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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Norma Bengell (1935 - 2013)


Norma Bengell (Paris, 1973)

Publicado em 13/10/2013 por [*] Rui Martins
Berna (Suiça) - Às vezes é importante desenterrar o passado, principalmente quando se pode dele tirar lições para o futuro. Nestes dias, tenho vivido revoltado e tenho mesmo perdido o sono com um intolerável retrocesso na política brasileira da emigração, digna dos tempos da ditadura.
Em síntese, vai se gastar dinheiro público e se promover num hotel caro perto de Salvador na Bahia, uma encenação chamada IVª Conferência Brasileiros no Mundo, sob o pretexto de se estabelecer uma interlocução entre o governo e os emigrantes, intermediada pelo Itamaraty. Como se os engravatados do Instituto Rio Branco tivessem algum gene que os identifique com os trabalhadores emigrantes, como se sair do Brasil num voo de primeira classe tivesse alguma coisa a ver com a viagem sofrida de um emigrante brasileiro.
Por que chamo de encenação esse circo que vai se montar em Salvador? Se não fosse só pela tutela dos diplomatas, que inclui inclusive o controle da agenda e a proibição de visitantes indesejáveis, proibidos de falar e de votar, a ignomínia está no fato de 85% dos chamados representantes dos emigrantes chamados à conferência terem sido "nomeados" pelos Consulados. Entre 60 desses convidados, menos de 10 foram escolhidos pela comunidade brasileira local.
Minha primeira palavra foi de "pelegos", as figuras que representavam os antigos governos nos sindicatos. Alguns acharam muito forte a palavra e me sugeriram "biônicos", como se designavam aqueles prefeitos e governadores nomeados pelos militares durante a ditadura. De qualquer forma, pelegos ou biônicos, todos esses convidados são ilegítimos.
Mas o que a atriz Norma Bengell, falecida há pouco, tem a ver com essa história?
Pouca coisa talvez, mesmo se nos anos 72 e 73 foi atriz emigrante na França, tendo mesmo trabalhado na televisão francesa, ex-ORTF. Mas o episódio lembra o comprometimento de diplomatas do Itamaraty com a ditadura, capítulo que esperamos seja devidamente apurado pela Comissão da Verdade.
E podem nos ajudar a entender como e por que, em pleno governo voltado para os segmentos até então marginalizados da população, o ex-ministro Patriota conseguiu substituir um texto preparado durante a administração Lula, que não era perfeito, por outro não apenas imperfeito, mas reacionário e que faz a política brasileira da emigração parecer ter sido elaborada por gente ainda saudosa da época em que a elite brasileira dividia a população em pessoas capazes e, lá embaixo, os pobres dos infelizes juridicamente incapazes.
Porque a tutela dos emigrantes pelos diplomatas rima com censura.
E fica ainda mais indecente quando são eles que escolhem os representantes dos emigrantes, desvirtuando até os Conselhos de Cidadania, cujos membros são convidados por eles e não eleitos pelos emigrantes. E os poucos conselhos eleitos, 7 ou 8, não são dirigidos pelos emigrantes mas pelos cônsules ou vice-cônsules.
E agora vamos à Norma Bengell.
Assim que Norma chegou a Paris, com intenções de ficar, consegui fazer uma reportagem comprada pela antiga revista Manchete - uma entrevista com a atriz, gravada numa praça perto do Boulevard St. Michel, com vista para a Notre Dame.
Naquela época, a Manchete era dirigida em Paris por Sílvio Silveira (um dos primeiros emigrantes brasileiros na França, na época fazia parte de um grupo musical), que reunia também as funções de contador e de vendedor de publicidade dessa revista da família Bloch.
Entregues as laudas datilografadas com a entrevista, fiquei surpreso ao constatar que não tinham sido colocadas no malote cortesia da Varig para chegar rapidamente à Redação, no Rio de Janeiro, naquela época chefiada pelo Justino Martins.
E perguntei ao Sílvio, preocupado em receber logo meu frila: por que a entrevista não seguiu no malote?
E ele muito calmamente me explicou ser praxe naquela casa, quando se tratasse de questões mais delicadas, se levar ao embaixador em Paris, que poderia fazer os cortes necessários antes de ser enviada ao Rio. “Eu não nasci ontem, aqui não quero confusão!”, disse Silvio com um sorriso debochado.
Por que estou irritado? Porque tudo que se deixar discutir em Salvador terá de passar pelo crivo do Itamaraty, como minha entrevista com Norma Bengell.
A diferença é que não vivemos mais na época da Operação Condor, da denúncia vinda de Santiago que levou à morte o deputado Rubens Paiva e do apoio logístico dado à ditadura uruguaia contra os Tupamaros.
Minha luta pela emancipação política dos emigrantes tem também no seu bojo esse gosto amargo dos anos de chumbo. 


[*] Rui Martins é natural de Santos, SP e atualmente reside em Berna, Suiça. É jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão; exilado durante a ditadura, é líder emigrante, membro eleito do Conselho Provisório e do atual Conselho de emigrantes (CRBE) junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes. Escreveu o livro Dinheiro Sujo da Corrupção sobre as contas suíças secretas de Maluf. Colabora com o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

Enviado por Direto da Redação


domingo, 6 de outubro de 2013

Um rendimento base para todos


Publicado em 01/10/2013 por [*] Rui Martins

Berna (Suiça) - Pelo menos dois livros já foram publicados na França sobre essa utópica mas revolucionária ideia – a de se garantir a todo cidadão, ao chegar na maioridade, um rendimento (como se fosse um salário), suficiente para viver durante toda vida.

Este ano, essa ideia com mais de cinco séculos, pois o inglês Thomas Morus defendia esse projeto no livro Utopia, se transformou num projeto realista e, será provavelmente submetido à votação popular na Suíça.

Para provocar uma votação popular nacional, na democracia direta suíça, são necessárias 100 mil assinaturas, já foram reunidas 70 mil e ainda existem alguns meses pela frente para angariar novas assinaturas.

A ideia surgiu na Suíça de língua alemã, de um coletivo de visionários formado por artistas, intelectuais e mesmo alguns políticos. E logo teve o apoio de suíços de língua francesa, reunidos na associação Bien-Suisse, fundada em 2001, cuja sigla significa Basic Income Earth Network. O projeto propõe a criação de um rendimento básico de 2.500,00 francos suíços, cerca de 6.000,00 reais, pagos mensalmente mesmo se a pessoa está desempregada.

Sem margem de erro, pode-se imaginar que esse projeto será rejeitado pela grande maioria do povo suíço, porém um importante passo será dado em direção ao futuro, quando as sociedades humanas mais avançadas e mais solidárias não aceitarão a existência de pobres sem condições de vida digna. E é mesmo provável que logo surja um partido político colocando o rendimento básico universal como o principal objetivo do seu programa.

Angela Merkel
Pode parecer absurda e fora de contexto tal iniciativa justamente quanto, na União Europeia, se aplica uma política econômica totalmente inversa. Para fazer face à dívida pública e a uma situação de quase insolvência, alguns países, a Grécia, Portugal e Espanha, estão sendo submetidos a uma austeridade, ditada principalmente pela chanceler alemã Angela Merkel, que consiste em se diminuir salários e aposentadorias.

Ora, é evidente que com salários e pensões reduzidos os gregos, espanhóis e portugueses consomem muito menos. Como na teoria do dominó, a retração do consumo repercute nas indústrias fabricantes de bens, que não conseguem escoar como antes seus produtos e o movimento diário dos supermercados é a constatação dessa nova situação, provocadora de sintomas de recessão. A impressão é a de que o remédio é muito forte e vai matar os doentes.

Ao contrário, se as pessoas têm dinheiro para consumir, isso agiliza o consumo e disso decorre o escoamento rápido dos bens produzidos pelas fábricas, provocando o crescimento econômico do país.

Antes mesmo de alguns visionários suíços e economistas franceses terem lançado a praticabilidade de um rendimento básico para todos, o Brasil tinha sido, sem o alarde esperado, o pioneiro.

Na verdade, o Bolsa Família, Cesta Básica e o Bolsa Escola, e outros tipos de ajuda do governo brasileiro aos menos favorecidos já constituem a aplicação prática da Utopia de Thomas Morus. Para que não haja descontentes na avaliação dessa medida revolucionária, lembramos que foi FHC quem lançou e Lula quem ampliou essa concessão de um rendimento básico, ainda mínimo, para a parcela mais carente da população.

Thomas Morus
E os resultados foram extremamente positivos – com um mínimo disponível para viver, a população beneficiada com essa medida começou a consumir, acionou supermercados e fábricas e o Brasil deslanchou, enquanto a União Europeia fazendo o inverso entrou numa fase de estagnação e de desemprego, da qual não sabe ainda como vai sair, pois já não há, como no passado, as guerras continentais que dizimavam a população e destruíam cidades, impedindo o desemprego e a recessão.

A solução pacífica para o desemprego e contra a recessão não seria o rendimento básico para todos os cidadãos? Ao contrário do aumento da idade da aposentadoria, como querem os neoliberais, isso criaria igualmente condições para se diminuir as horas de trabalho, como se falava nos anos 60, quando as pessoas sonhavam com a nova sociedade do lazer, torpedeada pela ganância neoliberal.

Haveria condições para o Estado garantir tal iniciativa? Imagina-se que sim, pois todos os rendimentos estariam sujeitos aos impostos normais e o funcionamento do consumo e a boa saúde das indústrias garantiriam a contribuição dos outros impostos necessários ao funcionamento do Estado.

Chegamos a um fim de linha – a coletivização não deu certo e o neoliberalismo com sua gula de lucros utiliza a automatização para dispensar empregados em lugar contribuir para a sociedade do lazer. A insistência no atual modelo econômico levará a choque e revoltas.

Tudo indica ter chegado a hora de se buscar novos comportamentos econômicos e novas soluções sociais, criadores de solidariedade social evitando desigualdades e o mergulho na miséria de uma parcela da população. Um rendimento básico para todos será também a garantia de educação, escolas e formação profissional para a juventude.

O mundo futuro não poderá continuar tendo esses bolsões de miséria e pobreza. A concessão de um rendimento básico para todos não impedirá que muitos tenham salários superiores, dependendo da criatividade de cada um. E nem criará aproveitadores e vagabundos.

É hora de se começar a curtir e imaginar a concretização dessa utopia.
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[*] Rui Martins – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, membro eleito do Conselho Provisório e do atual Conselho de emigrantes (CRBE) junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreveu o livro Dinheiro Sujo da Corrupção sobre as contas suíças secretas de Maluf. Colabora com o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

Enviado por Direto da Redação

sábado, 7 de setembro de 2013

Hollande humilha a França

François Hollande

Publicado em 05/09/2013 por Rui Martins [*]

Berna (Suiça) - O que diria o velho De Gaulle ao ver a França, governada pelo socialistas, se ter colocado na humilhante posição de bombardear a Síria se o Congresso americano assim decidir ? Mesmo se 64% da população francesa se declara contra qualquer tipo de ataque, seja o pretensamente cirúrgico, ou francamente destrutivo como acabaram sendo os ataques contra a Líbia.

Não tenho nenhuma simpatia pelo ditador Assad, nessa Síria onde o poder político é transmitido de pai para filho. Muito menos pelos grupos rebeldes importados de diversos países, composto em grande parte de jovens treinados no Afeganistão, islamitas seguidores da Al Qaeda.

Uma rápida análise nos leva à seguinte conclusão - já está ruim e poderá ficar pior, porque os islamitas da Al Qaeda e outros fundamentalistas significam o fim de uma série de avanços da humanidade em termos de direitos humanos e o retorno das mulheres à cozinha, à situação de objeto com o fim de todas as conquistas, inclusive no vestir.

Nesse caso do "pode ficar ainda pior", a melhor solução é a de se deixar a ONU encontrar uma saída. A própria Suíça, que sempre foi neutra, saiu da sua tradição, se pronunciando por uma solução diplomática e oferecendo Genebra para um encontro entre as partes beligerantes.

Alguns dirão que isso não vai levar a nada, pois existem países irredutíveis por trás da guerra-civil na Síria: Rússia, China e Irã a favor de Assad; Estados Unidos, Inglaterra, França e Arábia Saudita contra Assad.

Seria, então, o caso de se jogar bombas na Síria, provocando a morte de centenas ou milhares de civis, sabendo-se que provavelmente isso em nada ajudará a acabar com o conflito?

Ao contrário, depois da guerra contra o Iraque, causadora de uma mudança total no equilíbrio de forças no Oriente Médio, destruindo um país laico e favorecendo os xiitas iranianos, uma guerra contra a Síria poderá detonar reações inesperadas e equivaler à abertura de outra Caixa de Pandora, cujas consequências são imprevisíveis mesmo para a Europa.

Nestes últimos dias, entrou um novo fator nos ataques à Síria, até então considerados como inevitáveis - o Parlamento inglês desmoralizou o "guerreiro" David Cameron desautorizando-o de jogar bombas na Síria, depois dos resultados desastrosos dos ataques à Líbia de Kadafi, em parceria com a França de Sarkozy.

O Parlamento inglês nada mais fez que espelhar o sentimento da população inglesa, cansada da submissão do trabalhista Tony Blair ao chefe de guerra George Bush, e agora de uma nova parceria Cameron-Obama. Ou seja, de repente o povo pôde dar sua opinião através de seus representantes. E o povo, em qualquer parte do mundo, não quer guerras, insufladas na maioria das vezes pelas indústrias armamentistas, que precisam rodar e modernizar o estoque de armas dos países clientes.

Cameron foi desmascarado e engoliu seus discursos de mais mortes para vingar mortes. Sumiu de cena, mas sua derrota obrigou Obama a rever sua estratégia - se a Inglaterra tem de ouvir o Parlamento para declarar ações de guerra, por que os Estados Unidos dariam carta branca ao seu presidente? E Obama foi obrigado a modificar seu discurso, já não querendo arcar sozinho com os assassinatos de civis sírios. Democratas e republicanos decidirão por maioria se os Estados Unidos continuam sua missão de policiais do planeta.

E isso criou uma situação grotesca para não se dizer ridícula envolvendo o presidente socialista François Hollande da França. Na França a Constituição não exige aprovação parlamentar no caso de ataques bélicos à Síria, porém o discurso guerreiro do presidente Hollande não pode ser levado à prática de maneira isolada e solitária. Hollande tinha certeza de poder fazer uma parceria européia com a Inglaterra.

Ora, com a Inglaterra descartada pelo Parlamento criou-se uma situação nunca imaginável na época de De Gaulle - a França só atacará a Síria se assim decidir o Congresso americano. Uma parceria quase tão absurda quanto é o apoio de Obama aos rebeldes "sírios", na verdade contingentes de combatentes islamitas da Al Qaeda, que partem dos países europeus e dos países vizinhos da Rússia para engrossar as fileiras de combatentes treinados pelos talibãs no Afeganistão.

Para os evangelistas, adventistas e testemunhas de Jeová tudo parece indicar estar próxima a profetizada Batalha do Armagedon no Apocalipse, a última das batalhas, o fim do mundo que conhecemos. Não será, mas poderá provocar convulsões inesperadas dentro da própria Europa e, sem dúvida, estaremos perto de uma guerra mundial, caso Rússia e China tomem as dores de Assad. E para os franceses e europeus socialistas e de esquerda uma enorme decepção com o governo francês de François Hollande (foto).

Longe está a posição de independência da França, com seu Ministro das Relações Exteriores, Dominique de Villepin, se opondo no Conselho de Segurança da ONU ao ataque de Bush ao Iraque. Paradoxo, o presidente era Jacques Chirac, gaulliste, de direita. E onde está hoje a França socialista?
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Rui Martins [*] – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, membro eleito do Conselho Provisório e do atual Conselho de Emigrantes (CRBE) junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreveu o livro Dinheiro Sujo da Corrupção sobre as contas suíças secretas de Maluf. Colabora com o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Intelectual elogia assassino norueguês



Publicado em 11/09/2012 por Rui Martins*

Direto de Berna (Suiça) - A mistura de povos, o chamado multiculturalismo, é coisa boa ou coisa ruim ?

Atualmente, o maior inimigo da multicultura na Europa, é o norueguês Anders Breivik, responsável pelo assassinato de 77 pessoas, a maioria abatida à queima-roupa, e, por isso, condenado à pena máxima, 21 anos, na Noruega.

Durante todo o processo, diante da justiça exemplar norueguesa que garantiu ao criminoso ampla defesa, Breivik sempre exibiu seu gesto de militante neonazista e procurou justificar o ato de abater à bala jovens participantes de uma reunião do partido trabalhista, sem qualquer outra razão se não a de estarem manchando a pele ou o pensamento branco tradicional norueguês com suas culturas vindas do estrangeiro.e

Ora, no mesmo dia do pronunciamento da sentença por um tribunal norueguês, saía nas livrarias francesas um pequeno livro, no qual um intelectual fazia o elogio literário do assassino Breivik.

Richard Millet
Seu nome, Richard Millet, escritor mas igualmente membro da comissão de leitura da editora francesa Gallimard, que seleciona os livros a serem editados.

Diante do horror criado com suas 18 páginas, Millet se apressou a declarar não aprovar os atos do racista defensor dos brancos cristãos do Ocidente, mas que houve uma perfeição formal do ponto de vista literário, no massacre cometido por Breivik na ilha de Utoya.

Num trecho do seu texto, Millet fala que costuma ser o único branco no metrô, querendo denunciar a miscigenação e a imigração como destruidoras das bases tradicionais e culturais da Noruega e igualmente da Europa. Branco, católico, de origem francesa, como o próprio Millet se define, esse defensor do Mal provocou arrepio e mal estar na França.

Na contra-corrente dos que defendem a pluralidade cultural como um passo ao entendimento mundial, Millet lamenta a invasão européia pelos imigrantes de hábitos, cultura e mesmo idiomas diferentes. E que a Noruega teve o Breivik que merecia.

Será que o intelectual neonazista está sozinho na sua cruzada cristã contra os estrangeiros por estarem mestiçando a Europa?

Talvez não, porque multiculturalismo também não é coisa bem aceita no Brasil. A cultura branca elitista ainda não digeriu a atual mutação social brasileira com o progressivo reconhecimento da igualdade da população negra, que não tem de restringir só ao samba, ao futebol e ao banditismo, mas começa a ter acesso às universidades e aos bons empregos privados e públicos.

O racismo sofisticado do intelectual francês nos lembra o desafogo de um dos nossos ditadores, que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo. A elite ou a suposta elite brasileira ainda hoje range os dentes com o fato de um homem do povo, sem acesso às universidades, ter chegado à presidência, do Sul ter se misturado com o Nordeste e dos filhos de muitos pés-de-chinelo terem hoje acesso ao curso universitário.

Nas colunas da grande imprensa brasileira, tem muito Richard Millet defendendo discretamente e com outras palavras o racismo e a exclusão dos pobres, negros e mestiços, contando com o apoio silencioso e dedicado dos tradicionalistas e quatrocentões.
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Rui Martins* é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, membro eleito do Conselho Provisório e do atual Conselho de emigrantes (CRBE) junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreveu o livro Dinheiro Sujo da Corrupção sobre as contas suíças secretas de Maluf. Colabora com o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress

Enviado por Direto da Redação

domingo, 17 de junho de 2012

BBC: agência ou depto de propaganda?


Escrito e enviado por Rui Martins*

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Comentário da redecastorphoto: É muito claro que existe a prática de dumping em praticamente todo o jornalismo internacional veiculado no Brasil, mas não é só por parte da BBC; vale também para outras agências estatais.

O FATO é que o jornalismo e jornalistas brasileiros são, regra geral, PÉSSIMOS (extremamente ignorantes, quando não, venais). 

Isso é facilmente constatável ao ler o OI (Observatório da Imprensa) e verificar o quase NADA do noticiário nacional, mais ainda o internacional que é apenas jornalismo-de-repetição (meros papagaios das agências externas) onde o OI, não muito diferente do que os ridículos, p.ex., da GloboNews-  williamswaacks, demétriosmagnolis, celsoslafers, etc. - tenta comicamente “observar”.

Aliás, o OI, tal como a GloboNews, para nós da redecastorphoto, é apenas um “Seinfeld” ou um dos “Comedy Capers” que torna digestivo o NADA que é o nosso desinformativo jornalismo-de-mercado.

Este blog sempre teve a preocupação de levar aos nossos correspondentes e seguidores – nem sempre com sucesso, é claro, mas com muito esforço – o que consideramos de melhor na mídia internacional e alguma coisa da mídia nacional.

Depois de 2 anos de prática – completados em 28/5 p.p. - e 3.600 postagens, consideramos ter contribuído muito mais na informação aos nossos correspondentes que a grande maioria dos “jornais/jornalistas-de-fancaria” atualmente empregados na imprensa-de-mercado.

Não cremos que a melhoria da “formação de jovens jornalistas” tenha algo a ver com o óbvio dumping praticado pelas agências internacionais.

A baixíssima qualidade dos nossos jornalistas está na sua FORMAÇÃO, seja universitária ou não, e na impossibilidade de haver congruência entre o fato real (ou notícia) e o interesse político/editorial.

Berna (Suiça) - É uma questão de raciocínio simples. Vejam bem, a grande imprensa brasileira é contra o estatismo, e mais ainda no ramo da mídia. Basta se lembrar os protestos pela criação da TV Brasil. 

Porém, isso não impede que usem e abusem do material de imprensa, áudio e escrito, de uma empresa estatal estrangeira, se podem economizar com isso. Não, não se trata da Agência Nova China, nem do serviço brasileiro do Pravda russo. Nossos amigos da CBN, do Estadão, da Folha online e outros mais, adoram os informativos, reportagens, notícias, entrevistas do Foreign Office londrino.

E é verdade, a qualidade do material informativo que nos é enviado pelos ingleses é bem superior à média da mídia brasileira, além de serem noticiários postados com rapidez, já traduzidos e geralmente na frente das agências France Presse ou EFE.

Vocês, ardorosos utilizadores, já perceberam que estou falando da BBC Brasil. A favor da BBC (a da velha ilha inglesa, como dizia o disquinho Subdesenvolvido do Centro de Cultura Popular, da época das Reformas de Base e de Jango-Brizola) existe aquela figura antológica dos noticiários da Segunda Guerra Mundial, o Iberê da BBC. E, embora não ouvisse por já viver fora do Brasil, os noticiários não censurados do tempo da nossa ditadura militar.

Já houve quem quisesse fechar a BBC, única coisa que restou do império da rainha Vitória, no qual o Sol nunca se deitava. Hoje existe o Commonwealth, mas já não é a mesma coisa. Se não me engano foi Margareth Thatcher que impôs um regime na BBC, mas pode ter sido um primeiro-ministro anterior. Em suma, o Sol continua não se pondo no imperial reinado da BBC.

E todos os anos, o Parlamento inglês renova o orçamento da maior cadeia de mídia estatal do mundo, maior que a Voz da América e já nem se fala mais da Rádio Moscou, que começava suas transmissões não com a Internacional, mas com o hino soviético. 

E por que será que, durante 24 horas por dia, speakers, redatores se revezam para fornecer em áudio ou nos portais de idiomas diferentes as últimas notícias ? Será pelo amor dos nossos filhinhos? Claro que não, faz parte da manutenção do prestígio da marca inglesa em todo mundo, como foi importante na luta do chamado Mundo Livre contra a Cortina de Ferro. É informação mas tem política e propaganda no meio.

Tudo bem, há países ricos com menor ambição, cujas transmissões se destinam principalmente aos seus emigrantes, para não perderem o contato, a cultura com seu país de origem, como parece ser o caso da isolada Suíça, que, depois de acabar com seu serviço de ondas-curtas, pensa agora em fechar a versão Internet, o Swissinfo.

Mas o que há de errado na BBC? já deve estar perguntando um indignado ouvinte das reportagens rebroadcastingadas pela CBN, Eldorado ou outras tantas, espalhadas pelo Brasil. Um sucesso muito maior do obtido pelos americanos que, logo depois da Guerra, em plena guerra-fria, distribuíam junto com o leite em pó, os comentários de Al Netto (deve ser com certeza com dois tês).

Acho que foi, em 2000, que pedi ao Benê da CBN, depois de um de meus boletins, que entidade reunia, em termos de categoria profissional, os jornalistas. E ele, sempre bem informado, me disse – a Fenaj. E por que cargas d’água esse meu interesse ? Porque foi por ali que começou a se criar a atual Rede BBC Brasil e porque comecei a me preocupar pelos jovens jornalistas que iriam nos suceder, a mim e meus colegas correspondentes, nessa ingrata, mas maravilhosa, profissão.

Era o começo do rebroadcasting, ou seja, uma rádio fabrica no seu estúdio um áudio e manda de graça, ali na bandeja, para rádios locais utilizarem. A idéia do rebroadcasting era, no princípio, bem samaritana: levar programas de rádio instrutivos e educativos às pequenas comunidades. E, antes da revolução da Internet, fazia-se isso com fitas gravadas (que as rádios acabavam usando para gravar outros programas), elepês ou cassetes, ou a rádio beneficiada com os programas gravava o som transmitido por ondas-curtas ou recebia por telefone.

O rebroadcasting samaritano não tem nada de mal e pode até ser equiparado aos esforços de uma UNICEF para levar a cultura e orientação sanitária aos pequenos povoados e vilarejos. Atualmente, há muito rebroadcasting para a África, onde numerosos países vivem ainda na miséria. Porém, algumas rádios mais sensatas preferem juntar ao rebroadcasting a formação de jornalistas locais em cursos no próprio país ou no exterior, para não serem chamadas de neocolonialistas. 

Onde é que o rebroadcasting é ruim ? Quando o material da rádio estrangeira, preparado no nosso idioma, não se destina à Rádio de Catacoquinho ou de Judas Perdeu as Botas, mas para as rádios comerciais, para os portais diversos de grande frequência e com bastante publicidade.

Se uma rádio estrangeira, financiada pelo dinheiro público do seu país, portanto uma potência com a qual não se pode competir, começa a fornecer seu material áudio e mesmo escrito para rádios comerciais e para jornais brasileiros de grande tiragem, cria-se uma situação estranha. 

Américo Martins, comentando em 2002 o fornecimento de material da sua BBC para a CBN falava na criação de uma parceria, ou troca de informações. Só que não se vê no portal da BBC o material brasileiro fornecido pela CBN, mesmo porque é a BBC quem tem a maior e melhor rede de informação. 

Trata-se, portanto, de uma parceria unilateral, que satisfaz a BBC por lhe dar grande visibilidade junto ao público brasileiro. Nada a ver com a época em que os jornalistas e radialistas do serviço brasileiro de ondas-curtas da BBC, com encontro marcado no dial e com hora certa, sentiam-se como se falassem apenas aos seus familiares. Uma época da qual, Ivan Lessa, o decano desse enorme polvo da informação, se lembrava. 

A descoberta do rebroadcasting conjugado com o contrato jurídico da parceria permitiram o fornecimento de material jornalístico gratuito, sem causar desconfianças. Entretanto, o sucesso dessa fórmula mostrou a ocorrência de dois vícios de procedimento em termos de mercado e de trabalho – o dumping e a concorrência desleal.

O dumping é o fornecimento de um produto ou serviço por preço abaixo do normal ou abaixo do custo, gerando a concorrência desleal, pois o concorrente não tem condições para competir. Dumping por empresa estrangeira, é o fornecimento de um produto ou serviço por preço sem concorrência. 

No caso da BBC, as parcerias incluem empresas comerciais de mídia (nada samaritanas) com a TV Bandeirantes; Rádios CBN e Rádio Globo (não vi Eldorado na lista, mas era uma antiga parceira) e numerosos portais e serviços Internet como Folha online, Globo online, Terra, UOL, Estadão online, Correio Braziliense online, Paraná online. 

Embora empresas representativas da grande mídia brasileira, seus diretores não se acanham com essas parcerias. Mariza Tavares explica, numa entrevista ao Observatório da Imprensa que, por economia, deixou de ter correspondente na Europa e optou pela parceria com a BBC.

E aí está o problema – o dumping e a concorrência desleal da BBC matam no ovo a possibilidade dos nossos jovens estudantes de jornalismo serem correspondentes de jornais, revistas e rádios brasileiros. Além disso, mesmo se o material fornecido é considerado bom, ocorre uma padronização por não se favorecer mais a diversidade informativa. Ainda nos anos 90, as revistas, jornais e rádios brasileiros tinham correspondentes, hoje pode haver um ou outro, mas não fixos com salário mensal e sim frilas, ganhando por matéria.

Aos jovens jornalistas só resta a possibilidade de uma carreira no Exterior, se trabalharem para a BBC e, provavelmente, como frilas.

Aqui entra a Fenaj, Federação Nacional de Jornalistas. A prática de dumping e concorrência desleal no comércio mundial pode ser denunciada, em Genebra, na OMC, desde que apresentada por um órgão da categoria e isso também inclui os sindicatos estaduais de jornalistas. A Fenaj parece disposta a topar essa parada e se houver sindicatos solidários, é só enviar o contato. Queixa de categoria profissional pode também ser apresentada, contra dumping e concorrência desleal, junto à Organização Internacional do Trabalho.

Além disso, o Brasil começa a se tornar uma grande potência e está na hora de ter um jornalismo realmente nacional e independente. Já bastam os estragos causados pela Time-Life na nossa imprensa escrita.

Rui Martins*: jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.





sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ciúme agita política francesa




Publicado em 12/06/2012 por Rui Martins*

Berna (Suiça) - De repente, umas poucas linhas num tweet desencadearam um terremoto na política francesa, a apenas cinco dias do segundo turno das legislativas.

Teria sido ciúmes ? Em todo caso, pouco mais de um mês da vitória de François Hollande, o novo presidente se vê às voltas com seu primeiro abacaxi para descascar, envolvendo sua companheira, sua girl friend como dizem os americanos, e sua ex-esposa e por tabela a campanha legislativa do Partido Socialista na circunscrição de La Rochelle.

Ninguém consegue imaginar como o presidente François Hollande, que descartara de seu mandato qualquer mistura com sua vida pessoal, vai sair da confusão criada por Valerie Trierweiler (à direita na foto) em pleno confronto com sua ex-esposa Ségolène Royal (à esquerda na foto).

Há coisas que só acontecem na França, sem qualquer presságio e em meio à calma absoluta. Domingo, os socialistas obtiveram a maior vitória nas eleições legislativas nunca antes registrada. Nem mesmo Mitterrand conseguiu dar aos socialistas uma tal vitória sem compromissos com outros partidos de esquerda.

Havia só um senão – a ex-esposa do presidente François Hollande, ex-candidata à presidenta vencida por Sarkozy, a bela e voluntariosa Ségolène Royal corre o risco de não ser eleita deputada federal. Talvez para não deixar em má situação seu ex-marido, agora presidente, Ségolène não pediu um posto de ministra, mesmo se batalhou pela vitória do pai de seus quatro filhos.

Ségolène decidiu, meio sem consultar seus amigos, se candidatar a deputada federal pela cidade de La Rochelle, com o objetivo declarado de ser a presidenta da Assembléia Nacional, equivalente à nossa Câmara de Deputados. O Partido Socialista autorizou sua candidatura, porém surgiu um problema – um professor socialista da região, Olivier Falorni, conselheiro da governança local, amigo de longa data do atual presidente Hollande, queria se candidatar e não aceitou que em seu lugar fosse colocada Ségolène Royal. Chamado à atenção pela chefe do Partido Socialista, Martine Aubry, e convidado a retirar sua candidatura, Olivier Falorni se declarou dissidente e disputou as eleições como candidato socialista dissidente.

Domingo, conhecidos os resultados, quem chegou em primeiro lugar foi Ségolène Royal, mas seus votos não eram suficientes para se eleger sendo necessária se submeter a um segundo turno a fim de disputar a maioria absoluta. Em segundo lugar, estava Olivier e em terceiro lugar um candidato do partido de direita do ex-presidente Sarkozy.

Como em política as vinganças são comuns, o candidato da direita se retirou da competição mas pediu aos seus eleitores para votarem no candidato local, ou seja Olivier Falorni. É a primeira vez que um candidato de direita renuncia em favor de um socialista, mesmo que seja dissidente. Porém, o ato nada tem de louvável, o objetivo é o de tirar Ségolène Royal da vida política.

Diante disso, todo Partido Socialista se mobilizou e sua presidente, Martine Aubry, foi pessoalmente, nesta terça-feira, fazer campanha por Ségolène Royal, enquanto o próprio presidente deu seu apoio à ex-esposa contra Olivier Falorni.

O escândalo estourou logo de manhã, quando Martine Aubry chegou a La Rochelle. Valerie Trierweiler, quase nesse mesmo momento, enviou por seu tweet uma mensagem de apoio a Olivier Falorni. Bastaram alguns minutos para toda imprensa francesa noticiar nos seus online como a girl friend do presidente Hollande passou por cima de todos os socialistas, inclusive de seu marido presidente, para apoiar o adversário de sua ex-rival.

Enquanto a direita ri de euforia, diante dessa cena de ciúme qualificada de cena de bulevard e a imprensa fala em reedição de um ato digno de Cecília Sarkozy, conhecida por seu temperamento forte, os socialistas se inquietam com receio de que o tweet da companheira do presidente Hollande possa influir nos resultados do segundo turno, domingo, dia 17.

Outros se lembram também de que Danielle Mitterrand também não era mulher de seguir docilmente as decisões do marido. Valerie já havia dito que não queria ser uma mulher-decoração, tanto que decidiu continuar com sua profissão de jornalista na revista Paris Match.

Em todo caso, uma coisa ficou evidente – o presidente Hollande que instaurou a “normalidade” no governo, tem uma mulher “normal”, ciumenta, que não perdoa seus telefonemas escondidos à ex e que, na Bastilha, depois do beijo do presidente no rosto de Ségolène foi exigente – “eu quero beijo na boca”. Sem se esquecer de que Valerie não votou em Ségolène quando sua rival era candidata a presidente.

As mulheres franceses não têm nada a ver com as mulheres submissas dos islamitas.

Rui Martins* reside em Berna (Suíça); é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

Enviado por Direto da Redação