tranca−quarteirões da Marvel Comics.

Ora! O Califa deveria saber – dado que, em grande medida, é produto Made-in-the-Ocidente, com substancial input de petrodólares do Conselho de Cooperação do Golfo – que a OTAN jamais lhe prometeu um jardim de rosas.

David Cameron e Barack Obama
Assim aconteceu, previsivelmente, que aqueles ingratos, Obama e David Cameron, primeiro-ministro britânico – oh yes, porque o “relacionamento especial” é tudo que importa na OTAN, os demais são figurantes – juraram sair à caça do Califa com uma ampla (quer dizer... Não é assim tãããão ampla) “coalizão de vontades”, com os suspeitos de sempre do Conselho de Cooperação do Golfo plus Turquia e Jordânia, bombardeando o Curdistão Iraquiano, partes do Iraque sunita e até a Síria.

Afinal de contas, o presidente da Síria “Bashar al-Assad-tem-de-sair”, não mais “a brutalidade de Assad” na formulação de Cameron, é o verdadeiro culpado pelas ações de O Califa. E tudo em nome da Guerra Global ao Terror à moda da Operação Liberdade Duradoura Forever.

Agora, me tragam aquele Califa Eslavo

Entrou água, pode-se dizer, na festa do secretário-geral (em final de mandato) da OTAN Anders “Fog(h) da Guerra” Rasmussen. Afinal, estava combinado que aquele seria o “momento crucial”, na cúpula da OTAN em Gales, quando a OTAN alcançaria o píncaro de sua Guerra Fria 2.0, resgatando “os aliados”, todos os 28, das profundas tenebrosas da insegurança.

Basta ver a réplica de um glorioso Magnata Eurocombatente plantada lá, em frente ao hotel onde acontece a reunião da OTAN na cidade de Newport, sul de Gales.

Putin expôs um plano de paz para a Ucrânia
E, cúmulo dos cúmulos, aquele maldito Califa Eslavo do Mal, Vlad Putin em pessoa, construiu um plano de paz de sete itens, para resolver o sorvedouro ucraniano – bem quando o imponente exército de Kiev foi reduzido a estrogonofe pelos federalistas e/ou separatistas no Donbass. O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko – que até praticamente ontem ainda berrava “Invasão!” a plenos pulmões – soltou longos suspiros de alívio. E até revelou, detalhe, que Kiev estava recebendo armamento de alta precisão de país sem nome, que só pode ser EUA, Reino Unido ou Polônia.

A coisa toda gerou grave problema, porém. Contra quem/o quê a OTAN defenderá a Civilização Ocidental, se tudo que se disse até hoje sob o rótulo “agressão russa” aparece agora sobre o palco identificado como mapa do caminho para a paz?

Donald Rumsfeld
Não surpreende que os 60 chefes de estado e de governo com respectivos Ministros da Defesa e de Relações Exteriores – que brindaram o mundo com invasão “soft”/furo consentido do “anel de aço” que cerca Newport impedindo que se aproximem as hordas de manifestantes protestantes – tenham ficado confusos, com cara de zonzos.

Mais de 11 anos depois de “Choque e Pavor”, ainda vivemos em mundo rumsfeldiano. Foi o ex-chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld, quem, no governo de George “Dábliu” Bush, conceptualizou a “Velha Europa” e a “Nova Europa”. “Velha”, a das bonecas venusianas. “Nova”, dos marcianos muito machos.

A “Nova” apoiou totalmente a operação Choque e Pavor e a subsequente invasão/ ocupação do Iraque. Hoje, apoia – de fato implora, suplica – que a OTAN encare a Rússia.

A “Velha”, por sua vez, tenta pelo menos salvar um espaço de negociação com Putin. E no final a amada prudência [orig. dear prudence (NTs)], exercida especialmente por Berlin, foi recompensada pelo plano de paz de Putin.

Pelo sim pelo não, para não frustrar demais o Império do Caos, Paris anunciou que não entregará a Moscou no prazo agendado os primeiros dois navios porta-helicópteros militares Classe Mistral comprado pelos russos. Claro que a OTAN condenou fortemente a Rússia na questão Ucrânia, e a União Europeia seguiu-a com ainda mais sanções.

Quanto a Fog(h) da Guerra, continua a repetir sua retórica de Marte Ataca! (ver OTAN Ataca!, redecastorphoto, 4/9/2014). Tudo culpa de Moscou. A OTAN é só inocente força só de apaziguamento – sólida e poderosa. Ao mesmo tempo, a OTAN não seria doida de pôr-se a começar a apontar a Rússia como inimiga direta.

Protestos anti-OTAN começaram em agosto
E a polícia galesa filmou tudo e todos...
Protestos anti-OTAN também em Newport
Assim sendo, como Asia Times Online noticiou, a OTAN no máximo ajudará a treinar forças de Kiev; o desempenho delas no Donbass mostrou que precisam muito de treino. Mas não haverá “integração” da Ucrânia – apesar de toda a histeria que se ouviu vinda de Kiev e bem com Polônia e os estados Bálticos clamando por bases permanentes. O novo elemento será a Força de Resposta OTAN-remixed (NRF) a qual, por falar dela, jamais antes foi usada.

A NRF já vem até com slogan “marketado”: “Viaje leve e ataque pesado”. Um batalhão de 800 homens capaz de atacar em dois dias e uma brigada de 5 mil, para ataque em de 5 a 7 dias. Bem... Se seguirem o padrão “viaje leve”, dificilmente conseguirão impedir que O Califa anexe vastas fatias do Jihadistão, com seu comboio de flamantes Toyotas brancos. Sobre “ataque pesado”, informem-se com os pashtuns no Hindu Kush, para saberem do que se trata.

Assim foi que Gales gerou a NRF; “rotação” permanente e permanentes bases avançadas para “proteger” a Europa Central e Oriental; e todo mundo soltando dinheiro (nada menos que 2% do PIB de cada um dos 28 países-membros, de agora até 2025). E isso no meio da terceira recessão europeia em cinco anos.

Agora comparem o atordoante orçamento militar conjunto da OTAN, de 900 bilhões de dólares norte-americanos (75% de todas as despesas monopolizadas pelos EUA), com o orçamento da Rússia, de apenas $80 bilhões. Depois, a “ameaça” é Moscou!

Desnecessário acrescentar, mesmo sob todo esse som e fúria, Gales não conseguiu pôr a OTAN num sofá freudiano – para analisar em monólogo sem fim o fracasso abjeto da “aliança” nos dois pontos, no Afeganistão e na Líbia.

Líbia - antes (E) e depois (D) da OTAN
(clique na imagem para aumentar)
No Afeganistão, o Talibã basicamente controla anéis que cercam as bases da OTAN e movimentos de “ataca pesado”, que desmoralizam completamente a “aliança”. Foi a OTAN em modo GGT (Guerra Global ao Terror).

E na Líbia, a OTAN criou um estado falido devastado por milicianos e chamou a coisa de “paz”. Foi a OTAN em modo R2P (Responsabilidade para Proteger).

OTAN libertadora do Jihadistão? O Pentágono não dá a mínima. O Pentágono quer GGT eterna. A think-tankelândia dos EUA está em êxtase, agora que a OTAN encontrou “renovado propósito” e a sobrevivência de longo prazo da aliança está assegurada por uma “ameaça unificada”. Tradução: Rússia.

Assim sendo, O Califa não está exatamente tremendo em suas botas de deserto Made-in-USA. Até sonha em pôr as mãos no Califa Eslavo em pessoa. Como é que Marvel Comics nunca pensou nisso?!
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan Nimble Books, 2009.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Pepe Escobar — Está sentindo o cheiro do que o Califa está cozinhando?

2/9/2014, [*] Pepe Escobar, RT − Russia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militante do ISIS/ISIL/EI
(Foto: Ahmad al-Rubaye)
Semana que vem é o 13º aniversário do 11/9 (2001). E Washington voltou a bombardear... O Iraque, sim, tudo outra vez – eco sinistro do mais trágico dos desenvolvimentos do pós 11/9: Operação Choque e Pavor.

Osama bin Laden, supostamente no fundo do Mar da Arábia (como reza o “noticiário” oficial), foi dado como a personificação da visão de mundo wahhabista intolerante que enlouquecera de vez. Depois seu wahhabismo casou-se com o islamismo egípcio de Sayid Qutb, personificado pelo Dr. Ayman al-Zawahiri.

Qutb, morto pelo regime egípcio no final dos anos 1960s, foi o profeta rebelde de uma jihadglobal entre o Islã e o ocidente. Mas seus filhos zelosos – da corrente de Osama/al-Zawahiri à corrente do Califa Ibrahim do ISIS/ISIL/EI [Estado Islâmico do Iraque e Levante/Estado Islâmico] –foram muito além, a jihad deles tomando por alvo civis e até muçulmanos.

Agora, o Califa Ibrahim manobrou Washington para pô-la de volta a bombardear o Iraque e − potencialmente − também a Síria. Obama, dando um trato no “Siriaque”. Mas, e mais crucialmente importante, e se Obama estiver cumprindo ordens da Al-Qaeda?

Combinaria perfeitamente com a arapuca que Osama montou cuidadosamente – ao longo dos anos – de finalmente dar jeito de expelir os EUA do Oriente Médio, via guerra de atrito constante, fazendo sangrar lentamente o Império do Caos. Eric Margolis aludiu a essa possibilidade em Ultraje cauteloso (em inglês).

No mínimo, os EUA e alguns aliados seletos sim andaram cumprindo ordens da Al-Qaeda – mesmo que ISIL/EI tenha-se separado da Al-Qaeda “histórica”.

A “coalizão de vontades” de Obama, para dar combate ao ISIS/ISIL/EI/O Califa, inclui Grã-Bretanha, Austrália, Qatar, Arábia Saudita, Turquia, Jordânia e os Emirados Árabes Unidos. Nada menos que cinco desses sete são os que treinaram/armaram/viabilizaram as “flores do mal” de ISIS/ISIL/EI que desabrocharam na Síria.

Assim sendo, não surpreende que a Rua Árabe esteja afogada em ceticismo sobre quem realmente comanda o show do ISIS/ISIL/EI. Não pode ser Abu Bakr al-Baghdadi, codinome Califa Ibrahim, sozinho. Como é que o Califa, saído do nada, atravessa o deserto com deserto completamente armado, artilharia e tudo, para capturar território maior que o da Grã-Bretanha?

Entrementes, o poderoso lobby de Relações Públicas da Casa de Saud é absolutamente monolítico; o wahhabismo – que andou incendiando/financiando fanáticos em todo o mundo desde os primeiros dias da jihad antissoviética no Afeganistão – não deve de modo algum ser culpado pelo que O Califa anda aprontando. Mas foi a ideologia saudita que, em última instância, gerou o Califa Frankenstein e o pôs na liderança dos filhos enlouquecidos da “revolução” síria.

Militantes do ISIS/ISIL/EI
Foto: Ahmad al-Rubaye
Mostre o dinheiro

O ISIS/ISIL/EI é uma máquina formidável azeitada por todas as modalidades de extorsão, sequestros com pagamento de resgates, assaltos a bancos e roubos de joias e cobrança de “taxas de proteção” por onde passem. Mas o Santo Graal é, definitivamente, contrabando de petróleo.

O Califa agora controla sete poços de petróleo e duas refinarias no norte do Iraque, mais seis campos de petróleo no nordeste da Síria – extraindo, com realismo, pelo menos 40 mil barris/dia. Vendem todo esse petróleo ao preço de US$ 25,ºº a um máximo de US$ 60.ºº o barril. O cru brent, para comparar, está custando hoje mais de US$100.ºº na Bolsa de Valores London ICE Futures Europe.

O Califa está fazendo seus US$2 milhões por dia, tudo pago em dinheiro ou trocado por bens. Ninguém sabe quem está comprando da complexa rede de distribuição dos intermediários a serviço do Estado Islâmico, mas fato é que o petróleo flui do “Siriaque” controlado pelo Califa, para Turquia e Jordânia.

Assim cheio de dinheiro, não surpreende que os exércitos do Califa estejam marchando em direção a Aleppo; estão a menos de 50 km, e podem em breve tomar algumas áreas dos subúrbios leste.

O governo Obama, enquanto isso, prefere superar-se, sancionando a Rússia. Se fossem realmente sérios quando falam contra o Califa, já estariam seguindo o dinheiro, usando inteligência local para rastrear o dinheiro e descobrir onde está (e certamente não está em banco). Não. Em vez disso, a retórica do Departamento de Estado é só sobre bombardear – mais uma ironia histórica – material norte-americano que ficou para trás, deixado lá pelo exército iraquiano; mais drones; e, eventualmente, mais “coturnos em solo”.

Os “sabidos sabidos” – para citar Donald “Rummy” Rumsfeld – no “debate” na Beltwayinformam que, para a CIA e o Pentágono, combater o Califa é a desculpa absolutamente perfeita para eventualmente impor “mudança de regime” nos dois países, Iraque e Síria.

Washington já está ficando mudança-de-regimista em Bagdá. CIA e Pentágono estão pensando em termos de bombardeamos o Califa/Califa ataca Assad/Hezbollah se envolve/Dividir e governar cada vez mais e Mais-Caos/Bombardeamos um pouco mais/Assad cai.

O problema é que não funcionará. Washington pensava – antes de o Califa capturar Mosul – que o Califa estava sob controle. Mas o homem pensa com a própria cabeça – e muito dinheiro que ainda chove vindo de poderosos apoiadores sauditas e kuwaitianos, sem contar o contrabando de petróleo. O Califa sonha com envolver-se intimamente na sucessão da Casa de Saud e talvez até fazer um lance ele mesmo, pelo poder.

Sou assassino serial muito melhor que você

O Estado Islâmico é produto do sinistro Tawhid & Jihad (“Monoteísmo e Guerra Santa”) liderado pelo assassino serial jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, incinerado por um míssil norte-americano em 2006. Zarqawi jurara fidelidade a Osama em 2004, e rebatizou seu grupo como Al-Qaeda no Iraque (AQI). Depois que morreu, AQI passou a ser Estado Islâmico no Iraque (ISI).

Passaram-se anos para que seu sucessor, Ibrahim al-Badri, também conhecido como Abu Bakr al-Baghdadi, codinome Califa Ibrahim, convertesse o ISI em ISIL (acrescentando o Levante) e tentasse absorver a franquia síria da Al-Qaeda, Frente Al-Nusra.

Al-Zawahiri, por sua vez, nunca gostou nada-nada, dessas confusões. Insistia que a Frente al-Nusra era o único assunto realmente jihadista. Al-Baghdadi ouviu a maior descompostura: lutar no Iraque, não na Síria. Movimento errado, al-Baghdadi acabou por dizer a al-Zawahiri que fosse se catar.

Abu Bakr al-Baghdadi (Califa Ibrahim)
E al-Zawahiri afinal “excomungou” o ISIL.

Assim nasceu o mito de que o ISIS/ISIL/EI seria muito mais linha-duríssima que a Al-Qaeda – magnífico movimento de Relações Públicas assinado pelo Califa − para promover-se, ele mesmo e o carisma do seu grupo. Para a geração da Jihad multinacional Google, se o grande mufti do Egito, o grande mufti da Arábia Saudita e a Organização de Cooperação Islâmica (OCI) todas falam contra o ISIS/ISIL/EI... é porque o que realmente importa é o  ISIS/ISIL/EI. E são ricos, armados até os dentes e comandam grande território. É reduzir a pó o acordo Sykes-Picot.

Assim sendo, sim, sim, o Califa está, sim, pondo em operação a arapuca de Osama – ao seu modo. Zarqawi tentou pô-la em funcionamento. E Zarqawi é o predecessor de al-Baghdadi. Mas isso é só parte da história.

O caldo, mesmo, é como o Califa legitimou agora a Guerra Global ao Terror (GGT) para durar “décadas”, nas palavras do primeiro-ministro britânico David Cameron. Os infatigáveis “altos oficiais militares norte-americanos” entraram em alerta vermelho, alertando que o  ISIS/ISIL/EI em breve “ameaçará” EUA e Europa. O Califa é o neo-Osama.

E isso só um ano depois de Obama – armado com sua própria linha vermelha que ele mesmo se impôs – ter estado a um passo de bombardear a Síria porque “Assad tem de sair” havia “usado gás contra seu próprio povo”. E quem conseguiu salvar Obama dessa insanidade foi ninguém menos que o presidente Vladimir Putin e o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov – agora atacados na demonização vingancista pelo Império do Caos.

Hollywood não teria conseguido inventar roteiro mais forçado e mal costurado.

Do fundo das vísceras de sua morada palaciana no “Siriaque”, podem-se ouvir as gargalhadas do Califa.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan Nimble Books, 2009.