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domingo, 9 de dezembro de 2012

Meshaal já está em Gaza


O líder do Hamas no exílio já está em Gaza.

Khaled Meshaal chegou, este sábado, ao enclave palestino para assinalar os 25 anos do partido islâmico. Uma visita histórica festejada nas ruas por milhares de pessoas.

O líder do Hamas exilou-se com a família depois da guerra de 1967 e não tinha, até hoje, pisado o território palestino.

A visita ocorre cerca de duas semanas depois da última operação israelense e do apelo à unidade Hamas-Fatah lançado pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

Meshaal é considerado um elemento chave na reconciliação com a Fatah.


Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

sábado, 7 de janeiro de 2012

“O Hamás roubou a nossa guerra!”



Uri Avnery

7/1/2012, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Nota introdutória: Os dois excertos de notícias inseridos previamente ao artigo são essenciais para entendimento e acompanhamento histórico sobre o que se passa entre os mais importantes partidos políticos de Gaza e Cisjordânia e como isso afeta o poder ocupante



Khaled Meshall, do Hamás: “A Primavera Árabe começou na Palestina, em 1987”
23/12/2011, Associated Press (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

CAIRO – O Hamás volta a concentrar-se nas manifestações de massa contra Israel, ao estilo dos levantes da “primavera árabe”, disse à Associated Press o estrategista político do Hamás, Khaled Mashaal, na última 5ª-feira.

Mashaal estava no Cairo, para reuniões com Mahmoud Abbas, do partido Fatah. Os dois lados unem-se agora, numa Organização para a Libertação da Palestina (OLP) reformada, para organizar as próximas eleições em 2012, em Gaza e na Cisjordânia.

“Levantes populares têm o poder de tsunamis” – disse Mashaal, falando das recentes ondas de protestos populares no mundo árabe.

“Há agora terreno comum sobre o qual a resistência popular, que é a voz e o poder do povo, pode trabalhar. Os palestinos fomos os primeiros que nos levantamos, nas ruas, contra governo opressor, quando nos levantamos contra Israel, em 1987” – disse Mashall. “Em 1987, os jovens palestinos enfrentaram, com pedradas, os soldados de Israel pesadamente armados. Adiante, o Hamás foi eleito, em eleições livres e limpas, na Cisjordânia e em Gaza.

Grupos palestinos avançam na reconciliação

25/12/2011, Osamah Radi, Omer Othmani, Xinhuanet, Pequim (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

GAZA, Dec. 24 (Xinhua) – Os palestinos deram mais um passo na direção de uma unificação histórica, com a reforma da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), como representante dos palestinos, na primeira grande reforma que está sendo pactuada entre Hamas e Fatah, desde a fundação, em 1964.

Com a reforma da OLP, o Hamas e a Jihad palestina devem unir-se à OLP, pela primeira vez. Os dois movimentos participarão das eleições para o Conselho Nacional Palestino [ing. Palestinian National Council (PNC)], o parlamento da OLP no exílio.

O anúncio foi feito em reunião na 5ª-feira, preparatória para a cúpula a ser realizada em fevereiro, da qual deve sair um governo unitário de transição, formado por membros do Fatah e do Hamas. (...)

Segundo o acordo que está sendo construído entre Hamas e Fatah, o novo PNC será eleito no próximo mês de maio, quando também devem serão eleitos presidente e deputados em data ainda não decidida. (...)

Yousef Rezqah, alto dirigente do Hamás, disse que “o Hamás esperará a eleição de um novo PNC, para unir-se formalmente à OLP. Depois das eleições para o Conselho Nacional Palestino, o Hamás analisará os programas políticos da OLP e seus compromissos. Só as eleições podem decidir o que será feito, e se os acordos que estão sendo construídos agora darão frutos ou não” – acrescentou o dirigente do Hamás.

Finalmente o artigo do Uri!

E enquanto isso, em Israel...

O vilão é o Hamás!
Não há limites na vilania do Hamás!
Essa semana, o Hamás fez algo realmente imperdoável!
 O Hamás roubou a guerra de Bibi Netanyahu!
Bibi ficou sem guerra!

Já há algumas semanas, o quase novo comandante do Exército de Israel, vem anunciando, praticamente em todas as oportunidades, que uma nova guerra contra a Faixa de Gaza “é inevitável”. Vários comandantes de tropas em torno da Faixa, repetiram sem parar esse “prognóstico”, e também seus auxiliares de campo, chamados “especialistas em questões militares”, todos dizendo a mesma coisa.

Um deles teve até uma palavra de consolo: é verdade que os foguetes do Hamás já podem atingir Telavive, mas... não se preocupem, que não será muito terrível. Será guerra curta, coisa de dois, três dias. Um dos generais israelenses acrescentou que será guerra muito mais “dura e dolorosa” (para os árabes) que [a Operação] “Chumbo Derretido 1”, quer dizer, não durará três semanas, como aquela. Bastará que os israelenses permaneçam metidos nos abrigos (os que têm abrigos), só por alguns dias.

E por que a tal guerra seria inevitável? Por causa do terrorismo, estúpido! O Hamás é organização terrorista, não é?

E foi quando o líder supremo do Hamás Khaled Mash’al apareceu e disse que o Hamás passará a organizar levantes populares. Doravante, o Hamás se dedicará a manifestações não violentas, no espírito da Primavera Árabe.

E, se o Hamás abjura o terrorismo... desaparecem todos os pretextos para atacar Gaza.

Ora! E quem precisa de pretextos? O exército de Israel nunca será derrotado por estrategistas como Mash’al e seu bando. Se o exército de Israel quer guerra, o exército de Israel sempre arranja alguma guerra. Foi o que se viu em 1982, quando Ariel Sharon atacou o Líbano, num momento em que, há 11 meses, não acontecia nenhum tipo de problema da fronteira libanesa. (Depois da guerra, criou-se em Israel o mito de que teria havido forte tiroteio na véspera. Hoje, quase todos os israelenses “lembram-se” do tiroteio que nunca houve – exemplo espantoso do poder de sugestão.

E POR QUE o comandante do exército de Israel tanto quer atacar alguém?

Os cínicos diriam que todos os comandantes de exército recém nomeados precisam de guerra nova, para chamarem de sua. Mas não somos cínicos.

Dia sim, dia não, um solitário rojão é lançado da Faixa de Gaza, na direção de Israel. Raramente cai em local diferente de campos não habitados. Já há meses ninguém, em Israel, é ferido por aqueles rojões, produzidos em casa.

A sequência regular é sempre a mesma: o exército israelense imediatamente realiza uma “liquidação predefinida” [orig.“targeted liquidation”] de militantes na Faixa de Gaza. O motivo é, sempre, que aqueles predefinidos “terroristas” imediatamente liquidados tentaram atacar cidadãos de Israel. E como o exército de Israel adivinha os planos deles? Ah! O exército de Israel sabe ler pensamentos.

Imediatamente depois de aqueles mortos serem mortos, o grupo militante no qual militava cada morto entende que seja seu dever vingar seus mortos e cada grupo lança um rojão ou morteiro, às vezes dois, às vezes três. O que “não pode ser tolerado pelo exército de Israel”... e assim vai.

Depois de cada episódio desse tipo, recomeçam em Israel, as ameaças de guerra. Como dizem deputados e senadores dos EUA, nas palestras que fazem no Comitê Norte-Americano Israelense de Relações Públicas, o AIPAC: “Nenhum país pode admitir que seus cidadãos fiquem expostos a rojões!”.

Evidentemente, claro, a Operação Chumbo Derretido não foi motivada pelos rojões palestinos: os motivos foram outros e mais sérios.

O Hamás começa a ser aceito e começa a integrar-se à comunidade internacional. O primeiro-ministro da Cisjordânia, governada pelo Hamás eleito, Isma’il Haniyeh, está viajando pelo mundo árabe e muçulmano, apesar de Israel tê-lo mantido por muito tempo como que cercado, e calado, em Gaza – uma espécie de cerco da Faixa de Gaza. 

Mas hoje o Hamás já entra e sai do Egito, porque a Fraternidade Muçulmana – organização-mãe, da qual nasceu o Hamás – já é praticamente o governo, no Egito.

Muito pior: o Hamás aproxima-se perigosamente de unir-se à Organização para a Libertação da Palestina, com o que passará a integrar o governo palestino. Não pode ser! Israel tem de tomar alguma providência. Por exemplo... Atacar Gaza! Obrigar o Hamás a pegar em armas, outra vez! Obrigar o Hamás a voltar a ser organização extremista. 

Não satisfeito com ter privado Israel de sua guerra – “o Hamás roubou a nossa guerra!” – Khaled Mash’al planeja outras ações sinistras. 

Ao aproximar-se da Organização para a Libertação da Palestina, Mash’al aproxima o Hamás, também, dos Acordos de Oslo e de todos os demais arranjos já feitos entre Israel e a OLP. Mash’al já anunciou que o Hamás aceita um estado palestino nas fronteiras de 1967. Já fez saber que, esse ano, o Hamás não contestará a legitimidade da presidência palestina, o que, na prática, implica que o candidato do partido Fatah – seja quem for – será eleito sem qualquer oposição e, claro, terá legitimidade para negociar com Israel.

Tudo isso, na prática, encurrala o atual governo de Israel. E Mash’al tem alguma experiência no que tenha a ver com complicar muito a vida de Israel. 

Em 1997, o (primeiro) governo de Netanyahu resolveu livrar-se dele para sempre, em Amã. Mandou para lá uma equipe de agentes do Mossad, com a missão de assassinar Mash’al em plena rua, com um jato de veneno que não deixaria vestígios, lançado de uma lata de spray, diretamente dentro do ouvido de Mash’al. 

Mas, em vez de fazer a coisa certa, e morrer silenciosamente de causa jamais identificada, como Yasser Arafat, Mash’al mandou seus guarda-costas perseguirem os espiões do Mossad, e pegá-los vivos.

Tudo isso aconteceu na Jordânia. O rei Hussein, aliado de Israel há anos, foi imediatamente informado de tudo. E ficou furioso, por Israel ter infiltrado seus espiões, em missão de assassinato, em território jordaniano. Disse a Netanyahu que ele escolhesse: ou os espiões do Mossad seriam julgados na Jordânia onde muito provavelmente seriam condenados e enforcados, ou o Mossad que enviasse, imediatamente, o antídoto ao tal veneno, para salvar a vida de Mash’al. Netanyahu rendeu-se. E aí está Khaled Mash’al, hoje, vivo e forte[1].

Outro curioso resultado dessa malfadada aventura: o rei Hussein também exigiu de Netanyahu que o fundador do Hamás e líder supremo do movimento, Sheik Ahmad Yassin, paraplégico, que estava preso em Israel, fosse imediatamente libertado. Netanyahu também obedeceu, Yassin foi libertado (e assassinado por Israel, sete anos depois. Pouco depois, o sucessor de Yassin, Abd al-Aziz Rantissi, também foi assassinado. Khaled Mash’al, embora muito jovem, foi então escolhido para sucedê-lo, no comando político e militar do Hamás.

E Mash’al, em vez de manifestar gratidão imorredoura a Israel, aí está, a desfiar abertamente o exército israelense! Fim das ações violentas, abertura indireta para negociações de paz, até, talvez, para a solução dos dois estados! 

UMA PERGUNTA: Por que o comandante do exército de Israel tanto insiste em ter sua guerrinha em Gaza, se pode ter a guerra das guerras, contra o Irã? Não pequena operação de morticínio, mas grande guerra, guerra mesmo!

Ora, porque sabe que não conseguirá a guerra contra o Irã.

Há algum tempo, fiz algo que jornalistas inexperientes sempre fazem: apostei que Israel não atacaria o Irã. (Apostei também, justo acrescentar, que nem os EUA atacariam o Irã.)

Políticos e jornalistas experientes não apostam nem fazem esse tipo de previsão, sem deixar aberta um túnel de fuga. Sempre acrescentam um “a menos que...”. Se a aposta começa a azedar e a previsão periclita, pode-se escapar por ali.

Passei por coisa semelhante – há uns 60 anos – mas não escapei por túnel algum. Eu disse “Não haverá guerra”. Agora, o general Gantz diz a mesma coisa, com mais palavras: Israel não atacará o grande Irã; só contra a pequena, pobre, infeliz Faixa de Gaza.

Por quê? Responde-se com uma palavra: Ormuz.

Não o antigo deus persa Hormuzd, mas o pequeno estreito, entrada e saída do Golfo Persa, pelo qual passa 20% do petróleo do mundo (e 35% do petróleo transportado por oleodutos submarinos). A ideia é que nenhum governante mentalmente são (nem os apenas levemente alucinados) jamais poriam em jogo o trânsito pelo Estreito de Ormuz, cujo fechamento causará consequências catastróficas, apocalípticas.

O Irã, que não confia que todos os governos do mundo leiam essa coluna, tratou logo de explicar, com a máxima clareza possível. Fizeram manobras militares ostensivas próximas ao Estreito de Ormuz. É claro que o Irã pode, se precisar, fechar tudo, por ali.

Os EUA responderam com a arrogância de praxe, com ameaças de retaliação. A invencível Armada dos EUA logo reabrirá o Estreito, se preciso for.

Mas... Como? Qualquer super porta-aviões multibilionário pode ser facilmente inutilizado por uma bateria de mísseis terra-ar baratinhos, e, até, por barcos pequenos armados com mísseis. Imaginemos que o Irã faça o que ameaçou fazer. Os EUA mandarão para lá todo o poder de fogo de sua gigantesca Força Aérea, mais toda a invencível Armada dos EUA. Afundarão os barcos iranianos, bombardearão todas as instalações do exército iraniano. E nem assim impedirão que os mísseis do Irã continuem a chover sobre o Estreito, tornando impensável o trânsito de superpetroleiros por ali.

E depois? Restará a alternativa dos “coturnos em terra”. Os EUA terão de desembarcar no litoral e ocupar todo o território do qual os mísseis continuarão a poder ser lançados. Seria gigantesca operação de guerra. Os iranianos resistirão ferozmente, se se pensa no que houve em oito anos da guerra Iraque-Irã. E ali perto estão a Arábia Saudita e os outros estados do Golfo, que também seriam atingidos.

Teria de ser operação muito maior que a invasão do Iraque ou do Afeganistão, pelos EUA. Maior, até, que a invasão do Vietnã.

Os EUA, falidos, teriam como fazer tudo isso? Economicamente, politicamente? O exército dos EUA está hoje em condições morais, para fazer tudo isso? Fechar o Estreito de Ormuz é a solução “bomba-atômica”, a arma derradeira. O Irã não a usará contra sanções, por severas que sejam, como ameaçaram fazer. Mas a usarão, sim, se sofrerem ataque militar direto.

Se Israel atacar sozinha – “a ideia mais estúpida que jamais ouvi”, como disse o ex-comandante do Mossad – nada muda. O Irã interpretará o ataque israelense como ataque norte-americano, e fechará o Estreito. Por isso, precisamente, o governo Obama já mandou entregar em mãos de Netanyahu e Ehud Barak ordem expressa para que não empreendam nenhum tipo de ação militar contra o Irã.

O exército israelense, assim, ficou sem guerra! Nada de guerra ao Irã. Resta-lhe, como possibilidade de guerra, atacar Gaza. E, bem nessa hora, aparece o “terrorista” Mash’al, do “terrorista” Hamás, querendo estragar também a guerra contra Gaza!


Nota dos tradutores
[1] Essa história, narrada em detalhes, e leitura absolutamente fascinante, riquíssima de informação jornalística útil, é tema do livro Kill Khalid, do jornalista australiano Paul McGeough (Londres: The New Press, 2008), sem tradução para o português.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Palestina: Hamás e Fatah – “A história não contada do acordo que sacudiu o Oriente Médio”

7/6/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hamas leader Ismail Hanniyeh, right, shakes hands with senior Fatah
official Nabil Shaath during their meeting in Gaza in May
O líder do Hamas Ismail Hanniyeh, à direita, aperta a mão do dirigente senior do Fatah, Nabil Shaath durante a reunião de Gaza em maio último
Encontros secretos entre intermediários palestinos, agentes da inteligência do Egito, o ministro turco de Relações Exteriores, o presidente Mahmoud Abbas e Khaled Meshaal, líder do Hamás – uma ida secreta a Damasco, tendo de desviar da cidade de Deraa, em rebelião – levaram à unidade dos palestinos que tanto perturbou os governos de Israel e dos EUA. Em maio, Fatah e Hamás puseram fim a anos de conflitos, com um acordo crucial para alcançar o reconhecimento internacional do estado palestino.

Várias cartas detalhadas, aceitas pelos dois lados, das quais The Independent tem cópias, mostram o quanto foram complexas as negociações. O Hamás também buscou – e obteve – o apoio do presidente sírio Bachar al-Assad, do vice-presidente Farouk al-Sharaa e de seu ministro de Relações Exteriores, Walid Moallem. Entre os resultados, há um acordo feito por Meshaal para pôr fim aos ataques de foguetes do Hamás, de Gaza, contra Israel – porque a resistência passaria a ser direito exclusivo do estado – e um acordo pelo qual o estado palestino reivindica fronteiras baseadas nas fronteiras de Israel em 1967.

“Sem a boa vontade de todos os lados, o auxílio dos egípcios e a aceitação pelos sírios – além do desejo dos palestinos de unir-se, desde o início da Primavera Árabe –, não teríamos conseguido fazer o que fizemos”, disse-me pessoalmente um dos principais intermediários, Munib Masri, 75 anos. Foi Masri quem ajudou a estabelecer um ‘Fórum Palestino’ de independentes, depois de o Hamás ter alcançado extraordinária vitória eleitoral em 2006. “Sempre entendi que as divisões que se criaram seriam uma catástrofe, e passamos quatro anos andando para frente e para trás entre os vários partidos”, disse Masri. “Abu Mazen (Mahmoud Abbas) pediu-me várias vezes que mediasse os contatos. Começamos a nos encontrar na Cisjordânia. Todos participaram. Reunimos muitas capacidades.”

Em três anos, membros do Fórum Palestino viajaram mais de 12 vezes a Damasco, ao Cairo, a Gaza e à Europa e várias iniciativas foram rejeitadas. Masri e seus colegas negociaram diretamente com o primeiro-ministro Hanniyeh do Hamás em Gaza. Adotaram a chamada “iniciativa de troca de prisioneiros” de Marwan Barghouti, alto líder do Fatah, que está preso em Israel; então, com os ventos das revoluções na Tunísia e no Egito, a juventude palestina, dia 15 de março, exigiu que os partidos se unissem e pusessem fim à rivalidade entre Fatah e Hamás. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel sempre se recusou a negociar com Abbas porque, dizia ele, os palestinos estavam divididos. Dia 16 de março, em discurso, Abbas disse que estava “pensando em ir a Gaza”. Masri, que estava presente, subiu numa cadeira e aplaudiu.

“Supus que o Hamás responderia positivamente” – Masri recorda. “Mas nos primeiros dois ou três dias depois do discurso de Abbas, a resposta foi negativa. O Hamás queria eleições imediatas e nada de diálogo.” Abbas partiu para Paris e Moscou – para mostrar desagrado, aos olhos de alguns de seus associados. Mas o Fórum não desistiu.

“Redigimos um memorando – dissemos que íamos visitar os egípcios, para nos congratular com a revolução deles. Tivemos duas reuniões com o chefe da inteligência egípcia, Khaled Orabi – o pai de Orabi foi general do exército ao tempo do rei Farouk – e nos encontramos com Mohamed Ibrahim, do departamento de inteligência.” O pai de Ibrahim tornou-se muito conhecido na guerra de 1973, quando capturou o oficial israelense de mais alta patente no Sinai. A delegação também se reuniu com assessores de Ibrahim, Nadr Aser e Yassir Azawi.

Sete membros de cada grupo palestino formaram a delegação que foi ao Cairo. Eis os nomes que, no futuro, estarão nos livros de história da Palestina: pela Cisjordânia, o Dr. Hanna Nasser (reitor da Universidade Bir Zeit e da comissão eleitoral central palestina); Dr. Mamdouh Aker (presidente da sociedade de direitos humanos); Mahdi Abdul-Hadi (presidente de uma associação política em Jerusalém); Hanni Masri (analista político); Iyad Masrouji (comerciante de produtos farmacêuticos); Hazem Quasmeh (dirige uma Organização Não Governamental) e o próprio Munib Masri.

O ‘lado’ de Gaza foi representado por Eyad Sarraj (que não pôde viajar ao Cairo por ter adoecido); Maamoun Abu Shahla (membro da diretoria do Banco Palestino); Faysal Shawa (comerciante e proprietário de terras); Mohsen Abu Ramadan (escritor); Rajah Sourani (militante árabe de direitos humanos, que não viajou ao Cairo); ‘Abu Hassan’ (membro da Jihad Islâmica, indicado por Sarraj); e Sharhabil Al-Zaim (advogado em Gaza).

“Esses homens passaram muito tempo discutindo com o alto escalão do serviço de inteligência do mukhabarat egípcio” – Masri lembra. “Nos encontramos com eles dia 10 de abril, mas enviamos um documento antes de viajar. Por isso o contato tornou-se tão importante. Em Gaza havia dois ‘lados’ diferentes. Falamos sobre a microssituação, sobre os gazenses presos em Gaza, sobre direitos humanos, sobre o bloqueio egípcio, sobre dignidade. Shawa dizia “sentimos como se não tivéssemos dignidade – e sentimos que a culpa é nossa”. Nadr Asr, do departamento de inteligência disse: “Vamos mudar tudo isso.” 

“Voltamos às 19h, para nos reunirmos outra vez com Khaled Orabi. Eu disse: “Escute, preciso saber, de você: a nova iniciativa agrada a vocês, um pacote que é situação de ganha-ganha para todos? O caso da Palestina continua ‘quente’ no Cairo? Ele respondeu: “É processo meio longo – mas, sim, gostamos da ideia. Vocês conseguem pressionar os dois lados, o Fatah e o Hamás, e trazê-los para o projeto? Mas, sim, trabalharemos com vocês. Procurem o Fatah e o Hamás – e tratem tudo isso como assunto confidencial.” Nós aceitamos. Fomos falar com Amr Moussa (agora, candidato à presidência do Egito pós-revolução) na Liga Árabe. De início, mostrou-se muito cauteloso – mas no dia seguinte, quando nos reunimos com a equipe dele, todos foram muito positivos. Dissemos: ‘Deem uma chance à ideia’. Dissemos que a Liga Árabe foi criada para a Palestina, que a Liga Árabe tem papel importante em Jerusalém.” 

A delegação visitou também Nabil al-Arabi, no ministério de Relações Exteriores do Egito. “Al-Arabi disse: ‘Posso chamar o ministro das Relações Exteriores da Turquia, que está no Egito?’ O ministro veio e discutimos juntos a iniciativa. Ali descobri que o ‘novo’ Egito estava muito confiante no sucesso da nossa iniciativa: eles quiseram [itálicos] discutir na presença da Turquia. Assim, discutimos todos juntos e eu voltei com os outros para Amã, às 21h.” 

O grupo foi à Cisjordânia, para relatar o que fora feito – “estávamos felizes, nunca antes nos sentíramos como naquele dia” – e informar a Azzam Ahmed (chefe do grupo do Fatah que trabalhava pela reconciliação) que o grupo se preparava para apoiar a iniciativa de Mahmoud Abbas sobre Gaza. “Tivemos sete grandes reuniões na Palestina para reunir ali todos os grupos e os independentes. Abbas já nos dera um aval presidencial. Conversei com Khaled Meshaal (líder do Hamás, que vive em Damasco) por telefone. Meshaal perguntou: ‘Abu Mazzen (Abbas) concorda com tudo isso?’ Respondi que a questão não era essa. Dia seguinte fui a Damasco com Hanna Nasser, Mahdi Abdul Hadi e Hanni Masri. Por causa dos problemas na Síria, tivemos de contornar Deraa. Tenho boa relação com Meshaal. Ele disse que havia lido o nosso documento – e que achava que valia a pena trabalhar sobre a ideia.”

O fato de que os dois lados quisessem saber o que o outro pensava da iniciativa, antes de decidir, era sinal de que persistia a desconfiança entre o Hamás e Abbas. “Meshaal perguntou-me: ‘O que diz Abu Mazzen (Abbas)?’ Eu ri e respondi: ‘Você sempre pergunta isso. Estou aqui para saber o que vocês [itálicos] querem. Nos encontramos com assessores de Meshaal, Abu Marzouk, Izzat Rishiq e Abu Abdu Rahman. Lemos e revisamos o documento do acordo durante seis horas e meia. A única coisa que não arrancamos de Meshaal foi que o governo fosse constituído por acordo. Dissemos a ele que o governo seria governo de união nacional – sob a condição que teríamos de ser capazes de organizar e realizar eleições, levantar o bloqueio de Gaza e reconstruir Gaza, que tínhamos de obedecer à lei internacional, à Carta da ONU e às resoluções da ONU. Meshaal pediu três ou quatro dias. Aceitou que a resistência só aconteceria ‘na defesa do interesse nacional do país’ – e que teria de ser ‘aqlaqi’ – ética. Os ataques de foguetes contra civis tinham de acabar. Em outras palavras: ele tinha de garantir que não haveria mais foguetes de Gaza, contra Israel.”

Meshaal contou a Masri e acompanhantes que estivera com o presidente Bashar Assad da Síria, com seu vice-presidente Sharaa e com o ministro sírio de Relações Exteriores Moallem. “Disse que queria o apoio deles – mas no fim, prevaleceu a palavra do povo palestino. Estávamos muito felizes – dissemos que ‘surgiu uma pequena brecha’. Meshaal disse: ‘Nós não vamos deixar vocês sem apoio’. Dissemos que levaríamos a palavra dele ao Fatah e aos independentes na Cisjordânia, e aos egípcios. Na Cisjordânia, o Fatah chamava a iniciativa de ‘iniciativa do Hamás’ – mas dissemos que não, a iniciativa é de todos. Dois dias depois, Meshaal disse que falara com a inteligência do Egito e que eles estavam gostando do que tínhamos proposto.” 

As conversações foram bem sucedidas. Meshaal concordou com enviar dois de seus principais homens ao Cairo. A equipe de Masri esperava que Abbas fizesse o mesmo. Quatro representantes – dois de cada lado – viajaram ao Egito dia 22 de abril. Um ano antes, quando houve um impasse entre os dois lados palestinos, no Egito, o regime de Moubarak tentara criar obstáculos ainda maiores para impedir qualquer reconciliação. Meshaal chegou a reunir-se, sem qualquer resultado, com Omar Sulieman – factótum da inteligência de Mubarak e o melhor amigo de Israel no mundo árabe – em Mecca. Se alguém ainda duvidasse, ali se comprovou que Sulieman realmente trabalhava para os israelenses. Dessa vez, tudo foi mesmo muito diferente.

No dia que Abbas e Meshaal foram ao Cairo, foram os dois governos completos, exceto os dois primeiros-ministros rivais, Fayad e Hanniyeh. O Hamás declarou que, ao longo dos últimos quatro anos, os israelenses haviam roubado ainda mais terras em Jerusalém e construído mais colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia ocupada. Meshaal irritou-se, quando supôs que não o deixariam falar do pódio, como os demais presentes – e falou, no evento. E o Hamás aceitou a fórmula sobre as fronteiras de 1967, consciente de que assim reconhecia a existência de Israel; aceitou também a referência à resistência; e também concordou em ceder mais tempo a Abbas, para mais negociações.

No momento em que o Hamás passasse a integrar o governo de união, estaria reconhecendo o estado de Israel. Mas se não integrasse o governo, ninguém reconheceria coisa alguma e não haveria acordo. “Não é justo dizer ao Hamás ‘faça isso ou aquilo’”, diz Masri. “Claro que a resistência é direito recíproco. Mas se o Hamás não se integrasse ao governo de união nacional, passaria a ser apenas um partido político, sem tribuna para dizer o que querem dizer. Os EUA portanto que se preparem para conhecer o Hamás ativo na formação do governo. Esse governo respeitará as resoluções da ONU e a legislação internacional. Essa ação tem de ser mútua. Os dos lados perceberam que, por pouco, teriam perdido o barco da Primavera Árabe. Não foi trabalho meu – foi resultado da conjunção de muitos esforços. Não fosse pela mediação dos egípcios e pela boa vontade dos dois grupos palestinos, nada teria acontecido.” No dia seguinte à assinatura do acordo, partidários do Hamás e de Abbas concordaram em parar de prender militantes de um lado e de outro.

Hoje afinal se conhece a história da unificação dos palestinos. A reação de Netanyahu, primeiro-ministro de Israel à novidade – depois de ter-se negado a negociar com os palestinos porque estavam divididos – foi decidir que não negociaria com Abbas, se o Hamás fosse integrado ao governo palestino. O presidente Obama virtualmente ignorou a iniciativa da unidade palestina. 

Mas falar de “fronteiras de 1967” implica que o Hamás reconhece a existência de Israel; e a decisão negociada sobre a resistência implica o fim dos foguetes de Gaza contra Israel. A disposição para subordinar-se à legislação internacional e às resoluções da ONU implica que a paz pode ser completada e que um estado palestino pode ser criado. Essa, pelo menos, é a opinião dos dois lados palestinos.

O mundo esperará para saber se Israel outra vez rejeitará a paz.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Discurso ridículo! Obama sobre a questão israelense

Comentário do Coletivo da Vila Vudu

O Gato Filósofo da Vila Vudu em terapia
O que o jornal O Globo tem a dizer sobre o discurso de Obama, ontem, pode ser lido em: Israel e Hamas rejeitam discurso de Obama e é um amontoado de “declarações” tolas, copiadas da imprensa internacional de repetição e selecionados por critérios de “jornalismo” vicioso, de má qualidade.

De importante, no discurso de Obama sobre a questão israelense só, que (1) Obama reconheceu oficialmente o “estado judeu”.

Doravante, portanto, se não reconhecer os estados islâmicos... confirma-se o que todos sabem e nenhuma imprensa noticia: o Pentágono, a OTAN, os EUA de Obama & AIPAC e a Rede Globo entendem que “estado judeu” pode; mas “estado muçulmano” fere o princípio iluminista da separação entre religião e estado. A enganação “jornalística”  prossegue, ampla, geral e irrestrita.

Obama disse também, claramente, que (2) os EUA impedirão, na ONU, qualquer tentativa de conseguir que a Assembleia Geral, em setembro, reconheça o estado palestino. Disse claramente. Só não se sabe COMO impedirão, mas que disse que impedirão, disse.

Disse também, espantosa  e claramente, que (3) nada impede que se crie uma Israel inviável e uma Palestina insegura (Obama só fez repetir que deve haver “uma Israel segura” e “uma Palestina viável”, logo...). Duplifalar, na veia!

Depois, como se até aí tivesse havido impressionante reconhecimento de “fatos” com os quais toda a humanidade “naturalmente” concordasse, Obama atreveu-se, encolhidamente, a dar um leve puxão de orelhinhas em Israel. Disse que (4) “Israel terá de defender-se ela mesma”. E mesmo isso, que não passa de frase oca e jamais acontecerá, custará muuuito caro a Obama. Difícil entender, até, porque disse isso. Por quê?

Difícil imaginar discurso – e posições! – mais absolutamente sem rumo, sem projeto, sem plano, construído sem espinha dorsal, espécie de coleção de frases feitas repetidas, pensadas, talvez, para “a mídia”. Obama começa a fazer papel ridículo. Armado até os dentes e Prêmio Nobel da Paz, e ridículo, convencido que engana todos, todo o tempo, quando já se vê que ou é perfeito tonto, ou, sim, pensa que engana todos, todo o tempo. 

Obama disse também que (5) o terrorismo foi varrido do mundo (provavelmente pela encenação de assassinato de Osama bin Laden pelos SEALs, a que Obama fingiu que assistiu, como se viu, pela televisão). Disse, claramente, que Israel deve impedir “o ressurgimento” do terrorismo. Se não se pode deixar que “ressurja”... é porque (a) bin Laden era o único terrorista do mundo e (b) dado que os SEALs fingiram que mataram em 2011, o cara que morreu de doença, em 2001... o terrorismo foi varrido do mundo. Tá provado!  

E, para não deixar nenhum assunto sem comentário, como executivo de Relações Públicas, que vai burocraticamente “ticando”  itens de uma agenda “midiática”, disse que o recente acordo de unificação política dos palestinos “é assunto de legítima preocupação para Israel”. Melhor, claro, que os palestinos se engalfinhassem em luta de morte, lá entre eles. Mas já que não se engalfinharam, nem se autovarreram da face da Terra... “cabe aos palestinos” explicar a Israel porque não se autovarreram da face da Terra e optaram por unir-se. Claro. Faz sentido. Claro. É.
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Excerto do que Obama realmente disse de importante sobre “a questão israelense” e O Globo não publicou foi:

“Num momento em que o povo do Oriente Médio e do Norte da África livra-se do peso do passado, a exigência de paz duradoura, que ponha fim ao conflito e atenda todos os clamores é mais urgente que nunca.

Para os palestinos, terminarão em fracassos os esforços para deslegitimar Israel. Ações simbólicas para isolar Israel na ONU em setembro não criarão um estado independente. Os líderes palestinos não chegarão à paz e à prosperidade, se o Hamás insistir na via do terror e da rejeição. E os palestinos jamais farão sua independência negando a Israel o direito de existir.

Quanto a Israel, nossa amizade tem raízes profunda, que se prendem profundamente numa história partilhada e em valores partilhados. Nosso compromisso com a segurança de Israel é inabalável. E nos levantaremos contra tentativas de isolar Israel, tornando-a alvo de críticas nos fóruns internacionais. Mas precisamente por causa de nossa amizade, é importante dizer a verdade: o status quo é insustentável, e Israel deve também agir com firmeza na direção de uma paz duradoura.

O fato é que muitos palestinos vivem na margem oeste do rio Jordão. A tecnologia tornará cada vez mais difícil que Israel defenda-se. Uma região que passa por mudanças profundas levará ao populismo, no qual milhões de pessoas – não apenas alguns líderes – devem crer que a paz é possível. A comunidade internacional está cansada de um processo infindável que jamais produz qualquer resultado. O sonho de um estado judeu e democrático não pode ser realizado mediante ocupação permanente.

Em última instância, cabe aos israelenses e palestinos entrarem em ação. Nenhuma paz lhes pode ser imposta, nem o adiamento eterno jamais fará desaparecer o problema. Mas o que os EUA e a comunidade internacional podem fazer é declarar com franqueza o que todos sabem: uma paz duradoura implicará dois estados para dois povos. Israel como estado judeu e pátria do povo judeu, e o estado da Palestina, como lar do povo palestino. Dois estados que se autodeterminarão, reconhecer-se-ão mutuamente e viverão em paz.

Assim, enquanto as questões centrais do conflito devem ser negociadas, a base dessa negociação é clara: uma Palestina viável e uma Israel segura. Os EUA creem que as negociações devem resultar em dois estados, com fronteiras palestinas estáveis e permanentes com Israel, Jordânia e Egito e fronteiras israelenses permanentes com a Palestina. As fronteiras entre Israel e Palestina devem basear-se nas linhas de 1967, com trocas [de território] a serem acordadas, de modo que se estabeleçam fronteiras reconhecidas e seguras para os dois estados. O povo palestino deve ter o direito de se autogovernar e expandir seu potencial, em estado contínuo e soberano.

Quanto à segurança, todos os estados têm direito de autodefesa, e Israel deve ser capaz de se autodefender – sozinha [orig. “by itself]” – contra qualquer ameaça. Deve haver providências suficientemente robustas para evitar o ressurgimento do terrorismo; para por fim à entrada de armas; e para que haja efetiva segurança nas fronteiras. A retirada total e gradual [ing. “The full and phased withdrawal] das forças militares de Israel deve ser coordenada com a assunção da plena responsabilidade pelos palestinos, em estado soberano não militarizado. A duração desse período de transição deve ser acordada, e a efetividade dos arranjos de segurança deve ser demonstrada.

Esses princípios oferecem uma base para negociações. Os palestinos devem conhecer os limites territoriais de seu estado; os israelenses devem saber que precisam resolver suas questões básicas de segurança. Sei que esses passos, só eles, não resolvem esse conflito. Permanecem duas questões emocionais em disputa: o futuro de Jerusalém, e o destino dos refugiados palestinos. Mas, fazendo avançar agora a questão territorial e da segurança, oferece uma base para resolver essas duas oautras questões de modo justo e equilibrado, e que respeite os direitos e aspirações de israelenses e palestinos.

Reconhecer que as negociações devem começar pelas questões de território e segurança não significa que será fácil voltar à mesa de negociações. Em particular, o recente anúncio de um acordo entre Fatah e Hamas gera preocupações profundas e legítimas para Israel – como se pode negociar com um partido que se mostrou pouco disposto a reconhecer seu direito de existir? Nas próximas semanas, os líderes palestinos deverão apresentar resposta crível a essa pergunta. Enquanto isso, os EUA, nossos parceiros do Quarteto e os estados árabes terão de continuar a esforçar-se para superar o atual impasse.” 

(“Discurso de Barack Obama sobre o Oriente Médio”, 19/5/2011, Guardian, UK - transcrição integral que se lê, em inglês).

terça-feira, 17 de maio de 2011

PALESTINA: Acordo Fatah-Hamás

Imprensa árabe e Khaled Meshaal pós-reconciliação 
13/5/2011, Middle East Monitor
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Khaled Meshaal
Correspondentes no Cairo do jornal Al-Sharq Al-Awsat [Oriente Médio] publicado em árabe em Londres, citaram Khaled Meshaal em longo artigo no qual dizem que o mundo árabe testemunhará afinal uma abordagem integrada de interesses que não conflitam entre eles, porque, afinal, dão um passo na direção de atender interesses islâmicos, nacionais, árabes e humanitários que jamais conflitam. A aspiração dos árabes será afinal alcançada, dizem os correspondentes, o que justificará a abordagem integrada dos problemas, que afinal começa a surgir como horizonte. 

“Quero ver toda a nação árabe aberta ao mundo em atitude de moderação positiva, sem que, para isso, tenha de ceder todas as suas potências de resistência” – disse Meshaal. “Queremos traçar um novo mapa político na região, que todos se unam numa só frente, de tal modo que se possam tomar decisões que manifestem políticas árabes bem sucedidas, tanto no plano interno como no plano externo”. 

Meshaal destacou que todos querem virar a página e livrar-se das divisões na frente palestina. “Essa fase acabou”, disse ele. “E estamos implantando medidas e procedimentos muito sérios, para impedir que aconteça outra vez”. Há hoje oportunidade para maximizar os papéis do Egito, da Turquia, de estados árabes, para impedir a ameaça de interferência negativa, vinda de fora. 

Perguntado sobre o que pensa o Hamás sobre o assassinato de Bin Laden, Meshaal disse que “Discordamos da al-Qaeda em muitos pontos, sobretudo nas táticas que provocam a morte de civis inocentes. Mas isso não dá direito aos EUA de eliminar árabes e muçulmanos, agindo à margem da lei.”

Falando sobre o moribundo processo de paz, Meshaal falou da necessidade de uma ampla estratégia árabe e palestina para por fim ao impasse que já dura 20 anos. Essa estratégia, disse ele, exige ação democrática, resistência contra a ocupação israelense, esforços no campo legislativo e pressão total sobre Israel, em todos os campos e em todos os momentos, para conquistar direitos dos palestinos e estabelecer um estado palestino independente.

O comandante político do Hamás disse que o movimento mantém relacionamento positivo com a Europa, mas ainda não tem posição definida em relação a Washington. Considera bem vindo um diálogo não condicionado com as potências mundiais. Meshaal disse que considera Benjamin Netanyahu responsável pela morte do processo de paz, porque obstruiu qualquer tipo de negociação que contribuísse para a libertação de prisioneiros políticos palestinos em troca do soldado israelense Gilad Shalit, capturado quando desenvolvia ação de guerra contra o povo de Gaza.

Segundo Meshaal, “não há divisões internas no Hamás, mas há opiniões diferentes e somos organização democrática”. O movimento é conduzido por lideranças eleitas; todas as decisões são examinadas pelo Gabinete Político e por um Conselho Consultivo eleito. “Concordamos e discordamos, o que é garantia de processo saudável, mas quando as questões chegam ao voto e são votadas, todos passam a trabalhar a favor da decisão da maioria.” 

A situação na Palestina, disse ele, é diferente do que se vê em outros estados árabes nos quais houve revoluções, porque todos são contra a ocupação israelense e todos sabem que qualquer divisão é contraproducente. “Desde o primeiro dia da cisão, todos sempre tentaram alcançar novamente a unidade”, diz. Os palestinos também se beneficiaram com os efeitos da Primavera Árabe e das respostas sistematicamente hostis de Netanyahu, porque foram fatores que empurraram os palestinos na direção da reconciliação interna.

De agora em diante, disse Meshaal, a resistência será sensível à “realidade da reconciliação”, e também o discurso da imprensa. As decisões políticas e militares serão consensuais, de modo a não permitir que diferenças internas criem qualquer tipo de risco extra ao processo de reconciliação. Ficou acertado, disse ele, que os prisioneiros políticos serão libertados o mais rapidamente possível e haverá prazo para que se definam os nomes que comporão uma liderança provisória. O governo provisório “não será sufocado por problemas da situação política, mas terá tarefas específicas a cumprir (como a organização de eleições)”.

Khaled Meshaal disse também que unir-se à OLP (Organização de Libertação da Palestina, antes do acordo dominada pelo partido Fatah) é direito de todos, porque “todos, na Palestina, somos parceiros”. Esse espírito deve reger a nova estrutura de liderança da OLP, cuja construção é parte do acordo de Makkah.

Sobre o processo de paz, Meshaal disse que os palestinos há 20 anos testam as intenções dos israelenses. “Hoje, em nome da segurança do Egito e nos termos do acordo de reconciliação, todos os palestinos concordamos em dar a Israel mais uma oportunidade.” Contudo, disse que os palestinos devem preparar nova estratégia, “porque temos uma oportunidade de ouro para derrotar o bloco contrário à paz que há em Israel.” Tudo o que se fez até o acordo e agora, do acordo em diante, foi e continuará a ser feito “nos melhores interesses do processo que nos conduzirá à paz.” 

Os palestinos não mais aceitarão condições impostas “não importa quem imponha e que condições sejam impostas”, seja sobre o acordo de reconciliação ou qualquer ou aspecto da resolução dos atuais conflitos. “Se o lobby pró-Israel espera que aceitemos as suas condições sobre acordos políticos”, Meshaal fez questão de destacar, “então terão de aceitar nossas condições sobre resultados futuros de eleições para o Parlamento de Israel”. Todos os palestinos, inclusive o Hamás “estão preparados para conversações com a Europa e com os EUA, mas sem precondições.” 

Meshaal disse que há contatos “positivos” entre o Hamás e a Europa. “Com os EUA mantemos relacionamento extra-oficial, graças aos esforços empreendidos pelo ex-presidente Jimmy Carter”. Quanto ao atual governo Obama, disse Meshaal, o Hamás ainda não tem posição definida. “Estamos à espera do resultado do trabalho dos egípcios nesse campo, que esperamos sejam bem sucedidos. E, de Israel, não esperamos grandes novidades.” 

Perguntado sobre como vê o processo de paz, Meshaal perguntou “De que paz você fala? Nós queremos paz para os palestinos na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, para os palestinos da Diáspora e para os palestinos que vivem dentro da Linha Verde [dentro de Israel], e estamos atentos também aos direitos do povo palestino. Depois de estar constituído o estado da Palestina, então sim, poderemos falar melhor sobre paz e sobre Israel”. 

Quanto ao número sempre crescente de estados que já reconheceram o estado palestino, Meshaal disse que os direitos do povo palestino vão além do reconhecimento de um estado: “O mais importante é que as forças israelenses de ocupação retirem-se de volta aos limites das fronteiras que havia dia 4/6/1967. E, para que exista estado da Palestina, é preciso que os palestinos tenham plena soberania nos céus, terra e águas, que possam administrar suas próprias riquezas em benefício do próprio povo e que não haja colônias exclusivas para judeus em território palestino.” Perguntado sobre se o Hamás deslocaria seu quartel-general, da Síria para o Egito, Meshaal disse que “nada há de verdade nas matérias de imprensa que têm falado sobre essa mudança, e nada se alterou, na nossa situação na Síria, que tornasse necessária essa transferência.” 

O correspondente no Cairo de The Quds Press perguntou a Meshaal sobre um acordo para reabrir a passagem de Rafah na fronteira entre o Egito e Gaza. Meshaal respondeu que detalhes dessa decisão serão discutidos com o Egito, “mais adiante”. O Hamás, disse ele, esperará que o Egito recomponha suas condições de estabilidade, para assim poder assumir papel mais decisivo no mundo árabe.

“A Faixa de Gaza é questão de segurança e linha de defesa do Egito. Não queremos jogar sobre o Egito o problema de Gaza, mas tampouco deixaremos escapar o peixe que nos interessa fisgar, que é Israel, não o Egito. Gaza continua como território oficialmente ocupado por Israel, mas isso não é impedimento para a abertura da passagem de Rafah.” 

Meshaal disse ao jornal Quds Press e a outras agências de notícias que o Hamás deseja constituir “um outro eixo árabe, que apóie a resistência, usando meios diplomáticos, positivos e moderados.” Disse que as ameaças que têm partido de Israel depois da reconciliação entre Fatah e Hamás “são tentativas para confundir e encobrir a questão palestina”. “Dos inimigos”, disse Meshaal, “deve-se esperar qualquer coisa. Deve-se esperar que Israel tente fazer abortar a reconciliação dos palestinos.”

A frente palestina unificada, disse ele, construiu um consenso sobre como enfrentar a “as repetidas provocações do inimigo, com prisões na Cisjordânia e assassinatos em Gaza”. “Um Alto Conselho de Segurança definirá as políticas a serem seguidas, com a Cisjordânia e a Faixa de Gaza trabalhando juntas e coordenadamente.” O governo do Cairo, disse Meshaal, “está formando uma equipe, de egípcios e árabes, que dará apoio à implementação do acordo de reconciliação”. 

O Hamás espera que o novo governo egípcio não usará o movimento e a Fraternidade Muçulmana como alguma espécie de ‘espantalho’, para manter o povo dividido. “A Fraternidade Muçulmana é assunto dos egípcios; o Hamás é assunto dos palestinos. Cada grupo deve trabalhar no seu próprio campo, com sua específica sensibilidade política, para eliminar qualquer resíduo que tenha sobrado dos tempos da era Mubarak.” 

A Agência Reuters publicou declarações de Meshaal em que conclama os EUA e a União Europeia a apoiar o acordo de reconciliação entre o Fatah e o Hamás [1], dizendo que a reconciliação é escolha do povo palestino. Em entrevista à Reuters, Meshaal disse que o reconhecimento de Israel pelos palestinos não pode ser discutido, antes de haver estado independente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

“Esperamos que europeus e norte-americanos apoiem nosso direito e não trabalhem contra”, disse ele. “A comunidade internacional deve pressionar Israel para que reconheça um estado palestino, não o contrário”. Repetiu que é preciso que a resistência, popular ou armada, pressione Israel. Perguntado se o Hamás estaria preparado para reconhecer Israel, disse que “Antes, é preciso reconhecer e fazer valer o direito dos palestinos a um estado independente.”

A página da rede Aljazeera na internet disse que Khaled Meshaal e o Hamás não têm qualquer objeção a que o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas beneficie-se de alguns dos efeitos da reconciliação; tudo está sendo feito com vistas a atender interesses dos palestinos. O Hamás, disse Meshaal, há muito se livrou do peso dessas formalidades. Disse à Al Jazeera que cabe a Abbas usar o acordo para pressionar os EUA e Israel.

Perguntado sobre Mahmoud Abbas ter-se recusado a sentar ao seu lado, Meshaal comentou que “todos têm de aprender a conviver com alguns efeitos práticos da reconciliação, para não comprometer a eficácia do próprio acordo”. O Hamás escolheu não desperdiçar nenhuma chance de fazer o que os palestinos esperam que seja feito, e também os egípcios, que tanto trabalharam para viabilizar a reconciliação.

“Acho que todos, também o Fatah, têm de buscar suas melhores energias, temos de conseguir que as forças da solidariedade operem a favor dos palestinos. Mas não se deve subestimar a influência de Netanyahu, interessado em fechar todas as portas.” 

Sobre os próximos passos da implantação do acordo, Meshaal destacou três pontos do acordo entre Fatah e Hamás:

1. Libertação imediata de prisioneiros políticos presos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
2. Fixação de data para reunião que delineará o novo quadro de comando da OLP.
3. Fixação de prazo para discussão detalhada entre Fatah, Hamás e outros grupos, sobre formação do governo provisório, formação do Alto Comitê de Segurança e outras questões de segurança.



Nota de tradução: