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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pepe Escobar: “A Queda de uma Superpotência”

9/7/2014, [*] Pepe Escobar (pelo Facebook)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sei que não tem importância alguma. Israel está bombardeando Gaza, Kiev está bombardeando a Ucrânia do leste, o Califa anda por aí totalmente pirado, o Império do Caos joga rouba-monte. Mas, agora, tenho de desabafar.

Praia em Santo André, Bahia
Estava guardando essa foto para o momento certo. É hoje. Conheçam um paraíso tropical clássico – Santo André, na Bahia, perto do local onde o Brasil foi “descoberto” pela Europa em 1500.

O campo de treinamento dos alemães está aí, depois das árvores, à esquerda da foto.

Eu também estava aí no início da Copa do Mundo, na casa de Anna, minha amiga e anfitriã generosa. O campo de treino dos alemães – de fato, um condomínio de casas de veraneio – foi vedado e adaptado com perfeição. Mas os jogadores visitavam a vila, visitaram a escola local, dançaram com índios pataxó, andavam pela praia ao raiar do dia. E treinaram MUITO. Disciplina, compromisso, trabalho decente – e curtindo cada minuto desse apaixonante canto do paraíso. Foi aí que os já famosos/infames 7-1 da demolição do futebol brasileiro começaram.

O time do Brasil, entrementes, estrelava um convulsionante, lacrimoso (literalmente) psicodrama enlouquecido que envolveu 200 milhões de pessoas. Foi como uma telenovela abismal – NENHUM trabalho decente ou disciplina; só Plim-Plim e um doentio sentimento de posse: “é nossa” (a taça). Tinha de ser deles, porque, afinal, o principal mito nacional brasileiro ensina que “Deus é brasileiro”.

Como parábola da globalização, muito antes da Copa, o Brasil – que um dia foi superpotência futebolística – já havia sido reduzido, por níveis concêntricos de má administração, a um papel subalterno de exportador de matéria prima (jogadores de talento, por exemplo). Nem uma linha de qualquer ideia de investir no futuro; tudo sempre se tratou de lucrativos “direitos” de transmissão por televisão, reservados sempre, como privilégio, só a algumas redes.

Equipe sub-12 do DSV Leoben 
A Alemanha, por outro lado, desde que perdeu a Copa do Mundo de 2002 (para o Brasil), passou a investir em vasta rede de escolas de futebol, parte de um programa nacional de fomentar o surgimento de talentos e dar-lhes educação e formação. E de preparar técnicos.

Três horas antes do início da humilhação dos 7-1, meu barbeiro pediu-me um palpite para o jogo. “Alemanha 4 a zero”, mandei eu. Todos ficaram boquiabertos. Ora, ora... Viajei da Ásia, depois da Europa, para cobrir a Copa do Mundo aqui, como se estivesse cobrindo uma guerra. E o que de início era só desconfiança confirmou-se, quando começou a desenrolar-se o psicodrama envolvendo 200 milhões de pessoas.

Todos os sinais indicavam que “o grupo”, um bando de jovens milionários psicologicamente instáveis estava a ponto de explodir espetacularmente. Já haviam ameaçado explodir no jogo contra o Chile; depois novamente no jogo contra a Colômbia. Até que finalmente aconteceu durante 6 minutos, enquanto a Alemanha fazia quatro gols – e, aos 29 minutos, já ganhava por 5-0.

Surpresa? Não, de fato, não. O Brasil já deixou há muito tempo de jogar “jogo bonito”, depois daquele fabuloso 1970, e, depois, do mais bonito ainda, que jamais venceu coisa alguma, em 1982. Depois daquilo, o Brasil, lar do jogo bonito, virou mais um mito – um elaborado truque de marketing (com “uma mãozinha” da Nike).

E os brasileiros gostaram da autoenganação, enrolados numa grife de nacionalismo perenemente barata tipo “We Are the Champions”. Deu no que deu. A Alemanha fez a coisa certa – “jogo bonito” de verdade, com passes cintilantes, acabamento perfeito, triangulação elegantíssima, padrão Chicago Bulls dos seus dias de glória.

O time dos brasileiros entrou em colapso nervoso, antes de tudo, por razões táticas/técnicas; foi time sem meio campo, jogando contra o melhor meio de campo do planeta. Culpa dos cartolas, da Confederação Brasileira de Futebol e da “Comissão Técnica” que indicaram – bando de ignorantões arrogantes sem talento, que reproduz, igualzinho, sem tirar nem pôr, a arrogância/ignorância das elites políticas e econômicas brasileiras, velhas e novas. Assim como a polícia brasileira, bem ironicamente, desmantelou uma gangue de gente da FIFA que vendia ingressos no mercado negro no Rio de Janeiro (a Scotland Yard nem desconfiava!), mais uma vez deixaram passar a outra gangue – que enche os corredores e os gabinetes do futebol brasileiro.

Haverá infindáveis reverberações políticas sobre esses 7-1 arrasadores. Vai muito além dos endinheirados brasileiros que podem pagar ingressos a preços FIFA e, simultaneamente, desprezam a presidenta Dilma pelo que gasta para melhorar as condições de bem-estar social. Com certeza tem a ver com pagar a conta da funfest da própria FIFA (US$ 4 bilhões, sem impostos) pagos pelos locais, para nem falar da conta total (espantosíssimos US$ 13,6 bilhões).

(...)

Klose bate recorde de gols de Ronaldo em Copas do Mundo
(Brasil 1 x 7 Alemanha 8/7/2014)
A maior humilhação esportiva global na memória do mundo ESTÁ diretamente relacionada à síndrome da ignorância/arrogância das elites brasileiras e ao senso de “já ganhou”/“nunca perderá”.

Ao mesmo tempo, ninguém pode aspirar a tornar-se “superpotência” quando sua autoidentidade é construída em torno de um esporte – o futebol – comandado por escroques. Os deuses do futebol decidiram encerrar o psicodrama dos 200 milhões em campo. Lamento pelos derrotados – a maioria daqueles 200 milhões de torcedores, muitos dos quais gente boa e trabalhadora, porque foram engambelados.

O Brasil pode beneficiar-se de quantidades ilimitadas de soft Power em todo o mundo, mas vocês têm de se livrar dessa sua elite corrupta e ineficiente. Se o futebol continua a ser o único elemento que mantém coeso o país, melhor começar a pensar sério, compreender de onde brotou a humilhação, livrar-se para sempre desses salafrários autopromovidos a sumidades, mostrar muita humildade e trabalhar DE VERDADE. Examinem em detalhe o que fez a Alemanha – e vocês reencontrarão o paraíso.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Futebol, o inquantificável (por isso é tão fácil amá-lo)

9/7/2014, [*] Ian Steadman, NewStatesman, Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vitória da Alemanha sobre Brasil por 7 a 1 vista da Colômbia
Às tantas, lá pelo quarto gol, fiquei histérico. Não é exagero. Quando Toni Kroos tirou a bola de Paulinho no 25º minuto e meteu na rede, praticamente no chute inicial do jogo, passando pela zaga do Brasil imóvel como cones, como se fosse treino, fui tomado por um surto de riso incontrolável, histérico, daqueles que fazem o corpo doer. Quando a razão nos abandona, ficamos expostos ao confronto direto com o irracional, o inesperado. E nada mais irracional e inesperado que o Brasil capitular, como capitulou ontem. Quando o quinto entrou, eu saí da sala.

Minha linha do tempo da [empresa] Twitter era só linhas e linhas de pontos de exclamação !!!!!!!!!!!!!, a mais próxima que jamais vi de uma narrativa em passo de fluxo de consciência. “O-u-KÊ é iço?” “Naum, naum pode sê.” “Santo Deus.” “Poooooorra! Po-u-rra!” Pela primeira vez, senti que o Twitter não é tão imediato quanto teria de ser para acompanhar a vida real. (…).

Depois, o pessoal acalmou-se e começou a escrever gracinhas. Minha preferida dizia: “Te pego, cisne negro!” [assina “Silver”].

Silver, como sabemos, é o editor-chefe da FiveThirtyEight, página de Internet da ESPN na qual trabalham em tempo integral uma dúzia de gente especializada em construir dados para jornais e “números mastigados”. O pessoal ali estava acompanhando a Copa do Mundo da FIFA, gerando probabilidades de sucesso para cada equipe, em cada jogo.

Antes do jogo de ontem, haviam publicado que o Brasil tinha 65% de chances de derrotar a Alemanha (e se Neymar e Thiago Silva estivessem disponíveis e tivessem sido escalados, a probabilidade subia para 73%).


Hoje, já passado o jogo e conhecido o resultado, Silver escreveu uma espécie de mea culpa:

Fomos escalados para comer grama. Aquela previsão naufragou.

Previsão que naufraga, no jargão da página, é um “cisne negro”, termo introduzido por Nassim Taleb em seu livro do mesmo nome. Silver escreve:

Modelos estatísticos podem falhar nos pontos extremos de uma distribuição de probabilidades. Quase nunca há dados históricos para distinguir a probabilidade de “1 em 400”, de “1 em 4.000”, de “1 em 40 mil.

Prever o futuro baseado em dados e rankings passados, tudo muito bem, quando dá tudo certo; mas quando as coisas não dão certo, pode acontecer de elas darem muito, muito, muito errado.

A discussão de Silver sobre por que aquela predição deu errado, e o que ficou faltando, é interessante porque mostra que dados preparados para o jornalismo, e um esporte como o futebol, pouco têm a ver uns com o outro.

Quer dizer: quando não se pode quantificar cada um dos fatores relevantes para uma predição, você não apenas limita a acuidade de sua predição: você também fica limitado na capacidade para entender o quanto você está limitado.

Silver diz que as bolsas e mercados de apostas são melhores que as estatísticas oficiais na previsão do que acontece; diz também que a perda de Neymar e Silva foi o fator de mais impacto, e teve impactos diferentes; e que alguns jogadores (como o goleiro Julio Cesar) jogaram abaixo do seu desempenho padrão.

Silver absolutamente não considera um fator sobre o qual todos os “especialistas” falavam antes, durante e depois do jogo: a pressão da ocasião sobre os jogadores brasileiros, sob a perene assombração da derrota da seleção nacional na Copa do Mundo de 1950, o infame “Maracanaço”.

Maracanaço (1950)
A reputação de Silver é devida ao sucesso do trabalho dele nas análises de beisebol e análises político-eleitorais. Foi dos mais importantes defensores e divulgadores da Sabermetrics (divulgada no livro Moneyball), que divide as ações individuais de jogadores em dados estatísticas que podem ser usados por técnicos, agentes, especialistas, para aprimorar inúmeras atividades, de um modo que, antes, jamais fora possível.

(…)

Beisebol e política, é claro, não são imunes aos eventos “cisne negro” – mas eles são quase sempre bem previsíveis, pelo menos em altíssimo nível. Os jogadores de beisebol não podem realizar quaisquer ações, só algumas, que têm espaço limitado de resultados, o que torna o beisebol jogo assemelhado a outros, como o xadrez; as técnicas de amostragem são hoje tão sofisticadas, que um estatístico competente pode acabar com praticamente qualquer dúvida quanto ao resultado de uma eleição.

Não estou aqui para “demonstrar” que futebol seria “melhor” como esporte, que beisebol ou eleições, porque o futebol escapa de qualquer microscópio que se aplique a ele. Meu objetivo é declarar que amar o futebol exige que aceitemos o padecimento de nos deixar devastar até quase morrer de dor ou de êxtase, sem aviso, regularmente.

Prova disso nos dá o físico Stephen Hawking. Em maio, antes do início da Copa do Mundo da FIFA, a casa de apostas Paddy Power convidou jornalistas para o Hotel Savoy em Londres, para o lançamento do resultado de uma “pesquisa exclusiva sobre COMO A INGLATERRA PODE VENCER A COPA DO MUNDO DA FIFA (sic)”. Hawking pode ser doido – seu spot de publicidade Specsaver (vídeo no fim do parágrafo) é ridículo − e converter uma carreira de físico em apoio lucrativo à notoriedade pop não é feito do qual se orgulhar, mas fato é que, sim, ele produziu a tal pesquisa, com fatos e números.


A pesquisa está disponível e pode ser baixada e lida. É claro que Hawking não a submeteu a revisão técnica por seus pares acadêmicos – os conjuntos de dados são pequenos e não produziriam resultados estatisticamente significantes (para ficarmos só nessa etapa da crítica) – mas quis comentá-la aqui, porque absolutamente não é muito menos idiota que as previsões que FiveThirtyEight oferece sobre futebol.

Os fatores que Hawking considera em sua análise – distância da pátria ao estádio; temperatura no dia do jogo; altitude do estádio; horário do início do jogo, cor da camisa (é sério! A cor da camisa é fator determinante em muitos esportes de competição), idade dos jogadores, idade do capitão, nacionalidade do árbitro, continente de origem da equipe adversária, formação do time – todos esses são fatores que incidem sobre e influenciam o resultado de um jogo de futebol.

É nas generalizações, contudo, que se pode ver como é difícil quantificar o futebol. É claro que os jogadores terem de viajar longas distâncias para um jogo obviamente altera o quanto estejam fisicamente preparados – mas quanto altera, exatamente? Faz alguma diferença que mudem de fuso horário (da Inglaterra ao Brasil, em 2014) ou não (Inglaterra para África do Sul, em 2010)? E se alguns jogadores estiverem viajando mais que outros, porque jogam em times de outros países? Jogadores na casa dos 20 anos serão mais dinâmicos, mais rápidos, com maior aceleração inicial que jogadores na casa dos 30 anos – mas o “auge” de um jogador profissional pode ter sido alterado ao longo das décadas, com cientistas do esporte aprendendo cada vez mais como treinar o corpo humano? Um árbitro de determinado país pode ter preconceitos contra determinado time em 2014 – mas as circunstâncias geopolíticas sempre mutáveis podem alterar até os preconceitos?

É como tentar traçar, com um lápis, o perfil da própria sombra: cada movimento do braço modifica a sombra; sombras são entidades em perpétua modificação. Não há como quantificar o estado emocional da equipe brasileira em Belo Horizonte ontem, nem a atmosfera criada pela multidão, nem a significação daquele momento, nem a pressão que David Luiz deve ter sentido, ao ver-se comandante de sua equipe, pela primeira vez capitão, numa semifinal da Copa do Mundo e a sem dúvida inafastável preocupação a lhe martelar a cabeça, de que alguma coisa podia dar errado.

Mineiraço -2014 − Alemanha comemora seu 4º gol
Essa Copa do Mundo da FIFA já ficou marcada como uma das maiores, se não a maior de todos os tempos, pelos choques que gerou. É a copa do mundo das contradições. Todos os dias pelo menos um jogo desses que atropelam narrativas predeterminadas de quem “devia” ganhar, de quem “devia” marcar gols. Mesmo assim, os quatro semifinalistas são os mais absolutamente previsíveis e sempre previstos – Brasil, Alemanha, Holanda, Argentina. Mas vimos a equipe do Brasil ser trinchada e desossada pela Alemanha, mais depressa que em qualquer jogo entre um gigante e uma equipe de várzea nas eliminatórias; seria até esperável, num jogo entre Costa Rica e Itália; ou Irã e Argentina. Foi ao mesmo tempo chocante e previsível.

Surpreendi-me, dia desses, ao saber que não há sequer critério estabelecido e aceito universalmente para medir o que se chama posse de bola. O futebol – como o basquete, ou hóquei e qualquer outro esporte com tipo semelhante de liberdade pessoal de expressão – exige que aceitemos a incerteza, se o amamos. O barato é o choque.


[*] Ian Steadman - Jornalista especializado em ciências, estatística, tecnologia do NewStatesman

quinta-feira, 25 de julho de 2013

OS DEUSES DO FUTEBOL



[*] Laerte Braga 

O futebol é mágico, tem deuses próprios. Mortais. Morreu, por exemplo, Djalma Santos, o maior lateral direito da história de nosso futebol e um dos maiores da história do futebol e o Atlético Mineiro conquistou a Taça Libertadores da América nas mãos do técnico Cuca.

É preciso chamar Celso Barros, o homem da UNIMED no Fluminense e apresentá-lo a realidade, maior que a pretensão. Dispensou Cuca que havia salvo o clube do rebaixamento e chamou outro pretencioso, Muricy, para conquistar a Libertadores. Muricy saiu falando de ratos no vestiário do tricolor.

Heleno de Freitas, numa partida do Botafogo,irritou-se quando o companheiro não aproveitou um dos seus passes geniais. Mostrou a camisa, a sua era de seda, e disse – “jogamos no mesmo time”. Terminou no campo de concentração de Barbacena, durante algum tempo chamado de hospício.

Foi um deus irado.

“Deem-me Zizinho e serei campeão”. Frase de Bela Gutman aos diretores do São Paulo quando chamado a trabalhar no clube. Zizinho foi para o tricolor paulista e Bela Gutman cumpriu a palavra, 1957. Em anos antes Gentill Cardoso havia dito aos diretores do Fluminense a mesma coisa só que em relação a Ademir Menezes, outro deus do futebol. 

O São Paulo repetiu o fato anos mais tarde com Gérson e depois com Pedro Rocha.

Os dois últimos jogadores capazes de integrarem esse Olimpo foram Romário e Ronaldo o Fenômeno. Zico era um craque, mas a mídia o transformou num deus sem condições para isso, no máximo semi-deus.

Pelé perdeu a condição de Zeus depois que abriu a boca. Segundo Romário, Pelé foi o maior jogador de futebol do mundo, mas  que "calado, era um poeta". Tem o defeito de falar bobagens o tempo inteiro e servir aos seus senhores.

Didi  um dos que se assentam no trono de Zeus foi explicar a Feola e Carlos Nascimento em 1958 que não ganharíamos a Copa sem Garrincha, Pelé e Zito. Não estava criticando a Joel, ou a Dida ou a Dino Sani. Foi o contrário, perguntou a Feola e Nascimento se já haviam vistos os globe trotters jogarem basquete. E explicou que Dino era globe trotter, mas se esquecia que o gol era o objetivo.

Em 1958 deixamos aqui Maurinho, superior a Joel. Canhoteiro, superior a Pepe e Zagalo. Julinho e Evaristo Macedo porque jogavam-no futebol estrangeiro. Ou Gino, centro-avante do São Paulo e bem melhor que Mazzola.

Vem cá Celso de Barros, lembra-se desse rapaz? É o Cuca, campeão da Libertadores da América.

Lembra-se dessa arrogância? É o Muricy, invenção de Rogério Ceni para derrubar Paulo Autuori no seu mau caratismo já denunciado pela mulher de um jogador.

Mané Garrincha, talvez o deus dos deuses. Comprou um rádio de pilhas na Suécia e deu de presente a Newton Santos, o maior lateral esquerdo do mundo em todos os tempos. “Quero isso não, só fala em sueco”

Na Copa de 70 Jairzinho inventou essa mania de entrar no meio da barreira adversária e Rivelino fez a bola passar por ali, Jair caiu propositadamente na hora do chute. Rivelino assenta-se no trono de Zeus. Era um fenômeno quase no nível de Pelé e Maradona ou Messi, hoje.

Nem falo de Di Stéfano ou Puskas, para ficar só nos brasileiros. Ou Néstor Rossi quando lhe perguntaram como fazia para jogar daquele jeito – “toco e me voy”.

Quero saber onde está Amarildo, o da Rocinha. 

Nunca joguem com o time da PM, nem a guisa de treino. É a velha cavalaria de Átila, “por onde passa não medra grama”. Só coquetel Molotov.

E cuidado com Brilhante Ulstra. Joga com pau de arara, choque elétrico, bastões de basebol e tem mania de ser “patriota”, o “último refugio dos canalhas” na opinião de Samuel Johnson.

Zizinho assenta-se no trono de Zeus como um dos maiores. Gérson também. O drible formidável de Clodoaldo em quatro adversários lhe vale um trono. Pena que Pagão tenha morrido cedo, mas foi para o Olimpo.

A vitória do Atlético, mesmo nos pênaltis, como diria Nélson Rodrigues estava escrita há mil anos. O gol aos 41 minutos explica isso.
E há um trono especial para Leônidas da Silva, o Diamante Negro.

Há muito mais tronos, mas gastaríamos um dia inteiro para relacioná-los.

O drible de corpo de Tostão nos ingleses. A jogada de Pelé, no gol que não entrou, sobre o goleiro do Uruguai e o fantástico gol contra o País de Gales em 1958.
Tim, mais tarde técnico, segundo os especialistas da época, passava meses sem errar um passe

E Castilho. Reserva de Veludo no Fluminense e titular da seleção brasileira com Veludo na reserva. Mais tarde passaram a fazer revezamento. Era assombroso como goleiro.

E hoje a mídia rotula de craque qualquer perna de pau que faz um gol diferente,

É lógico, o futebol evoluiu, a questão do condicionamento físico, mas duvido que esses supermen segurassem Garrincha ou um passe de Didi, de Zizinho, de Gérson ou de Rivelino.

Nem vou falar de Dirceu Lopes. Deixa para lá, quero saber onde está o Amarildo e fora Cabral, o homem do novo AI-5.

Cabral não tem trono, tem cela.

_____________________________
[*] Laerte Braga é jornalista, trabalhou no Diário Mercantil e no Diário da Tarde de Juiz de Fora, para os Diários Associados e pela agência Meridional (primeira grande agência de notícias do Brasil) e também dos Diários e Emissoras Associadas, tendo sido correspondente do Estado de Minas de Juiz de Fora e Zona da Mata, e também trabalhou como freelancer para revistas e jornais do Brasil e de outros países. Laerte escreve sazonalmente para a redecastorphoto.


 

sábado, 13 de julho de 2013

Retirada tática: “Torcidas organizadas ausentes nos protestos no Egito e Turquia”

12/7/2013, [1] James M. Dorsey, The Turbulent World of Mid East Soccer
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
·        27/11/2011, redecastorphoto em: A praça sem chefes, ordens, capitães e hierarquias
·        2/4/2012, redecastorphoto em: Torcidas organizadas no Cairo: a Revolução dos Ultras

Ultras - Torcedores do Zamalek (Egito)
As torcidas organizadas, militantes e fortemente politizadas, que tiveram papel crucial na derrubada do presidente egípcio Hosni Mubarak, na oposição ao governo militar pós-Mubarak e no mês passado, nas manifestações de massa contra o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan são hoje a ausência mais eloquente nas dramáticas cenas no Cairo, na derrubada do presidente Mohammed Mursi e nos protestos que continuam, em menor escala, em Istambul.

Embora não tenham proibido a participação dos membros nos protestos em curso nos dois países, os torcedores organizados e muito experientes em confrontos com a Polícia, chamados “Ultras” no Egito e na Turquia, recuaram, dessa vez, ao seu enquadramento tradicional, segundo o qual não são organizações políticas. É um recuo tático, que visa a minimizar a vulnerabilidade como grupo, e a impedir que sejam politicamente “enquadrados”.

Ultras do Al-Ahly  (Egito)
Os “ultras” egípcios, um dos maiores grupamentos de cidadãos organizados do país, adotaram aquela posição no início dos 18 dias de protestos de massa em 2011 na Praça Tahrir no Cairo que levaram à renúncia de Mubarak, depois de 30 anos de governo. Ao mesmo tempo, privadamente, os líderes encorajavam os membros de torcida a assumir papel protagonista na luta pela derrubada do presidente.

Os eventos da semana passada no Egito constituem um dilema para os “ultras”, torcidas formadas por cidadãos que cobrem todo o espectro da política nacional egípcia. Os “ultras” têm e sempre tiveram antiga e profunda desconfiança contra os militares e as forças de segurança que, agora, reemergiram furiosamente nas ruas, como resultado dos protestos anti-Mursi. Muitos “ultras” opõem-se a Mursi, por suas tentativas para fazer retroceder as conquistas da revolta popular egípcia e por não ter cuidado de reformar o setor de segurança.

Como no Egito, torcidas rivais uniram-se também na Turquia, mês passado, para proteger os manifestantes e acrescentar sua voz à oposição contra Erdogan. Mas, diferentes dos egípcios, as torcidas organizadas na Turquia declararam formalmente a união, criando uma nova organização, “Unidos de Istambul” [orig. Istanbul United].

De fato, a retirada tática e o que parece ser uma volta dos grupos à configuração original, focada exclusivamente no futebol tanto no Egito como na Turquia, acontece depois de vários incidentes nos dois países, ostensivamente planejados para intimidar os torcedores e conter o ativismo político dos grupos.

Mais de 70 militantes e torcedores da equipe de futebol Al Ahli SC do Cairo morreram em fevereiro do ano passado, em incidente num estádio de futebol lotado – e fortemente impregnado de conteúdo político – em Port Said, cidade da região do Canal de Suez, em circunstâncias que, para muitos, foram planejadas para se tornarem incontroláveis e, assim, punir os “ultras” por sua oposição e ações de enfrentamento declarado contra a Polícia. Desde então, os “ultras” vêm organizando protestos em Port Said e invadido estádios, nos quais estão proibidos de entrar.

Essa semana, a Associação Egípcia de Futebol [orig. Egyptian Football Association (EFA)] cancelou o campeonato nacional por causa da volatilidade política nesses dias post-Mursi. Antes, já havia suspendido jogos da liga nacional, por razões de segurança.

Como os “ultras” egípcios, o porta-voz da torcida organizada “Carsi” – poderosa organização de torcedores do Besiktas JK de Istambul, de acentuado perfil político militante – disse que estão “devagar”, depois que 20 de seus membros foram formalmente acusados de participar de organização ilegal, depois dos protestos do mês passado no Parque Gezi.

Ultras - Torcida do Fenerbache (Turquia)
Resultado disso, a torcida “Carsi” tem negado qualquer atividade ou relacionamento com os comícios noturnos, estilo Hyde Park, que vêm acontecendo nos arredores do estádio Abbasaga Park, do Besiktas, em Istambul – um dos inúmeros fóruns públicos que estão acontecendo pela cidade. Apesar disso, sempre se veem por ali as camisas branco-e-pretas do time, em rapazes que circulam ali, organizando as discussões e as várias performances que acontecem, em que se discute o futuro do movimento de protesto, trocam-se ideias e ouve-se música.

As acusações criminais formais contra a torcida “Carsi” refletem as tentativas do governo de Erdogan para criminalizar a militância dos torcedores e dos manifestantes, num retrocesso conservador e tradicionalista, que chama a atenção, sobretudo, se comparado ao que está fazendo um defensor de Mursi, Fethullalh Gulen – imã muito popular, autoexilado, de 76 anos, que tem forte influência na mídia e em instituições do estado, na polícia e no judiciário.

Ultras - coreografia da torcida do Galatasaray
Gulen partilhou algumas das críticas de Erdogan contra os manifestantes e culpou a mídia internacional, mas, diferente do que fez o primeiro-ministro, jamais acusou os manifestantes de vandalismo ou de associação com agentes estrangeiros. Em vez disso, recomendou que seus seguidores não subestimassem os riscos dos protestos públicos e se dedicassem a entender que o movimento popular, exatamente como o governo, tampouco conseguiu encaminhar qualquer solução aproveitável para os problemas sociais. Ao mesmo tempo, Gulen tratou de dividir os manifestantes: elogiou os ambientalistas pacifistas dos primeiros dias, que defenderam as árvores do Parque Taksim; e criticou os manifestantes violentos – referência às torcidas organizadas.

A decisão da torcida “Carsi”, de se recolher, não impediu que grupos de torcedores de equipes rivais se reunissem numa manifestação no final de junho, quando 20 mil torcedores do Fenerbahce, que protestavam contra o que apresentaram como “arranjo” político do resultado de um jogo. O protesto exigia a renúncia de Erdogan e denunciava a equipe do Galatasary por alegado envolvimento no escândalo da compra de resultados: uma luta pelo controle do Fenerbahce, um importante trunfo político, no futebol turco, entre Erdogan e Gulen.

Ultras - coreografia da torcida do Besiktas
O protesto aconteceu dias depois que a UEFA, organização europeia de futebol, baniu as duas equipes rivais, Fenerbahce e Besiktas, de todos os campeonatos europeus, efeito das acusações de que teria havido compra de resultados. Os dois clubes estão apelando contra essa decisão.

Diferente do que se vira num protesto ocorrido 24 horas antes na praça em Istanbul, contra os grandiosos planos urbanos de Erdogan e seus movimentos visíveis para islamizar a sociedade turca e quando os manifestantes enfrentaram forte contingente policial, não havia nenhuma força de manutenção da ordem pública durante a marcha de torcedores do Fenerbahce pelo Bagdat Caddesi, um grande centro de compras no lado asiático de Istambul. Na véspera, policiais armados com gás lacrimogêneo e sprays de pimenta, e com suporte de um canhão de água, ocuparam a praça Taksim e cercaram os manifestantes que tentavam chegar à praça.

Menos visível foi um outro contraste, entre os dois protestos em Istambul: enquanto a torcida do Fenerbahce aparecia nos protestos com as bandeiras do time e da torcida organizada, a torcida “Carsi” não está participando das manifestações regulares na praça Taksim.

As manifestações no parque Gezi mostraram que torcidas rivais podem unir-se e trabalhar juntas. As manifestações foram um aviso a Erdogan. Mas não é só. As manifestações também deram um aviso a Gulen – disse um torcedor. 



Nota de rodapé
[1]  James M. Dorsey é Senior Fellow da S. Rajaratnam School of International Studies (RSIS), Nanyang Technological University em Cingapura, co-diretor do Institute of Fan Culture da University of Würzburg e animador do blog The Turbulent World of Middle East Soccer”.

sábado, 25 de agosto de 2012

Nelson Rodrigues, o imortal na pátria de chuteiras


Escrito e enviado por Urariano Motta*
Publicado inicialmente no sítio Vermelho

Nelson Rodrigues, que teria feito 100 anos nesta quinta feira (23) foi um craque do idioma, como Pelé e Garrincha foram da bola. Longe do “reacionário” que ficou ligado à sua imagens, ele falou ao coração do povo e uma de suas ferramentas para isso foi a crônica esportiva.

nelson rodrigues
Nelson Rodrigues

O pernambucano Nelson Rodrigues, desde o nascimento em uma sexta-feira 23 de agosto de 1912, atravessou muitas vidas e rostos. E contradições das mais diversas, entre elas até a sua origem de nascimento e natureza. Por exemplo, já aqui, escrevemos pernambucano, e nisso não vai qualquer despropósito para um escritor tido tantas vezes como carioca. Pois falam sempre de Nelson como um escritor do Rio pelos temas e formação, quando nada por haver chegado aos 4 anos à cidade do Rio de Janeiro. Vale então um brevíssimo intervalo para ouvir as suas palavras, quando respondeu a uma provocação do psicanalista Hélio Pellegrino:

O que me ficou, a primeira relação que tive com a vida, a descoberta da vida, foi através do gosto de pitanga e de caju, na praia de Olinda.

A primeira lembrança que tenho da minha passagem terrena é exatamente o gosto de pitanga e caju.

Até hoje, quando eu como estas frutas, há aquele movimento proustiano, aquele retorno profundíssimo.

Não só o gosto, mas o próprio cheiro do caju, quando passo nesses botecos onde fazem cajuada, tenho esta sensação e realmente volto à minha infância profunda...

É claro, a primeira terra-mãe que tive foi Pernambuco, a segunda foi o Rio de Janeiro. Depois, quando saí da Tijuca para Copacabana, foi realmente uma aventura fabulosa, por causa do mar. O mar significava Olinda, a minha infância profunda. Portanto o mar significava a minha pátria, minha paisagem.

Quero dizer que eu não mudei nada quando fiquei junto ao mar.

Mas isso poderia ser mero acidente de percurso biográfico, digamos assim. Ou apenas boutade, fala espirituosa no ardor de uma conversa, puro gosto do paradoxo, como era do seu estilo e feição.

Então passemos rápido, rápido como passamos rápido por uma cidade que não é nosso destino. De passagem, olhemos a referência mais ressaltada de Nelson Rodrigues até hoje, o texto dramatúrgico.

Ora, o seu teatro exigiria um estudo além da frase exterior no palco, além da paisagem, do óbvio ululante, como diria ele. Penso que o seu teatro vem de um certo e tenebroso Pernambuco. Aqueles delírios patológicos dos personagens, aqueles conflitos fundos que sobem à cena, fazem parte da repressão sexual da casa-grande de Pernambuco.

Das sinhazinhas e senhores escravocratas vêm aqueles incestos, paixões impossíveis dentro do lar mais suburbano. Aqueles devaneios à margem da sala de visitas não são bem a escolha de um escritor carioca à procura da originalidade. Vêm antes de uma herança espiritual de senhores de engenho que se espraiou pela gente do Recife.

De um ponto de vista factual e do ser, a opressão dos engenhos acompanhou a família pernambucana de Nelson Rodrigues até o Rio de Janeiro. Ou como ele próprio confessou, na entrevista a Hélio Pellegrino, do tema que lhe veio em sua primeira tentativa literária:

Na Escola Prudente de Moraes, houve um concurso de composição na aula. Era, se não me engano, o 4° ano primário, e ganhamos o concurso, eu e outro garoto. O outro garoto escreveu sobre um rajá que passeava montado num elefante e eu escrevi a história de um adultério que terminou com o marido esfaqueando a adúltera. Creio que a professora dividiu o prêmio com o outro garoto como concessão à moral vigente, porque ela ficou meio apavorada, em pânico, com a violência da minha A Vida Como Ela É... Eu era olhado pelas professoras como uma promessa de tarado.

Eu tenho uma experiência, aliás, já citei isso, a minha primeira experiência erótica é anterior à minha memória. Eu não me lembro de nada e este fato só foi referido muito posteriormente.

Um dia apareceu lá em casa uma santa senhora, vizinha, mãe de uma menina de uns quatro anos, para dizer que qualquer filho de minha mãe poderia entrar na casa dela, menos eu. O negócio teve um tal toque de inocência e de pureza que eu não me lembro de nada.

De vez em quando faço um esforço, começo a escavar na memória e não tenho a menor noção do que eu teria feito para justificar a ira da santa senhora. O meu ambiente familiar era, sob este aspecto erótico, de um grande rigor. Eu disse o meu primeiro palavrão aos doze anos de idade.

Tão breve assim não podemos encarar o gênero de fantasmas e formação de Nelson Rodrigues. Então sejamos mais rápidos ainda em outra cidade, antes do nosso destino, que nos grita desde ontem, “aqui te aguardamos”.

Fora do específico destas linhas tem que ser mencionado, pelo menos de passagem nestes seus 100 anos de nascimento, o seu declarado reacionarismo. Dele, Antonio Calado falou em uma entrevista no Pasquim em 1971: “Nelson é o grande clássico das Forças Armadas”.

É claro, os militares usaram de Nelson Rodrigues o que lhes convinha – os ditos satíricos contra as passeatas, contra Mao Tsé-Tung, contra Dom Hélder Câmara, e tudo mais que insinuasse socialismo. É claro, ainda, os militares não foram nada simpáticos à subversão do seu teatro, porque “imoral, obsceno, pornográfico”, nem à sua fecunda e criadora paixão pelo futebol brasileiro, do qual iremos nos ocupar mais adiante.

De passagem, por fim, anotemos que a vida, a vida mesma como ela é, se encarregou de jogar o escritor contra a sua sátira, quando o subversivo Nelson Rodrigues Filho foi preso e torturado. O filho do escritor que parecia ser simpático à ditadura acabou por ser condenado pelo regime a mais de 70 anos de prisão.

Em carta publicada no Jornal do Brasil em 1979, Nelson Rodrigues se dirigiu ao ditador da República, João Batista Figueiredo, num tom que misturava lirismo e cáustica ironia, conforme seu estilo. E publicou o seu pedido de anistia:

Ora, um presidente não pode passar por um amanuense. Há uma anistia. Tem que ser uma anistia histórica. O que não é possível, presidente, é que seja uma anistia pela metade. Uma anistia que seja quase anistia.

O senhor entende, presidente, que a terça parte de uma misericórdia, a décima parte de um perdão não tem sentido. Imagine o preso chegando à boca da cena para anunciar: – “Senhoras e senhores, comunico que fui quase anistiado”.

Isso posto, mal posto, já se vê, porque fomos breves, chegamos afinal a nosso porto e destino. Neste ponto, copio a frase do grande Ivan Lima, quando começava a narração do futebol nos rádios recifenses: “Abrem-se as cortinas do espetáculo”. E nós víamos pelos olhos da imaginação o estádio de futebol com essas palavras. Agora, também se abrem as cortinas do espetáculo, porque Nelson Rodrigues foi, de longe, o maior e melhor e excelso gênio da literatura de futebol no Brasil. Disse tudo? Não, disse menos. Quero dizer: o sonho de todo escritor, o de ser lido pelas massas, discutido por elas, sem cair um só milímetro da sua dignidade artística, o sonho de escrever para todos, mas sem as quedas demagógicas de baixar o nível para falar aos trabalhadores, que nem servem ao povo nem à literatura, esse possível um dia Nelson Rodrigues conseguiu. Disse tudo? Menos ainda, porque devo dizer: não conheço, na literatura mundial, alguém que tenha sido tão magnífico quanto Nelson Rodrigues na crônica esportiva.

Ao parágrafo acima poderia ser comentado: assim fala quem é muito ignorante, porque não conhece a literatura de todo o mundo e se põe a exagerar em um aniversário de 100 anos. De fato, e aqui me ponho esperto entre os mais eruditos pelo fenômeno da redução, não conheço a literatura de todo o mundo. Mas bem posso me associar a uma cultura científica, que se inscreve na experiência mais humana: ninguém precisa entrar de corpo e pés nus na superfície do Sol para concluir que ali, caramba, o Sol é muito quente. Ou de outra maneira: as luzes que vêm da sombra de um quadro de Rembrandt nos indicam, na sensibilidade curtida, que estamos diante de um cume da visão do corpo humano. Porque existe uma universalidade no conhecimento que não precisa da quantidade estatística.

Há uma excelência que absorvemos, e processamos no íntimo e nos leva a um reino de encanto que nos fazem dizer: caramba, aqui há um sol de humanidade. E como é luminoso.

Se pensam que me engano, olhem e amaciem na boca feito fruta rara o que Nelson Rodrigues fez sobre um jogo de Pelé, antes de começar a Copa do Mundo de 1958. Antes. Para não dizê-lo um profeta, devo dizer: a sensibilidade, a genial arte de um escritor descobriu e revelou um fenômeno:

Depois do jogo América x Santos seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura que o meu confrade Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: – 17 anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de 40, custo a crer que alguém possa ter 17 anos, jamais. Pois bem: – verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se “Imperador Jones”, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: – ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a de se sentir rei, da cabeça aos pés.

Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônia. Já lhe perguntaram: – “Quem é o maior meia do mundo?” Ele respondeu com a ênfase das certezas eternas: - “Eu.” Insistiram: – “Qual é o maior ponta do mundo?” E Pelé: – “Eu.” Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar.

Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: – “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”

De certa feita, foi, até, desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe, ao encalço, ferozmente, o terceiro, que, Pelé corta, sensacionalmente. Numa palavra: – sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para brilhar. Não existia uma defesa. Ou por outra: – a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo que faz de Pelé o craque imbatível.

Quero crer que a sua maior virtude seja, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés uma lambida docilidade de cadelinha.

Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete.

Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e, mesmo, insolente de que precisamos. Sim, amigos: – aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro times entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.

Abril de 1958: Pelé estreia, na Copa da Suécia, no jogo Brasil 2 x Rússia 0

Isso se deu em crônica de março de 1958. Poderia ser contraposto, retirada a previsão óbvia (como um ovo de Colombo), nada existe de magnífico na crônica que dá pela primeira vez o lugar de Rei para Pelé, antes da consagração mundial. Ela é algo assim como o primeiro nu frontal do cinema quando visto 100 anos depois. Que banal, poderia ser dito. Então avancemos mais fundo e certeiro. Tenho diante de mim o livro O Berro Impresso das Manchetes, que reúne as crônicas completas de Nelson Rodrigues na Manchete Esportiva, de 1955 a 1959. A tendência, de um leitor atento, se a gente não se cuida, é de sair grifando frases, crônicas inteiras. Se a epifania de Pelé antes do reconhecimento universal não causar espanto, olhem, mastiguem lento e com calma o que Nelson escreveu sobre Garrincha:

Nos acrobatas chineses o que existe é o esforço, é a técnica, é o virtuosismo, ao passo que Garrincha é puro instinto. Possui uma riqueza instintiva que lhe dá absoluto destaque sobre os demais. Até Deus, lá do alto, há de admirar-se e há de concluir: - “Esse Garrincha é o maior!”. O “seu” Mané não trata a bola a pontapés como fazem os outros. Não. Ele cultiva a bola, como se fosse uma orquídea rara.

Garrincha e sua “orquídea rara”

Cultivar a bola como uma orquídea rara – isso já deixou de ser futebol e penetrou na delicadeza da arte, no mesmo passo em que vemos a fina e macia pétala que se toca com a percepção da vida fugaz. Mas é uma bola. É uma crônica. Nesta altura eu me sinto um escritor absolutamente desnecessário. O que disser parecerá acento circunflexo sobre o céu azul. Pode? Ser leitor dessas crônicas é tão agradável, que nossa única transmissão possível é copiá-la em trechos, porque o tempo urgente não permite a cópia inteira, o que seria um serviço de utilidade pública e educação estética. É irresistível .

Em “O craque sem idade”: 

A bola tem um instinto clarividente e infalível que a faz encontrar e acompanhar o verdadeiro craque. Foi o que aconteceu: — a pelota não largou Zizinho, a pelota o farejava e seguia com uma fidelidade de cadelinha ao seu dono. (Sim, amigos: — há na bola uma alma de cachorra).

No fim de certo tempo, tínhamos a ilusão de que só Zizinho jogava. Deixara de ser um espetáculo de 22 homens, mais o juiz e os bandeirinhas. Zizinho triturava os outros ou, ainda, Zizinho afundava os outros numa sombra irremediável. Eis o fato: — a partida foi um show pessoal e intransferível.

Em “Vitória Fla-Flu”:

O arqueiro Calos Alberto, que chegara a encostar a mão na bola, caiu de joelhos e, assim ficou, de joelhos e atônito, por muito tempo. Dir-se-ia que o gol de Índio era um altar, diante do qual ele se prostrava.

Em “O desfigurado Fluminense”: 

A batalha definiu-se, contra o Fluminense, no primeiro minuto. Minto: nos primeiros trinta segundos, exatamente. Vejam vocês: - trinta segundos bastaram para liquidar o líder de sete dias. Mas examinemos o lance fatal.

Foi assim: - na primeira carga do Bangu, Zizinho, de fora da área, atira. Foi, sem dúvida, um tiro violento. Mas, de longe, muito longe. Que fez Castilho? Apenas isto: - apanha a bola e larga. Devia, em seguida, agarrá-la, de novo. E, no entanto, o arqueiro tricolor parou, ficou só espiando. Conclusão: veio Wilson e empurrou, docemente. Era o primeiro gol do Bangu e, ao mesmo tempo, a derrota do Fluminense.

Em “Derrota brasileira”:

Sábado, enquanto o Fluminense perdia no Pacaembu, eu assistia, no Maracanã pequeno, à luta Carlson x Leão de Portugal. E, então, o locutor do estádio, Jayme Ferreira, começou a anunciar os gols do Honved – primeiro, segundo, terceiro, quarto, cinco, meia dúzia...

E aqui, me permitam por favor um parêntese no céu azul. Nelson Rodrigues fala de jogos a que não assistiu. E o leitor, se nota, não sente a falta da presença física do repórter. Onde já se viu isso na imprensa esportiva do mundo? Ele acha pouco e na crônica da semana seguinte, sob o título genial de “A Derrota Triunfal” escreve:

O que mais admira, em nós, jornalistas, é a desenvolta irresponsabilidade com que escrevemos as nossas barbaridades. Por exemplo: a propósito do jogo Flamengo x Honved, um matutino de domingo escreve o seguinte: - “depois do segundo tento, o calor tomou conta da rapaziada magiar...” Leio isso e mergulho numa desesperada meditação. Cabem duas perguntas. Primeira – “Só fazia calor para os húngaros e para o Flamengo, não?” Segunda: - “Antes do segundo tento, fazia frio no Maracanã, nevava no Maracanã?” ...

Eu compreendo que a temporada húngara induz qualquer um a ser idiota. Façamos, porém, uma tentativa de inteligência. E, então, chegaremos à visão certa da batalha de sábado. É a seguinte: - não foi o Honved que venceu o Flamengo por 3 x 2. Foi o Flamengo que venceu o Honved por 2 x 3.

Essa crônica esportiva, de gênero que os espanhóis diriam ser esquisito, e aqui recupero pelos sentidos de muito bom e raro, esse texto de Nelson a gente absorve com um prazer e com um sorriso, que posto na face não se desgruda mais, durante as sucessivas crônicas do livro. Como é que ele conseguia escrever tão bem, no meio de uma redação barulhenta, sob os tiros de mais de 40 metralhadoras das máquinas de escrever, e nuvens de cigarros, e gritos, e piadas, e explosões de raiva e confusão? Penso que seria como fazer amor em meio às arquibancadas de um estádio durante um Fla x Flu. Vocês já veem que a gente lê Nelson Rodrigues e fica meio contaminado pelo espírito dele.

Os passes de Didi! São precisos, exatos, irretocáveis como um soneto antigo. Direi mais, se me permitem a comparação: - Didi é a mãe dos pernas-de-pau. Quantos companheiros vivem, e sobrevivem, à sua sombra? Ele não depende de ninguém e quantos dependem dele? Ao lado de Didi, o perna-de-pau já o é muito menos.

Ele – Nelson Rodrigues em seus craques - arranca graça e humor em frases que guardam sempre os mesmos recursos, imagens, mas ainda assim surpreendem. Ele na crônica escrevia, à semelhança de Garrincha, que driblava para um só lado, e todos sabiam qual, mas ainda assim eram surpreendidos. Nelson usa sempre o exagero, as expressões mais despudoradas, melodramáticas, truques de circo na hipérbole, com o maior despudor e cinismo, mas ainda assim o leitor era, é driblado, assim como os marcadores de Garrincha. Que encanto! Com a diferença que a gente é driblado, mas não se frustra, porque enche o peito da gente de felicidade.

Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das nuvens. É, de fato, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme da Brigitte Bardot, seria barrado, seria enxotado. Mas reparem: é um gênio indubitável. Digo e repito: gênio. Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão: “Como vai, colega?”.

Na verdade, mesmo sem o seu teatro, Nelson Rodrigues seria imortal, se permitem mais um acento circunflexo no mar de suas crônicas. Dele pode ser dito o mesmo que ele escreveu sobre o romancista José Lins do Rego:

Morto e, no entanto, parece mais vivo do que muitos que andam por aí, que circulam, que batem nas nossas costas e contam piadas. Não resta dúvida que ‘morrer’ significa, em última análise, um pouco de vocação. Já falei nos vivos tão pouco militantes que temos vontade de lhes enviar coroas ou de lhes atirar na cara a última pá de cal. Esses têm, sim, a vocação da morte.

Fomos, todos, enterrá-lo no chão muito doce de São João Batista. Mas é como se não existisse a mínima relação entre o funeral e Zé Lins, entre o caixão e o grande romancista.

No país das chuteiras, ninguém escreveu sobre o futebol com tanta graça e gênio quanto ele.

Descobrimos ao fim de cem anos.

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).