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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Ironia: Cai na rede conferência “anti-Anonymous” do FBI com a Scotland Yard


Ver também
3/1/2012, “Anonymous” 101: Introdução aoLulz  [1], Quinn Norton, Wired (Parte I)
3/1/2012, “Anonymous 101: O moralismo derrota o Lulz”, Quinn Norton, Wired  (Parte II)
23/1/2012, “A únicaentrevista que Anonymous jamais deram”, The shorty interview
11/1/2012 – “2011: Anonymous contra polícia,ditadores e ameaça existencial” –Quinn Norton, Wired   
23/1/2012 “Anonymous”: Indiscutivelmente discutível... Gabriella (Biella) Coleman


Agências de segurança discutiam como derrubar grupo hacker, mas, ao mesmo tempo, o próprio Anonymous ouvia e vazava a conferência.

Ironia: segundo informações da Wired.com, o Federal Bureau of Investigation - popularmente conhecido como "FBI" - estava em conferência de estratégia com integrantes da Scotland Yard para discutir o chamado “Problema Anonymous”. Mal sabiam eles que o próprio Anonymous estava ouvindo à conferência. Mais: a entidade “hackerativista” ainda distribuiu um e-mail contendo a senha de acesso e um número telefônico para quem quisesse se juntar a eles nessa “vigilância reversa”.

Posteriormente, o grupo disponibilizou um clipe de 17 minutos no YouTube, contendo toda a conversa. Veja-o abaixo:


O FBI já confirmou a autenticidade do clipe, que começa com dois participantes rindo de alguma piada relacionada ao McDonald's. Logo em seguida, partiram para a discussão de supostas evidências adquiridas contra hackers que, supostamente, fariam parte do Anonymous, chamados Ryan Cleary e Jake Davis, do Reino Unido. Supõe-se, porém, que esse relacionamento com o grupo não exista, uma vez que outros dois hackers mencionados na conversa, conhecidos apenas pelos pseudônimos "Tflow" e "Kayla", tiveram seus nomes “bipados” no clipe postado pelo grupo.

Enviado por Olhar Digital

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Líderes políticos unidos contra Murdoch

13/7/2011, The Independent, UK  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os três principais partidos políticos unir-se-ão hoje, em ataque sem precedentes contra o homem que os mesmos partidos vivem, há décadas, de cortejar incansavelmente: Rupert Murdoch.

Os líderes dos três principais partidos políticos britânicos instruíram seus deputados para que votem a favor de uma moção que exige que Murdoch, depois do escândalo dos telefones grampeados, desista da proposta que apresentou para comprar a BSkyB. 

David Cameron, Nick Clegg e Ed Miliband se reuniram em privado para discutir os termos de referência de um inquérito público sobre o escândalo
David Cameron, Nick Clegg e Ed Miliband se reuniram em privado para discutir os termos de um inquérito público sobre o escândalo

Esse show de pensamento único é consequência de intervenção dramática de David Cameron. A decisão foi tomada depois que Cameron percebeu que poderia perder a votação na Casa dos Comuns para a oposição (partidos Labour e Liberal Democrats). Dizia-se ontem que o clima, na residência do primeiro-ministro em Downing Street, era “sombrio”. 

A moção – que agora será garantidamente aprovada por vasta maioria – aumenta muito significativamente a pressão sobre a empresa News Corp para que desista completamente de tentar comprar a BSkyB – num momento em que não param de surgir denúncias de crimes e erros de má administração na News International, subsidiária britânica da News Corp, de Murdoch. 

As ações da BSkyB caíram mais 3%, depois que a City concluiu que a pressão da opinião pública torna o negócio praticamente impossível, pelo menos nesse momento.

Ao longo do dia de ontem, o affair teve os seguintes desdobramentos: 

  • Dois dos mais graduados comandantes da Polícia britânica acusaram a empresa News International de mentir e prevaricar no curso do primeiro inquérito policial; 
  • A Scotland Yard admitiu que, até agora, só notificou 170 das pessoas cujos celulares podem ter sido grampeados, de um total de 4.000 nomes que aparecem nos arquivos de Glenn Mulcaire; 
  • Uma comissão da Câmara dos Comuns convocou Rupert e James Murdoch a comparecer pessoalmente ao Parlamento na próxima 3ª-feira, com Rebekah Brooks, para serem interrogados publicamente pelos deputados sobre o escândalo; e
  • David Cameron, Ed Miliband e Nick Clegg reuniram-se privadamente para discutir os termos de referência para uma investigação pública sobre o escândalo.

Ficou acertado entre os três que Cameron anunciará hoje a instauração de comissão de inquérito, comandada por juiz especial, para tratar de dois tópicos: o fracasso da Polícia (que não investigou devidamente as denúncias de invasão de telefones celulares) e temas mais amplos da ética na mídia. As testemunhas a serem ouvidas nessa comissão falarão sob juramento. Espera-se que o primeiro-ministro, no mesmo ato, nomeie o juiz que presidirá os trabalhos da comissão de inquérito. 

(...) Fonte do governo disse que, depois de aprovada a moção conjunta, a empresa News Corp só poderá comprar 100% das ações da BSkyB, se vender os três jornais que ainda controla – The Sun, The Times e The Sunday Times. “A moção conjunta altera todo o jogo” – disse. 

(...) Em New York, os altos executivos da News Corp estão sendo pressionados a separar-se dos problemas atuais na Grã-Bretanha, para que a empresa possa concentrar-se nas partes do negócio que têm maior potencial de crescimento: a televisão a cabo nos EUA. 

(...)a tentativa de tranquilizar os acionistas, Murdoch anunciou que destinará 5 bilhões de dólares dos lucros da News Corp para “segurar” o preço das ações. A companhia informou que o dinheiro seria gasto ao longo dos próximos 12 meses para recomprar as ações da empresa – medida que reduz o risco de a cotação despencar. Com essa medida, Murdoch espera obter a simpatia dos investidores, enquanto tenta encontrar meio para impedir que o escândalo britânico contamine todo o império de $45 bilhões. 

Murdoch sabe que, se nada fizer, os acionistas poderão concluir que ele próprio e a família, que controla o negócio, estariam “segurando” o dinheiro investido. O próprio Murdoch e vários diretores já são alvo de processo movido por acionistas rebeldes, que alegam que os executivos da empresa puseram os interesses da família acima do interesse dos demais investidores. 

A jogada de Murdoch parece estar dando certo. O preço das ações estabilizou-se e vários grandes acionistas já manifestaram apoio aos Murdochs. O príncipe saudita Alwaleed bin Talal – principal acionista da News Corp, depois da família Murdoch – deu várias entrevistas, dizendo que o fechamento do jornal News of the World bastava, para encerrar o escândalo. E que a empresa News Corp continuava sólida. “A News Corp é muito mais que um jornal” – disse o príncipe.
Mas ontem começaram a aparecer sinais de que os problemas da empresa News Corp na Grã-Bretanha podem contaminar outras partes do negócio. Em depoimento aos deputados, dois altos oficiais de Polícia acusaram a empresa de deliberadamente encobrir provas de que muitos telefones estavam sendo grampeados e invadidos, durante o tempo em que a News International foi dirigida por Les Hinton – braço direito de Murdoch há décadas, que hoje é diretor de Dow Jones nos EUA. É provável que também seja convocado para prestar depoimento no inquérito público, sobre se teria autorizado ou não, que seus jornalistas sonegassem provas e produzissem as provas falsas que foram entregues à Polícia.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Jean Charles – 5 anos de impunidade

Este texto (abaixo) do Urariano Mota foi publicado inicialmente no sítio espanhol no espanhol La Insignia, logo depois no La Jiribilla e mais tarde no CouterPunch, sob o título de "To die by mistake"

Neste aniversário 5 anos da brutal execução de Jean Charles pela “eficientíssima” Scotland Yard, nada-nada se lê no sítio da BBC Brasil.

Será este o preço que os jornalistas “brasileiros” têm que pagar para manter o emprego na BBC? A OMISSÃO?

Morrer por engano

Por Urariano Mota

Há várias maneiras de morrer por engano. Todas contra a própria vontade. Pensei há pouco que poderíamos morrer por engano também como fruto da nossa vontade. Por exemplo, procurar o suicídio quando nem tudo ainda está perdido. Algo como matar-nos em um processo de uma doença incurável, assim diagnosticada por erro médico. Matar-nos por ausência absoluta de esperança, quando nem todas as possibilidades foram ainda perdidas. Depois, considerei que isto seria mais propriamente um matar-se por engano. Por isso reafirmo que todas as maneiras de morrer por engano se dão contra a vontade própria.

Pode-se até dizer, se nos permitem um rápido aprofundamento, que há modos de morrer por engano mais e menos cruéis. E entre os menos, incluiria os equívocos de pátria. Por exemplo, um indivíduo latino, ou europeu, lutar sob a bandeira norte-americana no Iraque. E quando menos espera, o seu veículo explode. Ou então, de outra maneira, posar ao lado de Bush em sua última foto, um segundo antes. Isto é morrer por engano, mas de uma forma menos cruel, porque repentina e com um calculado risco. Ou então, de um modo mais inocente, errar-se a avenida, o restaurante, o hotel, o país, e ser jogado, de repente, em uma zona de balas, de tiros, ou de extraordinária onda gigante. Isto também é morrer por engano, de uma forma dura, como todas as mortes, mas ainda assim, se permitem uma gradação, de uma forma menos crua e cruel.

Dos modos mais duros e terríveis, pensamos nos sentenciados, nos condenados inocentes, nos miseráveis que fazem parte do gênero humano dos criminosos de sempre, e por isso aguardam a morte em um corredor. Mas ainda estes, até a última hora, esperam um esclarecimento último, um indulto, uma salvação de misericórdia, antes que o padre ou o pastor venha cumprir o papel de encomendá-los para o céu da execução. Por isto concluímos que poucas mortes de morrer por engano são tão cruéis e desprezíveis quanto o ser caçado como um cão. Como um cão, que digo?, caçado como uma raposa. Cercado, derrubado, imobilizado, e de olhos vítreos ver o brilho e a luz do tiro uma fração de segundo antes, antes que se lhe arrombe e arranque o cérebro.

O brasileiro, o cão, a raposa, esse animal híbrido, sem espécie e sem definida raça, de nome Jean Charles de Menezes morreu por engano assim, abatido com oito tiros. Morte dura e vil, que até a um cão, que até a uma raposa, que até a um coelho, seria prova de manifesta perversão e crueldade. Que dirá a um humano, perdão, Blair, perdão, Bush, perdão, súditos ingleses apavorados, que dirá a um ser assemelhado a humano? Ainda que seja natural de um país de samba e mulatas exóticas, boas para a cama e para o turismo, ainda assim, e apesar disso, será que esse inferior mereceria um fim de animal raivoso em Londres?

Nada de nacional, nada de nacionalismo, compreendam. Longe de nós a intenção de exigir, que digo, de reclamar, sorry, queremos dizer, de suplicar em voz baixa, humilde, um tratamento diferente para brasileiros. Até porque as primeiras notícias divulgaram que havia sido morto um asiático. Ah, bom, se é um asiático, o mundo não treme, suspiravam todos os nacionalismos de olhos bons, os do ocidente. Assim diziam porque o terrorista morto tinha uns olhinhos meio apertados, meio amendoados, que são um primeiro sinal de um mundo exótico, secundário, sem importância, para lá do Oriente. Depois, surprise, viram que do caldeirão de misturas do Brasil também se exportam bombas de olhinhos puxados, à chinesa, a povos indígenas da américa.

Depois, shit, viram que no solo do metrô aquela massa inerte, antes alegre, que batia samba e sorria para as fotos da família, mamãe, venci na europa, depois viram que aquela mula sem cabeça nem mesmo era um terrorista. Sorry, what a pity, ladies, dogs and gentlemen.

Nada de nacionalismo, portanto. Sabemos todos que os ingleses não tratam assim a seus cachorros. Não existe no mundo povo que mais ame a esses pops, pups, todos, até prova em contrário, cachorrinhos animais de estimação. Que graça possuem a passear com os seus melhores amigos puxados por correntes nas ruas de Londres! Quanto amor, dizem até, os maldosos, quanto afeto dedicado a um semelhante. Não, a humanidade inglesa não trata assim a cachorros. Se existe uma voz de comando para matar, para atirar na cabeça de seres que se movem, essa ordem não será contra cães. É para algo muito baixo e nocivo, menos, muito menos que dogs, embora ande (simule andar), fale (simule a fala), pense (simule o pensar) e sorri (simule o sorrir). Um algo que o terror chama de terrorista. Ah, bom, sendo assim está certo. O terrorismo contra o terror. Ou o terror contra o terrorismo. Não se sabe. A ordem dos conceitos ainda não é certa.

Mas uma coisa se sabe, uma coisa é clara, límpida, objetiva, e sem qualquer zona ou sombra de dúvida. O terrorista tem cara. O terrorista tem raça. O terrorista tem nacionalidade. O terrorista tem credo, língua, classe e região. A cabeça mais que digna de ser explodida a tiros já está determinada. O terrorista somos nós, povos do terceiro mundo. O terrorista somos nós, muçulmanos. O terrorista somos nós, asiáticos. O terrorista somos nós, negros, mestiços, latinos e assemelhados. O terrorista somos todos não nascidos com os caracteres identificáveis na massa de cães e de hooligans. A nossa cabeça é o alvo, e quanto mais escura mais será o alvo, a mira, o fim. A nossa cabeça é Jean Charles de Menezes.

Quando li o relato de uma testemunha do assassinato de Jean Charles, que compreendeu os olhos do homem imobilizado no chão, depois, pelas fotos...

"Se você olhar as fotos, os olhos dele pareciam ser pequenos, mas, quando vi o rosto dele por apenas um segundo, porque foi tudo muito rápido, os olhos dele estavam bem, bem abertos. Ele parecia muito, muito assustado" que, quando viu esse relato, meu estômago sentiu um soco. Os olhinhos pequenos que se abriam espantados, com uma pistola apontada contra a sua cabeça, eram os meus, os nossos, dos nossos filhos, irmãos, de todos os povos não britânicos. Os olhinhos asiáticos de todos nós, terroristas.