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segunda-feira, 9 de março de 2015

ISIL/ISIS/Daesh é coisa do Pátio dos Milagres

8/3/2015, [*] Gordon DuffNew Eastern Outlook
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A natureza do Estado Islâmico e suas operações são um mistério. A coisa simplesmente não pode existir. Será que se poderia provar que é pura “armação”? Ah, sim, nada mais fácil, isso e muito mais, e sem nem precisar descer a detalhes das execuções encenadas.

O mito do ISIS/ISIL/Daesh cai aos pedaços sem que se tenha de recorrer a teorias conspiracionais, selvagens ou de salão.

Hoje, a rede Fars de notícias noticiou, de fontes iraquianas, que foi derrubado um helicóptero Apache norte-americano que lançava suprimentos para forças do ISIS/ISIL/Daesh nas áreas ocidentais da província de Anbar. Eis a foto do evento:

Marque os erros dessa foto
Há algumas coisas erradas nessa foto. Primeiro, o helicóptero que aí se vê é um UH10 de 1957. Há milhares deles voando pelo mundo, pode-se comprar pela página de “Ebay”. A foto não é datada. Também faltam informações que poderiam identificar a origem e a folha corrida da tripulação, de onde vinha o voo, dados do mais corriqueiro interrogatório de polícia técnica.

Que fim levou o piloto? Onde está a carga? É preciso ver a foto toda, porque é perfeitamente claro que foi publicado um recorte de foto maior. Onde foi tirada? Em “New York City”? Poderia ser. O que mais se vê nessa foto é uma impressionante ausência de curiosidade.

Helicóptero Apache (AH-64)
Semana passada, a agência Fars noticiou que dois aviões britânicos de transporte foram derrubados quando operavam e forneciam suprimentos para o ISIS/ISIL/Daesh. Nada de pilotos nem restos da fuselagem, sem número na cauda, nenhuma prova de que o evento tenha mesmo ocorrido, além da “notícia”. Alguém aí está querendo me convencer de que duas aeronaves de transporte caem e ninguém, nem uma alma, nos 800 km em torno, nem pensaram em esgravatar nos destroços à procura de malas, relógios Rolex e outros bens?

Na sequência, supostas centenas de veículos do ISIS/ISIL/Daesh foram destruídos na campanha de bombardeio que os EUA executam, cada um deles com seus números de identificação de veículo [VIN numbers] em centenas de partes. O FBI e a Interpol podem facilmente rastrear qualquer veículo, não só a partir de qualquer peça, mas também por outras muitas vias.

Há convenções internacionais para controlar o tráfico nos mercados negros de veículos e de peças. Cada veículo fabricado é informado a um banco de dados e praticamente todas as peças recebem número de série que também são registrados nas vendas, e as transferências são gravadas e comunicadas ao banco de dados global.

Mesmo que estejam com o GPS avariado ou desligado, todos os veículos mais novos recebem ignição eletrônica que pode ser rastreada. Todos enviam sinais de rádio, a menos que seja usado um escudo Faraday. Veículos modernos liberam energia eletromagnética, visível como lanterna em sala escura.

Toyotas novinhas...
Talvez a Toyota não queira explicar como aconteceu de mil de suas caminhonetes embarcadas para Israel terem sido modificadas e transportadas pela Jordânia. Israel e Netanyahu são entidades acima da lei; agora, a Jordânia também quer ser.

Estaria talvez aí o motivo pelo qual a Jordânia é agora heroica aliada dos extremistas de direita nos EUA que entregaram os corações e almas ao ISIS/ISIL/Daesh e aos amigos deles em Kiev? Examinemos rapidamente as coisas nas quais ninguém pensa.

Recentemente estive em Damasco, capital de um país devastado pela guerra. Embora a distância entre Damasco e Beirute, por rodovia, não passe de uma hora de viagem, há muitos itens – carne, por exemplo – que absolutamente não se encontram em Damasco. Observei o mesmo no Iraque, no auge da guerra. A vida era arroz, feijão e algum raro frango congelado, vez ou outra, a menos que você fosse soldado dos EUA e bebesse água poluída do rio vendida aos soldados pela Halliburton a US$ 30 o galão.

O que estamos dizendo é simples: fazer entrar e sair suprimentos em/de zona de guerra é quase impossível, com certeza, pelo menos, no mundo real. Mas será que estamos em algum “mundo real”?

Voltemos à campanha de bombardeio. Há centenas de caminhões destroçados por todo o Iraque e Síria. Os EUA têm acesso a quase todos, como o Iraque e o Irã também têm. Alguém presta atenção a quem instala os pára-choques, quem solda as placas para apoiar as armas nos assentos? Alguém testa a gasolina para saber se foi refinada?

Veículo do ISIS/ISIL/Daesh bombardeado no Iraque
Se se podem rastrear veículos, mesmo que ninguém rastreie, também se pode conhecer a impressão “digital” de cada veículo, saber quem construiu, quem modificou, que ferramentas foram usadas, que soldas, que partes. Tudo pode ser rastreado até a fonte.

Ninguém quer fazer tal coisa. Por quê? Têm medo do que se descobrirá? O combustível, por exemplo.

Oh, você não sabia que não há refinarias de gasolina por toda parte? Que na maior parte do mundo, gasolina é vendida em contêineres plásticos usados em leiterias, carregados em picapes? Que durante anos toda a gasolina usada no Curdistão e no norte do Iraque foi contrabandeada da Turquia?

No sul, chegava em caminhões-tanque, da Jordânia. Há razões para acreditar que continue exatamente assim, bem ali, a céu aberto, para todos verem, nas estradas com dúzias de postos de controle do governo.

Soldados norte-americanos na Jordânia ajudam a monitorar essas estradas, esses pontos de controle; ninguém sabe como, sempre estão distraídos quando os embarques destinados ao ISIS/ISIL/Daesh cruzam a fronteira. Nos surpreendemos nos EUA com o número de comandantes militares demitidos recentemente? A ficha está começando a cair?

Os EUA destruíram todas as refinarias existentes na região do ISIS/ISIL/Daesh, nos dois primeiros dias da campanha de bombardeio.

Eis o que,sim, sabemos:

Em toda a Síria e no Iraque há muita gente lucrando muito com fornecer para o Estado Islâmico. Ainda mais na Jordânia e em Israel, e fazendo o mesmo serviço. Na Turquia, negociar com o ISIS/ISIL/Daesh já é importante “setor econômico”.

E o desfile de Toyotas do ISIS/ISIL/Daesh é na... Turquia!
Traição e colusão com o inimigo são amplas e disseminadas. E norte-americanos, britânicos e outros também ganham muito dinheiro. Sim, há os tais voos de abastecimento, mas é preciso “cair na real”. Os EUA têm total supremacia aérea sobre todo o Oriente Médio. Ontem, os israelenses noticiaram que os EUA havia ameaçado destruir a Força Aérea de Israel, se tentassem atacar o Irã enquanto os EUA negociam. Se os EUA podem derrubar toda a Força Aérea de Israel, derrubar um helicóptero ou um avião de transporte seria nada.

Consideremos outras opções, com atenção especial à inteligência. Em 2014, reuni-me com oficiais iraquianos para discutir inteligência disponível contra o ISIS/ISIL/Daesh especialmente nas regiões de Mosul e ao sul na Província Anbar. Oferecemos sistemas OCULUS, plataformas “roll on” para aeronaves C130 capazes de coisas que não se pode nem começar a discutir, inclusive localizar dispositivos explosivos improvisados, mas também, com certeza, capazes de rastrear todos os movimentos operacionais do ISIS/ISIL/Daesh.

Empresas israelenses ofereceram equipamento avançado de interceptação de comunicações, alguns itens com capacidades que não se pode nem começar a discutir. Garantido que o tal equipamento deteria todas as operações doISIS/ISIL/Daesh, o que ainda é dizer pouco.

Também nos oferecemos para demonstrar armas avançadas de pulso eletromagnético que fazem, sim, parar eletrônicos, veículos, geradores, fones, qualquer coisa numa área que não se pode nem começar a discutir e sobre a qual dizer “enorme” é dizer pouco.

Os EUA tem o que se supõe que seja o equipamento mais avançado. E é muito avançado. Mas ninguém vê coisas simples como pessoas perguntando de onde vem a gasolina ou COMO é possível que o ISIS/ISIL/Daesh dirija ao longo de centenas de milhas por uma rodovia de duas pistas, sem ser visto por satélites, drones ou aviões de vigilância? A Agência de Segurança Nacional não ouve tudo e todos? Só se o ISIS/ISIL/Daesh fala na “Língua do P”, que o decifrador da ANS ainda não decifrou.

Já a NSA continua espionando Merkel e Dilma...
Parece que ninguém pensou sobre de onde vieram os Toyotas; ou que montar um lança-mísseis de 25 mm na traseira de um caminhão não é serviço para qualquer um sem capacidades avançadas. Alguém aí lembrou que cada uma dessas armas tem de ser instalada num “cartucho” de 6 metros?

Pergunto outra vez: como alguém poderia meter dentro da Jordânia ou Turquia um navio carregado de caminhões com cartuchos carregados instalados na carroceria e, depois, transportar milhares de “técnicos” em armaduras blindadas por centenas de quilômetros?

Pergunto outra vez: e de onde vem a gasolina? Por que os caminhões não têm números de série, nem número de identificação veicular, nem porcaria de número nenhum? Por que ninguém pergunta essas perguntas?

Como fazem milhares de jihadistas para voar pelo planeta? Como é que conseguem entrar na Turquia – onde qualquer simples turista é interrogado por 20 minutos quando põe os pés no aeroporto de Istambul? A Turquia tem burocracia massiva, exército gigante, vastos serviços de inteligência e ninguém entra ou sai da Turquia, assim, sem mais nem menos; nem ninguém “cruza” a Turquia. A Turquia não é brincadeira. Se Erdogan não quisesse jihadistas ali, de um lado para o outro, o tráfego fechava.

Alguém se deu o trabalho de abrir um mapa? Alguém viu que não é possível sair do norte da África, de onde saem muitos jihadistas, para Jordânia, Síria ou Iraque, sem passar por Israel?

É quanto voltamos à Jordânia. Sabemos que a Jordânia permitiu que a CIA treinasse milicianos do ISIS/ISIL/Daesh – embora a CIA tenha explicado ao Wall Street Journal que seus instrutores não sabiam (sic) que estavam treinando os milicianos errados.

The Wall Street Jornal de 12/9/2001
Há uma razão pela qual ninguém faz pergunta alguma, nem a empresa-imprensa, nem os EUA, nem, com certeza, nenhuma das nações da região: porque ninguém quer resposta alguma. O ISIS/ISIL/Daesh é “big business” e quanto mais tempo durar essa guerra, mais milhões e milhões tomarão o rumo dos cofres de gente muito poderosa.

A mesma discussão se poderia fazer sobre o Boko Haram: como é possível que gente que sonha com voltar à Idade Média maneje tão competentemente os mais complexos telefones por satélite? Quem paga as contas? Eu não tenho um telefone daqueles.

A resposta é simples: para mim, são entidades inexistentes. Não acredito nem em ISIS/ISIL/Daesh nem em Boko Haram. Não acredito nessas entidades.
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[*] Gordon Duff é um veterano de combate Marinha de Guerra dos EUA no Vietnã. Obteve baixa por deficiência (ferimento de guerra) e passou a trabalhar ajudando outros veteranos e no tratamento de prisioneiros de guerra durante décadas. É diplomata acreditado e aceito como um dos maiores especialistas do mundo em Inteligência Global. Administra a maior organização privada de inteligência do mundo e é consultado regularmente por governos em questões de segurança. Viaja extensivamente, é publicado em todo o mundo e convidado usual em programas de entrevistas em TV e rádio nos mais diversos países. Também é “chef de cuisine”, entusiasta de vinhos, motociclista e armeiro especializado em armas históricas e restauração. Sua experiência em negócios e interesses estão nas áreas de Energia e Tecnologia de Defesa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

FMI: empréstimos de Nova Guerra Fria à Ucrânia (1/2)

8/9/2014, [*] Michael Hudson, Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Interessa aos Estados Unidos que o MERCOSUL seja desmontado e que projetos da era tucana sejam retomados. Não nos enganemos: nestas eleições, está em jogo a retomada do processo privatizador, parcial ou total, da Petrobras, do Banco do Brasil e do BNDES.
[Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães: — Com Aécio fora do jogo, EUA se inclinam para Marina 6/9/2014, Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães a Dario Pignotti] [**]

Fundo Monetário Internacional
por Latuff/2010
Em abril de 2014, logo depois de manifestações contra os cleptocratas na Praça Maidan e o golpe de 22 de maio de 2014, e menos de um mês antes do massacre de Odessa, do dia 2 de maio de 2014, o FMI aprovou um programa de empréstimos de US$ 17 bilhões para a junta na Ucrânia. A prática normal do FMI é emprestar no máximo duas vezes a cota de cada país num único ano. Aquele empréstimo feito aos golpistas da Ucrânia foi oito vezes superior à cota da Ucrânia.

Quatro meses antes, dia 29 de agosto 2014, exatamente quando Kiev começou a perder na guerra de limpeza étnica que movia contra a região do Donbass, no leste da Ucrânia, o FMI concedeu o primeiro empréstimo jamais concedido, em toda a história do Fundo, a país engajado em guerra civil, sem falar de fuga de capitais e da balança de pagamentos em colapso. Baseado em projeções fictícias, que “apagavam” as dificuldades de a instituição vir algum dia a ser paga, o empréstimo sustentou a moeda ucraniana, a hryvnia, por tempo suficiente para que os bancos dos oligarcas transferissem as contas em moeda ucraniana, antes que a hryvnia despencasse e passasse a valer, a cada dia, menos euros e dólares.

Esse empréstimo mostra até que ponto o FMI é um braço da política de Guerra Fria dos EUA. Os termos desse empréstimo impunham a austeridade “de praxe”, como se alguma “austeridade” pudesse estabilizar finanças de países devastados por guerras. Todo o dinheiro, obviamente, foi usado para reconstruir o exército. O leste da Ucrânia nada recebeu nem jamais receberá, por mais que se saiba que a infraestrutura local de hospitais, fornecimento de água e de geração de energia tenha sido destruída. Áreas civis, residenciais, precisamente as mais duramente atacadas, absolutamente não conhecerão os benefícios dessa rara prova de generosidade desinteressada, do FMI.

Um quarto das exportações da Ucrânia vinham dessas províncias do leste e eram vendidas principalmente à Rússia. Mas Kiev bombardeou e continua a bombardear as indústrias do Donbass e deixou as minas de carvão sem energia elétrica para operarem. Perto de meio milhão de civis já fugiram para a Rússia. Mesmo assim, o FMI elogia:

O FMI elogiou o compromisso do governo ucraniano, que se dedica a promover reformas econômicas, apesar do conflito em andamento.

Ridículo. Não surpreende que tais empréstimos e tais elogios não tenham sido noticiados nem na imprensa especializada em economia & business!


O empréstimo com certeza aumentou o conflito interno no próprio FMI, entre os economistas empregados, que se manifestaram abertamente na reunião anual de 2013 em Washington. Naquele momento, o problema foi o desastroso empréstimo de US$ 47 bilhões que o Fundo concedera à Grécia – naquele momento o maior empréstimo da história do FMI – tema de um documento interno do FMI, de 50 páginas, que vazou para o Wall Street Journal.

Reconhecendo que o FMI “subestimou gravemente o dano que as medidas prescritas de austeridade causariam à economia da Grécia,” economistas do quadro de empregados do FMI culparam a pressão exercida por países da eurozona para proteger “seus próprios bancos que tinham grande parte da dívida do governo grego” (...). O FMI projetara originalmente que a Grécia perderia 5,5% de seu output econômico entre 2009 e 2012. Mas o país perdeu 17% em termos reais, do PIB. O plano previa 15% de desemprego em 2012; chegou a 25%.

O Ato de Constituição do FMI proíbe que se façam empréstimos a países que claramente não têm condições para pagar, o que levou economistas do próprio FMI a declarar, na reunião anual, que a própria instituição estava violando suas regras de não fazer empréstimos podres, “a países incapazes de pagar as próprias dívidas”. Um daqueles economistas disse que aquela Análise de Sustentabilidade da Dívida não passava de “uma piada”; uma comissão oficial [europeia] descreveu-a como “histórias da carochinha para fazer crianças dormirem” e um ministro de finanças grego descreveu-a como “cientificamente ridícula”.

Na prática, o FMI simplesmente “adiantou” o dinheiro de que um país precisava para pagar seus banqueiros e acionistas, fingindo que mais austeridade ampliaria a capacidade de pagamento do país para reembolsar o empréstimo (não que só faria aprofundar a armadilha da dívida), enquanto Kiev usou o dinheiro também para despesas militares, para poder atacar as províncias do leste do país.

Tudo isso levanta a questão de se o empréstimo do FMI é de fato uma “dívida odiosa” que está sendo contraída por uma junta militar e roubada por insiders, dentro do governo.


John Helmer, do blog Dances with Bears [danças com ursos], calcula que:


Diferente do que o fez no mais recente empréstimo desastroso a Chipre, o FMI não revelou os próprios argumentos. Mas deixou claro que o Banco Nacional da Ucrânia [orig. National Bank of Ucrânia (NBU)] – o banco central ucraniano – estava simplesmente passando adiante o dinheiro para os cleptocratas que controlam todos os bancos do país como parte dos próprios negócios, e financiando o ataque militar contra o leste do país:

A proporção dos seguros e empréstimos a bancos aumentou de 28% do patrimônio do Banco Central ucraniano no final de 2010, para 56% no final de abril de 2014.

A situação financeira estava piorando. Ante os riscos crescentes de insolvência, já se sabe que os principais bancos da Ucrânia precisarão de mais US$ 5 bilhões além e acima dos US$ 17 bilhões que o FMI já se comprometeu a “fornecer”.

Na preparação para as eleições marcadas para outubro, as províncias do leste não têm condições objetivas para votar; e a junta já baniu o Partido Comunista e também está censurando televisões e jornais. Os partidos pró-guerra não conseguem conquistar eleitores nem no oeste do país (como já aconteceu no início de setembro). Há sinais de novo golpe do Setor Direita e de nacionalistas ucranianos aliados a neonazistas, comandados pelo oligarca Igor Kolomoisky, homem que mantém seu próprio exército privado. Lê-se, em Johnson’s Rússia List (não há versão online [1]):

Igor Kolomoisky
Ante a derrotada em guerra, está à vista nova mudança de regime. O espectro de um golpe ronda outra vez as ruas e praças de Kiev. Guardas da Guarda Nacional sobreviventes ameaçam voltar-se contra Poroshenko. Está tomando forma um terceiro movimento na Praça Maydan, para varrer do poder o atual governo. Os instigadores do movimento, dessa vez, são militantes dos esquadrões-da-morte criados com o dinheiro de Kolomoyskyy. É claro que são os oligarcas, jogando o próprio jogo contra Poroshenko. Kolomoyskyy mantém a seu serviço um forte exército privado, capaz de impor qualquer golpe.

Planos de privatização para a Ucrânia: FMI & EUA

Não nos enganemos: nestas eleições, está em jogo a retomada do processo privatizador, parcial ou total, da Petrobras, do Banco do Brasil e do BNDES.
[Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães: — Com Aécio fora do jogo, EUA se inclinam para Marina 6/9/2014, Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães a Dario Pignotti] [***]

O principal problema da Ucrânia é que a dívida do país é denominada em dólares e euros. Parece haver um único meio para a Ucrânia levantar moeda estrangeira para pagar o que deve ao FMI e a financiadores da OTAN reunidos para ajudar a ocidentalizar a economia do país: vender recursos naturais, a começar por direitos do gás, e terra cultivável.

Aqui a figura sinistra de Kolomoisky ressurge, com total apoio dos EUA. Recente lei aprovada pelo senado [Senate Bill 2277]

(...) “ordena que a Agência para Desenvolvimento Internacional dos EUA aprove empréstimos para todas as fases de desenvolvimento de projetos de petróleo e gás” na Ucrânia, Moldávia e Geórgia.

Hunter (E) e Joe Biden 
O filho do vice-presidente Biden, R. Hunter Biden, foi recentemente contratado para dirigir a empresa Burisma, empresa ucraniana de gás e petróleo registrada em Chipre, há muito tempo uma das favoritas dos operadores pós-URSS. A empresa tem suficiente influência sobre a política de Kiev, para fazer, da prospecção de gás de xisto em terras ucranianas um objetivo militar. Como se lê no Peu Report, citando relatório do periódico Economic Policy Journal: [2]

Soldados ucranianos ajudaram a instalar equipamento para produção de gás de xisto perto da cidade de Slavyansk, no leste da Ucrânia, que eles mesmos bombardearam sem parar ao longo dos três meses anteriores, disse a agência novorussa de notícia por sua página na internet, citando moradores da cidade. Civis protegidos pelo exército ucraniano estão já prontos para instalar equipamento de perfuração. Mais equipamento está chegando, dizem eles. Informam também que os militares estão cercando toda a futura área de extração.

A imprensa-empresa ocidental nada noticiou sobre os protestos populares no leste e no oeste da Ucrânia contra a extração do gás de xisto [orig. fracking] e por questões de uso do solo em geral, mas há pelo menos uma informação:

A população de Slavyansk, cidade localizada no coração do campo Yzovka de gás de xisto, organizou inúmeras ações de protesto no passado, sempre contra a exploração e desenvolvimento daquele tipo de recurso. Querem, mesmo, realizar um referendo para decidir sobre a questão...

O fracking polui o solo, a água e o ar
Países como a República Tcheca, os Países Baixos e a França já desistiram de projetos que tinham para desenvolvimento de gás de xisto em seus países. Não só esses, mas também a Alemanha, sempre importante, que há duas semanas anunciou que suspenderá “a perfuração em campos de gás de xisto, durante os próximos sete anos, por causa dos riscos de contaminação dos depósitos subterrâneos de água”. Aos EUA e ao FMI, só interessa reduzir a dependência dos europeus, do gás russo, e fazer a balança de pagamentos pender a favor dos EUA, não da Rússia, como mais um fator para conter os russos, na Nova Guerra Fria.

Mas tudo isso envolveu aliança potencialmente muito embaraçosa entre EUA e Kolomoisky, um dos principais proprietários da empresa Burisma, mediante seu Privat Bank. Robert Parry destaca que:

Kolomoisky foi nomeado pelo regime golpista para ser governador da província (Oblast) de Dnipropetrovsk, no centro-sul da Ucrânia. Kolomoisky também tem sido associado ao financiamento dos brutais esquadrões-da-morte que promovem ações de limpeza ética no leste da Ucrânia, contra russos.

Outro recurso natural ucraniano a ser vendido é terra agricultável. Já há ali pesado investimento da empresa Monsanto em grãos geneticamente modificados. Relatório recente distribuído pelo Oakland Institute, “Caminhando pelo lado oeste: Banco Mundial e FMI no conflito ucraniano” (ing.), descreve pressões para desregular o uso da terra agricultável ucraniana e promover a venda a investidores dos EUA e de outros países. O Instituto Oakland observa que “a IFC aconselhou o país a apagar todos os impedimentos para certificação de alimentos nas leis ucranianas“ e a “evitar aumentar desnecessariamente os custos para as empresas” com regulações sobre uso de pesticidas, aditivos etc..

Pare com os transgênicos!
O mais intrigante é que nem a Rússia nem a maioria dos países europeus aceitam produtos geneticamente modificados. Parece, assim, que o único modo pelo qual a Ucrânia conseguiria exportar seus alimentos é se a diplomacia norte-americana conseguir que a Europa derrube suas leis contra organismos geneticamente modificados. Pode ser mais uma dificuldade entre os EUA e países europeus membros da OTAN.

Será caríssimo reconstruir as instalações de infraestrutura de água e eletricidade destruídas pelas forças de Kiev em Donetsk – que enfrentará longo inverno, gelado e escuro. Kiev parou de pagar pensões e aposentadorias no Leste da Ucrânia.

Mesmo antes dos eventos da Praça Maidan, a população local já tentava impedir a extração de gás de xisto (fracking) , exatamente como a Alemanha e outros países europeus também estavam fazendo. A população também se manifestou várias vezes contra a apropriação de terras por cleptocratas ucranianos e por empresas como a Monsanto que operam com sementes geneticamente modificadas –, mais uma vez exatamente como a Alemanha e outros países europeus também têm reagido contra colheitas obtidas de organismos geneticamente modificados.

[Continua]



[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é professor e pesquisador de economia na Universidade de Missouri–Kansas City (UMKC) e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends - ISLET) e um membro-fundador da "Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo" (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies - (ISCANEE).
________________________

[**] e [***] Notas acrescentadas pelos tradutores.

Notas de rodapé

[1] Marina Perevozkina e Artur Avakov, Moskovskiy Komsomolets, 4/9/2014, da Johnson’s Russia List, 6/9/2014, #14. Acrescentam que Putin ordenou o sequestro das propriedades de Kolomoyskyy na Crimeia e em Moscou.


[2] O relato acrescenta: Além da “questão do gás”, há também o fato de que foi o vice-presidente dos EUA Joe Biden quem mandou que o presidente Yanukovich retirasse suas forças policiais dia 21 de fevereiro de 2014, movimento que abriu caminho para o avanço das milícias neonazistas e para o golpe apoiado pelos EUA. Na sequência, três meses depois, a maior empresa privada de gás da Ucrânia, Burisma Holdings, contratou o filho de Biden, Hunter Biden, para integrar seu corpo de diretores.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Obama, a empresários e executivos de Wall Street, em 18/11/2013: - Vocês dizem que sou “socialista” é porque nunca viram um socialista de verdade

19/11/2013, [*] Jennifer Epstein, Politico
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Viela do Xucro na Vila Vudu: TAÍ! Os jornalistas de Político e os “100 maiores empresários e executivos” dos EUA reunidos pelo Wall Street Journal não leram, os panacas... Mas OBAMA JÁ LEU O “MAPA DO CAMINHO” APROVADO NA 3º PLENÁRIA do PARTIDO COMUNISTA DA CHINA, para as reformas rumo a uma economia socialista de mercado. É a glória! Dáááááááá-lhe China! Vaaaaaaai, Xi Jiping! [pano rápido]


Leia você também o que Obama já leu e Wall Street NÃO leu:
11/11/2013, redecastorphoto em: Pequim, 2013: Começa sessão plenária histórica
14/11/2013, redecastorphoto em: Pepe Escobar: “O enigma do mercado da China”
14/11/2013, redecastorphoto em: A China mete o mercado no meio


Ontem, o presidente Obama riu dos críticos que o chamam de “socialista”.

Há gente que, às vezes, me chama de socialista – disse ele num encontro com 100 empresários e executivos promovido pelo Wall Street Journal.

Ah, vocês precisam conhecer socialistas de verdade, para saber o que é ser socialista – disse Obama, arrancando gargalhadas do público.

Eu só falo de baixar impostos para empresas. Minha reforma da Saúde é baseada no mercado privado. As ações estão bem, pelo que vi hoje cedo – continuou, na lista de seus atributos de boa fé nos mercados. 

E... Sim, é verdade que a desigualdade crescente no nosso sistema me preocupa. Mas isso não implica que alguém esteja questionando a eficácia das economias de mercado, em termos de produção de riqueza e inovação e de nos manter competitivos.

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[*] Jennifer Epstein é a repórter responsável pela cobertura da Casa Branca em POLITICO desde 2010. Formou-se em História na Princeton University em 2008 onde iniciou carreira de jornalismo no The Daily Princeton. Sua tese de formatura foi: “Slaves and Slavery at Princeton”, com a qual ganhou o Prêmio Jolene CO para a História Americana.