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quinta-feira, 1 de março de 2012

Pepe Escobar: “O que está em disputa nas eleições no Irã”


2/3/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
As eleições parlamentares de amanhã, 6ª-feira, no Irã, estão longe de serem livres e justas. Mas, sim, estão um passo adiante, em matéria de eleições livres e justas, se comparadas com as eleições-zero da exemplar democracia das monarquias do Golfo Persa.

No Irã, dessa vez, o problema é que não há oposição; são conservadores contra neoconservadores.

Os líderes do Movimento Verde, Mir Hossein Mousavi e a esposa, Dra. Zahra Rahnavard, além de Mehdi Karroubi, estão em prisão domiciliar já há mais de um ano; fazendo eco ao que diz Aung Suu Kyi de Myanmar, mas falando mais claramente, os casal tem repetido que não se “arrependerá”. 

Virtualmente, todos os principais líderes da oposição, inclusive ativistas da universidade, quase 1.000 no total, estão presos; não porque sejam criminosos, mas porque são organizadores sempre competentes da ira popular.

Os grupos mais influentes da oposição foram, de fato, proscritos – o que inclui também grupos de clérigos e a Associação de Professores e Intelectuais, todos islamicamente corretos, da cidade santa de Qom. Nada menos que 42 influentes jornalistas também estão presos. 

A maioria absoluta dos jornais da imprensa pró-reformas foi fechada. Organizações não governamentais, como o Centro para a Defesa de Direitos Humanos, fundado por Shirin Ebadi, advogada e a ganhadora do Prêmio Nobel, foram também fechadas e tornadas ilegais. 

Definição sintética dessas eleições seria alguma coisa como: um esquema bizantino de partilha do poder entre grupos que representam uma elite muito pequena, enquanto fatias imensas da população – e seus representantes – são completamente excluídos. 

Essencialmente, será batalha feroz entre o Supremo Líder Aiatolá Khamenei e o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Assim sendo, por que essas eleições são tão importantes? 

Bem-vindos ao ring do Vale-Tudo Islâmico 

A luta Khamenei-Ahmadinejad é hoje uma final de vale-tudo. Na essência, é a luta entre o aiatolá e o homem com uma auréola sobre a cabeça que preparará o cenário para as futuras eleições presidenciais, em junho 2013 – quando, no melhor dos mundos, já haverá um Obama 2º, e o demônio da guerra talvez tenha sido exorcizado. 

Sempre que a imprensa-empresa ocidental preguiçosa, preconceituosa e absolutamente contrária a qualquer nuança refere-se ao Irã, só sabe falar dos “mulás”. Não, não. Há muito mais. A coisa é muito mais complexa. 

Khamenei está apostando no “evento épico” de eleição em que pelo menos 60% dos eleitores compareçam às urnas. Nada garante que compareçam; por isso, o regime não está economizando esforços. Ontem, o próprio líder cuidou de deixar bem claro o que, segundo ele, estaria em jogo:

“Graças à divina benevolência, a nação iraniana aplicará bofetada mais poderosa que nunca na face da Arrogância [dos EUA] e mostrará ao inimigo sua firmeza, para que o front da Arrogância entenda que nada conseguirá contra essa nação”. 

Mas o grande problema é o front interno, muito mais que o “front da Arrogância”. Nesse palco extremamente delicado, Khamenei precisa desesperadamente ganhar legitimidade. Precisa mostrar que está no comando, que é plenamente respeitado, que muitos iranianos ainda creem no sistema de atual República Islâmica, e que, por isso, os eleitores ignoraram a oposição, que prega boicote às eleições. 

A economia está em situação calamitosa, em parte por efeito das sanções ocidentais, mas, sobretudo, por efeito das dimensões cósmicas da corrupção e da incompetência do governo de Ahmadinejad. O grupo de Khamenei não se cansa de destacar esse ponto, sempre cuidando de manter o Supremo Líder acima de todas as misérias e culpas. 

E, sim, há também o “front da Arrogância” – a chuva ininterrupta de ameaças de ataques israelenses, norte-americanos ou ambos. Khamenei precisa de uma prova documentada – nas urnas eleitorais – de que o país está unido na resistência contra a intervenção externa. 

Também é chave nesse cenário o papel do Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC)]. Que ninguém esqueça: o Irã é hoje uma ditadura militar do mulariato. O IRGG quer muito, muito, controlar o Majlis (Parlamento) – e por razões específicas. 

Se controlarem o Parlamento, o militares do IRGC, simultaneamente, controlarão as ferramentas para declarar o impeachment do presidente Ahmadinejad (se for necessário, ou se os militares desejarem) e para eliminar presidentes eleitos pelo voto popular e reinstituir um primeiro-ministro – a ser selecionado pelo Parlamento. A posição não disfarçada do IRGC é, na essência, que precisam controlar o Parlamento, ou a “sedição” – como se viu no Movimento Verde – voltará. 

Conheça os competidores

Assim sendo, temos, de um lado, os chamados “principistas” – que chamaremos de Partido de Khamenei. São – em teoria – controlados pelo aiatolá Mohammad Reza Kani, presidente do Conselho dos Sábios. Na prática, ainda vale o que digam ex-comandantes do IRGC, tenham o poder que tenham. 

Um dos candidatos chave na lista do Partido de Khamenei é Gholam Haddad Adel, sogro do segundo filho de Khamenei, Mojtaba. Concorre a uma cadeira de deputado por Teerã. Isso significa, e é decisivamente importante, que o IRGC quer fazer da eleição em Teerã um referendo, de facto, do poder de Khamenei. É algo a observar-se bem de perto. 

Os principistas vangloriam-se de uma “Frente Unida” que, na verdade, está hoje seriamente desunida (dividida em, pelo menos, quatro grupos). Temem que a facção de Ahmadinejad manipulará a votação – através do ministério do Interior; é segredo que todos conhecem em Teerã que o pessoal de Ahmadinejad anda subornando furiosamente trabalhadores braçais e camponeses. Os principistas sabem que se Ahmadinejad ganhar o controle sobre o Parlamento, não poderá sofrer impeachment, e confrontará Khamenei cada vez mais violentamente. 

Pelo outro lado, temos algo chamado “Frente Duradoura da Revolução Islâmica”, que chamaremos de Facção de Ahmadinejad. Apresentam-se com os verdadeiros principistas – de fato, são discípulos do megarreacionário aiatolá Mesbah Yazdi. Esse, é osso duro de roer; estive várias vezes em sua Hawza [1] em Qom, mas Mesbah Yazdi não recebe jornalistas estrangeiros. 

Ahmadinejad foi cultuador empenhado de Mesbah Yazdi. Até que explodiu uma bomba teológica: Ahmadinejad começou a divulgar que teria contatos diretos com o Imã Mahdi, “O Imã Oculto” [2] – não com o Supremo Líder, em tese o representante de Mahdi sobre a Terra. Mesbah Yazdi ficou horrorizado. E passou a dizer que não é líder do partido – mas o povo não acredita nele. Se conseguirem grande número de votos no Parlamento, Mesbah Yazdi resultará ainda mais forte até entre os neoconservadores. 

Um terceiro partido ou grupo é liderado por Mohsen Rezaei, ex-comandante do IRGC entre 1981 e 1997, e atual secretário-geral do Conselho dos Experientes [orig. Expediency Council], o corpo que faz a mediação entre o Parlamento e o Conselho dos Guardiões, e aconselha Khamenei. Esse grupo não é exatamente muito popular entre conservadores e neoconservadores, embora o jogo de Rezaei seja posicionar-se como uma terceira via viável. 

Além desses, há os conservadores e neoconservadores não alinhados com nenhum dos grandes grupos; desses, um grupo maior é liderado por dois ferozes críticos de Ahmadinejad; e há, pelo menos, outros 200 grupos menores. 

Para que se tenha uma ideia da natureza tortuosa do sistema, o maior grupo apresentou como candidatos muitos atuais deputados do Parlamento, além de outros nomes. Na primeira rodada de análise dos candidatos, conduzida pelo ministério do Interior de Ahmadinejad, todos esses foram rejeitados. Mas, em seguida, o Conselho dos Guardiões decidiu que podiam candidatar-se. 

E que ninguém espere comparecimento massivo às urnas, amanhã, 6ª-feira. Em Teerã estima-se comparecimento de apenas 15% dos eleitores – talvez ainda menos. Maioria esmagadora dos alunos de universidades boicotará firmemente as eleições. 

Quem se interesse por examinar o extraordinário impacto dos desenvolvimentos posteriores às eleições de 2009 em Teerã deve ler Death to the Dictator: A Young Man Casts a Vote in Iran's 2009 Election and Pays a Devastating Price [Morte ao ditador: um jovem eleitor vota nas eleições de 2009 no Irã e paga preço devastador], de Afsaneh Moqadam (2010, Sarah Crichton Books, Farrar, Straus and Giroux [3]). 

Nas cidades pequenas e nas províncias remotas do Irã, o Líder – o “homem do povo com uma auréola sobre a cabeça” – talvez ainda seja popular. Mas ninguém, em lugar algum, sabe com certeza se a maioria dos iranianos fará alguma coisa para apoiar aqueles eleitores. 




Notas dos tradutores

[1]  Hawza é um seminário de ensino islâmico tradicional, para estudos avançados. O termo é usado principalmente nas comunidades muçulmanas xiitas, para designar um centro de estudos tradicionais, para formação e treinamento de clérigos.  
[2] Imam Mahdi (Descendent of Prophet Muhammad PBUH)  (em inglês). Sem poder entrar em detalhes da doutrina muçulmana xiita, pode-se dizer que o Imã Mahdi (“Mahdi” é um título; literalmente: “o Primeiro Guiado”) corresponde, aproximadamente, à figura de Jesus Cristo para os cristãos, e também voltará no fim dos tempos. No mesmo texto tem uma nota onde se lê: “Por favor, não confundir o Imã Mahdi com Hadhrat Isa (Jesus). São pessoas diferentes e ambos voltarão nos últimos dias. Segundo o Hadith, o Imã Mahdi aparecerá primeiro, e Jesus aparecerá durante a vida de Imã Mahdi. E só Jesus será capaz de matar Dajjal (o anticristo)”.

[3] Há resenha do livro “Death to the Dictator: A Young Man Casts a Vote in Iran's 2009 Election and Pays a Devastating Price”  no New York Times, de 16/7/2010 em “Tehran in Chains”, em que se lê avaliação bem semelhante à de Pepe Escobar. A impressão que se tem é que todos nós, algum dia – e um dia que cada dia parece estar mais assustadoramente próximo – pagaremos preço muuuuuito caro por não ter construído melhores discursos sobre a democracia representativa, sobre a religião na vida das pessoas em geral e dos iranianos em especial (porque, afinal, não têm bombas atômicas e estão ameaçados de serem varridos do planeta por Israel e EUA, que têm zilhões de bombas atômicas e, também, por sanções violentíssimas e nada democráticas), sobre o que são e fazem as “elites” letradas, os “universitários”, os “jovens”, a “mídia”, os “jornalistas”, os “liberais” em geral, e, afinal, sobre o que fazem os conservadores em geral e, claro também sobre o que parece que já não fazem os (será que ainda existem?) pensadores revolucionários, capazes de dar voz audível e compreensível aos pobres do mundo. 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Khamenei lançou a luva

Mahan Abedin

20/9/2011, Mahan Abedin, Asia Times Online  
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Além dos aspectos ideológicos e inspiracionais, o discurso de Khamenei, anteontem, na abertura da Conferência “Despertar Islâmico” [1] abraçou assumidamente questões estratégicas chaves como, dentre outras, a ansiedade que consome as grandes potências não-ocidentais, como Rússia e China; e também potências ainda emergentes, como Brasil e Índia, ante o que possa acontecer se aumentar a influência do ocidente no mundo muçulmano – sobretudo, é claro, depois da intervenção e ocupação militar, pela OTAN, na Líbia.

A Conferência “Despertar Islâmico”, que se realizou em Teerã no final de semana foi ocasião para que a República Islâmica do Irã expusesse sua narrativa a respeito da chamada “Primavera Árabe”. 

Participaram da Conferência centenas de intelectuais, líderes espirituais e ativistas políticos do mundo islâmico e de fora dele, recepcionados, na abertura, pelo Grande Aiatolá da Revolução Islâmica Seyed Ali Khamenei e pelo presidente Mahmud Ahmadinejad. 

O discurso do Aiatolá Khamenei na abertura da Conferência é documento muito importante, porque ali estão postas, do modo até aqui mais completo e claro, as ideias da República Islâmica sobre os levantes populares em todo o mundo árabe e sobre o projeto do Irã, para enquadrar, num paradigma revolucionário islâmico, as mudanças que estão ocorrendo. 

É importante examinar em detalhe as palavras de Khamenei, porque esse foi o mais importante de seus discursos públicos, desde junho de 2009, quando comentou, na fala das Orações da 6ª-feira, as manifestações de rua, em Teerã, depois das eleições. 

Aquele discurso, rico de mensagens sutis e complexas, foi instrumento vitalmente importante para que a República Islâmica e seus apoiadores conseguissem desarmar a infraestrutura política, intelectual e organizacional que começava a constituir-se no movimento que já aparecia em todo mundo sob o nome de “movimento Verde”. 

Antes de analisar o discurso do Grande Aiatolá Khamenei, vale a pena resumir os conceitos básicos, fundacionais, que subjazem ao atual debate. Os discursos de Khamenei ao longo dos últimos 21 anos, desde que assumiu a liderança da República Islâmica, têm sido construídos para enquadrar, delinear e expandir a compreensão e as interpretações de questões chaves – econômicas, sociais, culturais, políticas nacionais e regionais e de política exterior. 

São discursos que podem ser considerados como declaração de intenções, no que tenham a ver com pressupostos ideológicos; mas só muito raramente (se algum dia aconteceu) as ideias que aparecem pela primeira vez nos discursos do Grande Aiatolá são implementadas diretamente, sem demorada consideração a outros pontos também definidos como relevantes – como interesses pragmáticos e viabilidade. 

Na esfera da política externa, os discursos de Khamenei visam, sobretudo, a expor orientações ideológicas e metas a serem buscadas diretamente nas relações exteriores. Mas, embora o conteúdo ideológico que Khamenei acrescenta seja sempre importante elemento da concepção da política externa da República Islâmica – e ele tenha, sim, a palavra final em todas as questões relevantes de Estado –, não se pode deixar de observar que em nenhum caso a política externa iraniana pode ser definida exclusivamente em termos ideológicos. 

Não é objetivo desse artigo avaliar detalhadamente a formulação e a implementação da política exterior da República Islâmica. Basta-nos, aqui, anotar que, para entender correta e profundamente aquela política, é preciso conhecer os temas fundacionais sobre os quais se construiu a política exterior do Irã desde o início do século 19, e o quanto, daqueles temas, foram cooptados, adaptados e modificados pelo discurso da Revolução Islâmica de 1979. Outro estrato adicional de pesquisa deve dedicar-se ao estudo das instituições existentes, cuja missão é interpretar, adaptar e, afinal, implementar a simbiose resultante. 

Para nos dar condições para entender melhor o mais recente discurso de Khamenei, vale a pena examinar as raízes ideológicas e fundacionais do que pensa o Irã sobre a islamização. As ideias e o discurso da República Islâmica sobre islamização repousam sobre três fundamentos.

Primeiro e principal, no plano mais profundo da autodefinição e autoidentificação da Revolução Islâmica Iraniana, estão as raízes e a força gerativa constituinte que vêm do xiismo, mais especificamente da experiência histórica ou imaginada dos “Doze Xiitas Muçulmanos” [ing. Twelver Shi'ite Muslims] [2]. 

Segundo, nos planos intelectual e político, a Revolução Islâmica critica a modernidade ocidental, não com vistas à total rejeição, mas para destacar a divergência entre as respectivas experiências históricas, que marcam diferenças entre o campo ocidental judeu-cristão e o mundo islâmico. Resultado disso é uma crítica profunda do secularismo à maneira do ocidente, mas aceitação com restrições da democracia de estilo ocidental, considerada sempre, contudo, sem os sobretons liberais. 

Terceiro, na esfera das relações exteriores, a Revolução Islâmica adota visão e política do panislamismo e, em resumo, aspira à unidade política do mundo do Islã. 

Pode-se dizer que esse terceiro fator é o mais importante, na medida em que controla o cerne da energia da Revolução Islâmica para a esfera geopolítica e modela sua visão política e suas as políticas, em direta oposição à visão e às políticas das potências ocidentais dominantes hoje. Esse é ponto de partida importante para demarcar diferenças entre a visão islâmica iraniana e de outros casos notáveis, como, por exemplo, dos turcos, cujos islamistas “soft” [ing. no original], reunidos principalmente no Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), associam a islamização ao paradigma de democratização mais radical e desenvolvimento econômico. 

Similar ao partido AKP turco, a ala reformista da República Islâmica prioriza a democratização, o desenvolvimento da sociedade civil e a resiliência econômica, em detrimento de inovações e radicalismo na política externa. 

Mas o ponto chave que se deve considerar é que, embora os reformistas da República Islâmica tenham conseguido incorporar suas ideias e visão sobre política e sociedade civil, hoje entretecidas no próprio tecido da sociedade política e intelectual do Irã, as suas ideias sobre política externa têm sido consideradas ainda pouco claras, em termos conceituais; por isso, têm sido, em larga medida, excluídas do processo de tomada de decisões nas instituições da política exterior do Irã. 

A coordenação, no tempo, entre essa Conferência sobre o “Despertar Islâmico” e o discurso de Khamenei, também é fator importante a considerar, porque coincidem com a visita de líderes ocidentais à Líbia[3]e com o tour regional do primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan[4]– que teve seu ponto mais alto na visita ao Cairo. 

Teerã vê como ameaças esses dois eventos, embora em graus diferentes de intensidade e consequências. A visita do primeiro-ministro britânico David Cameron e do presidente Nicolas Sarkozy da França, apresentadas como visita “em triunfo” a Trípoli, está sendo interpretada em Teerã como declaração, pelas potências ocidentais, de sua intenção de intervir diretamente – inclusive intervenção militar, se necessária – nos processos políticos que estão modelando as convulsões em todo o mundo árabe; e intervenção que visará, também, a renovar e consolidar a influência política e econômica do ocidente na região. 

A passagem de Erdogan pela região, com várias paradas, está sendo interpretada em Teerã como tentativa de Ancara de, não só salvaguardar interesses chaves, econômicos e políticos da Turquia, mas, também, para divulgar “o modelo turco”, a visão que os turcos têm de uma democracia “local” com desenvolvimento econômico para a região – marcadamente diferente (mas não fundamentalmente) diferente da visão ocidental. 

A Conferência “Despertar Islâmico” em Teerã acontece também em momento em que crescem os ataques contra o Irã, por líderes ocidentais importantes, como o secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, que acusou o Irã de hipocrisia, por apoiar revoluções no mundo árabe, depois de ter reprimido movimentos de protesto no próprio país, em 2009; e por apoiar também o fragilizado regime sírio. 

Por sua vez, o Irã também acusa o ocidente de hipocrisia; chama a atenção para os laços que, por muito tempo, uniram o ocidente e líderes árabes autoritários (entre os quais o Irã inclui Muammar Gaddafi na Líbia); apoio a ditadores que, por oportunismo, o ocidente, depois, converteu em apoio à Primavera Árabe. O Irã também acusa países ocidentais de apoiarem algumas revoluções (como na Líbia) e, simultaneamente, fechar os olhos ante a repressão violenta contra manifestantes, em outros casos (como no Bahrain). 

Nesse discurso, o Grande Aiatolá Khamenei elabora sobre três fatores crucialmente importantes para que se compreenda o pensamento iraniano sobre o que se denominou “Despertar Islâmico”. A saber: raízes históricas e identidade ideológica dos movimentos árabes de protesto; perigos e ameaças que cercam esses movimentos revolucionários embrionários; e sugestões, derivadas da experiência direta da Revolução Islâmica Iraniana, para evitar e neutralizar aqueles perigos e ameaças. 

Sobre o caráter dos movimentos de protesto, Khamenei os conecta aos 150 anos de movimentos islâmicos revivalistas no mundo muçulmano. Distingue-os das mudanças políticas imediatamente pós-coloniais em países como Egito, Argélia e Líbia, que foram liderados por pequenas elites militares que apenas pressupuseram que teriam apoio popular para suas ações; e chama a atenção para a natureza de “movimento de massa” dos movimentos hoje em curso; chama atenção, também, para a evidência de que são milhões de pessoas que clamam por mudança política. No caso dos movimentos em curso, o apoio popular à mudança não é só pressuposto, mas visível a olho nu. 

Sempre em espírito de celebrar o poder dos movimentos de massa, Khamenei condena fortemente a intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia e interpreta a intervenção como flagrante tentativa, pelas grandes potências ocidentais, de alcançar posição da qual possam controlar o movimento árabe revolucionário, e conseguir dirigi-lo, de modo a que sirva aos interesses ocidentais (ideológicos, políticos e econômicos). 

Ao ligar os movimentos da Primavera Árabe aos 150 anos de luta por um renascer islâmico, Khamenei trabalha para definir os movimentos de rua no mundo árabe, hoje, como “parentes próximos” do modelo da Revolução Islâmica Iraniana. Essa modelagem ganha níveis mais densos quando Khamenei fala sobre as mais profundas aspirações dos manifestantes árabes. 

Segundo o Grande Aiatolá Khamenei, os manifestantes são arrastados por quatro aspirações principais: reviver a honra nacional, depois de décadas de governo ditatorial, caracterizado pela subserviência ao ocidente; manter alto o padrão islâmico, ao mesmo tempo em que lutam por justiça social e desenvolvimento econômicos autênticos – os quais, para Khamenei, só são possíveis sob as regras da lei islâmica, a Xaria; resistir contra a influência política e cultural dos EUA e da Europa; e para que se unam todos os países árabes, na batalha contra Israel, descrita como “regime usurpante” e “governo sionista fantoche”, implantado pelo ocidente na região na forma de um “reino Cruzado”, para expulsar todo um povo de sua terra original e histórica e manter cravado permanentemente um punhal, no corpo político da Região. 

O modo como Khamenei vê as motivações subjacentes nos movimentos populares da Primavera Árabe e, pode-se conjecturar, também sua visão dos possíveis resultados políticos, acompanham bem de perto, como sinônimos, o que a República Islâmica pensa como o principal significado de islamização: luta para recompor o mapa geopolítico da região, que prevê expulsar influências estrangeiras não buscadas ou que se tenham imposto à força – referindo-se sempre e sobretudo à massiva presença militar dos EUA no Golfo Persa. 

Khamenei relembra que imediatamente depois da vitória da Revolução Iraniana em 1979, os novos líderes revolucionários (inclusive ele próprio) esperavam que o Egito os seguisse no processo revolucionário, dado o potencial que viam naquele país para mudança revolucionária, consideradas as profundas raízes do revivalismo no Egito e os muitos grandes intelectuais e líderes islâmicos que o Egito produziu. 

Para Khamenei, o retardo do processo revolucionário no Egito explicar-se-ia pelo argumento de que, hoje, a revolução egípcia aparece “em momento adequado”. É possível que o foco específico no Egito seja casual, reforçado pelo fato de que aquele país desempenha papel central nas questões árabes e no destino comum de todos os árabes. 

Mas é mais provável que o destaque que Khamenei deu ao Egito seja expressão de alguma frustração entre os líderes iranianos, e apelo direto aos sentimentos pró-iranianos que há no vasto movimento islâmico egípcio, incorporado, sobretudo, mas não exclusivamente, na Fraternidade Muçulmana. 

Os segundo e terceiro tópicos (ameaças às revoluções árabes; e meios para enfrentar essas ameaças) refletem a experiência direta da Revolução Iraniana, com vistas à luta dos novos revolucionários contra seus inimigos internos e externos. 

Khamenei divide as ameaças presentes em duas amplas categorias: ameaças que brotam de dentro das fileiras dos revolucionários; e ameaças cuidadosamente planejadas pelos inimigos externos dos revolucionários. 

Sobre as primeiras, Khamenei alerta contra o excesso de complacência em relação aos avanços da revolução e a ambição pessoal de alguns dos aspirantes a líderes da revolução. Alerta também contra moderar demais as exigências e os objetivos da revolução, ante ameaças reais ou pressentidas e a corrupção agenciada pelas potências “arrogantes” – expressão que sempre designa os EUA e seus aliados. 

Em relação aos fatores externos, o líder iraniano identifica, como principal e mais perniciosa ameaça, a persistente tentativa, pelo Ocidente, de infiltrar-se em todos os níveis da revolução. Khamenei diz que, depois da queda “inevitável” de seus asseclas locais, o ocidente continuará a tentar manter no poder os velhos respectivos “sistemas”, para impedir que os frutos das revoluções sejam fruídos e gerem, como se deve prever que aconteça, sistemas completamente novos. 

Como conselho para superar essas ameaças, Khamenei lembra que o desvio dos movimentos revolucionários, hoje, já é visível nos slogans e objetivos declarados. E, aí, o líder iraniano lança ataque direto contra os EUA, a OTAN e os “regimes criminosos” do Reino Unido, França e Itália, os quais, diz ele, já foram potências ocupantes e de exploração nas mesmas terras às quais hoje voltam como falsos libertadores. 

Khamenei alerta contra extremistas religiosos e chama a atenção para que se identifiquem e administrem-se as diferenças religiosas no mundo islâmico. Aconselha que a islamização não se deixe acompanhar por tendências reacionárias, intolerância e chauvinismo religiosos – os quais, diz ele, podem gerar violência “cega”. 

Aí se vê expressão do medo, entre os líderes iranianos, de que um dos efeitos imediatos da instabilidade provocada pelo colapso da ordem árabe possa ser o aprofundamento de divisões sectárias na região, com escalada nos conflitos já existentes. 

Além de listar ameaças pontuais, Khamenei diz que a principal tarefa à qual os revolucionários árabes terão de dedicar-se é propor e construir novos “sistemas”, os quais, diz o líder iraniano, são a mais firme garantia contra a contaminação nos planos intelectual e político, por outros sistemas político-ideológicos, principalmente contra o secularismo, o liberalismo, o nacionalismo e as ideologias do esquerdismo ocidentais. 

Por fim, diz que a criação de uma Umma (comunidade) islâmica unificada e o florescimento de uma nova civilização islâmica baseada na “religião, na lógica, na ciência e na ética” devem ser postos como objetivos máximos dos movimentos revolucionários no mundo árabe. O destaque que Khamenei dá à unidade islâmica, como principal objetivo dos revolucionários é esforço para harmonizar, de um lado a trajetória política de longo prazo das revoluções árabes, e, de outro, a dimensão aspiracional da política exterior do Irã. 

Esse discurso de Khamenei é evento relevante e significativo e deve ser considerado, em todos os sentidos, uma declaração de intenção. Mais do que orientado para o público que o ouviu diretamente, o discurso foi dirigiu-se às instituições oficiais do governo iraniano e aos apoiadores da Revolução Islâmica na região e fora dela. O discurso é como uma aula, que instrui todo esse grande público, em termos gerais, sobre como ler e interpretar as mudanças políticas pelas quais passa o mundo árabe; para que todos possam, na sequência, calibrar cada respectivo engajamento com cada ator envolvido. 

É reação direta às declarações e ações de líderes ocidentais nas últimas semanas e visa a provocar uma escalada na guerra retórica. Khamenei quer que o mundo veja, com mais clareza e sob foco mais fechado, as profundas diferenças de paradigma que separam as revoluções em curso no mundo árabe, e a ‘resposta’ das potências “arrogantes” àquelas revoluções. 

Além dos aspectos ideológicos e inspiracionais, esse discurso de Khamenei abraçou assumidamente questões estratégicas chaves como, dentre outras, a ansiedade que consome as grandes potências não-ocidentais, como Rússia e China; e também potências ainda emergentes, como Brasil e Índia, ante o que possa vir a acontecer se aumentar a influência do ocidente no mundo muçulmano – sobretudo, é claro, depois da intervenção e ocupação militar, pela OTAN, na Líbia. 

Ao posicionar o Irã em oposição direta e declarada às ideias e planos do ocidente, Khamenei explora muito habilmente a crescente ansiedade em Moscou e Pequim e aumenta o incentivo àqueles países para que apoiem o Irã nesse conflito diplomático, político e potencialmente também militar com o ocidente. 



Notas dos tradutores
[1]  Transcrição integral (em inglês) - em processo de tradução para o português do Brasil.
[2]  Xiitas “Dozistas” [ing. Twelver Shia ou os Ithnā'ashariyyah'] são o maior ramo do islamismo xiita. A denominação deriva da doutrina que segue os ensinamentos de 12 imãs, em sequência fixada por deus, os chamados “Doze Imãs”.
[3] Ver 17/9/2011, Pepe Escobar, “Líbia: ao rei Sarkozy, o butim”.
[4] Ver, 14/9/2011, Pepe Escobar, “Turquia, na vanguarda da Primavera Árabe”.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Mensagem do Aiatolá Khamenei à Ummah islâmica


(sobre a queima de livros nos EUA),

13/9/2010, Press TV, Teerã

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Em nome de Deus, o Compassivo, o Generoso

“Nós lhes demos o Corão e zelaremos por Ele”, diz Deus, o Ponderado, o Sábio”

[Santo Corão, 15:9]


À grande nação iraniana, à grande Ummah islâmica.


O insulto insano, revoltante, contra o Santo Corão nos EUA, incidente que ocorreu sob a vista da polícia dos EUA, é evento dos mais trágicos que não pode ser visto apenas como ato enlouquecido de uns poucos mercenários. É ato calculado, praticado por aqueles que, há anos, mantêm em sua agenda políticas antimuçulmanos e de islamofobia e que combatem o Islã e o Corão por inúmeras vias, recorrendo sempre à propaganda e a campanhas. É mais um elo da cadeia de medidas escandalosas que começaram com as blasfêmias de Salman Rushdie, o apóstata, continuaram nas imagens desenhadas por um caricaturista dinamarquês, nas dezenas de filmes anti-islâmicos que Hollywood continua a produzir e que, agora, avançam com esse show de loucuras. Quem e o quê estão por trás desses atos do mal?


Se se analisa a cadeia de atos e movimentos, como se veem em anos de operações atrozes no Afeganistão, Iraque, Palestina, Líbano e Paquistão, não se pode deixar de ver que aí operam os think tanks do imperialismo e do sionismo, ambos com profunda influência no governo, entre os militares e nas agências de segurança dos EUA, da Grã-Bretanha e de alguns outros países europeus. São os mesmos entre os quais se devem buscar os grupos e os indivíduos responsáveis pelos ataques às torres gêmeas de 11/9. O então presidente dos EUA, criminoso, conseguiu o pretexto de que precisava para invadir o Iraque e o Afeganistão; e declarou sua Cruzada. Dizem os jornais que, ontem, aquele mesmo presidente criminoso teria declarado que, com a entrada dos grupos religiosos dos EUA na ‘guerra ao terror’, sua Cruzada realmente começara.


O objetivo desse incidente repulsivo é, simultaneamente, levar o confronto com o Islã e os muçulmanos para a população na comunidade cristã, para dar um toque de ‘religião’ e misturar o zelo e os sentimentos religiosos ao esforço de guerra dos EUA e aliados. Ao mesmo tempo, o incidente visa também a criar tumulto e agitação nas nações muçulmanas, compreensivelmente enfurecidas por essa afronta, e que, assim, tirariam os olhos e a atenção das questões e desdobramentos políticos do que se passa no mundo muçulmano e no Oriente Médio.


Esse ato de vingança e afronta não é o início, mas um passo adiante na sempre mesma história de fazer, dos muçulmanos, inimigos do ocidente. Começou com os sionistas e o governo dos EUA – para tentar fazer com que todos os líderes da hegemonia mundial se voltem contra o Islã.


O Islã é a religião da libertação humana, do homem como ser espiritual. O Corão é o Livro da compaixão, da sabedoria e da justiça.


O Islã tem muito a dizer a todos os homens e mulheres do mundo e a todas as religiões abrâmicas que se unem hoje ao lado dos muçulmanos contra as políticas e os atos anti-islâmicos. Discursos vazios ou mentirosos não bastam para absolver o governo dos EUA da acusação de comprometimento nesse movimento horrendo. Por muitos anos as palavras consideradas sagradas por milhões de muçulmanos oprimidos no Afeganistão e Paquistão, no Iraque, no Líbano e na Palestina foram insultadas, e os muçulmanos agredidos em seus direitos e em sua dignidade.


Centenas de milhares de muçulmanos foram mortos, dezenas de milhares de homens e mulheres aprisionados e torturados, milhares de crianças e mulheres muçulmanas raptadas, milhões de feridos, um número infinito de famílias aos quais se roubaram o teto, as terras, os bens – e culpados de quê?


Apesar de tudo isso, por que a mídia ocidental apresenta os muçulmanos como a violência encarnada e o Islã e o Corão, como ameaça à humanidade? Como alguém acreditaria que essa vasta conspiração seria possível sem o apoio e o envolvimento dos círculos sionistas no governo dos EUA?!


Irmãos e irmãs bem-amados, muçulmanos no Irã e em todo o mundo!


É necessário prestar atenção aos seguintes pontos:


Primeiro, esse incidente e outros semelhantes mostram que o alvo visado hoje pela hegemonia e pelo imperialismo global são as fundações do Islã e o Santo Corão. A inimizade manifesta pelos poderes arrogantes do mundo contra a República Islâmica do Irã é reação à resistência do Irã contra aqueles mesmos poderes arrogantes; a alegação daqueles poderes arrogantes de que não são inimigos de outros muçulmanos e do Islã é enorme mentira, encenação satânica. Os poderes arrogantes são inimigos do Islã, do que o Islã significa e dos que crêem no Islã.


Segundo, esses atos desprezíveis contra os muçulmanos e o Islã brotam do fato de que, há já várias décadas, o Islã brilha mais do que jamais e conquista corações e mentes no mundo muçulmano; e, mesmo no ocidente, o Islã também brilha mais do que nunca antes; brotam do fato de que a Ummah islâmica é hoje mais vigilante e determinada a libertar-se dos antolhos que lhe impuseram dois séculos de colonialismo e interferências. O insulto ao Corão e ao Grande Profeta, apesar da violência e da amargura, é prenúncio de avanços. A luz do Corão brilhará mais forte do que nunca.


Terceiro, temos todos de saber que aquele incidente nada tem a ver com os cristãos e a Igreja cristã. Não se vejam atos de marionetes, de pastores imbecilizados e mercenários, como atos dos cristãos e religiosos ocidentais. Os muçulmanos jamais cometeremos atos semelhantes àqueles, contra o que outras religiões e homens e mulheres diferentes de nós considerem sagrado. Os autores e encenadores daquele show insano visam, exatamente, a semear o conflito entre muçulmanos e cristãos e levá-los para as ruas e as televisões. O Corão nos ensina ensinamento diametralmente oposto a tudo isso.


Quarto, hoje, os protestos de todos os muçulmanos do mundo visam ao governo e aos políticos dos EUA. Se forem honestos no que dizem – que nada têm a ver com a cena ‘midiática’ orquestrada por meia dúzia de dementes –, devem punir exemplarmente os planejadores e executores desse crime de ódio que feriu os sentimentos mais profundos de 1,5 bilhões de muçulmanos em todo o planeta.


Que a paz acompanhe os que creem na paz.


Sayyed Ali Khamenei, 13/9/2010



A mensagem original, traduzida para o inglês, pode ser lida em: Leader's message on Quran desecration