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sábado, 24 de setembro de 2011

Grande Aiatolá Sayyed Ali Khamenei: Discurso na Abertura da Conferência Internacional “Despertar Islâmico”

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 Leia também: 
20/9/2011, "Khamenei lançou a luva", Mahan Abedin, ATol  
22/9/2011, "Discurso do Presidente Ahmadinejadà 66a. Sessão da ONU", Iran English Radio 
23/9/2011, "ONU: O mundo deve ser conduzido com JUSTIÇA, insiste o Irã", Telesur



Em nome de Alá, o mais Benéfico, o mais Generoso.

“Oh, você reverenciará Deus e não obedecerá os descrentes e os hipócritas. Deus é Onisciente, o mais Sábio (Santo Alcorão, 33:1 [1]). Siga o que é revelado a você por Deus. Deus está completamente ciente de tudo o que todos fazem (33:2). Deposite em Deus a sua confiança. Deus basta, como defensor” (33:3).

Damos boas vindas à honrada audiência e caros convidados. O que hoje nos reúne aqui é o Despertar Islâmico, que vem da forte inspiração e mais ampla compreensão de nossa comunidade universal islâmica [orig. ummah].

Esse despertar levou a grandes acontecimentos nas nações de nossa região, trouxe levantes e revoluções que nunca estiveram nas cogitações e cálculos das potências satânicas dominantes regionais e internacionais. São levantes impressionantes, que puseram por terra fortalezas autocráticas e imperialistas e fizeram fugir os tiranos que as defendiam.

Não há dúvidas de que levantes sociais colossais sempre têm fundamentos sólidos de história e civilização e são resultado de sabedoria e experiências acumuladas. Ao longo dos últimos 150 anos, várias destacadas personalidades intelectuais e jihadi foram líderes de opinião, ativos por trás de movimentos islâmicos no Egito, no Iraque, na Índia e em outros países na Ásia e na África, e serviram como precursores e pioneiros da situação que hoje se constata em todo o mundo islâmico.

Os acontecimentos nos anos 1950s e 60s levaram ao poder regimes mais inclinados na direção de ideologias e pensamento materialistas que, por esse seu caráter inerente, caíram na armadilha das potências imperialistas e colonialistas ocidentais. São experiências e lições das quais se deve aprender, e que contribuíram substancialmente para a evolução de uma compreensão geral e profunda em todo o mundo islâmico.

A Revolução Islâmica no Irã, que foi saudada pelo Imã Khomeini como “vitória do sangue sobre a espada”, o estabelecimento de uma república islâmica robusta, corajosa e progressista, e seu impacto no despertar islâmico que hoje vemos é, só ela, uma longa história que merece ser pesquisada, debatida e conhecida. Não há dúvidas de que a Revolução Islâmica do Irã merece, de pleno direito, capítulo longo e detalhado em qualquer análise ou reflexão consequente que se faça do momento que o mundo islâmico vive hoje.

Por essa razão, os fatos e verdades presentes e emergentes no mundo islâmico não são simples eventos sem qualquer raiz histórica, sem passado nem contexto social e intelectual, que possam ser apresentadas, por analistas sem visão, como ‘onda’ passageira ou fenômeno de vida curta, de modo a sufocar toda a esperança no coração das nações que tentam viciar com suas análises levianas e enviesadas.

Nesse diálogo fraterno com vocês, quero dar ênfase especial a três aspectos:

1. a identidade desses levantes e revoluções;
2. as grandes ameaças e riscos que há no caminho desses levantes e revoluções; e
3. recomendações para encontrar soluções e evitar essas ameaças e riscos.

Quanto ao primeiro item, creio que o elemento mais importante dessas revoluções é a presença massiva do povo na arena da ação, da luta e da Jihad. Muitos lá estiveram presentes, não só com o coração, o desejo e a fé, mas também com corpo e alma. Há enorme diferença entre essa presença massiva e a ação de um golpe militar, ou, mesmo, de combatentes armados à frente de multidões indiferentes e, mesmo, à frente a multidões comprometidas.

Nos eventos dos anos 1950s e 60s em alguns países da África e da Ásia, a carga mais pesada da revolução não pesou sobre os ombros de vários segmentos da população nem sobre os ombros da juventude de todas as partes do país. Pesou, mais, sobre os soldados de algum golpe de estado, ou sobre pequenos e limitados grupos armados. Esses decidiram e agiram e eles mesmos, ou a geração seguinte, mudaram a história, movidos por alguns tipos de motivos. Aquelas revoluções, com o tempo, converteram-se em inimigas delas mesmas; e inimigos, outra vez, voltaram ao poder em seus países.

Esse processo é totalmente diferente da mudança que venha do próprio povo. O povo saiu às ruas, corpo e alma expostos na arena da ação, e, por sua Jihad e devoção, acuou e derrotou o inimigo. Aqueles povos na rua delinearam o próprio futuro desejado, embora ainda não completamente abrangente, e, como resultado, não admitem que a revolução afaste-se da trilha, nem faça concessões ao inimigo, nem mude de curso, com concessões aos poucos ainda maculados por interesses especiais. Sobretudo, esses levantes destroçaram e inutilizaram todos os esquemas dos agentes do inimigo.

Nesse tipo de movimento de base, pode acontecer de a revolução ser mais lenta, mas consegue manter à distância os de visão mais estreita e pisa em chão mais firme. O Corão ensina: “Alá dá bom exemplo  de boa palavra, como uma boa árvore, cujas raízes prendem-se com firmeza ao chão e que lança altos, aos céus, os ramos moventes?” [14:24 (ver nota 1)]

Quando vi pela televisão o bravo corpo do orgulhoso povo do Egito na rua, na Praça Tahrir, convenci-me de que a revolução deles triunfará.

Quero fazer-lhes uma confissão. Depois da vitória da Revolução Islâmica e do estabelecimento da República Islâmica do Irã, que foi como um terremoto entre os governantes materialistas de leste e oeste, e causou júbilo sem precedentes entre as nações muçulmanas, esperávamos que, depois de nós, o Egito seria o seguinte, a levantar-se. Isso, pela história da Jihad, pelo pensamento progressista e pela presença de grandes mojahids e intelectuais no Egito. No meu coração, recitava versos de Abu Faras [2].  

Quando vi o povo do Egito na Praça Tahrir e pelas praças de outras cidades, sabia que recebera minha resposta. O povo do Egito disse a mim, diretamente, com palavras brotadas do coração [em persa, sem tradução para o inglês[3]].

Esse segredo sagrado não era senão a motivação e a decisão de levantar-se. E gradualmente o povo do Egito viu sedimentar-se o pensamento na mente e, numa conjuntura histórica, manifestou a própria decisão coletiva e foi às ruas em espetáculo magnífico do próprio poder. 

Tunísia, Iêmen, Líbia e Bahrain não foram exceções a essa regra geral.

Nessas revoluções, os princípios, valores e metas não aparecem escritos em manifestos pré-fabricados por grupos ou partidos: aparecem escritos na mente, coração e desejos de cada uma e de todas as pessoas que se apresentam à cena onde a história se faz; e são declarados no contexto, por seus slogans e atitudes.

Considerados todos esses sinais, podem-se ver e declarar que os princípios das atuais revoluções em curso na região, no Egito e em outros países são, em primeiro lugar e principalmente, os seguintes:

  • Reviver e renovar a dignidade e o respeito nacionais que foram quebrados e golpeados durante longos anos de governos ditatoriais e corruptos, e pela dominação pelos EUA e pelo ocidente.
  • Manter alta a bandeira do Islã, que é fé profunda no coração do povo, ligação de muitas gerações entre muitos povos, que oferece a muitos paz de espírito, sentido de justiça, desejo de progresso e prosperidade que não se alcançam senão sob a lei islâmica, a Xaria.
  • Resistir contra a influência e a dominação de EUA e Europa, causa da desgraça e dos mais graves danos, e da humilhação dos povos desses países, ao longo de 200 anos.
  • Opor-se ao regime de ficção, de usurpação, dos sionistas, que as potências imperialistas cravaram como adaga, funda, no coração dessa região, para usá-la como ferramenta que lhes permitisse manter a amaldiçoada dominação, depois de terem expulsado um povo inteiro, de sua terra nativa e histórica

Não há dúvidas de que as revoluções na região que se apóiam e querem fazer valer esses princípios, não agradam os EUA, a Europa e os sionistas, e que eles usarão todos os meios que encontrarem para negá-las. Mas negar as revoluções no mundo islâmico não apagará a verdade.

A ampla participação popular naquelas revoluções é o mais importante elemento da identidade delas. Potências estrangeiras que tentaram tudo que lhes foi possível, que usaram todo o poder e todos os esquemas para manter ali governantes tirânicos, corruptos e subservientes, e que só os abandonaram quando o povo não lhes deixou outra saída, não têm qualquer direito de reclamar qualquer direito de vitória, naquelas revoluções. Nem a intervenção na Líbia, por EUA e OTAN conseguirá distorcer a verdade.

Na Líbia, a OTAN já causou dano irreparável. Não fosse a intervenção militar de OTAN e EUA, a vitória do povo talvez demorasse, mas o país não teria sido destruído, a infraestrutura ainda existiria, homens, mulheres e crianças inocentes não estariam mortos. E inimigos que fossem cúmplices de Gaddafi nunca teriam conseguido chegar ao poder, naquela nação inocente, hoje destruída pela guerra.

O povo, as elites populares e outros, todos do povo, são os verdadeiros donos dessas revoluções às quais cabe proteger as próprias revoluções e traçar o caminho até o futuro.

(2) Quanto aos riscos e ameaças, devo destacar, em primeiro lugar, que, embora sejam ameaças e riscos, são também meios para construir proteção e segurança. A simples existência de ameaças não deve intimidar nenhuma nação.

“O poder de Satã é sempre fraco” [Alcorão, 4:76 (ver nota 1)] 

Alá diz a um grupo de mojahids, no início do Islã:

“Os hipócritas disseram ‘É fato, o povo uniu-se contra você, portanto, tema o povo’. Mas isso só fez aumentar neles a fé, e eles responderam: ‘Para nós, nos basta Alá. Alá é o melhor resolvedor de demandas’. E eles receberam o favor de Alá, e riquezas, e nenhuma arma os feriu. E continuaram a buscar o prazer de Alá. Alá é dono de todas as riquezas. Alá basta, como defensor” [33:1-4 (ver nota 1)].

Temos de conhecer as ameaças, para não sermos surpreendidos por elas e encontrar soluções.

Enfrentamos esses perigos e ameaças depois da vitória da Revolução Islâmica e aprendemos com eles. Graças a Alá, à liderança do Imã Khomeini e aos sacrifícios de todo nosso povo, conseguimos velejar em segurança entre esses perigos. Ainda há conspiração entre os inimigos, mas também prossegue, inabalável, a decisão do povo iraniano.

Classifico os riscos possíveis, em dois grupos: os que têm raízes dentro de nós e nascem de nossas fraquezas; e os que o inimigo planeja diretamente.

O primeiro grupo de riscos são do seguinte tipo:

A sensação e o pensamento de que, derrubado o ditador corrupto, o serviço estaria feito. A paz de espírito e o conforto que se sentem depois da vitória e depois que arrefece a motivação, e a determinação fraqueja, são os primeiros perigos. E a mais perigosa ameaça aparece quando indivíduos surgem, cobrando sua parte no espólio da vitória.

A história da Batalha de Uhud e a ambição dos defensores que buscavam sua parte no espólio da vitória levaram à derrota dos muçulmanos. E os mojahis ouviram a reprimenda de Deus. Aí está bom exemplo que não se pode jamais esquecer. Não podemos nos deixar tomar por “choque e pavor” ante os poderes arrogantes, nem podemos nos deixar tomar pelo medo dos EUA e de outras potências intervencionistas. Aí estão riscos que se têm de evitar.

Os bravos e os jovens têm de arrancar esses medos, do coração. Confiar no inimigo, deixar-se prender na armadilha dos sorrisos e promessas, eis outros perigos que líderes e comandantes têm de saber evitar. Sempre se pode identificar o inimigo, não importa o disfarce sob o qual apareça. A nação e a revolução têm de ser protegidas contra as artimanhas do inimigo, que às vezes se esconde sob a aparência de amigo, ou de gestos de apoio. O reverso dessa página é o risco da superconfiança, que leva a subestimar o inimigo. A bravura tem de andar combinada com sabedoria e juízo correto. Temos de usar todos os tesouros de Deus que temos em nós, contra Satã, al-Jinn wal–Ens [4]. 

Provocar divisões, jogar revolucionários uns contra outros e infiltrar-se por trás do campo de batalha são outros graves riscos que o inimigo pode criar e que temos de combater com todas as nossas forças.

A segunda categorias de riscos, danos, perigos, é bem conhecida de praticamente todos os países da região no curso de diferentes eventos.

Primeiro, que cheguem ao poder forças comprometidas com os EUA e o ocidente. Depois do fracasso de seus peões, o ocidente tenta defender os bastiões do sistema e as alavancas de comando do poder, e muda a direção, usando os mesmos fundamentos, mas troca os cabeças, para perpetuar a dominação. É como vermos desperdiçados todos os nossos esforços e sacrifícios. Nesse estágio, se o inimigo encontra pela frente a resistência do povo, ele tenta oferecer alternativas ao movimento e ao povo. As alternativas visam só a modificar o curso do movimento. Esse cenário prevê recomendar novos modelos de governos e de constituições que, outra vez, lançarão os países islâmicos diretamente na armadilha da dependência cultural, política e econômica do ocidente. Podem levar a abrir caminho para que aumentem sua influência entre os revolucionários, com mais força econômica e de propaganda pela mídia a favor de corrente não confiável, com a correspondente marginalização de correntes genuinamente revolucionárias. Isso implica também a volta da dominação ocidental e mais poder para modelos ocidentais já ultrapassados, muito distanciados dos princípios básicos da revolução.

Se essa tática não produz o desejado resultado, a experiência ensina que, então, o inimigo trabalhará a favor da anarquia, do terrorismo, da guerra civil, que o inimigo semeia entre crentes de diferentes crenças religiosas ou entre diferentes comunidades étnicas, tribos, partidos políticos ou, até, entre nações limítrofes e governos de países próximos. Paralelamente, o inimigo imporá medidas de sítio econômico, sanções, bloqueios, congelamento de patrimônio nacional e lançará campanha sempre muito ampla, verdadeira guerra de propaganda, pela imprensa e todos os meios disponíveis. A intenção, aí, é cansar, esgotar, frustrar o povo e desapontá-lo. Nessas circunstâncias, é sempre mais fácil derrotar qualquer revolução. Assassinato de reputações da elite de prestígio na sociedade e de líderes, difamação, demonização de todas as vozes diferenciadas e até suborno direto, são algumas das táticas que o ocidente usa mais frequentemente – como todos os que mais discursam sobre moralização da sociedade.

No Irã, temos provas, documentos que a revolução encontrou nas tocas de espionagem dos EUA, que mostram que o governo dos EUA previa recorrer a todas essas artimanhas, contra o povo do Irã, para devolver o povo do Irã, de mãos atadas, aos governos dependentes e fantoches de antes. E planos semelhantes, e idênticos truques sujos, sempre houve em todos os casos de países revolucionários.

Na parte final de meus comentários, ofereço algumas recomendações, para que examinem e considerem. Todas essas recomendações baseiam-se na experiência concreta no Irã, acrescidas de estudos e análises produzidas por revolucionários de outros países. Claro que as condições objetivas variam entre nações e países. Mesmo assim, há verdades que podem ser úteis a todos os povos.

O primeiro ponto é confiar em Deus e crer nas promessas de vitória que nos faz o Santo Alcorão, que ensina astúcia, decisão e coragem, armas que sempre nos levam a superar obstáculos e emergir vitoriosos. Claro, sim, que a tarefa dos revolucionários é sempre grave e gigantesca. Portanto, é indispensável uma extrema dedicação. O Comandante dos Fiéis, Imã Ali (‘a) diz:

“Recomendação importante é que sempre se vejam presentes na cena: quando tiverem cumprido os deveres do dia, levantem-se para orar. [“Trabalhar duro, também quando estiverem livres” (94:7, ver nota 1)]”. Considerem que Deus está sempre presente e os auxilia e socorre. E que nenhuma vitória os faça arrogantes ou negligentes. 

“Quando vem o auxílio de Alá, vem a vitória. E vê-se o povo entrar em multidão na religião de Alá (110:2, ver nota 1). Celebre as maravilhas de seu Senhor (110:4, ver nota 1)”. Esses os verdadeiros fundamentos de uma nação de crentes. 

Outra recomendação é leitura e releitura constantes dos princípios da revolução. Os slogans e os princípios têm de ser constantemente refinados e alinhados aos fundamentos e princípios indiscutíveis do Islã: independência, liberdade, justiça, recusa absoluta a curvar-se ante o despotismo e o colonialismo, rejeição de toda e qualquer discriminação por etnia, por raça ou por religião; e absoluta rejeição do sionismo – são princípios que, hoje, são centrais em todos os movimentos em países islâmicos. Todos eles são inspirados no Islã e no Santo Alcorão.

Escreva seus princípios, no papel. Preserve sua natureza genuína e o mais alto grau de sensibilidade. Não permita que seus inimigos formulem os princípios do sistema futuro pelo qual você lutou. Não deixe que os princípios islâmicos sejam sacrificados e interesses passageiros. Muitos desvios em movimentos revolucionários começam com desvios nos slogans e nos objetivos. 

Desconfie sempre dos EUA, da OTAN e de regimes criminosos como o britânico, o francês ou o italiano, que há muito tempo saqueiam os países de vocês e dividem entre eles o butim. Olhem para aqueles governos e regimes, sempre, com desconfiança. Não creiam em sorrisos e promessa. Por trás de sorrisos e promessas sempre houve conspiração e traição. Encontrem a via própria de cada país, recorrendo sempre à inspiração iluminada do Islã. E deixem que os ocupantes estrangeiros apliquem a eles mesmos as receitas que prescrevem para vocês.

Mais uma importante recomendação que lhes faço: evitem todo o tipo de disputa religiosa, étnica, racial, tribal e lutas por fronteiras. Reconheçam como legítimas as diferenças e cuidem de administrá-las. A chave da salvação é a reconciliação de todas as religiões islâmicas. Os que assopram as brasas da divisão religiosa, discriminando entre diferentes crenças religiosas são mercenários a serviço de Satã – mesmo quando o fazem sem perceber.

A tarefa principal, seminal, agora, é criar, cada país, seu próprio sistema de governo. É tarefa difícil, complexa. Não admitam que se imponham a vocês modelos seculares, liberais ocidentais, extremistas nacionalistas ou marxistas esquerdistas. 

O Bloco Oriental esquerdista já não existe. E o Bloco Ocidental se autodestrói por violência, guerra, mentiras, e nada sugere que tenha destino de glória.

O tempo corre contra eles e a favor da torrente islâmica. 

A meta final deve ser uma Ummah islâmica unificada e a criação de uma nova civilização islâmica baseada na fé, na racionalidade, no conhecimento e na moralidade.

Também é objetivo central libertar a Palestina das garras selvagens dos sionistas. Países dos Bálcãs, do Cáucaso, da Ásia ocidental libertaram-se das garras da extinta União Soviética depois de 80 anos de lutas. Por que, com 70 anos de lutas,  os palestinos não conseguiriam libertar-se eles mesmos do sionista opressor? 

A atual geração, nos países islâmicos tem capacidade para levar a bom termo essas grandes tarefas. Os jovens são, hoje, motivo de orgulho para as gerações passadas. Como escreveu o poeta árabe (...) [5]:

Confiem nas jovens gerações. Reforcem e revivam o sentimento de autoconfiança dos mais jovens e os enriqueçam com a experiência dos antigos e dos mais velhos.

Nessa conexão, há dois pontos importantes:

Primeiro, uma das principais demandas do povo que se revoltou e libertou-se, é que tenha, o povo, participação decisiva no governo de seus países. Dado que creem no Islã, querem democracia islâmica, quer dizer: governantes eleitos pelo voto do povo e por princípios e valores da sociedade inspirado no saber islâmico e na Xaria. Pode ser feito assim em vários países, conforme as condições específicas, por vários métodos e sob várias formas.

Mas é preciso a máxima atenção para não confundir a democracia islâmica e a democracia liberal ocidental. A democracia ocidental é secular e muitas vezes é antirreligiosa e nada tem a ver com a democracia islâmica que preserva valores e princípios do Islã também no sistema de governo.

O segundo ponto tem a ver com a evidência de que os princípios islâmicos não são princípios de atraso, obscurantismo, ignorância e extremismo. É indispensável demarcar claramente essas diferenças. O extremismo religioso, que prega quase sempre a via violenta, é causa, quase sempre, do fracasso dos principais objetivos de qualquer revolução. Resulta em perda do apoio popular e pode levar a revolução ao fracasso.

Em resumo, falar do Despertar Islâmico não é falar de conceito nebuloso e indistinto, inerte, que se torna presa das mais diferentes interpretações. 

Falar do Despertar Islâmico é falar de realidade tangível do mundo externo, que ocupa toda a atmosfera regional e resultou em grandes levantes e revoluções e já tirou de cena alguns perigosos representantes do inimigo. Mas a cena ainda é fluida e precisa ainda ser modelada e levada a termo. As lições que citei na abertura são conjunto completo e efetivo de diretrizes, sobretudo na conjuntura que atravessamos, sensível e dramática... 

São palavras do Santo Profeta (Que a Paz Esteja Com Ele), todos somos Seus interlocutores e responsáveis por fazer ouvir Sua lição. Naquelas lições, a piedade (taqwa), em toda sua ampla e profunda conotação, é o primeiro mandamento. Depois vêm a rejeição a tudo que digam os infiéis e os hipócritas, a adesão à revelação divina e, finalmente, crer em Deus…

Voltemos sempre àquelas lições:

“Para nós, nos basta Alá. Alá é o melhor resolvedor de demandas. Alá é dono de todas as riquezas. Alá basta, como defensor” [33:1-4 (ver nota 1)].

Que a paz, a bondade e as bênçãos de Alá os acompanhem. [6]



Notas dos tradutores

[1] Do Corão, 33:1, 2, 3. Em inglês, Quran . Em português, Corão [versão que se utilizou aqui].

[2] Nesse parágrafo, há diferenças entre as versões, em inglês, publicadas no jornal The Shia Post  e que também se lê, idêntica, na página da Embaixada do Irã no Reino Unido (em ) e em outras páginas. Seguimos, nesse ponto, a versão do discurso publicada em Imam Khamenei Full Text Message: Never Trust U.S., NATO, Criminal Regimes such as Britain, France, Italy e em Leader’s Remarks at International Conference on Islamic Awakening, que traz esses e outros versos e citações do Alcorão em persa, sem tradução. Qualquer ajuda, para traduzi-los, será bem-vinda e somos gratos, antecipadamente.

Acompanhamos, no geral, a versão publicada no jornal The Shia Post, porque ali  se oferecem transcrições e traduções, tentativas, pelo menos, de versos e de trechos citados do Alcorão, transcrições e traduções sem as quais, o discurso seria, no geral, intraduzível, por nós, para o português do Brasil. Dessas transcrições e traduções precárias, pudemos ir à edição do Alcorão em português e, pelo menos, não somamos erros a erros. É o que se pôde fazer.

Essa é uma tradução de tradução, e nada pode ser mais temerário do que traduzir nessas condições. Decidimos que valia correr o risco, dada a extraordinária importância política e histórica desse discurso do Grande Aiatolá Khamenei – que não se publicou na íntegra, em português do Brasil, em nenhum grande jornal, tanto quanto se pode ver pela Internet. Entendemos, também, que, desde que uma primeira tradução começasse a circular, todas as correções tornar-se-iam, afinal, possíveis.

[3] Ver nota 2, acima.

[4] À espera de tradução.

[5] Em persa, no original. À espera de tradução.

[6] Orig. والسلام علیکم و رحمة الله, transliterado como Waslam Alaikum Wa Rahmatullah Wa Barkathu, em todas as traduções para o inglês. Várias páginas de tradução informam que essa é fórmula extremamente formal, de benção “papal”, como se diria noutro contexto. Também aqui, todos os esclarecimentos são bem-vindos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Khamenei lançou a luva

Mahan Abedin

20/9/2011, Mahan Abedin, Asia Times Online  
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Além dos aspectos ideológicos e inspiracionais, o discurso de Khamenei, anteontem, na abertura da Conferência “Despertar Islâmico” [1] abraçou assumidamente questões estratégicas chaves como, dentre outras, a ansiedade que consome as grandes potências não-ocidentais, como Rússia e China; e também potências ainda emergentes, como Brasil e Índia, ante o que possa acontecer se aumentar a influência do ocidente no mundo muçulmano – sobretudo, é claro, depois da intervenção e ocupação militar, pela OTAN, na Líbia.

A Conferência “Despertar Islâmico”, que se realizou em Teerã no final de semana foi ocasião para que a República Islâmica do Irã expusesse sua narrativa a respeito da chamada “Primavera Árabe”. 

Participaram da Conferência centenas de intelectuais, líderes espirituais e ativistas políticos do mundo islâmico e de fora dele, recepcionados, na abertura, pelo Grande Aiatolá da Revolução Islâmica Seyed Ali Khamenei e pelo presidente Mahmud Ahmadinejad. 

O discurso do Aiatolá Khamenei na abertura da Conferência é documento muito importante, porque ali estão postas, do modo até aqui mais completo e claro, as ideias da República Islâmica sobre os levantes populares em todo o mundo árabe e sobre o projeto do Irã, para enquadrar, num paradigma revolucionário islâmico, as mudanças que estão ocorrendo. 

É importante examinar em detalhe as palavras de Khamenei, porque esse foi o mais importante de seus discursos públicos, desde junho de 2009, quando comentou, na fala das Orações da 6ª-feira, as manifestações de rua, em Teerã, depois das eleições. 

Aquele discurso, rico de mensagens sutis e complexas, foi instrumento vitalmente importante para que a República Islâmica e seus apoiadores conseguissem desarmar a infraestrutura política, intelectual e organizacional que começava a constituir-se no movimento que já aparecia em todo mundo sob o nome de “movimento Verde”. 

Antes de analisar o discurso do Grande Aiatolá Khamenei, vale a pena resumir os conceitos básicos, fundacionais, que subjazem ao atual debate. Os discursos de Khamenei ao longo dos últimos 21 anos, desde que assumiu a liderança da República Islâmica, têm sido construídos para enquadrar, delinear e expandir a compreensão e as interpretações de questões chaves – econômicas, sociais, culturais, políticas nacionais e regionais e de política exterior. 

São discursos que podem ser considerados como declaração de intenções, no que tenham a ver com pressupostos ideológicos; mas só muito raramente (se algum dia aconteceu) as ideias que aparecem pela primeira vez nos discursos do Grande Aiatolá são implementadas diretamente, sem demorada consideração a outros pontos também definidos como relevantes – como interesses pragmáticos e viabilidade. 

Na esfera da política externa, os discursos de Khamenei visam, sobretudo, a expor orientações ideológicas e metas a serem buscadas diretamente nas relações exteriores. Mas, embora o conteúdo ideológico que Khamenei acrescenta seja sempre importante elemento da concepção da política externa da República Islâmica – e ele tenha, sim, a palavra final em todas as questões relevantes de Estado –, não se pode deixar de observar que em nenhum caso a política externa iraniana pode ser definida exclusivamente em termos ideológicos. 

Não é objetivo desse artigo avaliar detalhadamente a formulação e a implementação da política exterior da República Islâmica. Basta-nos, aqui, anotar que, para entender correta e profundamente aquela política, é preciso conhecer os temas fundacionais sobre os quais se construiu a política exterior do Irã desde o início do século 19, e o quanto, daqueles temas, foram cooptados, adaptados e modificados pelo discurso da Revolução Islâmica de 1979. Outro estrato adicional de pesquisa deve dedicar-se ao estudo das instituições existentes, cuja missão é interpretar, adaptar e, afinal, implementar a simbiose resultante. 

Para nos dar condições para entender melhor o mais recente discurso de Khamenei, vale a pena examinar as raízes ideológicas e fundacionais do que pensa o Irã sobre a islamização. As ideias e o discurso da República Islâmica sobre islamização repousam sobre três fundamentos.

Primeiro e principal, no plano mais profundo da autodefinição e autoidentificação da Revolução Islâmica Iraniana, estão as raízes e a força gerativa constituinte que vêm do xiismo, mais especificamente da experiência histórica ou imaginada dos “Doze Xiitas Muçulmanos” [ing. Twelver Shi'ite Muslims] [2]. 

Segundo, nos planos intelectual e político, a Revolução Islâmica critica a modernidade ocidental, não com vistas à total rejeição, mas para destacar a divergência entre as respectivas experiências históricas, que marcam diferenças entre o campo ocidental judeu-cristão e o mundo islâmico. Resultado disso é uma crítica profunda do secularismo à maneira do ocidente, mas aceitação com restrições da democracia de estilo ocidental, considerada sempre, contudo, sem os sobretons liberais. 

Terceiro, na esfera das relações exteriores, a Revolução Islâmica adota visão e política do panislamismo e, em resumo, aspira à unidade política do mundo do Islã. 

Pode-se dizer que esse terceiro fator é o mais importante, na medida em que controla o cerne da energia da Revolução Islâmica para a esfera geopolítica e modela sua visão política e suas as políticas, em direta oposição à visão e às políticas das potências ocidentais dominantes hoje. Esse é ponto de partida importante para demarcar diferenças entre a visão islâmica iraniana e de outros casos notáveis, como, por exemplo, dos turcos, cujos islamistas “soft” [ing. no original], reunidos principalmente no Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), associam a islamização ao paradigma de democratização mais radical e desenvolvimento econômico. 

Similar ao partido AKP turco, a ala reformista da República Islâmica prioriza a democratização, o desenvolvimento da sociedade civil e a resiliência econômica, em detrimento de inovações e radicalismo na política externa. 

Mas o ponto chave que se deve considerar é que, embora os reformistas da República Islâmica tenham conseguido incorporar suas ideias e visão sobre política e sociedade civil, hoje entretecidas no próprio tecido da sociedade política e intelectual do Irã, as suas ideias sobre política externa têm sido consideradas ainda pouco claras, em termos conceituais; por isso, têm sido, em larga medida, excluídas do processo de tomada de decisões nas instituições da política exterior do Irã. 

A coordenação, no tempo, entre essa Conferência sobre o “Despertar Islâmico” e o discurso de Khamenei, também é fator importante a considerar, porque coincidem com a visita de líderes ocidentais à Líbia[3]e com o tour regional do primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan[4]– que teve seu ponto mais alto na visita ao Cairo. 

Teerã vê como ameaças esses dois eventos, embora em graus diferentes de intensidade e consequências. A visita do primeiro-ministro britânico David Cameron e do presidente Nicolas Sarkozy da França, apresentadas como visita “em triunfo” a Trípoli, está sendo interpretada em Teerã como declaração, pelas potências ocidentais, de sua intenção de intervir diretamente – inclusive intervenção militar, se necessária – nos processos políticos que estão modelando as convulsões em todo o mundo árabe; e intervenção que visará, também, a renovar e consolidar a influência política e econômica do ocidente na região. 

A passagem de Erdogan pela região, com várias paradas, está sendo interpretada em Teerã como tentativa de Ancara de, não só salvaguardar interesses chaves, econômicos e políticos da Turquia, mas, também, para divulgar “o modelo turco”, a visão que os turcos têm de uma democracia “local” com desenvolvimento econômico para a região – marcadamente diferente (mas não fundamentalmente) diferente da visão ocidental. 

A Conferência “Despertar Islâmico” em Teerã acontece também em momento em que crescem os ataques contra o Irã, por líderes ocidentais importantes, como o secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, que acusou o Irã de hipocrisia, por apoiar revoluções no mundo árabe, depois de ter reprimido movimentos de protesto no próprio país, em 2009; e por apoiar também o fragilizado regime sírio. 

Por sua vez, o Irã também acusa o ocidente de hipocrisia; chama a atenção para os laços que, por muito tempo, uniram o ocidente e líderes árabes autoritários (entre os quais o Irã inclui Muammar Gaddafi na Líbia); apoio a ditadores que, por oportunismo, o ocidente, depois, converteu em apoio à Primavera Árabe. O Irã também acusa países ocidentais de apoiarem algumas revoluções (como na Líbia) e, simultaneamente, fechar os olhos ante a repressão violenta contra manifestantes, em outros casos (como no Bahrain). 

Nesse discurso, o Grande Aiatolá Khamenei elabora sobre três fatores crucialmente importantes para que se compreenda o pensamento iraniano sobre o que se denominou “Despertar Islâmico”. A saber: raízes históricas e identidade ideológica dos movimentos árabes de protesto; perigos e ameaças que cercam esses movimentos revolucionários embrionários; e sugestões, derivadas da experiência direta da Revolução Islâmica Iraniana, para evitar e neutralizar aqueles perigos e ameaças. 

Sobre o caráter dos movimentos de protesto, Khamenei os conecta aos 150 anos de movimentos islâmicos revivalistas no mundo muçulmano. Distingue-os das mudanças políticas imediatamente pós-coloniais em países como Egito, Argélia e Líbia, que foram liderados por pequenas elites militares que apenas pressupuseram que teriam apoio popular para suas ações; e chama a atenção para a natureza de “movimento de massa” dos movimentos hoje em curso; chama atenção, também, para a evidência de que são milhões de pessoas que clamam por mudança política. No caso dos movimentos em curso, o apoio popular à mudança não é só pressuposto, mas visível a olho nu. 

Sempre em espírito de celebrar o poder dos movimentos de massa, Khamenei condena fortemente a intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia e interpreta a intervenção como flagrante tentativa, pelas grandes potências ocidentais, de alcançar posição da qual possam controlar o movimento árabe revolucionário, e conseguir dirigi-lo, de modo a que sirva aos interesses ocidentais (ideológicos, políticos e econômicos). 

Ao ligar os movimentos da Primavera Árabe aos 150 anos de luta por um renascer islâmico, Khamenei trabalha para definir os movimentos de rua no mundo árabe, hoje, como “parentes próximos” do modelo da Revolução Islâmica Iraniana. Essa modelagem ganha níveis mais densos quando Khamenei fala sobre as mais profundas aspirações dos manifestantes árabes. 

Segundo o Grande Aiatolá Khamenei, os manifestantes são arrastados por quatro aspirações principais: reviver a honra nacional, depois de décadas de governo ditatorial, caracterizado pela subserviência ao ocidente; manter alto o padrão islâmico, ao mesmo tempo em que lutam por justiça social e desenvolvimento econômicos autênticos – os quais, para Khamenei, só são possíveis sob as regras da lei islâmica, a Xaria; resistir contra a influência política e cultural dos EUA e da Europa; e para que se unam todos os países árabes, na batalha contra Israel, descrita como “regime usurpante” e “governo sionista fantoche”, implantado pelo ocidente na região na forma de um “reino Cruzado”, para expulsar todo um povo de sua terra original e histórica e manter cravado permanentemente um punhal, no corpo político da Região. 

O modo como Khamenei vê as motivações subjacentes nos movimentos populares da Primavera Árabe e, pode-se conjecturar, também sua visão dos possíveis resultados políticos, acompanham bem de perto, como sinônimos, o que a República Islâmica pensa como o principal significado de islamização: luta para recompor o mapa geopolítico da região, que prevê expulsar influências estrangeiras não buscadas ou que se tenham imposto à força – referindo-se sempre e sobretudo à massiva presença militar dos EUA no Golfo Persa. 

Khamenei relembra que imediatamente depois da vitória da Revolução Iraniana em 1979, os novos líderes revolucionários (inclusive ele próprio) esperavam que o Egito os seguisse no processo revolucionário, dado o potencial que viam naquele país para mudança revolucionária, consideradas as profundas raízes do revivalismo no Egito e os muitos grandes intelectuais e líderes islâmicos que o Egito produziu. 

Para Khamenei, o retardo do processo revolucionário no Egito explicar-se-ia pelo argumento de que, hoje, a revolução egípcia aparece “em momento adequado”. É possível que o foco específico no Egito seja casual, reforçado pelo fato de que aquele país desempenha papel central nas questões árabes e no destino comum de todos os árabes. 

Mas é mais provável que o destaque que Khamenei deu ao Egito seja expressão de alguma frustração entre os líderes iranianos, e apelo direto aos sentimentos pró-iranianos que há no vasto movimento islâmico egípcio, incorporado, sobretudo, mas não exclusivamente, na Fraternidade Muçulmana. 

Os segundo e terceiro tópicos (ameaças às revoluções árabes; e meios para enfrentar essas ameaças) refletem a experiência direta da Revolução Iraniana, com vistas à luta dos novos revolucionários contra seus inimigos internos e externos. 

Khamenei divide as ameaças presentes em duas amplas categorias: ameaças que brotam de dentro das fileiras dos revolucionários; e ameaças cuidadosamente planejadas pelos inimigos externos dos revolucionários. 

Sobre as primeiras, Khamenei alerta contra o excesso de complacência em relação aos avanços da revolução e a ambição pessoal de alguns dos aspirantes a líderes da revolução. Alerta também contra moderar demais as exigências e os objetivos da revolução, ante ameaças reais ou pressentidas e a corrupção agenciada pelas potências “arrogantes” – expressão que sempre designa os EUA e seus aliados. 

Em relação aos fatores externos, o líder iraniano identifica, como principal e mais perniciosa ameaça, a persistente tentativa, pelo Ocidente, de infiltrar-se em todos os níveis da revolução. Khamenei diz que, depois da queda “inevitável” de seus asseclas locais, o ocidente continuará a tentar manter no poder os velhos respectivos “sistemas”, para impedir que os frutos das revoluções sejam fruídos e gerem, como se deve prever que aconteça, sistemas completamente novos. 

Como conselho para superar essas ameaças, Khamenei lembra que o desvio dos movimentos revolucionários, hoje, já é visível nos slogans e objetivos declarados. E, aí, o líder iraniano lança ataque direto contra os EUA, a OTAN e os “regimes criminosos” do Reino Unido, França e Itália, os quais, diz ele, já foram potências ocupantes e de exploração nas mesmas terras às quais hoje voltam como falsos libertadores. 

Khamenei alerta contra extremistas religiosos e chama a atenção para que se identifiquem e administrem-se as diferenças religiosas no mundo islâmico. Aconselha que a islamização não se deixe acompanhar por tendências reacionárias, intolerância e chauvinismo religiosos – os quais, diz ele, podem gerar violência “cega”. 

Aí se vê expressão do medo, entre os líderes iranianos, de que um dos efeitos imediatos da instabilidade provocada pelo colapso da ordem árabe possa ser o aprofundamento de divisões sectárias na região, com escalada nos conflitos já existentes. 

Além de listar ameaças pontuais, Khamenei diz que a principal tarefa à qual os revolucionários árabes terão de dedicar-se é propor e construir novos “sistemas”, os quais, diz o líder iraniano, são a mais firme garantia contra a contaminação nos planos intelectual e político, por outros sistemas político-ideológicos, principalmente contra o secularismo, o liberalismo, o nacionalismo e as ideologias do esquerdismo ocidentais. 

Por fim, diz que a criação de uma Umma (comunidade) islâmica unificada e o florescimento de uma nova civilização islâmica baseada na “religião, na lógica, na ciência e na ética” devem ser postos como objetivos máximos dos movimentos revolucionários no mundo árabe. O destaque que Khamenei dá à unidade islâmica, como principal objetivo dos revolucionários é esforço para harmonizar, de um lado a trajetória política de longo prazo das revoluções árabes, e, de outro, a dimensão aspiracional da política exterior do Irã. 

Esse discurso de Khamenei é evento relevante e significativo e deve ser considerado, em todos os sentidos, uma declaração de intenção. Mais do que orientado para o público que o ouviu diretamente, o discurso foi dirigiu-se às instituições oficiais do governo iraniano e aos apoiadores da Revolução Islâmica na região e fora dela. O discurso é como uma aula, que instrui todo esse grande público, em termos gerais, sobre como ler e interpretar as mudanças políticas pelas quais passa o mundo árabe; para que todos possam, na sequência, calibrar cada respectivo engajamento com cada ator envolvido. 

É reação direta às declarações e ações de líderes ocidentais nas últimas semanas e visa a provocar uma escalada na guerra retórica. Khamenei quer que o mundo veja, com mais clareza e sob foco mais fechado, as profundas diferenças de paradigma que separam as revoluções em curso no mundo árabe, e a ‘resposta’ das potências “arrogantes” àquelas revoluções. 

Além dos aspectos ideológicos e inspiracionais, esse discurso de Khamenei abraçou assumidamente questões estratégicas chaves como, dentre outras, a ansiedade que consome as grandes potências não-ocidentais, como Rússia e China; e também potências ainda emergentes, como Brasil e Índia, ante o que possa vir a acontecer se aumentar a influência do ocidente no mundo muçulmano – sobretudo, é claro, depois da intervenção e ocupação militar, pela OTAN, na Líbia. 

Ao posicionar o Irã em oposição direta e declarada às ideias e planos do ocidente, Khamenei explora muito habilmente a crescente ansiedade em Moscou e Pequim e aumenta o incentivo àqueles países para que apoiem o Irã nesse conflito diplomático, político e potencialmente também militar com o ocidente. 



Notas dos tradutores
[1]  Transcrição integral (em inglês) - em processo de tradução para o português do Brasil.
[2]  Xiitas “Dozistas” [ing. Twelver Shia ou os Ithnā'ashariyyah'] são o maior ramo do islamismo xiita. A denominação deriva da doutrina que segue os ensinamentos de 12 imãs, em sequência fixada por deus, os chamados “Doze Imãs”.
[3] Ver 17/9/2011, Pepe Escobar, “Líbia: ao rei Sarkozy, o butim”.
[4] Ver, 14/9/2011, Pepe Escobar, “Turquia, na vanguarda da Primavera Árabe”.