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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Transgênicos: Ucrânia será a portadora do veneno que se espalhará pela Europa

17/4/2015, [*] Ulson Gunnar – Neo Eastern Outlook, NEO
Tradução - mberublue


A Rússia não permite transgênicos
Quando o Washington Post faz a opção de elaborar um condescendente e insultuoso editorial dirigido a nações inteiras defendendo as impropriedades ocidentais, qualquer um pode assumir sem medo de errar que a verdade estará exatamente na direção oposta àquela que oWashington Post quer impor.

No que diz respeito às companhias biotécnicas norte americanas e suas tentativas de infestar o planeta inteiro com organismos geneticamente modificados (Transgênicos ou OGMs), em particular as suas tentativas de corromper toda a Europa com seus venenos indesejados através de uma porta dos fundos (Ucrânia), isso serviu de motivo para a Rússia a alertar seus vizinhos europeus orientais. Até o golpe armado levado a efeito em 2013/2014, também chamado de “Euromaidan” a Ucrânia sempre rejeitou categoricamente os GMOs.

Agora, com um regime comprado e obediente instalado em Kiev, as decisões políticas, econômicas e militares que foram tomadas levaram a Ucrânia à situação de ser mais ou menos uma nação sem soberania. Acompanhando essa perda de soberania, veio uma completa apatia na vontade ucraniana da própria preservação, e por isso a permissão para que ocorresse a semeadura em seus campos com venenos contaminantes e inseguros, que passaram de categoricamente proibidos para a aceitação total.

Isso nos leva de volta para o Washington Post e a mais um de seus editoriais recentemente publicados. Título: “A Rússia afirma que os investimentos ocidentais nas fazendas ucranianas são um plano para dominar o mundo inteiro” (Russia says Western investiment in Ukraine’s farms is a plot to take over the world)Primeiro, o jornal tenta desclassificar as acusações russas de que a Monsanto está atualmente em movimento para a Ucrânia com planos de fazer do país uma enorme fazenda de grãos geneticamente modificados, afirmando que tais acusações são infundadas. Quer dizer, isso até que o próprioWashington Post admite que é exatamente o que a Monsanto está fazendo. A peça assevera:

Há muito tempo que a Ucrânia tenta mostrar-se para a Europa como o futuro celeiro de comida para o continente, afirmando que os investimentos ocidentais são a chave para que se faça a exploração adequada de suas terras negras, hoje impropriamente exploradas. Mas o governo russo insiste em fazer do conhecimento geral que essas conversas de desenvolvimento agrícola não passam de um plano para ajudar companhias como a Monsanto a dominar o mercado mundial.

Então, o jornal admite:

Há muito tempo está proibido na Ucrânia o cultivo de organismos geneticamente modificados, assim como a venda de terras agricultáveis.

Em seguida, admite:

Mas o acordo de associação recentemente assinado entre a Ucrânia e a União Europeia no último ano pode ter criado um novo espaço que potencialmente permita o cultivo de culturas geneticamente modificadas na Ucrânia.

Finalmente, o Post menciona a Monsanto:

A Monsanto – talvez a companhia mais associada com os produtos geneticamente modificados – já declarou seu interesse em investir na Ucrânia ano passado (de se notar que a companhia também opera na Rússia, mas não com organismos geneticamente modificados como o faz na Ucrânia).

Milho transgênico
Em que mais estaria investindo a Monsanto na Ucrânia, além de organismos geneticamente modificados, coisa que não podia fazer antes? A Ucrânia é a vítima perfeita para hospedar a Monsanto e outras companhias semelhantes com seus organismos infectados diretamente no coração da Europa.

Com própria Europa já relaxando alguns de seus regulamentos contra TRANSGÊNICOS (OGMs), provavelmente sem o consentimento da população, que fica a cada dia mais consciente dos perigos e procurando alternativas orgânicas, as companhias como a Monsanto esperam produzir grãos organicamente modificados que se espalharão pelo continente a partir dos campos totalmente desregulados da Ucrânia até que se tornem onipresentes na Europa, como já o são nos Estados Unidos.

Em outros lugares do mundo a agricultura de massa tem tentado usar outras “portas dos fundos” para introduzir seus produtos em regiões onde eles são peremptoriamente rejeitados, incluindo a Ásia, onde o Arroz Dourado foi proposto como uma solução  para a luta contra a “deficiência de vitamina A” mesmo quando se sabe que basta plantar um pouco de cenouras para conseguir esse objetivo de forma muito mais fácil e barata e sem o risco de introduzir uma cepa de arroz que contaminaria irremediavelmente as espécies de arroz asiático, além de serem rejeitadas de pronto pelos consumidores. 

Arroz Dourado (transgênico)
Já em outras ocasiões, como por exemplo na implantação dos interesses ocidentais no Afeganistão, a “ajuda” foi usada como uma maneira de introduzir o agronegócio intensivo e os TRANSGÊNICOS (OGMS) na região.

Então, pela admissão do próprio Washington Post e pelo simples exame do que a Monsanto e companhias semelhantes já fizeram por todo o mundo, eles mesmos não podem deixar de admitir que a Federação Russa está certa ao expor as intenções óbvias da Monsanto na Ucrânia e no resto da Europa.

O jornal Washington Post, assim como muitos outros jornais através da Europa e dos Estados Unidos há muito tempo serve os interesses da elite endinheirada, entre os quais muitos estão no agronegócio intensivo e na biotecnologia agrícola. O Post e outros jornais confundem e ofuscam as intenções da Monsanto até que já seja tarde demais para anular a corrupção genética que suas espécies vegetais modificadas infligem aos campos da Ucrânia, até então protegidos por uma soberania que não mais existe.

Como muitas outras coisas na Ucrânia atualmente, o assim chamado “Euromaidan”, que supostamente deveria impulsionar o país na conquista de mais liberdade e auto determinação, claramente arrancou da Ucrânia as duas coisas. Sua liberdade e sua capacidade de determinar por si mesma o que mais lhe convêm. Partindo de um militarismo imposto a seu povo, para uma economia saqueada por interesses estrangeiros, até um governo direta e literalmente presidido por estrangeiros e finalmente chegando agora a seus campos que serão envenenados por TRANGÊNICOS, a ruína da Ucrânia está próxima de completar-se, e será vista como um testemunho perene do que quer dizer na realidade o ocidente quando fala em “democratização”.

Manifestação contra transgênicos na França

Ninguém comprará as espécies envenenadas pela modificação genética

Ainda nos comentários feitos pela Rússia sobre a iminente espoliação da indústria agrícola da Ucrânia pela Monsanto e outras congêneres, o Post relata:

Nikolai Patrushev, Secretário do Conselho de Segurança russo disse em um encontro na terça feira com seus congêneres na Organização de Cooperação de Xangai, que o ocidente tem planos de cultivar “espécies geneticamente modificadas” na Ucrânia. Sugeriu que isso seria um erro crasso, porque, “para não dizer outra coisa, a Europa jamais aprovará tais produtos”.

Como colaborador e lobista do agronegócio intensivo, o Washington Post tenta subestimar este fato. Mas em outros locais, mesmo dentro da mídia ocidental, existem reportagens mostrando que mesmo os Estados Unidos, indubitavelmente uma potência agrícola, tem que importar milho orgânico porque os consumidores norte americanos se recusam a comer os produtos oriundos de organismos geneticamente modificados que são cultivados nos EUA.

Vários transgênicos cultivados no mundo
(Clique na imagem para aumentar)

Em sua reportagem “Como os consumidores exigem comida orgânica, os Estados Unidos são forçados a importar milho” (orig. U.S. forced to import corn as shoppers demand organic food) a Bloomberg (agência de notícias de finanças e mercado, com abrangência mundial – NT) assevera:

Uma demanda crescente por orgânicos e a recente dependência total dos agricultores norte americanos dos produtos geneticamente modificados, nomeadamente milho e soja, tornaram inevitável um aumento de importações de outras nações nas quais as espécies, em grande parte, ainda estão livres de bioengenharia. Importações como o milho da Romênia e a soja da Índia estão em expansão, de acordo com uma análise de dados do comércio dos Estados Unidos realizada quarta feira pela Organização de Comércio de Produtos Orgânicos e a Universidade Estatal da Pennsylvania.

A humilhação que representa o fato de um país historicamente auto suficiente ter que importar um grão tão básico como o milho porque a sua produção doméstica está totalmente envenenada é uma lição que qualquer ucraniano deveria anotar e observar atentamente para o bem não apenas de sua dignidade, mas de seu próprio senso de sobrevivência. Mesmo quando o “milagre” dos organismos geneticamente modificados se tornou pó no esperto mercado norte americano, as corporações estadunidenses estão subornando o infinitamente servil regime que tomou lugar na Ucrânia, para colocar o pescoço daquele país na mesma forca.

Porém em uma coisa o Washington Post está correto. A Rússia está louca se pensa que a Monsanto está para dominar o mundo inteiro. A corporação, apesar de incontáveis bilhões de dólares gastos em lobbies, propaganda, subornos [inclusive no AGRONEGÓCIO aqui no Brasil (Nrc)] e outras formas de persuasão de massa, está falhando miseravelmente em convencer as pessoas a ingerir seus venenos, mesmo naqueles países onde está firmemente estabelecida. No entanto, a Rússia tenta lançar alguma luz sobre o que a Monsanto está tentando fazer na Ucrânia, obviamente contra os próprios interesses do país. Trata-se apenas de mais um exemplo de como o golpe levado a efeito no assim chamado “Euromaidan” nada tinha a ver com liberdade, e tudo a ver com o sequestro de mais um país por Washington e Wall Street, e da pilhagem de seus recursos, em detrimento do próprio povo, tudo em nome da “democracia”.

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[*] Ulson Gunnar – Ulson Gunnar é jornalista e escritor baseado em New York, especialista em geopolítica. Escreve especialmente para NEO – New Eastern Outloock.
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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

FMI: empréstimos de Nova Guerra Fria à Ucrânia (1/2)

8/9/2014, [*] Michael Hudson, Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Interessa aos Estados Unidos que o MERCOSUL seja desmontado e que projetos da era tucana sejam retomados. Não nos enganemos: nestas eleições, está em jogo a retomada do processo privatizador, parcial ou total, da Petrobras, do Banco do Brasil e do BNDES.
[Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães: — Com Aécio fora do jogo, EUA se inclinam para Marina 6/9/2014, Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães a Dario Pignotti] [**]

Fundo Monetário Internacional
por Latuff/2010
Em abril de 2014, logo depois de manifestações contra os cleptocratas na Praça Maidan e o golpe de 22 de maio de 2014, e menos de um mês antes do massacre de Odessa, do dia 2 de maio de 2014, o FMI aprovou um programa de empréstimos de US$ 17 bilhões para a junta na Ucrânia. A prática normal do FMI é emprestar no máximo duas vezes a cota de cada país num único ano. Aquele empréstimo feito aos golpistas da Ucrânia foi oito vezes superior à cota da Ucrânia.

Quatro meses antes, dia 29 de agosto 2014, exatamente quando Kiev começou a perder na guerra de limpeza étnica que movia contra a região do Donbass, no leste da Ucrânia, o FMI concedeu o primeiro empréstimo jamais concedido, em toda a história do Fundo, a país engajado em guerra civil, sem falar de fuga de capitais e da balança de pagamentos em colapso. Baseado em projeções fictícias, que “apagavam” as dificuldades de a instituição vir algum dia a ser paga, o empréstimo sustentou a moeda ucraniana, a hryvnia, por tempo suficiente para que os bancos dos oligarcas transferissem as contas em moeda ucraniana, antes que a hryvnia despencasse e passasse a valer, a cada dia, menos euros e dólares.

Esse empréstimo mostra até que ponto o FMI é um braço da política de Guerra Fria dos EUA. Os termos desse empréstimo impunham a austeridade “de praxe”, como se alguma “austeridade” pudesse estabilizar finanças de países devastados por guerras. Todo o dinheiro, obviamente, foi usado para reconstruir o exército. O leste da Ucrânia nada recebeu nem jamais receberá, por mais que se saiba que a infraestrutura local de hospitais, fornecimento de água e de geração de energia tenha sido destruída. Áreas civis, residenciais, precisamente as mais duramente atacadas, absolutamente não conhecerão os benefícios dessa rara prova de generosidade desinteressada, do FMI.

Um quarto das exportações da Ucrânia vinham dessas províncias do leste e eram vendidas principalmente à Rússia. Mas Kiev bombardeou e continua a bombardear as indústrias do Donbass e deixou as minas de carvão sem energia elétrica para operarem. Perto de meio milhão de civis já fugiram para a Rússia. Mesmo assim, o FMI elogia:

O FMI elogiou o compromisso do governo ucraniano, que se dedica a promover reformas econômicas, apesar do conflito em andamento.

Ridículo. Não surpreende que tais empréstimos e tais elogios não tenham sido noticiados nem na imprensa especializada em economia & business!


O empréstimo com certeza aumentou o conflito interno no próprio FMI, entre os economistas empregados, que se manifestaram abertamente na reunião anual de 2013 em Washington. Naquele momento, o problema foi o desastroso empréstimo de US$ 47 bilhões que o Fundo concedera à Grécia – naquele momento o maior empréstimo da história do FMI – tema de um documento interno do FMI, de 50 páginas, que vazou para o Wall Street Journal.

Reconhecendo que o FMI “subestimou gravemente o dano que as medidas prescritas de austeridade causariam à economia da Grécia,” economistas do quadro de empregados do FMI culparam a pressão exercida por países da eurozona para proteger “seus próprios bancos que tinham grande parte da dívida do governo grego” (...). O FMI projetara originalmente que a Grécia perderia 5,5% de seu output econômico entre 2009 e 2012. Mas o país perdeu 17% em termos reais, do PIB. O plano previa 15% de desemprego em 2012; chegou a 25%.

O Ato de Constituição do FMI proíbe que se façam empréstimos a países que claramente não têm condições para pagar, o que levou economistas do próprio FMI a declarar, na reunião anual, que a própria instituição estava violando suas regras de não fazer empréstimos podres, “a países incapazes de pagar as próprias dívidas”. Um daqueles economistas disse que aquela Análise de Sustentabilidade da Dívida não passava de “uma piada”; uma comissão oficial [europeia] descreveu-a como “histórias da carochinha para fazer crianças dormirem” e um ministro de finanças grego descreveu-a como “cientificamente ridícula”.

Na prática, o FMI simplesmente “adiantou” o dinheiro de que um país precisava para pagar seus banqueiros e acionistas, fingindo que mais austeridade ampliaria a capacidade de pagamento do país para reembolsar o empréstimo (não que só faria aprofundar a armadilha da dívida), enquanto Kiev usou o dinheiro também para despesas militares, para poder atacar as províncias do leste do país.

Tudo isso levanta a questão de se o empréstimo do FMI é de fato uma “dívida odiosa” que está sendo contraída por uma junta militar e roubada por insiders, dentro do governo.


John Helmer, do blog Dances with Bears [danças com ursos], calcula que:


Diferente do que o fez no mais recente empréstimo desastroso a Chipre, o FMI não revelou os próprios argumentos. Mas deixou claro que o Banco Nacional da Ucrânia [orig. National Bank of Ucrânia (NBU)] – o banco central ucraniano – estava simplesmente passando adiante o dinheiro para os cleptocratas que controlam todos os bancos do país como parte dos próprios negócios, e financiando o ataque militar contra o leste do país:

A proporção dos seguros e empréstimos a bancos aumentou de 28% do patrimônio do Banco Central ucraniano no final de 2010, para 56% no final de abril de 2014.

A situação financeira estava piorando. Ante os riscos crescentes de insolvência, já se sabe que os principais bancos da Ucrânia precisarão de mais US$ 5 bilhões além e acima dos US$ 17 bilhões que o FMI já se comprometeu a “fornecer”.

Na preparação para as eleições marcadas para outubro, as províncias do leste não têm condições objetivas para votar; e a junta já baniu o Partido Comunista e também está censurando televisões e jornais. Os partidos pró-guerra não conseguem conquistar eleitores nem no oeste do país (como já aconteceu no início de setembro). Há sinais de novo golpe do Setor Direita e de nacionalistas ucranianos aliados a neonazistas, comandados pelo oligarca Igor Kolomoisky, homem que mantém seu próprio exército privado. Lê-se, em Johnson’s Rússia List (não há versão online [1]):

Igor Kolomoisky
Ante a derrotada em guerra, está à vista nova mudança de regime. O espectro de um golpe ronda outra vez as ruas e praças de Kiev. Guardas da Guarda Nacional sobreviventes ameaçam voltar-se contra Poroshenko. Está tomando forma um terceiro movimento na Praça Maydan, para varrer do poder o atual governo. Os instigadores do movimento, dessa vez, são militantes dos esquadrões-da-morte criados com o dinheiro de Kolomoyskyy. É claro que são os oligarcas, jogando o próprio jogo contra Poroshenko. Kolomoyskyy mantém a seu serviço um forte exército privado, capaz de impor qualquer golpe.

Planos de privatização para a Ucrânia: FMI & EUA

Não nos enganemos: nestas eleições, está em jogo a retomada do processo privatizador, parcial ou total, da Petrobras, do Banco do Brasil e do BNDES.
[Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães: — Com Aécio fora do jogo, EUA se inclinam para Marina 6/9/2014, Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães a Dario Pignotti] [***]

O principal problema da Ucrânia é que a dívida do país é denominada em dólares e euros. Parece haver um único meio para a Ucrânia levantar moeda estrangeira para pagar o que deve ao FMI e a financiadores da OTAN reunidos para ajudar a ocidentalizar a economia do país: vender recursos naturais, a começar por direitos do gás, e terra cultivável.

Aqui a figura sinistra de Kolomoisky ressurge, com total apoio dos EUA. Recente lei aprovada pelo senado [Senate Bill 2277]

(...) “ordena que a Agência para Desenvolvimento Internacional dos EUA aprove empréstimos para todas as fases de desenvolvimento de projetos de petróleo e gás” na Ucrânia, Moldávia e Geórgia.

Hunter (E) e Joe Biden 
O filho do vice-presidente Biden, R. Hunter Biden, foi recentemente contratado para dirigir a empresa Burisma, empresa ucraniana de gás e petróleo registrada em Chipre, há muito tempo uma das favoritas dos operadores pós-URSS. A empresa tem suficiente influência sobre a política de Kiev, para fazer, da prospecção de gás de xisto em terras ucranianas um objetivo militar. Como se lê no Peu Report, citando relatório do periódico Economic Policy Journal: [2]

Soldados ucranianos ajudaram a instalar equipamento para produção de gás de xisto perto da cidade de Slavyansk, no leste da Ucrânia, que eles mesmos bombardearam sem parar ao longo dos três meses anteriores, disse a agência novorussa de notícia por sua página na internet, citando moradores da cidade. Civis protegidos pelo exército ucraniano estão já prontos para instalar equipamento de perfuração. Mais equipamento está chegando, dizem eles. Informam também que os militares estão cercando toda a futura área de extração.

A imprensa-empresa ocidental nada noticiou sobre os protestos populares no leste e no oeste da Ucrânia contra a extração do gás de xisto [orig. fracking] e por questões de uso do solo em geral, mas há pelo menos uma informação:

A população de Slavyansk, cidade localizada no coração do campo Yzovka de gás de xisto, organizou inúmeras ações de protesto no passado, sempre contra a exploração e desenvolvimento daquele tipo de recurso. Querem, mesmo, realizar um referendo para decidir sobre a questão...

O fracking polui o solo, a água e o ar
Países como a República Tcheca, os Países Baixos e a França já desistiram de projetos que tinham para desenvolvimento de gás de xisto em seus países. Não só esses, mas também a Alemanha, sempre importante, que há duas semanas anunciou que suspenderá “a perfuração em campos de gás de xisto, durante os próximos sete anos, por causa dos riscos de contaminação dos depósitos subterrâneos de água”. Aos EUA e ao FMI, só interessa reduzir a dependência dos europeus, do gás russo, e fazer a balança de pagamentos pender a favor dos EUA, não da Rússia, como mais um fator para conter os russos, na Nova Guerra Fria.

Mas tudo isso envolveu aliança potencialmente muito embaraçosa entre EUA e Kolomoisky, um dos principais proprietários da empresa Burisma, mediante seu Privat Bank. Robert Parry destaca que:

Kolomoisky foi nomeado pelo regime golpista para ser governador da província (Oblast) de Dnipropetrovsk, no centro-sul da Ucrânia. Kolomoisky também tem sido associado ao financiamento dos brutais esquadrões-da-morte que promovem ações de limpeza ética no leste da Ucrânia, contra russos.

Outro recurso natural ucraniano a ser vendido é terra agricultável. Já há ali pesado investimento da empresa Monsanto em grãos geneticamente modificados. Relatório recente distribuído pelo Oakland Institute, “Caminhando pelo lado oeste: Banco Mundial e FMI no conflito ucraniano” (ing.), descreve pressões para desregular o uso da terra agricultável ucraniana e promover a venda a investidores dos EUA e de outros países. O Instituto Oakland observa que “a IFC aconselhou o país a apagar todos os impedimentos para certificação de alimentos nas leis ucranianas“ e a “evitar aumentar desnecessariamente os custos para as empresas” com regulações sobre uso de pesticidas, aditivos etc..

Pare com os transgênicos!
O mais intrigante é que nem a Rússia nem a maioria dos países europeus aceitam produtos geneticamente modificados. Parece, assim, que o único modo pelo qual a Ucrânia conseguiria exportar seus alimentos é se a diplomacia norte-americana conseguir que a Europa derrube suas leis contra organismos geneticamente modificados. Pode ser mais uma dificuldade entre os EUA e países europeus membros da OTAN.

Será caríssimo reconstruir as instalações de infraestrutura de água e eletricidade destruídas pelas forças de Kiev em Donetsk – que enfrentará longo inverno, gelado e escuro. Kiev parou de pagar pensões e aposentadorias no Leste da Ucrânia.

Mesmo antes dos eventos da Praça Maidan, a população local já tentava impedir a extração de gás de xisto (fracking) , exatamente como a Alemanha e outros países europeus também estavam fazendo. A população também se manifestou várias vezes contra a apropriação de terras por cleptocratas ucranianos e por empresas como a Monsanto que operam com sementes geneticamente modificadas –, mais uma vez exatamente como a Alemanha e outros países europeus também têm reagido contra colheitas obtidas de organismos geneticamente modificados.

[Continua]



[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é professor e pesquisador de economia na Universidade de Missouri–Kansas City (UMKC) e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends - ISLET) e um membro-fundador da "Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo" (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies - (ISCANEE).
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[**] e [***] Notas acrescentadas pelos tradutores.

Notas de rodapé

[1] Marina Perevozkina e Artur Avakov, Moskovskiy Komsomolets, 4/9/2014, da Johnson’s Russia List, 6/9/2014, #14. Acrescentam que Putin ordenou o sequestro das propriedades de Kolomoyskyy na Crimeia e em Moscou.


[2] O relato acrescenta: Além da “questão do gás”, há também o fato de que foi o vice-presidente dos EUA Joe Biden quem mandou que o presidente Yanukovich retirasse suas forças policiais dia 21 de fevereiro de 2014, movimento que abriu caminho para o avanço das milícias neonazistas e para o golpe apoiado pelos EUA. Na sequência, três meses depois, a maior empresa privada de gás da Ucrânia, Burisma Holdings, contratou o filho de Biden, Hunter Biden, para integrar seu corpo de diretores.

sábado, 8 de janeiro de 2011

EUA apontam contra a União Europeia por causa dos OGM



08.Jan.11 :: Outros autores
Através de mais um telegrama divulgado por WikiLeaks ficamos sabendo que a embaixada dos EUA em Paris recomenda “uma guerra comercial «em estilo militar» contra países da Europa que se oponham aos organismos geneticamente modificados (OGM=transgênicos). Os comentaristas de turno ao serviço do subserviente capital monopolista português, esses, os que costumam tecer loas à “maior democracia mundial”, os EUA, silenciam, fingem ignorar que o imperialismo, mesmo na sua fase senil e agonizante, continua implacável na sua ação para o domínio planetário.



Telegramas recentemente divulgados por WikiLeaks revelam que a Embaixada dos Estados Unidos em Paris aconselhou Washington a iniciar uma guerra comercial “em estilo militar” contra qualquer país que se oponha às culturas de transgénicos (OGM).

Em resposta a iniciativas empreendidas em finais de 2007 pela França com o objetivo de banir uma variedade de transgênicos da Monsanto Company o embaixador Craig Stapleton, amigo e parceiro de negócios do ex-presidente dos EUA, George Bush, solicitou a Washington a penalização da UE, e em particular dos países que se opõem ao cultivo de transgênicos.

«O grupo de trabalho de Paris recomenda que calibremos uma lista de alvos retaliação que provoque algum dano no conjunto da União Europeia uma vez que se trata de uma responsabilidade coletiva, mas também que tenha maior incidência, em parte, nos principais culpados.
Esta lista deve ser mais moderada do que agressiva, e deve ser sustentável por um tempo alargado, dado que não é de esperar uma vitória rápida. Passar à retaliação deixará claro que a orientação atual envolve custos reais para os interesses da União Europeia e pode ajudar a fortalecer as vozes europeias pró-biotecnologia», disse Stapleton, que nos anos 90 foi co-proprietário com Bush da equipa de basebol Texas Rangers de St. Louis.

Através de outros telegramas agora divulgados fica-se sabendo que diplomatas dos EUA em todo o mundo agiram, por imperativo estratégico e comercial do seu governo, no sentido de forçar a aceitação de culturas transgênicas. E como muitos bispos católicos em países em desenvolvimento se têm oposto veementemente às controversas culturas, os EUA pressionaram também conselheiros papais.

Telegramas da embaixada dos EUA no Vaticano mostram a convicção dos EUA de o papa é amplamente favorável a estas culturas - em resultado da pressão sustentada que tem sido exercida sobre os conselheiros da Santa Sé mais altamente colocados - mas lamentam que o papa não tenha ainda tornado público o seu apoio. O conselheiro especial em biotecnologia do Departamento de Estado dos EUA, assim como assessores governamentais na mesma área atuando a partir do Quênia, pressionaram individualidades do Vaticano no sentido de persuadirem o papa a declarar o seu apoio.

«[…], encontro com o [monsenhor nos EUA] fr. Michael Osborn do “Conselho Pontifical Cor Unum”, proporcionando oportunidade para influenciar o Vaticano acerca das questões da biotecnologia e ocasião para a análise do estado actual da questão em geral no Vaticano», diz um telegrama de 2008.

«Existem oportunidades para pressionar a questão com o Vaticano e, por sua vez, influenciar um largo segmento da população na Europa e no mundo em desenvolvimento», diz outro telegrama.

Mas verificou-se um revés quando a embaixada dos EUA ficou sabendo que o seu aliado mais próximo na questão dos transgênicos, o cardeal Renato Martino, chefe do poderoso Conselho Pontifical para a Justiça e Paz e o homem que mais representa o papa nas Nações Unidas tinha retirado o seu apoio aos EUA.

«Um representante de Martino disse-nos que o cardeal tinha cooperado em questões de biotecnologia com a nossa embaixada no Vaticano no decurso dos últimos dois anos, em parte para compensar a sua desaprovação pública sobre a guerra no Iraque e as suas consequências - e para manter uma relação sem atritos com o governo dos EUA. De acordo com a nossa fonte Martino já não sente a necessidade de manter esta conduta», diz o telegrama.

Além disto, os telegramas mostram os diplomatas dos EUA trabalhando diretamente para as empresas que comercializam OGM, como a empresa Monsanto.

«Em resposta a recentes pedidos urgentes do secretário de estado Josep Puxeu [do ministério espanhol dos assuntos rurais] e da Monsanto, a mensagem solicita um renovado apoio do governo dos EUA à posição científica espanhola sobre agricultura biotecnológica através de uma intervenção de alto nível do governo dos EUA».

Também fica-se sabendo que a Espanha e os EUA trabalharam em conjunto para persuadir a União Europeia a não endurecer a legislação relativa aos transgênicos. Num telegrama a embaixada dos EUA em Madrid escreve:

«Se a Espanha cair, o resto da Europa cairá a seguir».

Os telegramas indicam que o governo espanhol não só pediu aos EUA que mantivesse a pressão sobre Bruxelas, mas que os EUA tinham conhecimento antecipado do sentido de voto da Espanha, mesmo antes da comissão espanhola para as questões da biotecnologia o ter tornado público.

Este texto foi publicado no jornal inglês Guardian de 3 de Janeiro de 2011.
Tradução de João Manuel Pinheiro para O Diário