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segunda-feira, 3 de março de 2014

Obama, Kerry, militares ucranianos, Yulia e Klitschko

3/3/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Foi interessante, nas últimas horas, observar as reações à decisão russa de total prontidão para usar força militar na Ucrânia. Vejamos, uma a uma.

Obama e Kerry: Sinceramente, não esperava grande coisa, mas estou impressionado com a total falta de conexão entre a Casa Branca e o mundo real. Para impedir Putin de usar força militar, a Casa Branca resolveu ameaçá-lo de boicotar a próxima reunião do G8 na Rússia. Buuuuuuu!! Agora, sim, Putin ficou tremendo de medo. Não, não ficou.

Ouvindo o Idiota-em-Chefe e seu Secretário de Estado, é realmente inacreditável que a dupla insista em investir todo o peso e a credibilidade dos EUA, num governo que até o próprio Iatseniuk  já chamou de “governo kamikaze”.

Barack Obama e John Kerry
Qualquer pessoa com QI igual ou superior à temperatura ambiente entende que o chamado “governo ucraniano” está condenado a fracassar e fracassará, simplesmente porque literalmente não tem dinheiro para fazer *coisa alguma*. E os doidos em Washington só fazem apoiar esse regime moribundo.

O exército ucraniano: Com certeza, não há quem não tenha ouvido ou lido que o exército ucraniano está em alerta máximo, para repelir qualquer agressão russa. É risível. É cômico. Absolutamente NÃO EXISTE EXÉRCITO UCRANIANO.

Há um monte de ferro velho, amontoado por lá; há várias unidades basicamente com treinamento-zero; e só umas poucas unidades capazes de níveis mais altos de prontidão para combate. Sabem como é que se chama isso, em termos militares? Chama-se *ALVO*.

Também suspeito de que, por mais que políticos ocidentais e aqueles doidos ucranianos falem de forças armadas ucranianas, os próprios oficiais lá, e até os soldados, sabem perfeitamente que, ali, estão como alvos.

Assim se explica a sábia decisão da nave-madrinha da Marinha Ucraniana, a fragata Hetman Sahaidachny, que rapidamente mudou de lado, em vez de voltar para casa (segundo os últimos informes, está no leste do Mediterrâneo). Espero que todos saibam que a simples ideia de que os ucranianos estariam desenvolvendo bombas atômicas é piada. Então, não perderei tempo com isso agora.

Klitschko                  Yulia 
Yulia e Klitschko: Como eu já suspeitava, desde que a vi, histérica, na praça Maidan, Yulia está claramente perdida; suas declarações sobre a crise comprovam, para mim, que ela “mandou dizer que não está em casa”. Diferente dela, porém, e para minha grande surpresa, foi Klitschko quem apareceu com a proposta mais sã: quer criar uma comissão especial em Kiev encarregada de negociar uma solução pacífica para a atual crise entre Kiev e Moscou.

Diferente do palavreado histérico de Yulia, a declaração de Klitschko veio sem arroubos, chiliques ou apelos líricos. Foi pragmático, praticamente um executivo-gerente. Sabe-se lá. Talvez ele consiga alguma coisa. Porque tenho certeza de que, enquanto os doidos de Kiev não usarem a força no leste ou no sul da Ucrânia, os russos permanecerão em alerta máximo, mas do seu próprio lado da fronteira.

É isso, agora, só uma atualização rápida. Espero ter, mais tarde, tempo para escrever com mais calma sobre os desenvolvimentos recentes.

Saudações,

The Saker


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Espetáculo em Kiev − A Revolução Marrom na Ucrânia

24/2/2014, [*] Israel ShamirCounterpunch
Traduzido por João Aroldo

Kiev "by night"- Opera House
Eu sou um grande fã de Kiev, uma cidade afável de caráter burguês agradável, com seus abundantes pequenos restaurantes, ruas arborizadas limpas e bonomia dos seus beer gardens. Cem anos atrás, Kiev era predominantemente um resort russo, e algumas áreas centrais mantiveram este sabor. Agora Kiev é patrulhada por bandidos armados da Ucrânia Ocidental, por combatentes do Setor Direita (Pravy Sektor) neonazista, descendentes de Stepan Bandera, soldados traidores ucranianos e por seus camaradas-em-armas locais de caráter nacionalista.

Membro da ABWEHR alemã Stepan Bandera (centro) com uniforme alemão, com a
patente de Tenente-Comandante, a ordem alemã da "Cruz de Mérito de 2ª classe com
espadas ". Essa ordem alemã era concedida àqueles que exibiam bravura pessoal, sem participar diretamente das hostilidades.
Após um mês de confronto, o presidente Viktor Yanukovitch cedeu, assinou a rendição preparada pela UE − e escapou da dura justiça revolucionária por um triz.

Os deputados do partido governista [Partido das Regiões] foram surrados e dispersos, os comunistas quase linchados, a oposição tem o parlamento só para eles, e nomeou novos ministros e tomou conta da Ucrânia. A Revolução Marrom ganhou na Ucrânia. Este grande país do leste europeu de cinquenta milhões de habitantes seguiu o caminho da Líbia.

Os EUA e a UE venceram nesta rodada, e empurraram a Rússia de volta para o leste, exatamente como eles pretendiam.

Resta saber se os bandidos neonazistas que venceram a batalha vão concordar em entregar os doces frutos da vitória para os políticos, que são, Deus sabe, desagradáveis o suficiente. E mais importante, resta saber se as parte leste e sudeste onde se fala russo vão aceitar o domínio Marrom de Kiev, ou vão se separar e seguir seu próprio caminho, como o povo de Israel (segundo a Bíblia) após morte do rei Salomão se rebelou contra o seu herdeiro, dizendo “para as suas tendas, ó Israel!” e proclamou a independência do seu feudo (I Reis 12:16).

Enquanto isso, parece que o desejo da parte leste de preservar a integridade do Estado ucraniano é mais forte do que sua antipatia pelos Marrons vitoriosos. Apesar de terem reunido os seus representantes para o que poderia ser uma declaração de independência, eles não se atrevem a reivindicar o poder. Essas pessoas pacíficas têm pouca resistência para conflitos.

O seu grande vizinho, a Rússia, não parece abertamente preocupada com esse desenvolvimento ameaçador. Ambas as agências de notícias russas, TASS e RIA, nem sequer colocam as terríveis notícias ucranianas no topo, como a Reuters e BBC fazem: para eles, os Jogos Olímpicos e o biatlon eram de maior importância, como você pode ver nessas telas:


A seguir a imagem aumentada:



Esta atitude “avestruz” é bastante típica da mídia russa: sempre que eles se encontram em uma posição embaraçosa, eles escapam mostrando o balé “O Lago dos Cisnes” na TV. Isso é o que eles fizeram quando a União Soviética entrou em colapso em 1991. Desta vez foram as Olimpíadas, em vez do ballet.

A oposição anti Putin na Rússia aprovou entusiasticamente o golpe ucraniano.

Ontem Kiev, amanhã Moscou, cantavam. Maidan (a praça central de Kiev, o local das manifestações antigoverno) é igual a Bolótnaya (uma praça em Moscou, o local das manifestações antigoverno em dezembro de 2012) é outro slogan popular.

A maioria dos russos ficou irritada, mas não surpresa. A Rússia decidiu minimizar seu envolvimento na Ucrânia algumas semanas atrás como se quisessem demonstrar ao mundo sua não interferência. Seu comportamento beirou a imprudência.

Enquanto ministros do exterior de países da UE e seus aliados se reuniam em Kiev, Putin enviou Vladimir Lukin, um emissário de direitos humanos, um político mais velho de baixo escalão com muito pouca influência, para lidar com a crise ucraniana. O embaixador russo, Sr. Zurabov, outra não entidade, desapareceu completamente de vista. (Agora ele foi chamado de volta a Moscou).

Putin não fez nenhuma declaração pública sobre a Ucrânia, tratando-a como se fosse a Líbia ou o Mali, não um país vizinho tão perto do interior da Rússia.

Esta abordagem de não intervenção se poderia esperar: a Rússia não interferiu nas desastrosas eleições ucranianas de 2004, ou nas eleições georgianas que produziram os governos extremamente antirrussos.

A Rússia se envolve apenas se houver uma verdadeira batalha em campo, e um governo legítimo pede ajuda, como na Ossétia, em 2008, ou na Síria, em 2011. A Rússia apoia aqueles que lutam por sua causa, caso contrário, a Rússia, de maneira um pouco decepcionante, fica de lado.

O Ocidente não tem tais inibições, e seus representantes foram extremamente ativos: a representante do Departamento de Estado dos EUA, Victoria "Foda-UE'' Nuland passou dias e semanas em Kiev, dando biscoitos aos insurgentes, entregando milhões de dólares contrabandeados para eles, se encontrando com seus líderes, planejando e traçando o golpe. Kiev foi inundada com os mais novos dólares americanos que saíram da prensa (de um tipo nunca visto em Moscou, me contaram amigos russos).

Victoria Nuland
A embaixada dos EUA espalhou dinheiro ao redor como um texano embriagado em um night club. Cada jovem disposto a lutar recebeu quinhentos dólares por semana, um lutador qualificado - até mil, um comandante de pelotão, dois mil dólares - um bom dinheiro para os padrões ucranianos.

Dinheiro não é tudo. Pessoas também são necessárias para um golpe bem-sucedido. Não havia uma oposição a Yanukovitch, que ganhou eleições democráticas e, consequentemente, três partidos perderam eleições. Os defensores dos três partidos poderiam reunir um monte de gente para uma manifestação pacífica. Mas eles lutariam na hora da verdade? Provavelmente não. Idem para os recipientes de generosos subsídios dos EUA e da UE (Nuland estimou o valor total de investimento americano na “construção da democracia” em cinco bilhões de dólares). Eles poderiam ser chamados para irem à praça principal para uma manifestação. No entanto, os beneficiários das ONGs são pessoas tímidas, não é provável que arriscassem o seu bem-estar. E os EUA precisavam de melhores combatentes para remover o presidente democraticamente eleito do poder.

Os Ovos da Serpente

No oeste da Ucrânia, eclodiram os ovos da serpente: os filhos e netos de colaboradores nazistas que absorveram o ódio aos russos com seu leite materno.

Seus pais formaram uma rede sob Reinhard Gehlen, o chefe espião alemão. Em 1945, enquanto a Alemanha era derrotada, Gehlen jurou obediência aos EUA e entregou suas redes à CIA. Eles continuaram sua guerra de guerrilha contra os sovietes até 1956. Sua crueldade era legendária, porque eles tinham como objetivo aterrorizar a população até a total obediência. Notoriamente, eles estrangulavam ucranianos suspeitos de serem amigáveis aos russos com suas próprias mãos.

Reinhard Gehlen - General do Exército alemão - Chefe da Inteligência 
A confissão terrível de um participante fala de suas atividades em Volyn:

Uma noite, nós estrangulamos 84 homens. Nós estrangulamos adultos, já as crianças, segurávamos suas pernas, balançávamos e quebrávamos suas cabeças em um batente. Duas crianças bonitas..., Stepa e Olya, 12 e 14 anos de idade... nós retalhamos o mais jovem em duas partes, e não precisamos estrangular sua mãe Julia, ela morreu de ataque cardíaco, e assim por diante.

Mataram centenas de milhares de poloneses e judeus, mesmo o terrível massacre Baby Yar foi feito por eles, com a conivência alemã, um pouco semelhante a conivência de Israel nos massacres de Sabra e Chatila de palestinos pelos fascistas libaneses da Falange.

Os filhos desses “Stepan Bandera” assassinos foram criados para odiar o comunismo, os soviéticos e russos, e na adoração dos atos de seus pais. Eles formaram a ponta de lança dos rebeldes anti-governamentais pró-EUA na Ucrânia, o Pravy Sektor (Setor Direita) liderado pelo fascista descarado Dmytro Yarosh. 
Dmytro Yarosh

Eles estavam prontos para lutar, morrer e matar. Tais unidades atraem potenciais rebeldes de diferentes origens: seu porta-voz é um jovem russo que se tornou nacionalista ucraniano, Artem Skoropadsky, um jornalista do diário mainstream de propriedade de oligarcas, Kommersant-UA.

Há jovens russos similares que se juntam às redes salafistas e se tornam homens-bomba nas montanhas do Cáucaso - jovens cujo desejo de ação e sacrifício não poderiam ser satisfeitas na sociedade de consumo. Esta é uma al-Qaeda eslava - tropas reais de assalto neonazistas, um aliado natural dos EUA.

E eles não lutam apenas pela associação com a UE e contra aderir ao acordo com a Rússia. Seus inimigos são também os russos na Ucrânia, e ucranianos étnicos de língua russa. A diferença entre os dois é discutível. Antes da independência, em 1991, cerca de três quartos da população preferiu falar russo. Desde então, os sucessivos governos têm tentado forçar as pessoas a usar o ucraniano. Para os ucranianos neonazistas, quem fala russo é um inimigo. Você pode comparar isso com a Escócia, onde as pessoas falam inglês, e os nacionalistas gostariam de forçá-los a falar a língua de Robert Burns.

Atrás da ponta de lança do Setor Direita, com seus lutadores anticomunistas e antirrussos fervorosos, há uma organização maior: a neonazista Liberdade (Svoboda), de Tyagnibok. Alguns anos atrás, Tyagnibok chamava para uma luta contra os russos e judeus, agora ele tornou-se mais cauteloso em relação aos judeus.  Ele ainda é tão antirrusso como John Foster Dulles. Tyagnibok foi tolerado, ou mesmo encorajada por Yanukovitch, que queria tomar uma página do livro do presidente francês, Jacques Chirac. Chirac venceu o segundo turno das eleições contra o nacionalista Le Pen, enquanto, provavelmente, teria perdido contra qualquer outro adversário. Do mesmo modo, Yanukovitch desejou Tyagnibok para tornar-se o seu adversário a ser derrotado no segundo turno das eleições presidenciais.

Os partidos parlamentares (o maior deles é o partido de Yulia Timoshenko, com 25% dos assentos, o menor, o partido de Klitschko, o boxeador, com 15%) apoiariam a turbulência como uma forma de ganhar o poder que perderam nas eleições.

Vitali Klitschko e John McCain em Kiev

União dos nacionalistas e liberais

Assim, uma união de nacionalistas e liberais foi formada. Esta união é a marca registrada de uma nova política dos EUA na Europa Oriental. Ela foi testada na Rússia, há dois anos, onde os inimigos de Putin são compostos por estas duas forças, liberais pró-ocidentais e seus novos aliados, os nacionalistas étnicos russos, neonazistas suaves e os mais radicais.

Os liberais não vão lutar, eles são impopulares com as massas, que incluem um percentual acima da média dos judeus, gays, milionários e colunistas liberais; os nacionalistas podem incitar as grandes massas quase tão bem quanto os bolcheviques, e vão lutar. Este é o coquetel anti Putin preferido pelos EUA.

Essa aliança, na verdade, levou mais de 20% dos votos nas eleições da cidade de Moscou, depois de sua tentativa de tomar o poder por golpe foi rechaçada por Putin. A Ucrânia é sua segunda ação conjunta, bem-sucedida.

Tenham em mente: os liberais não precisam apoiar a democracia. Eles fazem isso somente se eles estão souberem que a democracia vai proporcionar o que eles querem. Caso contrário, eles podem unir forças com a al Qaeda, como agora na Síria, com os extremistas islâmicos, como na Líbia, com o Exército, como no Egito, ou com neonazistas, como agora na Rússia e na Ucrânia.

Historicamente, a aliança liberal-nazista não funcionou, porque os velhos nazistas eram inimigos dos banqueiros e do capital financeiro, e, portanto, antissemitas.

Este obstáculo poderia ser evitado: Mussolini foi amigável com judeus e tinha alguns ministros judeus em seu governo, ele contestou a atitude antissemita de Hitler dizendo que “os judeus são úteis e amigáveis”. Hitler respondeu que se ele permitisse isso, milhares de judeus iriam entrar para seu partido. Hoje em dia, este problema desapareceu: os neonazistas modernos são amigáveis com os judeus, os banqueiros e os gays.

O assassino norueguês Breivik é uma amostra exemplar de um neonazista simpático aos judeus. Assim são os ucranianos e russos neonazistas.

Enquanto os bandidos originais de Bandera matavam todos os judeus (e poloneses) que cruzavam seu caminho, seus herdeiros modernos recebem algum apoio judeu valioso.

Os oligarcas de origem judia (Kolomoysky, Pinchuk e Poroshenko) os financiam, enquanto um proeminente líder judeu, presidente da Associação das Organizações Judaicas e Comunidades da Ucrânia, Josef Zissels, apoiou-os e os justificou.

Há muitos apoiadores de Stepan Bandera em Israel, pois eles geralmente afirmam que Bandera não era um antissemita, porque ele tinha um médico judeu (assim como Hitler). Os judeus não se importam com nazistas que não os incomodem.

Os russos neonazistas atacam trabalhadores imigrantes tadjiques, e os ucranianos neonazistas atacam os falantes de russo.

Revolução: Esboço

A revolução pode ser descrita em poucas linhas: Yanukovitch não foi um presidente tão ruim, prudente, mas fraco. Ainda assim, a Ucrânia chegou à beira do abismo financeiro. (Você pode ler mais sobre isso no meu artigo anterior). Ele tentou salvar a situação, aliando-se à UE, mas a UE não tinha dinheiro de sobra. Em seguida, ele tentou fazer um acordo com a Rússia, e Putin ofereceu-lhe uma saída, sem sequer exigir dele que a Ucrânia se juntasse ao grupo liderado pela Rússia. Isto provocou a resposta violenta da UE e dos EUA, já que estavam preocupados que isso iria fortalecer a Rússia.

Yanuk, como as pessoas o chamam, tinha poucos amigos. Oligarcas poderosos ucranianos não ficaram impressionados por ele. Além das razões de costume, eles não gostavam dos hábitos predatórios do filho de Yanuk, que rouba as empresas dos outros. Aqui eles podem ter razão, porque o líder da Bielorrússia, o valente Lukashenko, disse que as formas não ortodoxas de aquisição de empresas do filho de Yanuk causaram desastre.

O eleitorado de Yanuk, as pessoas falantes de russo da Ucrânia (e eles são a maioria no país, como os escoceses que falam inglês são maioria na Escócia) ficaram desapontados com ele porque ele não lhes deu o direito de falar e educar seus filhos em russo.

Yulia Timoshenko
Os seguidores de Yulia Timoshenko não gostavam dele porque ele prendeu sua líder (ela mereceu: contratou assassinos, roubou bilhões de dinheiro do Estado ucraniano em conluio com um ex-primeiro-ministro, fez um acordo escuso com a Gazprom às custas dos consumidores ucranianos, entre outras coisas).

Os nacionalistas radicais o odiavam por ele não erradicar o idioma russo. O ataque ao presidente eleito orquestrado pelos EUA seguiu as instruções de Gene Sharp para um golpe, a saber:

(1) tomar uma praça central e organizar uma manifestação pacífica,
(2) falar sem parar do perigo da dispersão violenta,
(3) se as autoridades não fizerem nada, provocar derramamento de sangue,
(4) acusar assassinato,
(5) a autoridade fica horrorizada e estupefata e
(6) é removida e
(7) novos poderes assumem.

O elemento mais importante do sistema nunca foi expressado pelo astuto Sharp, e é por isso que o movimento Occupy Wall Street (que folheou o livro) não conseguiu alcançar o resultado desejado. Você tem que ter os Mestres do Discurso™, isto é, a mídia ocidental, do seu lado. Caso contrário, o governo vai esmagar você como fizeram com o Occupy e muitos outros movimentos similares. Mas aqui, a mídia ocidental ficou totalmente do lado dos rebeldes, porque os eventos foram organizados pela embaixada dos EUA.

No início, eles reuniam algumas pessoas conhecidas para uma manifestação pacífica na Praça da Independência (ou “Praça Maidan”): beneficiários de subvenções da USAID através da rede de ONGs, escreveu um especialista ucraniano, Andrey Vajra, redes de oligarca fugitivo Khoroshkovski, neonazis do Setor Direita e radicais de causa comum.

A reunião pacífica foi ricamente entretida por artistas, alimentos e bebidas foram servidos gratuitamente, sexo livre foi encorajado − era um carnaval no centro da capital, e começou a atrair as massas, como aconteceria em todas as cidades do universo conhecido. Este carnaval foi pago pelos oligarcas e pela embaixada dos EUA.

Sergey Levochkin
Mas o carnaval não poderia durar para sempre. De acordo com (2), rumores de dispersão violenta foram espalhados. As pessoas ficaram com medo e se afastaram. Apenas uma pequena multidão de ativistas permaneceu na praça. Provocação de acordo com (3) foi fornecida por um agente ocidental dentro da administração, o Sr. Sergey Levochkin. Ele escreveu sua carta de demissão, a enviou e ordenou à polícia dispersar violentamente a manifestação. A polícia chegou e dispersou os ativistas. Ninguém foi morto, ninguém ficou gravemente ferido – hoje, depois de cem mortos, é ridículo sequer mencionar essa surra – mas a oposição acusou que houve mortes na época.

A mídia mundial, essa poderosa ferramenta nas mãos dos Mestres do Discurso, denunciou “Yanukovitch massacrador de crianças”.

A UE e os EUA ameaçaram sanções, diplomatas estrangeiros vieram, todos alegando que queriam proteger os manifestantes pacíficos, enquanto, ao mesmo tempo melhorar a multidão de Maidan com homens armados e combatentes do Setor Direita.

Nós citamos Gene Sharp, mas a Maidan teve uma influência adicional, o de Guy Debord e seu conceito de Sociedade do Espetáculo.

Não era uma coisa real, mas um faz-de-conta muito bem-feito, como foi o seu antecessor, o golpe de Moscou de agosto de 1991. Yanukovitch fez de tudo para formar a resistência Maidan: ele enviava a polícia de choque para dispersar a multidão, e depois que eles faziam apenas metade do trabalho, ele os chamava de volta, e ele fez isso todos os dias. Após esse tratamento, mesmo um cão muito tranquilo mordia.

A qualidade irreal de espetáculo dos eventos de Kiev foi enfatizada pela chegada do belicista imperial, o filósofo neo-com, Bérnard-Henri Levy. Ele foi a Maidan como foi à Líbia e à Bósnia, reivindicando direitos humanos e ameaçando sanções e bombardeios. Sempre que ele aparece, a guerra está por vir. Espero estar longe de todos os países que ele pretenda visitar.

Bernard-Henri "Lévyshenko"
As primeiras vítimas da Revolução Marrom foram os monumentos - os de Lenin, porque eles odeiam o comunismo em todas as formas, e os da IIª Guerra Mundial, porque os revolucionários se solidarizam com o lado derrotado, os nazistas alemães.

A história nos dirá até que ponto Yanukovich e seus assessores entenderam o que eles estavam fazendo. De qualquer forma, ele incentivou o fogo de Maidan por seus ataques ineficientes por uma força policial desarmada. Os neonazistas de Maidan usaram snipers (franco-atiradores) contra a força policial, dezenas de pessoas foram mortas, mas o presidente Obama mandou Yanukovich desistir, e ele desistiu.

Após novo tiroteio, ele enviava a polícia novamente. Um diplomata UE ameaçava com o tribunal de Haia, e ele chamava sua polícia de volta. Nenhum governo pode funcionar em tais circunstâncias.

Eventualmente, ele caiu, assinou na linha pontilhada e partiu para destino desconhecido.

Os rebeldes tomaram o poder, proibiram o idioma russo e começaram a saquear Kiev e Lvov. Agora, a vida das pessoas tranquilas de Kiev foi transformada em um verdadeiro inferno: assaltos diários, espancamentos, assassinatos.

Os vencedores estão preparando uma operação militar contra as áreas de língua russa no sudeste da Ucrânia. O espetáculo da revolução ainda pode ficar realmente sangrento.

Alguns ucranianos esperam que Yulia Timoshenko, recém-libertada da prisão, será capaz de controlar os rebeldes. Outros esperam que o presidente Putin vá prestar atenção aos eventos da Ucrânia, agora que seus Jogos Olímpicos, felizmente, terminaram.

O espetáculo não acabou até que a gorda senhora (ref. à Russia) cante, mas ela vai cantar – sua canção será vista e ouvida.
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[*] Israel Shamir é um escritor, colunista da e jornalista antissionista. De origem russa, ele nasceu em Novosibirsk, na Sibéria, e emigrou para Israel em 1969. Lá, trabalhou como jornalista e tradutor. Seus artigos sobre a ocupação da Terra Santa pelo sionismo estão reunidos no sítio eletrônico e em três livros: Galilee Flowers, Cabbala of  Power e Masters of  Discourse, também disponíveis em francês, espanhol, italiano, alemão e russo. Em 2004, ele abraçou a fé cristã ortodoxa, sendo batizado na Igreja Ortodoxa de Jerusalém e Terra Santa pelo arcebispo Theodosius Attalla Hanna.  Shamir. Vive atualmente em Jaffa e viaja frequentemente a Moscou e Estocolmo.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ganha e perde na Ucrânia

22/2/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Arseniy Yatsenyuk (D), Oleh Tyahnybok (E) e Vitali Klitschko (C) após assinatura de acordo com Viktor Yanukovich em Kiev (21/2/2014)
Depois de oito horas de negociações, que avançaram noite adentro na 5ª-feira (20/2/2014), entre o presidente Viktor Yanukovich da Ucrânia e a “troika” da oposição, Arseniy Yatsenyuk, Oleh Tyahnybok e Vitali Klitschko, chegou-se a um acordo, na manhã da 6ª-feira (21/2/2014) em Kiev que, se espera, ponha fim aos violentos confrontos que levaram a muitas mortes essa semana.

Os termos do acordo foram fixados em declaração escrita. O acordo foi examinado por um grupo de enviados europeus e políticos, e por um “representante especial do presidente da Federação Russa”.

Em seguida Yanukovich anunciou eleições antecipadas, a volta a um regime parlamentar de governo e que se constituirá um governo provisório de unidade nacional.

À primeira vista, o acordo tem ares de encobrir uma manobra conjunta de União Europeia e Rússia, quando, de fato, Moscou continua a manter silêncio impenetrável sobre os eventos na Ucrânia. A União Europeia, representada pelos ministros de Relações Exteriores de Alemanha e Polônia, capitalizou a violência crescente e a indecisão de Yanukovich, para forçar um acordo; e Moscou ficou sem escolha, além de deixar-se ver como “vai-com-os-outros”.

Com toda a probabilidade trata-se de um recesso. É o que se vê claramente nos relatórios divergentes publicados por Washington e Moscou do telefonema que o presidente Barack Obama fez para Vladimir Putin, e da conversa que tiveram, na 6ª-feira (21/2/2014).

O relatório distribuído pelo Kremlin não menciona o acordo em Kiev; em vez disso destaca o “trabalho com a oposição radical” que a Rússia culpa por ter criado o perigoso confronto (por instigação do ocidente, é claro). E o relatório distribuído pela Casa Branca prefere destacar a “necessidade de implementar rapidamente” o acordo em Kiev e a necessidade de reformas (neoliberais, claro) para pôr ordem na economia política da Ucrânia.

Evidentemente, o desacordo EUA-Rússia vai-se aprofundando – embora Obama tenha acrescentado uma pitada de açúcar à pílula amarga, dando parabéns a Putin, embora atrasados, pelo sucesso dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi. Por que “pílula amarga”?

Em resumo: Washington passou a perna em Moscou, num movimento espetacular (embora sujo) na crise ucraniana. Depois de acender os estopins dos protestos contra a decisão de Yanukovich de aceitar o resgate de $15 bilhões que a Rússia ofereceu, o confronto cresceu como bola de neve até se converter em exigência de “mudança de regime” e rapidamente ganhou proporções de crise, com a injeção de elementos radicais nos protestos.

Protestos em Kiev após Yanukovich aceitar resgate da Rússia em 22/1/2014
A violência subsequente, por sua vez, foi pretexto perfeito para a diplomacia ocidental de coerção, que tirou vantagem da personagem política de Yanukovich.

O resultado aí está. Uma “oposição” sem qualquer representação e nutrida por Alemanha e Polônia está sendo catapultada para o poder; e cria-se um governo de “unidade nacional”. A questão difícil, porém, vem agora: como pilotarão o barco ucraniano?

É claro que a geopolítica está no centro de tudo que está acontecendo, como se vê claramente na reignição das ambições históricas de Alemanha e Polônia em relação à Ucrânia como sua “esfera de influência”.

Como o Japão no Pacífico Asiático, a Alemanha também proclamou sua intenção de tornar-se país “normal”; e a Ucrânia é a arena na qual a Alemanha pós-IIª Guerra Mundial pela primeira vez flexiona seus músculos (diplomáticos).

Na recente Conferência de Segurança de Munique, a Alemanha destacou que está pronta para liderar. Como está fazendo também com o Japão, os EUA estão encorajando a Alemanha a tornar-se país “normal”, a inflar suas proezas militares e exibi-las no cenário mundial quando a segurança coletiva está envolvida.

Os EUA esperam assim fortalecer sua própria liderança transatlântica; e, no contexto da Ucrânia, haveria outro ganho adicional para Washington, porque tudo faz crer que a robusta relação Alemanha-Rússia, que os EUA sempre detestaram, começa a ser abalada.

Isso posto, a Rússia enfrenta a possibilidade de um regime assumidamente pró-ocidente substituir Yanukovich. O pior que pode acontecer é esse regime favorecer o alinhamento da Ucrânia como membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, o que levaria a aliança ocidental literalmente para junto do portão dos russos.

A Rússia apostou que, afrouxando os cordões da bolsa e oferecendo resgate que a depauperada União Europeia não poderia superar para reviver a economia ucraniana, conseguiria impedir que Kiev gravitasse na direção do ocidente.

O ocidente respondeu com mais uma encenação de ‘revolução colorida’. Simples. O anúncio por Moscou, na 2ª-feira (17/2/2014), de que daria mais $2 bilhões à Ucrânia (além dos $3 bilhões dados em dezembro) com certeza precipitou a violência dos confrontos e o atual “desenlace”.

A Ucrânia passará por uma “terapia de choque”, se é que haverá “reformas”, e talvez se qualifique para receber a “ajuda” da União Europeia e do FMI – desregulação, cortes nos “gastos’”sociais, congelamento de salários e demissões, pressão contra os sindicatos, etc..

Viktor Yanukovich desembarca em Carcóvia em 22/2/2014 após deixar Kiev
Mas o país já está virtualmente dividido ao meio, com as regiões do leste ligadas por laços muito fortes com a Rússia.

Não surpreendentemente, a Casa Branca festejou o acordo da 6ª-feira (21/2/2014). Moscou, por sua vez, ainda não se manifestou sobre o acordo – mas Putin aproveitou uma reunião do Conselho de Segurança para “discutir a situação na Ucrânia”. Em todos os casos, permanece o fato de que a Rússia conhece a Ucrânia muito mais e melhor que qualquer de seus rivais ocidentais.

Verdade é que a história está longe de acabar. A cena em Kiev continua tensa e confrontacional, e há muitos rumores de que Yanukovich tenha trocado a capital pró-ocidente, pelo conforto de Carcóvia, no leste do país, área de influência dos russos, e onde tem sua base de apoio.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.