Mostrando postagens com marcador Gilad Shalit. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gilad Shalit. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Shalit: Israel ganha, mas de cabeça baixa

19/10/2011, M K Bhadrakumar, Asia Times Online 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Como se diz, o sucesso tem muitos padrinhos, mas o fracasso é órfão. A troca histórica de prisioneiros entre Israel e o Hamás comprova o velho adágio. Egito, Qatar, Turquia e Alemanha – todos tiveram papel importante. Mas, no fim, o sucesso ficou com Israel, que bem merece reclamá-lo para si. Por outro lado, o jogo está na metade e ninguém, por hora, pode declarar-se vencedor. 
Parentes carregam nos braços os presos políticos, alguns com mais de 20 anos de prisão 
O Hamás, na 3ª-feira, entregou a Israel o soldado Gilad Shalit, 25 anos, e obteve a liberdade para mais de mil prisioneiros palestinos, alguns deles condenados por crimes de morte. 

Para Israel, que apostou muito no resgate de um único cidadão merece louvor e Israel insistiu, com chantagem e ameaças e gritaria, para que o Hamás libertasse Shalit, capturado há cinco anos. Isso é bom e os israelenses têm bem o que festejar. O assunto está em todas as manchetes de todos os jornais em Israel. Momentos assim dão significado à existência de qualquer estado, e valem muito, sobretudo, para estado sitiado. 

Mas, à parte a sensação de júbilo, Israel ganhou também em termos mais substantivos. A política do Oriente Médio muda de fase, com a entrega de Shalit. Emergiram pelo menos seis novas grandes questões, o que caracteriza extraordinário evento geopolítico, cada uma delas significativa por si só e ainda mais significativa em combinação com as demais. 

1. Em primeiro lugar, o Egito está sendo amplamente aplaudido pelo papel que teve nas negociações da troca e, assim, está hoje no centro da política regional, de volta à tradicional liderança que sempre teve na política árabe. Surgirão daí desdobramentos imensamente importantes em termos das relações do Egito com EUA, Israel e seus vizinhos. 

Simultaneamente, o resultado da atual transição política no Egito transformou-se e tornou-se extraordinariamente importante para toda a região e fora dela. No processo, o marechal-de-campo Mohammed Hussein Tantawi pode ter consolidado sua base de poder e aumentado sua importância aos olhos das potências ocidentais, especialmente os EUA. O papel do Egito, na troca, chama a atenção para a evidência de que os EUA tiveram importante papel por trás das cortinas no “diálogo” com Tantawi sobre as intrincadas minúcias da troca e o encorajaram a prosseguir. 

2. Em segundo lugar, a Turquia também ganha uma fatia do bolo – embora menor – e dá um passo (pequeno) na direção de cobrar para si o perdido legado otomano, como potência a considerar-se, no Oriente Médio. Segundo os jornais, a Turquia teve papel ativo nas consultas entre Israel e o Hamás, dentre outros. 

No processo, a Turquia pode ter dado o primeiro passo na direção de descongelar as relações com Israel. Por outro lado, mostrou que tem influência também junto ao Hamás – o que a pode pôr em posição de contribuir, pelo menos um pouco, num futuro acordo para o Oriente Médio. 

3. Em terceiro lugar, Qatar e Síria também tiveram atuação importante para que a troca se consumasse. Esses dois países receberão a maior parte dos prisioneiros palestinos que estão saindo das prisões israelenses. O Qatar segue, triunfante, a marcha na direção de fazer aumentar o seu peso na política regional. 

Já na Líbia, o Qatar pareceu ter alcançado status de fazedor de reis; agora, já aspira a direitos de peso pesado no primeiro círculo da política do Oriente Médio, completamente tomado pelo problema das relações entre palestinos e Israel. Sem dúvida, o Qatar emergiu como um dos atores mais valiosos para as potências ocidentais no tabuleiro do Oriente Médio. É jogador de características únicas: é peão e torre, ao mesmo tempo. 

Do mesmo modo, Damasco também comprovou que sempre se pode contar com ela como fator de estabilidade regional. O líder do Hamás, Khalid Meshaal, vive em Damasco. A Síria, com certeza sabia das idas e vindas e não só contribuiu para o pragmatismo do Hamás como, possivelmente, o encorajou. Israel não deixará de ver o papel da Síria na troca de prisioneiros, aspecto que tem sido deixado de lado, no projeto de “mudança de regime” em Damasco. 

4. Em quarto lugar, salta aos olhos a evidência de que nem EUA nem Arábia Saudita nem Irã aparecem entre os protagonistas da troca de prisioneiros. E eram vistos como atores chaves na política regional. O fato de os países da região terem organizado iniciativa de tal magnitude, com os EUA, no máximo, trabalhando nas sombras, traz, só ele, importante mensagem. 

Arábia Saudita e Irã só puderam, de fato, dar os parabéns aos protagonistas palestinos, e depois de a troca estar feita. Não há notícia de que tenham tido participação na coreografia do evento; a contribuição desses dois países limitou-se à concordância com os termos já definidos da troca. 

5. Em quinto lugar, o Hamás ganhou incomensuravelmente, em estatura. Negociou diretamente com grande número de países, especialmente com a Alemanha, o que faz crescer muito a sua imagem internacional[1] e lhe dá ainda maior legitimidade entre os palestinos. O mais crucialmente significativo é que o Hamás negociou e acertou a troca com o seu pior inimigo. 

Já é mais que hora de o Hamás ocupar o lugar que lhe cabe como voz legítima dos palestinos ao lado do Fatah – se não mais influente que o Fatah. Na prática, o Hamás impôs-se como ator forte e persistente, em qualquer acordo para resolver o problema palestino. A popularidade que o Hamás havia perdido, está hoje mais do que recomposta, e crescendo. 

6. Em sexto e último lugar, Israel venceu, mas de cabeça baixa. Conseguiu “reengajar” a vizinhança árabe, especialmente o Egito. Do outro lado da fronteira, Israel está quebrando o agudo isolamento regional em que ficou, desde o início da Primavera Árabe. As coisas devem melhorar, doravante, com Ancara, onde já há um sentimento nascente de que o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan talvez tenha levado um pouco longe demais a “inimizade” com Israel, se se consideram os interesses turcos de longo prazo. 

Mas, para Israel, o mais precioso ganho é estar de volta aos negócios com o Egito, o único vizinho árabe sem o qual Israel simplesmente não vive. As relações entre Egito e Israel estavam deteriorando muito rapidamente e o que se dizia era que as coisas poderiam piorar – talvez, piorar muito – antes de poderem começar a melhorar. Pelo menos, do ponto de vista de Israel, o desastre em andamento foi contido, e Israel respirará aliviada, vendo o Egito retomar seu papel tradicional, no relacionamento entre os dois países. 

Também aqui, é só um começo. O Egito mostrou que tem vontade e capacidade para desempenhar papel de liderança, do qual abdicou, há três décadas, depois do acordo de paz de Camp David. O Egito se sentirá induzido a assumir maiores responsabilidades na segurança e na estabilidade regionais. 

Israel com certeza estimulará essas tendências. Egito e Alemanha foram os dois únicos países aos quais o presidente Shimon Peres e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fizeram referência, elogiados por terem possibilitado que a troca fosse feita sem incidentes. Antes, Israel já apresentara desculpas formais ao Egito, pela morte de soldados da segurança egípcia no Sinai – desculpas que os israelenses negaram obstinadamente à Turquia, no caso dos militantes mortos na abordagem da Flotilha Free Freedom, que viajava para Gaza no ano passado. 

O mais importante é que a troca suspende momentaneamente o continuado declínio da imagem de Israel no mundo nos últimos meses. Ao que parece, os levantes no Oriente Médio deixaram Israel sem saber o que fazer para prosseguir. Era visível que a bússola sionista não funcionava bem. 

A troca, na qual Israel concordou em libertar 1.027 palestinos por um único israelense é um modo de reparar a imagem manchada de Israel. Sim, Netanyahu agiu sob a imensa pressão do isolamento em que Israel estava na comunidade mundial. Mas também mostrou que pode vir a ser parceiro sério em futuras negociações. 

Seja como for, a euforia pela volta de Shalit não durará para sempre. As duras realidades começarão a aparecer. Há várias outras importantes decisões que Netanyahu terá de tomar imediatamente, se quiser que os atuais bons resultados se mantenham. 

Uma dessas decisões pode ser levantar imediatamente o bloqueio contra Gaza. De positivo, hoje, que as tensões diminuíram. Mas voltarão a subir, se nada mais for feito.



Nota dos tradutores

[1] Prova disso é que até o Jornal Nacional, da Rede Globo – que é o pior noticiário do mundo! – mostrou Khaled Meshall, dia 11/10, como se vê em: Israel e grupo palestino Hamas anunciam acordo para libertar soldado sequestrado. Mas as imagens hoje acessíveis por internet, no endereço acima não são as mesmas que foram ao ar. Nas imagens que foram ao ar, Khaled Meshall aparece numa conferência de imprensa, cercado por um oceano de microfones e câmeras de todo o mundo. Aparentemente, os jornalistas que editam o Jornal Nacional entenderam que aquelas imagens mostravam algum “excesso de realidade”, que a Rede Globo censurou imediatamente. 

Embaixador *MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Asia Online. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

domingo, 16 de outubro de 2011

Prisioneiros palestinos em Israel: a “Guerra das Barrigas Vazias”

16/10/2011, Saleh Al-Naami, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzidopelo Coletivo da Vila Vudu

No silêncio geral, o som da queda de Jamal Hassan em sua cela na Prisão Shatta em Israel soou muito alto, na tarde da 6ª-feira. Quando os guardas abriram a cela, encontraram-no caído, com sangue na cabeça e inconsciente. Jamal foi levado a um hospital próximo. 31 anos, Jamal é um das centenas de prisioneiros palestinos que há nas prisões de Israel que, há 18 dias iniciaram greve de fome para protestar contra as terríveis condições a que são submetidos todos os prisioneiros. Entre outras medidas punitivas, inclui-se uma longa série de procedimentos ordenados recentemente pelo gabinete de Binyamin Netanyahu, como tentativa para pressionar o Hamás a apressar a troca de prisioneiros e desistir de suas exigências para devolver o soldado Gilad Shalit, capturado em combate (não “sequestrado”, como dizem os jornais ‘livres’).

Estudante palestino passa por mural representando o soldado capturado em combate, Gilad Shalid, em Jabalya ao norte da Faixa de Gaza
Hassan, que cumpre prisão perpétua, não resistiu à desnutrição, à sede e ao confinamento em solitária. As autoridades de Israel não estão distribuindo informações sobre seu estado de saúde, enquanto fontes palestinas dizem que os israelenses estão ocultando o fato de que transferiram grande número de prisioneiros palestinos para hospitais, preocupados com a possibilidade de que notícias sobre as condições dos palestinos nas prisões israelenses desencadeie reação de indignação entre a população palestina.

Entre as medidas punitivas ordenadas por Netanyaju contra prisioneiros palestinos estão a transferência dos principais líderes para celas (de fato, são jaulas) solitárias que medem 1mx1m e 50cm de altura, onde têm de dormir, comer e fazer suas necessidades. Os israelenses também limitam os tipos de alimento servido aos prisioneiros, impedem-nos de deixar as celas e aumentaram o número de revistas (os prisioneiros são obrigados a despir-se, sob o pretexto de que poderiam esconder armas). Os prisioneiros estão sendo torturados por esquadrões especialmente treinados para tortura.

Fontes disseram a Al-Ahram Weekly que Israel está usando uma tática de ‘porrete e cenoura’ com os prisioneiros mais importantes, aumentando a tortura e os maus tratos e, simultaneamente, facilitando o contato entre eles e o Hamás, tentando fazê-los pressionar o Hamás para que reduza as exigências para devolver Shalit, em troca de melhor tratamento aos prisioneiros.

Líderes dos prisioneiros palestinos disseram que os guardas da polícia política israelense têm treinameno especial e são excepcionalmente brutais com os detentos, porque os líderes mais destacados não apenas não aceitaram o que lhes oferecem as autoridades da prisão, como, também, exigiram que o Hamás não ceda em nenhuma das exigências que fez para devolver o soldado israelense capturado em combate. Entre as exigências do Hamás estão a libertação de todos os prisioneiros condenados a penas perpétuas, além de todas as mulheres, todas as crianças e todos os doentes.

Essa ação dos líderes presos fez aumentar ainda mais a agressão aos prisioneiros. Os que estão em greve de fome só estavam ingerindo água salgada, mas, agora, as autoridades israelenses proibiram o sal nas prisões. Os prisioneiros não recebem roupas para trocar e são obrigados a cobrir-se com trapos sujos, mais uma tática de tortura, para pressioná-los psicologicamente.

Em resposta, os prisioneiros palestinos têm-se recusado a usar os uniformes distribuídos nas prisões, não saem das celas quando são convocadas as revistas gerais e interromperam qualquer contato com a administração das prisões. Os prisioneiros palestinos chamam sua luta contra a violência do estado judeu de “Guerra das Barrigas Vazias”.

Líderes de prisioneiros dizem que respondem à política de violência e opressão do estado judeu, resistindo à fome, à sede e ao confinamento em celas solitárias. Dizem que, se nem assim o estado judeu suspender as medidas ilegais e desumanas contra os prisioneiros palestinos, manterão até a morte a atual greve de fome.

Fontes disseram a nossos jornalistas que os líderes dos prisioneiros palestinos adiaram o anúncio da greve de fome, para que não coincidisse com a missão dos palestinos à ONU pelo reconhecimento do estado da Palestina. Temiam que sua luta tivesse efeito negativo com vistas àquele objetivo. As fontes dizem que as novas medidas excepcionalmente violentas contra os líderes políticos presos, e a decisão do estado judeu de expandir o confinamento em celas solitárias convenceu os prisioneiros a iniciar imediatamente a greve de fome.

As mesmas fontes disseram a esse jornal que os primeiros a iniciar greve de fome foram Ahmed Saadat, secretário-geral da Frente Popular [ing. Popular Front for the Liberation of Palestine (PFLP)], e Jamal Abu Al-Heja, destacado membro do Hamás, ambos cumprindo pena de prisão perpétua. Há três anos, ambos foram postos em celas especiais, sem qualquer contato com o mundo exterior. As fontes dizem que Saadat e Al-Heja distribuíram mensagem na 5ª-feira, destacando a importância de a greve de fome ser mantida até que as forças de ocupação israelenses aceitem todas as exigências dos prisioneiros palestinos, inclusive o fim do confinamento em celas solitárias.

As mesmas fontes acrescentaram que as autoridades da prisão isolam qualquer prisioneiro que entre em greve de fome e, depois, formam comissões para negociar com o prisioneiro o fim do jejum. Há informes também de que as autoridades israelenses foram surpreendidas pelo fato de que todos os prisioneiros palestinos, em várias prisões, apresentaram exatamente as mesmas exigências. O grupo ADDAMEER – associação para defesa de direitos humanos e apoio a prisioneiros – disse que, agora, as autoridades prisionais em Israel começaram a promover sessões coletivas de espancamento e tortura, na tentativa de abalar a moral dos presos.

O ministro palestino para Prisioneiros Detidos e Libertados, Eissa Qaraqa, disse que “a Guerra das Barrigas Vazias visa a ala mais extremista do governo direitista de Netanyahu e a Autoridade Prisional de Israel. Qaraqa disse que a luta continuará até que todas as exigências dos prisioneiros sejam atendidas. “Se a força ocupante não suspender as medidas de tortura, a luta contra a ocupação não mais poderá ser contida dentro dos muros das prisões de Israel” – disse ele. – “E chegará à rua palestina”. 

Os palestinos têm organizado dezenas de manifestações de protesto em solidariedade com os familiares presos em Israel, e vários palestinos também já iniciaram greve de fome em apoio aos prisioneiros. Representantes de todos os grupos políticos palestinos montaram tendas à frente das instalações da Cruz Vermelha, para manifestar solidariedade com os prisioneiros.

Sherine Iraqi, advogada do Ministério Palestino para Prisioneiros, disse que os detentos com os quais teve contato levavam algemas nos pulsos e nos tornozelos e que, na prisão de Shatta, são revistados despidos sempre que são levados de uma parte a outra da prisão. Iraqi disse também que já são críticas as condições de saúde de vários dos prisioneiros em greve de fome.

O Hamás convocou seus grupos de resistência a aumentar as ações contra a ocupação israelense, como resposta ao que descreveu como “crimes contra prisioneiros”.

“Cercados pelo silêncio omisso da comunidade internacional e pela fraqueza de árabes e islâmicos, defenderemos nós mesmos os prisioneiros palestinos que estão sendo sacrificados nas prisões de Israel e continuaremos a resistir contra a ocupação, em todos os lugares” – disse Khalil Al-Hayya, importante figura do Hamás, em enorme marcha organizada pelo Hamás em Gaza, na tarde de 6ª-feira, de solidariedade com o movimento dos prisioneiros. “Não descansaremos até termos libertado todos os nossos companheiros que hoje sofrem nas jaulas da ocupação”.

Al-Hayya disse que só a resistência, em todas as suas modalidades, conseguirá salvar os cidadãos prisioneiros, proteger os cidadãos livres, salvaguardar a dignidade de todos e defender os homens e mulheres e crianças cuja dignidade, direito à vida e propriedades são violados pela ocupação israelense. “Em resposta à arrogância da ocupação, que viola direitos humanos básicos de nossos companheiros, manteremos nossa resistência e faremos processar todos os israelenses culpados de crimes de guerra. Mais cedo ou mais tarde, todos eles pagarão por seus crimes” – disse Al-Hayya.

O Hamás considera Israel responsável pela vida dos 7.000 prisioneiros que estão em greve de fome na “Guerra das Barrigas Vazias”, e convocou o povo palestino a cerrar fileiras e unir-se na defesa dos prisioneiros. Al-Hayya também convocou os povos livres do mundo e todos os cidadãos árabes a dar prioridade à luta para salvar os prisioneiros palestinos torturados nas prisões israelenses – “para que Israel saiba que os prisioneiros palestinos não estão sozinhos”.

Milhares de prisioneiros palestinos enfrentam hoje a violência da máquina israelense de opressão. Contam com os palestinos da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e da Diáspora, que não os podem abandonar ao próprio destino. Contam também com que a consciência do mundo acabará por despertar e ver, afinal, esse sofrimento inadmissível.

terça-feira, 17 de maio de 2011

PALESTINA: Acordo Fatah-Hamás

Imprensa árabe e Khaled Meshaal pós-reconciliação 
13/5/2011, Middle East Monitor
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Khaled Meshaal
Correspondentes no Cairo do jornal Al-Sharq Al-Awsat [Oriente Médio] publicado em árabe em Londres, citaram Khaled Meshaal em longo artigo no qual dizem que o mundo árabe testemunhará afinal uma abordagem integrada de interesses que não conflitam entre eles, porque, afinal, dão um passo na direção de atender interesses islâmicos, nacionais, árabes e humanitários que jamais conflitam. A aspiração dos árabes será afinal alcançada, dizem os correspondentes, o que justificará a abordagem integrada dos problemas, que afinal começa a surgir como horizonte. 

“Quero ver toda a nação árabe aberta ao mundo em atitude de moderação positiva, sem que, para isso, tenha de ceder todas as suas potências de resistência” – disse Meshaal. “Queremos traçar um novo mapa político na região, que todos se unam numa só frente, de tal modo que se possam tomar decisões que manifestem políticas árabes bem sucedidas, tanto no plano interno como no plano externo”. 

Meshaal destacou que todos querem virar a página e livrar-se das divisões na frente palestina. “Essa fase acabou”, disse ele. “E estamos implantando medidas e procedimentos muito sérios, para impedir que aconteça outra vez”. Há hoje oportunidade para maximizar os papéis do Egito, da Turquia, de estados árabes, para impedir a ameaça de interferência negativa, vinda de fora. 

Perguntado sobre o que pensa o Hamás sobre o assassinato de Bin Laden, Meshaal disse que “Discordamos da al-Qaeda em muitos pontos, sobretudo nas táticas que provocam a morte de civis inocentes. Mas isso não dá direito aos EUA de eliminar árabes e muçulmanos, agindo à margem da lei.”

Falando sobre o moribundo processo de paz, Meshaal falou da necessidade de uma ampla estratégia árabe e palestina para por fim ao impasse que já dura 20 anos. Essa estratégia, disse ele, exige ação democrática, resistência contra a ocupação israelense, esforços no campo legislativo e pressão total sobre Israel, em todos os campos e em todos os momentos, para conquistar direitos dos palestinos e estabelecer um estado palestino independente.

O comandante político do Hamás disse que o movimento mantém relacionamento positivo com a Europa, mas ainda não tem posição definida em relação a Washington. Considera bem vindo um diálogo não condicionado com as potências mundiais. Meshaal disse que considera Benjamin Netanyahu responsável pela morte do processo de paz, porque obstruiu qualquer tipo de negociação que contribuísse para a libertação de prisioneiros políticos palestinos em troca do soldado israelense Gilad Shalit, capturado quando desenvolvia ação de guerra contra o povo de Gaza.

Segundo Meshaal, “não há divisões internas no Hamás, mas há opiniões diferentes e somos organização democrática”. O movimento é conduzido por lideranças eleitas; todas as decisões são examinadas pelo Gabinete Político e por um Conselho Consultivo eleito. “Concordamos e discordamos, o que é garantia de processo saudável, mas quando as questões chegam ao voto e são votadas, todos passam a trabalhar a favor da decisão da maioria.” 

A situação na Palestina, disse ele, é diferente do que se vê em outros estados árabes nos quais houve revoluções, porque todos são contra a ocupação israelense e todos sabem que qualquer divisão é contraproducente. “Desde o primeiro dia da cisão, todos sempre tentaram alcançar novamente a unidade”, diz. Os palestinos também se beneficiaram com os efeitos da Primavera Árabe e das respostas sistematicamente hostis de Netanyahu, porque foram fatores que empurraram os palestinos na direção da reconciliação interna.

De agora em diante, disse Meshaal, a resistência será sensível à “realidade da reconciliação”, e também o discurso da imprensa. As decisões políticas e militares serão consensuais, de modo a não permitir que diferenças internas criem qualquer tipo de risco extra ao processo de reconciliação. Ficou acertado, disse ele, que os prisioneiros políticos serão libertados o mais rapidamente possível e haverá prazo para que se definam os nomes que comporão uma liderança provisória. O governo provisório “não será sufocado por problemas da situação política, mas terá tarefas específicas a cumprir (como a organização de eleições)”.

Khaled Meshaal disse também que unir-se à OLP (Organização de Libertação da Palestina, antes do acordo dominada pelo partido Fatah) é direito de todos, porque “todos, na Palestina, somos parceiros”. Esse espírito deve reger a nova estrutura de liderança da OLP, cuja construção é parte do acordo de Makkah.

Sobre o processo de paz, Meshaal disse que os palestinos há 20 anos testam as intenções dos israelenses. “Hoje, em nome da segurança do Egito e nos termos do acordo de reconciliação, todos os palestinos concordamos em dar a Israel mais uma oportunidade.” Contudo, disse que os palestinos devem preparar nova estratégia, “porque temos uma oportunidade de ouro para derrotar o bloco contrário à paz que há em Israel.” Tudo o que se fez até o acordo e agora, do acordo em diante, foi e continuará a ser feito “nos melhores interesses do processo que nos conduzirá à paz.” 

Os palestinos não mais aceitarão condições impostas “não importa quem imponha e que condições sejam impostas”, seja sobre o acordo de reconciliação ou qualquer ou aspecto da resolução dos atuais conflitos. “Se o lobby pró-Israel espera que aceitemos as suas condições sobre acordos políticos”, Meshaal fez questão de destacar, “então terão de aceitar nossas condições sobre resultados futuros de eleições para o Parlamento de Israel”. Todos os palestinos, inclusive o Hamás “estão preparados para conversações com a Europa e com os EUA, mas sem precondições.” 

Meshaal disse que há contatos “positivos” entre o Hamás e a Europa. “Com os EUA mantemos relacionamento extra-oficial, graças aos esforços empreendidos pelo ex-presidente Jimmy Carter”. Quanto ao atual governo Obama, disse Meshaal, o Hamás ainda não tem posição definida. “Estamos à espera do resultado do trabalho dos egípcios nesse campo, que esperamos sejam bem sucedidos. E, de Israel, não esperamos grandes novidades.” 

Perguntado sobre como vê o processo de paz, Meshaal perguntou “De que paz você fala? Nós queremos paz para os palestinos na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, para os palestinos da Diáspora e para os palestinos que vivem dentro da Linha Verde [dentro de Israel], e estamos atentos também aos direitos do povo palestino. Depois de estar constituído o estado da Palestina, então sim, poderemos falar melhor sobre paz e sobre Israel”. 

Quanto ao número sempre crescente de estados que já reconheceram o estado palestino, Meshaal disse que os direitos do povo palestino vão além do reconhecimento de um estado: “O mais importante é que as forças israelenses de ocupação retirem-se de volta aos limites das fronteiras que havia dia 4/6/1967. E, para que exista estado da Palestina, é preciso que os palestinos tenham plena soberania nos céus, terra e águas, que possam administrar suas próprias riquezas em benefício do próprio povo e que não haja colônias exclusivas para judeus em território palestino.” Perguntado sobre se o Hamás deslocaria seu quartel-general, da Síria para o Egito, Meshaal disse que “nada há de verdade nas matérias de imprensa que têm falado sobre essa mudança, e nada se alterou, na nossa situação na Síria, que tornasse necessária essa transferência.” 

O correspondente no Cairo de The Quds Press perguntou a Meshaal sobre um acordo para reabrir a passagem de Rafah na fronteira entre o Egito e Gaza. Meshaal respondeu que detalhes dessa decisão serão discutidos com o Egito, “mais adiante”. O Hamás, disse ele, esperará que o Egito recomponha suas condições de estabilidade, para assim poder assumir papel mais decisivo no mundo árabe.

“A Faixa de Gaza é questão de segurança e linha de defesa do Egito. Não queremos jogar sobre o Egito o problema de Gaza, mas tampouco deixaremos escapar o peixe que nos interessa fisgar, que é Israel, não o Egito. Gaza continua como território oficialmente ocupado por Israel, mas isso não é impedimento para a abertura da passagem de Rafah.” 

Meshaal disse ao jornal Quds Press e a outras agências de notícias que o Hamás deseja constituir “um outro eixo árabe, que apóie a resistência, usando meios diplomáticos, positivos e moderados.” Disse que as ameaças que têm partido de Israel depois da reconciliação entre Fatah e Hamás “são tentativas para confundir e encobrir a questão palestina”. “Dos inimigos”, disse Meshaal, “deve-se esperar qualquer coisa. Deve-se esperar que Israel tente fazer abortar a reconciliação dos palestinos.”

A frente palestina unificada, disse ele, construiu um consenso sobre como enfrentar a “as repetidas provocações do inimigo, com prisões na Cisjordânia e assassinatos em Gaza”. “Um Alto Conselho de Segurança definirá as políticas a serem seguidas, com a Cisjordânia e a Faixa de Gaza trabalhando juntas e coordenadamente.” O governo do Cairo, disse Meshaal, “está formando uma equipe, de egípcios e árabes, que dará apoio à implementação do acordo de reconciliação”. 

O Hamás espera que o novo governo egípcio não usará o movimento e a Fraternidade Muçulmana como alguma espécie de ‘espantalho’, para manter o povo dividido. “A Fraternidade Muçulmana é assunto dos egípcios; o Hamás é assunto dos palestinos. Cada grupo deve trabalhar no seu próprio campo, com sua específica sensibilidade política, para eliminar qualquer resíduo que tenha sobrado dos tempos da era Mubarak.” 

A Agência Reuters publicou declarações de Meshaal em que conclama os EUA e a União Europeia a apoiar o acordo de reconciliação entre o Fatah e o Hamás [1], dizendo que a reconciliação é escolha do povo palestino. Em entrevista à Reuters, Meshaal disse que o reconhecimento de Israel pelos palestinos não pode ser discutido, antes de haver estado independente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

“Esperamos que europeus e norte-americanos apoiem nosso direito e não trabalhem contra”, disse ele. “A comunidade internacional deve pressionar Israel para que reconheça um estado palestino, não o contrário”. Repetiu que é preciso que a resistência, popular ou armada, pressione Israel. Perguntado se o Hamás estaria preparado para reconhecer Israel, disse que “Antes, é preciso reconhecer e fazer valer o direito dos palestinos a um estado independente.”

A página da rede Aljazeera na internet disse que Khaled Meshaal e o Hamás não têm qualquer objeção a que o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas beneficie-se de alguns dos efeitos da reconciliação; tudo está sendo feito com vistas a atender interesses dos palestinos. O Hamás, disse Meshaal, há muito se livrou do peso dessas formalidades. Disse à Al Jazeera que cabe a Abbas usar o acordo para pressionar os EUA e Israel.

Perguntado sobre Mahmoud Abbas ter-se recusado a sentar ao seu lado, Meshaal comentou que “todos têm de aprender a conviver com alguns efeitos práticos da reconciliação, para não comprometer a eficácia do próprio acordo”. O Hamás escolheu não desperdiçar nenhuma chance de fazer o que os palestinos esperam que seja feito, e também os egípcios, que tanto trabalharam para viabilizar a reconciliação.

“Acho que todos, também o Fatah, têm de buscar suas melhores energias, temos de conseguir que as forças da solidariedade operem a favor dos palestinos. Mas não se deve subestimar a influência de Netanyahu, interessado em fechar todas as portas.” 

Sobre os próximos passos da implantação do acordo, Meshaal destacou três pontos do acordo entre Fatah e Hamás:

1. Libertação imediata de prisioneiros políticos presos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
2. Fixação de data para reunião que delineará o novo quadro de comando da OLP.
3. Fixação de prazo para discussão detalhada entre Fatah, Hamás e outros grupos, sobre formação do governo provisório, formação do Alto Comitê de Segurança e outras questões de segurança.



Nota de tradução: