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quarta-feira, 7 de março de 2012

Hamás: entre a política e os princípios


Ramzy Baroud, Al-Ahram Weekly, n. 1.087, 1-7/3/2012, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ramzy Baroud
Apesar dos desmentidos do Hamás, trava-se luta de definição dentro do movimento islâmico palestino. O resultado dessa luta – que ainda se mantém confinada a polidas discordâncias políticas e uma ou outra disputa intelectual –, muito provavelmente mudará as feições do Hamás, se não alterar fundamentalmente também a posição do movimento numa paisagem árabe que passa por rápidas transformações.

O atual Hamás já é diferente do inicial, constituído por uma liderança local em Gaza, em dezembro de 1987, em resposta ao primeiro levante popular palestino. Uma das primeiras declarações que circularam, assinada pela ala militar do movimento, então recém constituída (homens com o rosto coberto, armados com porretes de madeira e latas de tinta spray), manifestava a natureza daqueles tempos políticos:

“O que aconteceu a vocês, oh senhores do Egito? Dormem agora, na hora em que é assinado o tratado de Camp David, tratado da vergonha e da rendição? Terá morrido o zelo nacional? Acabou-se o orgulho, enquanto os sionistas diariamente perpetram crimes tão graves contra o povo e as crianças?”

Embora a diferença de poder entre Israel e os palestinos tenha permanecido em vasta medida inalterada, o Hamás converteu-se, de um braço palestino local da Fraternidade Muçulmana do Egito, em manifestação e tour de force dentro da sociedade palestina. Tornou-se também importante ator regional, visto por EUA e Israel como membro do campo radical no Oriente Médio (os outros membros seriam o Irã, a Síria e o Hezbollah). Enquanto Irã e Síria eram demonizados por apoiar e reforçar a resistência palestina e libanesa contra Israel, o Hamás e o Hezbollah resistiram com sucesso contra as aventuras militares de Israel em Gaza e no Líbano.

Mas as revoluções árabes forçaram uma significativa transformação nas relações de poder na região. Símbolos há muito tempo da influência do ocidente na Tunísia, no Egito e no Iêmen foram violenta e decisivamente apeados do poder, embora representantes deles ainda lutem para manter a antiga posição e o antigo poder. O campo moderado foi sacudido no âmago pela derrubada de Hosni Mubarak, o qual, por três décadas, diligentemente defendeu uma fortaleza pró-EUA, em troca de salário fixo. Os eventos dramáticos que sacudiram o mundo árabe exigiram ação rápida, uma espetacular disputa por influência – fosse para reprimir, onde a mudança fosse considerável inaceitável, ou para explorar os levantes genuínos, autóctones, nos casos em que a mudança oferecesse oportunidade para acumular pontos.

A Síria é o grande exemplo desse segundo caso. Para equilibrar o jogo de ganhos e perdas de poder, a derrubada de Mubarak só se completaria com a derrubada do presidente sírio Bashar Al-Assad. Só assim o jogo voltaria a um estado de normalidade – especialmente se se considera a diminuição da influência dos EUA na região, depois que se retirarem do Iraque. Infelizmente para a Síria, o conflito rapidamente se redesenhou, nos termos da política regional. A horrível violência na Síria está sendo contextualizada dentro de perigosos paradigmas que incluem intervenção pela OTAN e a insistência, por alguns países árabes, em transformar a guerra civil em jogo de soma zero.

O Hamás, que sobreviveu com sucesso às rivalidades internas, às guerras de Israel e ao isolamento internacional, viu-se ante seu mais crucial dilema desde as eleições parlamentares de janeiro de 2006. Por um lado, a chamada Primavera Árabe levara à ascensão flagrante (e prevista) das forças políticas do islamismo – das quais o Hamás é parte constitutiva. Por outro lado, ela renovou, de modo pouco claro, o equilíbrio político de toda a região.

Não é segredo que, sem o apoio financeiro do Irã, o Hamás teria dificuldades terríveis para operar na Faixa de Gaza depois do bloqueio israelense em 2007. E Damasco garantiu ao Hamás uma plataforma política, que deu ao movimento islâmico um nível indispensável de liberdade para divulgar suas ideias e aliviar boa parte da pressão que se acumulava sobre seus líderes sitiados em Gaza e na Cisjordânia. Abandonar os próprios aliados, por causa do discurso político cada vez mais polarizado (e sectário) na região de modo algum é ou poderia ser decisão fácil. E aqui está o impasse em que se encontra o Hamás.

O realismo político é inegavelmente oportunista. A reputação do Hamás entre seus apoiadores foi preservada mediante um atento e cuidadoso equilíbrio entre o oportunismo político e princípios ideológicos de motivação religiosa. Mas nenhum equilíbrio passa incólume por tempos revolucionários, por maior que seja a habilidade dos timoneiros. Uma série de acordos feitos entre o Hamás e o Fatah – entre os quais o histórico acordo de Doha, de 6 de fevereiro – foram atribuídos à reformatação das alianças regionais: Mahmoud Abbas e o Fatah sofreram grave golpe com a derrubada de Mubarak, e o futuro do Hamás na Síria pareceu cada dia mais sombrio, dada a escalada da violência.

Apesar de os palestinos clamarem pela reconciliação entre os partidos rivais, fato é que os repetidos episódios da unificação mais incriminavam os dois partidos, quanto menos urgentes se iam tornando o acordo regional e a resistência contra Israel, se confrontados às exigências da política regional. A deriva do Hamás rumo a um novo campo prosseguiu com espantosa velocidade. Os líderes do Hamás em Damasco, e também em Gaza, partiram em tours regionais, na esperança de forjarem novas alianças para o ex-marginalizado movimento de resistência. E, noutra reviravolta, os líderes exilados do Hamás emergiram repentinamente como agentes da política dos moderados. Brian Murphy e Karin Laub explicam assim a nova terminologia:

“O principal líder do movimento no exílio, Khaled Meshaal, quer que o Hamás seja parte do mais amplo crescimento político do Islã (...). Para isso, o Hamás precisa de novos amigos, como os ricos estados do Golfo que estão em guerra contra o Irã”. [1]

Escrevendo no Daily Star libanês, Michael Broning, diretor do think-tank alemão, com sede em Israel, Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung, concorda:

“Meshaal passa a representar uma força de mudança”, diz ele, enquanto o primeiro-ministro de Gaza, Ismail Haniyeh “representa a ala conservadora da liderança do Hamás em Gaza”. E uma abertura de ampla conversão apresenta-se como “desacordos internos no Hamás”, o qual “tem jogado a liderança da diáspora contra o governo do Hamás em Gaza”.

Não por acaso, o artigo de Broning leva o título de “Engajar os moderados do Hamás e testar sua nova flexibilidade”. [2]

Alguns analistas, entre os quais Broning, têm especulado amplamente sobre o futuro do movimento. A imprensa anda cheia de matérias sobre “as manobras” do Hamás ­­– seja porque compelido pela necessidade política, ou impulsionado pelo triunfo ideológico das forças islamistas na região.

É possível que o Hamás se esteja reinventando, ou talvez esteja simplesmente tentando sobreviver à tempestade. De um modo ou de outro, o contexto político das manobras do Hamás vai rapidamente abandonando seu espaço tradicional (a ocupação israelense) e entrando numa nova dimensão, que considera a região como um todo. Embora o Hamás possa argumentar, com razão, que a sobrevivência exige mudanças políticas calculadas, é mais difícil explicar que, tão rapidamente, a politicagem regional atropele as prioridades nacionais.

De fato, a linha que separa política e princípios pode, às vezes, ser muito tênue.




Notas dos tradutores
[1]  9/2/2012, Karin Laub e Brian Murphy, “Hamas drifting away from longtime patron Iran”, Associated Press. 
[2]  24/2/2012, "Engage Hamas' moderates and test their newfound flexibility", The Daily Star, Beirute.  

sábado, 7 de janeiro de 2012

“O Hamás roubou a nossa guerra!”



Uri Avnery

7/1/2012, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Nota introdutória: Os dois excertos de notícias inseridos previamente ao artigo são essenciais para entendimento e acompanhamento histórico sobre o que se passa entre os mais importantes partidos políticos de Gaza e Cisjordânia e como isso afeta o poder ocupante



Khaled Meshall, do Hamás: “A Primavera Árabe começou na Palestina, em 1987”
23/12/2011, Associated Press (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

CAIRO – O Hamás volta a concentrar-se nas manifestações de massa contra Israel, ao estilo dos levantes da “primavera árabe”, disse à Associated Press o estrategista político do Hamás, Khaled Mashaal, na última 5ª-feira.

Mashaal estava no Cairo, para reuniões com Mahmoud Abbas, do partido Fatah. Os dois lados unem-se agora, numa Organização para a Libertação da Palestina (OLP) reformada, para organizar as próximas eleições em 2012, em Gaza e na Cisjordânia.

“Levantes populares têm o poder de tsunamis” – disse Mashaal, falando das recentes ondas de protestos populares no mundo árabe.

“Há agora terreno comum sobre o qual a resistência popular, que é a voz e o poder do povo, pode trabalhar. Os palestinos fomos os primeiros que nos levantamos, nas ruas, contra governo opressor, quando nos levantamos contra Israel, em 1987” – disse Mashall. “Em 1987, os jovens palestinos enfrentaram, com pedradas, os soldados de Israel pesadamente armados. Adiante, o Hamás foi eleito, em eleições livres e limpas, na Cisjordânia e em Gaza.

Grupos palestinos avançam na reconciliação

25/12/2011, Osamah Radi, Omer Othmani, Xinhuanet, Pequim (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

GAZA, Dec. 24 (Xinhua) – Os palestinos deram mais um passo na direção de uma unificação histórica, com a reforma da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), como representante dos palestinos, na primeira grande reforma que está sendo pactuada entre Hamas e Fatah, desde a fundação, em 1964.

Com a reforma da OLP, o Hamas e a Jihad palestina devem unir-se à OLP, pela primeira vez. Os dois movimentos participarão das eleições para o Conselho Nacional Palestino [ing. Palestinian National Council (PNC)], o parlamento da OLP no exílio.

O anúncio foi feito em reunião na 5ª-feira, preparatória para a cúpula a ser realizada em fevereiro, da qual deve sair um governo unitário de transição, formado por membros do Fatah e do Hamas. (...)

Segundo o acordo que está sendo construído entre Hamas e Fatah, o novo PNC será eleito no próximo mês de maio, quando também devem serão eleitos presidente e deputados em data ainda não decidida. (...)

Yousef Rezqah, alto dirigente do Hamás, disse que “o Hamás esperará a eleição de um novo PNC, para unir-se formalmente à OLP. Depois das eleições para o Conselho Nacional Palestino, o Hamás analisará os programas políticos da OLP e seus compromissos. Só as eleições podem decidir o que será feito, e se os acordos que estão sendo construídos agora darão frutos ou não” – acrescentou o dirigente do Hamás.

Finalmente o artigo do Uri!

E enquanto isso, em Israel...

O vilão é o Hamás!
Não há limites na vilania do Hamás!
Essa semana, o Hamás fez algo realmente imperdoável!
 O Hamás roubou a guerra de Bibi Netanyahu!
Bibi ficou sem guerra!

Já há algumas semanas, o quase novo comandante do Exército de Israel, vem anunciando, praticamente em todas as oportunidades, que uma nova guerra contra a Faixa de Gaza “é inevitável”. Vários comandantes de tropas em torno da Faixa, repetiram sem parar esse “prognóstico”, e também seus auxiliares de campo, chamados “especialistas em questões militares”, todos dizendo a mesma coisa.

Um deles teve até uma palavra de consolo: é verdade que os foguetes do Hamás já podem atingir Telavive, mas... não se preocupem, que não será muito terrível. Será guerra curta, coisa de dois, três dias. Um dos generais israelenses acrescentou que será guerra muito mais “dura e dolorosa” (para os árabes) que [a Operação] “Chumbo Derretido 1”, quer dizer, não durará três semanas, como aquela. Bastará que os israelenses permaneçam metidos nos abrigos (os que têm abrigos), só por alguns dias.

E por que a tal guerra seria inevitável? Por causa do terrorismo, estúpido! O Hamás é organização terrorista, não é?

E foi quando o líder supremo do Hamás Khaled Mash’al apareceu e disse que o Hamás passará a organizar levantes populares. Doravante, o Hamás se dedicará a manifestações não violentas, no espírito da Primavera Árabe.

E, se o Hamás abjura o terrorismo... desaparecem todos os pretextos para atacar Gaza.

Ora! E quem precisa de pretextos? O exército de Israel nunca será derrotado por estrategistas como Mash’al e seu bando. Se o exército de Israel quer guerra, o exército de Israel sempre arranja alguma guerra. Foi o que se viu em 1982, quando Ariel Sharon atacou o Líbano, num momento em que, há 11 meses, não acontecia nenhum tipo de problema da fronteira libanesa. (Depois da guerra, criou-se em Israel o mito de que teria havido forte tiroteio na véspera. Hoje, quase todos os israelenses “lembram-se” do tiroteio que nunca houve – exemplo espantoso do poder de sugestão.

E POR QUE o comandante do exército de Israel tanto quer atacar alguém?

Os cínicos diriam que todos os comandantes de exército recém nomeados precisam de guerra nova, para chamarem de sua. Mas não somos cínicos.

Dia sim, dia não, um solitário rojão é lançado da Faixa de Gaza, na direção de Israel. Raramente cai em local diferente de campos não habitados. Já há meses ninguém, em Israel, é ferido por aqueles rojões, produzidos em casa.

A sequência regular é sempre a mesma: o exército israelense imediatamente realiza uma “liquidação predefinida” [orig.“targeted liquidation”] de militantes na Faixa de Gaza. O motivo é, sempre, que aqueles predefinidos “terroristas” imediatamente liquidados tentaram atacar cidadãos de Israel. E como o exército de Israel adivinha os planos deles? Ah! O exército de Israel sabe ler pensamentos.

Imediatamente depois de aqueles mortos serem mortos, o grupo militante no qual militava cada morto entende que seja seu dever vingar seus mortos e cada grupo lança um rojão ou morteiro, às vezes dois, às vezes três. O que “não pode ser tolerado pelo exército de Israel”... e assim vai.

Depois de cada episódio desse tipo, recomeçam em Israel, as ameaças de guerra. Como dizem deputados e senadores dos EUA, nas palestras que fazem no Comitê Norte-Americano Israelense de Relações Públicas, o AIPAC: “Nenhum país pode admitir que seus cidadãos fiquem expostos a rojões!”.

Evidentemente, claro, a Operação Chumbo Derretido não foi motivada pelos rojões palestinos: os motivos foram outros e mais sérios.

O Hamás começa a ser aceito e começa a integrar-se à comunidade internacional. O primeiro-ministro da Cisjordânia, governada pelo Hamás eleito, Isma’il Haniyeh, está viajando pelo mundo árabe e muçulmano, apesar de Israel tê-lo mantido por muito tempo como que cercado, e calado, em Gaza – uma espécie de cerco da Faixa de Gaza. 

Mas hoje o Hamás já entra e sai do Egito, porque a Fraternidade Muçulmana – organização-mãe, da qual nasceu o Hamás – já é praticamente o governo, no Egito.

Muito pior: o Hamás aproxima-se perigosamente de unir-se à Organização para a Libertação da Palestina, com o que passará a integrar o governo palestino. Não pode ser! Israel tem de tomar alguma providência. Por exemplo... Atacar Gaza! Obrigar o Hamás a pegar em armas, outra vez! Obrigar o Hamás a voltar a ser organização extremista. 

Não satisfeito com ter privado Israel de sua guerra – “o Hamás roubou a nossa guerra!” – Khaled Mash’al planeja outras ações sinistras. 

Ao aproximar-se da Organização para a Libertação da Palestina, Mash’al aproxima o Hamás, também, dos Acordos de Oslo e de todos os demais arranjos já feitos entre Israel e a OLP. Mash’al já anunciou que o Hamás aceita um estado palestino nas fronteiras de 1967. Já fez saber que, esse ano, o Hamás não contestará a legitimidade da presidência palestina, o que, na prática, implica que o candidato do partido Fatah – seja quem for – será eleito sem qualquer oposição e, claro, terá legitimidade para negociar com Israel.

Tudo isso, na prática, encurrala o atual governo de Israel. E Mash’al tem alguma experiência no que tenha a ver com complicar muito a vida de Israel. 

Em 1997, o (primeiro) governo de Netanyahu resolveu livrar-se dele para sempre, em Amã. Mandou para lá uma equipe de agentes do Mossad, com a missão de assassinar Mash’al em plena rua, com um jato de veneno que não deixaria vestígios, lançado de uma lata de spray, diretamente dentro do ouvido de Mash’al. 

Mas, em vez de fazer a coisa certa, e morrer silenciosamente de causa jamais identificada, como Yasser Arafat, Mash’al mandou seus guarda-costas perseguirem os espiões do Mossad, e pegá-los vivos.

Tudo isso aconteceu na Jordânia. O rei Hussein, aliado de Israel há anos, foi imediatamente informado de tudo. E ficou furioso, por Israel ter infiltrado seus espiões, em missão de assassinato, em território jordaniano. Disse a Netanyahu que ele escolhesse: ou os espiões do Mossad seriam julgados na Jordânia onde muito provavelmente seriam condenados e enforcados, ou o Mossad que enviasse, imediatamente, o antídoto ao tal veneno, para salvar a vida de Mash’al. Netanyahu rendeu-se. E aí está Khaled Mash’al, hoje, vivo e forte[1].

Outro curioso resultado dessa malfadada aventura: o rei Hussein também exigiu de Netanyahu que o fundador do Hamás e líder supremo do movimento, Sheik Ahmad Yassin, paraplégico, que estava preso em Israel, fosse imediatamente libertado. Netanyahu também obedeceu, Yassin foi libertado (e assassinado por Israel, sete anos depois. Pouco depois, o sucessor de Yassin, Abd al-Aziz Rantissi, também foi assassinado. Khaled Mash’al, embora muito jovem, foi então escolhido para sucedê-lo, no comando político e militar do Hamás.

E Mash’al, em vez de manifestar gratidão imorredoura a Israel, aí está, a desfiar abertamente o exército israelense! Fim das ações violentas, abertura indireta para negociações de paz, até, talvez, para a solução dos dois estados! 

UMA PERGUNTA: Por que o comandante do exército de Israel tanto insiste em ter sua guerrinha em Gaza, se pode ter a guerra das guerras, contra o Irã? Não pequena operação de morticínio, mas grande guerra, guerra mesmo!

Ora, porque sabe que não conseguirá a guerra contra o Irã.

Há algum tempo, fiz algo que jornalistas inexperientes sempre fazem: apostei que Israel não atacaria o Irã. (Apostei também, justo acrescentar, que nem os EUA atacariam o Irã.)

Políticos e jornalistas experientes não apostam nem fazem esse tipo de previsão, sem deixar aberta um túnel de fuga. Sempre acrescentam um “a menos que...”. Se a aposta começa a azedar e a previsão periclita, pode-se escapar por ali.

Passei por coisa semelhante – há uns 60 anos – mas não escapei por túnel algum. Eu disse “Não haverá guerra”. Agora, o general Gantz diz a mesma coisa, com mais palavras: Israel não atacará o grande Irã; só contra a pequena, pobre, infeliz Faixa de Gaza.

Por quê? Responde-se com uma palavra: Ormuz.

Não o antigo deus persa Hormuzd, mas o pequeno estreito, entrada e saída do Golfo Persa, pelo qual passa 20% do petróleo do mundo (e 35% do petróleo transportado por oleodutos submarinos). A ideia é que nenhum governante mentalmente são (nem os apenas levemente alucinados) jamais poriam em jogo o trânsito pelo Estreito de Ormuz, cujo fechamento causará consequências catastróficas, apocalípticas.

O Irã, que não confia que todos os governos do mundo leiam essa coluna, tratou logo de explicar, com a máxima clareza possível. Fizeram manobras militares ostensivas próximas ao Estreito de Ormuz. É claro que o Irã pode, se precisar, fechar tudo, por ali.

Os EUA responderam com a arrogância de praxe, com ameaças de retaliação. A invencível Armada dos EUA logo reabrirá o Estreito, se preciso for.

Mas... Como? Qualquer super porta-aviões multibilionário pode ser facilmente inutilizado por uma bateria de mísseis terra-ar baratinhos, e, até, por barcos pequenos armados com mísseis. Imaginemos que o Irã faça o que ameaçou fazer. Os EUA mandarão para lá todo o poder de fogo de sua gigantesca Força Aérea, mais toda a invencível Armada dos EUA. Afundarão os barcos iranianos, bombardearão todas as instalações do exército iraniano. E nem assim impedirão que os mísseis do Irã continuem a chover sobre o Estreito, tornando impensável o trânsito de superpetroleiros por ali.

E depois? Restará a alternativa dos “coturnos em terra”. Os EUA terão de desembarcar no litoral e ocupar todo o território do qual os mísseis continuarão a poder ser lançados. Seria gigantesca operação de guerra. Os iranianos resistirão ferozmente, se se pensa no que houve em oito anos da guerra Iraque-Irã. E ali perto estão a Arábia Saudita e os outros estados do Golfo, que também seriam atingidos.

Teria de ser operação muito maior que a invasão do Iraque ou do Afeganistão, pelos EUA. Maior, até, que a invasão do Vietnã.

Os EUA, falidos, teriam como fazer tudo isso? Economicamente, politicamente? O exército dos EUA está hoje em condições morais, para fazer tudo isso? Fechar o Estreito de Ormuz é a solução “bomba-atômica”, a arma derradeira. O Irã não a usará contra sanções, por severas que sejam, como ameaçaram fazer. Mas a usarão, sim, se sofrerem ataque militar direto.

Se Israel atacar sozinha – “a ideia mais estúpida que jamais ouvi”, como disse o ex-comandante do Mossad – nada muda. O Irã interpretará o ataque israelense como ataque norte-americano, e fechará o Estreito. Por isso, precisamente, o governo Obama já mandou entregar em mãos de Netanyahu e Ehud Barak ordem expressa para que não empreendam nenhum tipo de ação militar contra o Irã.

O exército israelense, assim, ficou sem guerra! Nada de guerra ao Irã. Resta-lhe, como possibilidade de guerra, atacar Gaza. E, bem nessa hora, aparece o “terrorista” Mash’al, do “terrorista” Hamás, querendo estragar também a guerra contra Gaza!


Nota dos tradutores
[1] Essa história, narrada em detalhes, e leitura absolutamente fascinante, riquíssima de informação jornalística útil, é tema do livro Kill Khalid, do jornalista australiano Paul McGeough (Londres: The New Press, 2008), sem tradução para o português.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Shalit: Israel ganha, mas de cabeça baixa

19/10/2011, M K Bhadrakumar, Asia Times Online 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Como se diz, o sucesso tem muitos padrinhos, mas o fracasso é órfão. A troca histórica de prisioneiros entre Israel e o Hamás comprova o velho adágio. Egito, Qatar, Turquia e Alemanha – todos tiveram papel importante. Mas, no fim, o sucesso ficou com Israel, que bem merece reclamá-lo para si. Por outro lado, o jogo está na metade e ninguém, por hora, pode declarar-se vencedor. 
Parentes carregam nos braços os presos políticos, alguns com mais de 20 anos de prisão 
O Hamás, na 3ª-feira, entregou a Israel o soldado Gilad Shalit, 25 anos, e obteve a liberdade para mais de mil prisioneiros palestinos, alguns deles condenados por crimes de morte. 

Para Israel, que apostou muito no resgate de um único cidadão merece louvor e Israel insistiu, com chantagem e ameaças e gritaria, para que o Hamás libertasse Shalit, capturado há cinco anos. Isso é bom e os israelenses têm bem o que festejar. O assunto está em todas as manchetes de todos os jornais em Israel. Momentos assim dão significado à existência de qualquer estado, e valem muito, sobretudo, para estado sitiado. 

Mas, à parte a sensação de júbilo, Israel ganhou também em termos mais substantivos. A política do Oriente Médio muda de fase, com a entrega de Shalit. Emergiram pelo menos seis novas grandes questões, o que caracteriza extraordinário evento geopolítico, cada uma delas significativa por si só e ainda mais significativa em combinação com as demais. 

1. Em primeiro lugar, o Egito está sendo amplamente aplaudido pelo papel que teve nas negociações da troca e, assim, está hoje no centro da política regional, de volta à tradicional liderança que sempre teve na política árabe. Surgirão daí desdobramentos imensamente importantes em termos das relações do Egito com EUA, Israel e seus vizinhos. 

Simultaneamente, o resultado da atual transição política no Egito transformou-se e tornou-se extraordinariamente importante para toda a região e fora dela. No processo, o marechal-de-campo Mohammed Hussein Tantawi pode ter consolidado sua base de poder e aumentado sua importância aos olhos das potências ocidentais, especialmente os EUA. O papel do Egito, na troca, chama a atenção para a evidência de que os EUA tiveram importante papel por trás das cortinas no “diálogo” com Tantawi sobre as intrincadas minúcias da troca e o encorajaram a prosseguir. 

2. Em segundo lugar, a Turquia também ganha uma fatia do bolo – embora menor – e dá um passo (pequeno) na direção de cobrar para si o perdido legado otomano, como potência a considerar-se, no Oriente Médio. Segundo os jornais, a Turquia teve papel ativo nas consultas entre Israel e o Hamás, dentre outros. 

No processo, a Turquia pode ter dado o primeiro passo na direção de descongelar as relações com Israel. Por outro lado, mostrou que tem influência também junto ao Hamás – o que a pode pôr em posição de contribuir, pelo menos um pouco, num futuro acordo para o Oriente Médio. 

3. Em terceiro lugar, Qatar e Síria também tiveram atuação importante para que a troca se consumasse. Esses dois países receberão a maior parte dos prisioneiros palestinos que estão saindo das prisões israelenses. O Qatar segue, triunfante, a marcha na direção de fazer aumentar o seu peso na política regional. 

Já na Líbia, o Qatar pareceu ter alcançado status de fazedor de reis; agora, já aspira a direitos de peso pesado no primeiro círculo da política do Oriente Médio, completamente tomado pelo problema das relações entre palestinos e Israel. Sem dúvida, o Qatar emergiu como um dos atores mais valiosos para as potências ocidentais no tabuleiro do Oriente Médio. É jogador de características únicas: é peão e torre, ao mesmo tempo. 

Do mesmo modo, Damasco também comprovou que sempre se pode contar com ela como fator de estabilidade regional. O líder do Hamás, Khalid Meshaal, vive em Damasco. A Síria, com certeza sabia das idas e vindas e não só contribuiu para o pragmatismo do Hamás como, possivelmente, o encorajou. Israel não deixará de ver o papel da Síria na troca de prisioneiros, aspecto que tem sido deixado de lado, no projeto de “mudança de regime” em Damasco. 

4. Em quarto lugar, salta aos olhos a evidência de que nem EUA nem Arábia Saudita nem Irã aparecem entre os protagonistas da troca de prisioneiros. E eram vistos como atores chaves na política regional. O fato de os países da região terem organizado iniciativa de tal magnitude, com os EUA, no máximo, trabalhando nas sombras, traz, só ele, importante mensagem. 

Arábia Saudita e Irã só puderam, de fato, dar os parabéns aos protagonistas palestinos, e depois de a troca estar feita. Não há notícia de que tenham tido participação na coreografia do evento; a contribuição desses dois países limitou-se à concordância com os termos já definidos da troca. 

5. Em quinto lugar, o Hamás ganhou incomensuravelmente, em estatura. Negociou diretamente com grande número de países, especialmente com a Alemanha, o que faz crescer muito a sua imagem internacional[1] e lhe dá ainda maior legitimidade entre os palestinos. O mais crucialmente significativo é que o Hamás negociou e acertou a troca com o seu pior inimigo. 

Já é mais que hora de o Hamás ocupar o lugar que lhe cabe como voz legítima dos palestinos ao lado do Fatah – se não mais influente que o Fatah. Na prática, o Hamás impôs-se como ator forte e persistente, em qualquer acordo para resolver o problema palestino. A popularidade que o Hamás havia perdido, está hoje mais do que recomposta, e crescendo. 

6. Em sexto e último lugar, Israel venceu, mas de cabeça baixa. Conseguiu “reengajar” a vizinhança árabe, especialmente o Egito. Do outro lado da fronteira, Israel está quebrando o agudo isolamento regional em que ficou, desde o início da Primavera Árabe. As coisas devem melhorar, doravante, com Ancara, onde já há um sentimento nascente de que o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan talvez tenha levado um pouco longe demais a “inimizade” com Israel, se se consideram os interesses turcos de longo prazo. 

Mas, para Israel, o mais precioso ganho é estar de volta aos negócios com o Egito, o único vizinho árabe sem o qual Israel simplesmente não vive. As relações entre Egito e Israel estavam deteriorando muito rapidamente e o que se dizia era que as coisas poderiam piorar – talvez, piorar muito – antes de poderem começar a melhorar. Pelo menos, do ponto de vista de Israel, o desastre em andamento foi contido, e Israel respirará aliviada, vendo o Egito retomar seu papel tradicional, no relacionamento entre os dois países. 

Também aqui, é só um começo. O Egito mostrou que tem vontade e capacidade para desempenhar papel de liderança, do qual abdicou, há três décadas, depois do acordo de paz de Camp David. O Egito se sentirá induzido a assumir maiores responsabilidades na segurança e na estabilidade regionais. 

Israel com certeza estimulará essas tendências. Egito e Alemanha foram os dois únicos países aos quais o presidente Shimon Peres e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fizeram referência, elogiados por terem possibilitado que a troca fosse feita sem incidentes. Antes, Israel já apresentara desculpas formais ao Egito, pela morte de soldados da segurança egípcia no Sinai – desculpas que os israelenses negaram obstinadamente à Turquia, no caso dos militantes mortos na abordagem da Flotilha Free Freedom, que viajava para Gaza no ano passado. 

O mais importante é que a troca suspende momentaneamente o continuado declínio da imagem de Israel no mundo nos últimos meses. Ao que parece, os levantes no Oriente Médio deixaram Israel sem saber o que fazer para prosseguir. Era visível que a bússola sionista não funcionava bem. 

A troca, na qual Israel concordou em libertar 1.027 palestinos por um único israelense é um modo de reparar a imagem manchada de Israel. Sim, Netanyahu agiu sob a imensa pressão do isolamento em que Israel estava na comunidade mundial. Mas também mostrou que pode vir a ser parceiro sério em futuras negociações. 

Seja como for, a euforia pela volta de Shalit não durará para sempre. As duras realidades começarão a aparecer. Há várias outras importantes decisões que Netanyahu terá de tomar imediatamente, se quiser que os atuais bons resultados se mantenham. 

Uma dessas decisões pode ser levantar imediatamente o bloqueio contra Gaza. De positivo, hoje, que as tensões diminuíram. Mas voltarão a subir, se nada mais for feito.



Nota dos tradutores

[1] Prova disso é que até o Jornal Nacional, da Rede Globo – que é o pior noticiário do mundo! – mostrou Khaled Meshall, dia 11/10, como se vê em: Israel e grupo palestino Hamas anunciam acordo para libertar soldado sequestrado. Mas as imagens hoje acessíveis por internet, no endereço acima não são as mesmas que foram ao ar. Nas imagens que foram ao ar, Khaled Meshall aparece numa conferência de imprensa, cercado por um oceano de microfones e câmeras de todo o mundo. Aparentemente, os jornalistas que editam o Jornal Nacional entenderam que aquelas imagens mostravam algum “excesso de realidade”, que a Rede Globo censurou imediatamente. 

Embaixador *MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Asia Online. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

terça-feira, 17 de maio de 2011

PALESTINA: Acordo Fatah-Hamás

Imprensa árabe e Khaled Meshaal pós-reconciliação 
13/5/2011, Middle East Monitor
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Khaled Meshaal
Correspondentes no Cairo do jornal Al-Sharq Al-Awsat [Oriente Médio] publicado em árabe em Londres, citaram Khaled Meshaal em longo artigo no qual dizem que o mundo árabe testemunhará afinal uma abordagem integrada de interesses que não conflitam entre eles, porque, afinal, dão um passo na direção de atender interesses islâmicos, nacionais, árabes e humanitários que jamais conflitam. A aspiração dos árabes será afinal alcançada, dizem os correspondentes, o que justificará a abordagem integrada dos problemas, que afinal começa a surgir como horizonte. 

“Quero ver toda a nação árabe aberta ao mundo em atitude de moderação positiva, sem que, para isso, tenha de ceder todas as suas potências de resistência” – disse Meshaal. “Queremos traçar um novo mapa político na região, que todos se unam numa só frente, de tal modo que se possam tomar decisões que manifestem políticas árabes bem sucedidas, tanto no plano interno como no plano externo”. 

Meshaal destacou que todos querem virar a página e livrar-se das divisões na frente palestina. “Essa fase acabou”, disse ele. “E estamos implantando medidas e procedimentos muito sérios, para impedir que aconteça outra vez”. Há hoje oportunidade para maximizar os papéis do Egito, da Turquia, de estados árabes, para impedir a ameaça de interferência negativa, vinda de fora. 

Perguntado sobre o que pensa o Hamás sobre o assassinato de Bin Laden, Meshaal disse que “Discordamos da al-Qaeda em muitos pontos, sobretudo nas táticas que provocam a morte de civis inocentes. Mas isso não dá direito aos EUA de eliminar árabes e muçulmanos, agindo à margem da lei.”

Falando sobre o moribundo processo de paz, Meshaal falou da necessidade de uma ampla estratégia árabe e palestina para por fim ao impasse que já dura 20 anos. Essa estratégia, disse ele, exige ação democrática, resistência contra a ocupação israelense, esforços no campo legislativo e pressão total sobre Israel, em todos os campos e em todos os momentos, para conquistar direitos dos palestinos e estabelecer um estado palestino independente.

O comandante político do Hamás disse que o movimento mantém relacionamento positivo com a Europa, mas ainda não tem posição definida em relação a Washington. Considera bem vindo um diálogo não condicionado com as potências mundiais. Meshaal disse que considera Benjamin Netanyahu responsável pela morte do processo de paz, porque obstruiu qualquer tipo de negociação que contribuísse para a libertação de prisioneiros políticos palestinos em troca do soldado israelense Gilad Shalit, capturado quando desenvolvia ação de guerra contra o povo de Gaza.

Segundo Meshaal, “não há divisões internas no Hamás, mas há opiniões diferentes e somos organização democrática”. O movimento é conduzido por lideranças eleitas; todas as decisões são examinadas pelo Gabinete Político e por um Conselho Consultivo eleito. “Concordamos e discordamos, o que é garantia de processo saudável, mas quando as questões chegam ao voto e são votadas, todos passam a trabalhar a favor da decisão da maioria.” 

A situação na Palestina, disse ele, é diferente do que se vê em outros estados árabes nos quais houve revoluções, porque todos são contra a ocupação israelense e todos sabem que qualquer divisão é contraproducente. “Desde o primeiro dia da cisão, todos sempre tentaram alcançar novamente a unidade”, diz. Os palestinos também se beneficiaram com os efeitos da Primavera Árabe e das respostas sistematicamente hostis de Netanyahu, porque foram fatores que empurraram os palestinos na direção da reconciliação interna.

De agora em diante, disse Meshaal, a resistência será sensível à “realidade da reconciliação”, e também o discurso da imprensa. As decisões políticas e militares serão consensuais, de modo a não permitir que diferenças internas criem qualquer tipo de risco extra ao processo de reconciliação. Ficou acertado, disse ele, que os prisioneiros políticos serão libertados o mais rapidamente possível e haverá prazo para que se definam os nomes que comporão uma liderança provisória. O governo provisório “não será sufocado por problemas da situação política, mas terá tarefas específicas a cumprir (como a organização de eleições)”.

Khaled Meshaal disse também que unir-se à OLP (Organização de Libertação da Palestina, antes do acordo dominada pelo partido Fatah) é direito de todos, porque “todos, na Palestina, somos parceiros”. Esse espírito deve reger a nova estrutura de liderança da OLP, cuja construção é parte do acordo de Makkah.

Sobre o processo de paz, Meshaal disse que os palestinos há 20 anos testam as intenções dos israelenses. “Hoje, em nome da segurança do Egito e nos termos do acordo de reconciliação, todos os palestinos concordamos em dar a Israel mais uma oportunidade.” Contudo, disse que os palestinos devem preparar nova estratégia, “porque temos uma oportunidade de ouro para derrotar o bloco contrário à paz que há em Israel.” Tudo o que se fez até o acordo e agora, do acordo em diante, foi e continuará a ser feito “nos melhores interesses do processo que nos conduzirá à paz.” 

Os palestinos não mais aceitarão condições impostas “não importa quem imponha e que condições sejam impostas”, seja sobre o acordo de reconciliação ou qualquer ou aspecto da resolução dos atuais conflitos. “Se o lobby pró-Israel espera que aceitemos as suas condições sobre acordos políticos”, Meshaal fez questão de destacar, “então terão de aceitar nossas condições sobre resultados futuros de eleições para o Parlamento de Israel”. Todos os palestinos, inclusive o Hamás “estão preparados para conversações com a Europa e com os EUA, mas sem precondições.” 

Meshaal disse que há contatos “positivos” entre o Hamás e a Europa. “Com os EUA mantemos relacionamento extra-oficial, graças aos esforços empreendidos pelo ex-presidente Jimmy Carter”. Quanto ao atual governo Obama, disse Meshaal, o Hamás ainda não tem posição definida. “Estamos à espera do resultado do trabalho dos egípcios nesse campo, que esperamos sejam bem sucedidos. E, de Israel, não esperamos grandes novidades.” 

Perguntado sobre como vê o processo de paz, Meshaal perguntou “De que paz você fala? Nós queremos paz para os palestinos na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, para os palestinos da Diáspora e para os palestinos que vivem dentro da Linha Verde [dentro de Israel], e estamos atentos também aos direitos do povo palestino. Depois de estar constituído o estado da Palestina, então sim, poderemos falar melhor sobre paz e sobre Israel”. 

Quanto ao número sempre crescente de estados que já reconheceram o estado palestino, Meshaal disse que os direitos do povo palestino vão além do reconhecimento de um estado: “O mais importante é que as forças israelenses de ocupação retirem-se de volta aos limites das fronteiras que havia dia 4/6/1967. E, para que exista estado da Palestina, é preciso que os palestinos tenham plena soberania nos céus, terra e águas, que possam administrar suas próprias riquezas em benefício do próprio povo e que não haja colônias exclusivas para judeus em território palestino.” Perguntado sobre se o Hamás deslocaria seu quartel-general, da Síria para o Egito, Meshaal disse que “nada há de verdade nas matérias de imprensa que têm falado sobre essa mudança, e nada se alterou, na nossa situação na Síria, que tornasse necessária essa transferência.” 

O correspondente no Cairo de The Quds Press perguntou a Meshaal sobre um acordo para reabrir a passagem de Rafah na fronteira entre o Egito e Gaza. Meshaal respondeu que detalhes dessa decisão serão discutidos com o Egito, “mais adiante”. O Hamás, disse ele, esperará que o Egito recomponha suas condições de estabilidade, para assim poder assumir papel mais decisivo no mundo árabe.

“A Faixa de Gaza é questão de segurança e linha de defesa do Egito. Não queremos jogar sobre o Egito o problema de Gaza, mas tampouco deixaremos escapar o peixe que nos interessa fisgar, que é Israel, não o Egito. Gaza continua como território oficialmente ocupado por Israel, mas isso não é impedimento para a abertura da passagem de Rafah.” 

Meshaal disse ao jornal Quds Press e a outras agências de notícias que o Hamás deseja constituir “um outro eixo árabe, que apóie a resistência, usando meios diplomáticos, positivos e moderados.” Disse que as ameaças que têm partido de Israel depois da reconciliação entre Fatah e Hamás “são tentativas para confundir e encobrir a questão palestina”. “Dos inimigos”, disse Meshaal, “deve-se esperar qualquer coisa. Deve-se esperar que Israel tente fazer abortar a reconciliação dos palestinos.”

A frente palestina unificada, disse ele, construiu um consenso sobre como enfrentar a “as repetidas provocações do inimigo, com prisões na Cisjordânia e assassinatos em Gaza”. “Um Alto Conselho de Segurança definirá as políticas a serem seguidas, com a Cisjordânia e a Faixa de Gaza trabalhando juntas e coordenadamente.” O governo do Cairo, disse Meshaal, “está formando uma equipe, de egípcios e árabes, que dará apoio à implementação do acordo de reconciliação”. 

O Hamás espera que o novo governo egípcio não usará o movimento e a Fraternidade Muçulmana como alguma espécie de ‘espantalho’, para manter o povo dividido. “A Fraternidade Muçulmana é assunto dos egípcios; o Hamás é assunto dos palestinos. Cada grupo deve trabalhar no seu próprio campo, com sua específica sensibilidade política, para eliminar qualquer resíduo que tenha sobrado dos tempos da era Mubarak.” 

A Agência Reuters publicou declarações de Meshaal em que conclama os EUA e a União Europeia a apoiar o acordo de reconciliação entre o Fatah e o Hamás [1], dizendo que a reconciliação é escolha do povo palestino. Em entrevista à Reuters, Meshaal disse que o reconhecimento de Israel pelos palestinos não pode ser discutido, antes de haver estado independente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

“Esperamos que europeus e norte-americanos apoiem nosso direito e não trabalhem contra”, disse ele. “A comunidade internacional deve pressionar Israel para que reconheça um estado palestino, não o contrário”. Repetiu que é preciso que a resistência, popular ou armada, pressione Israel. Perguntado se o Hamás estaria preparado para reconhecer Israel, disse que “Antes, é preciso reconhecer e fazer valer o direito dos palestinos a um estado independente.”

A página da rede Aljazeera na internet disse que Khaled Meshaal e o Hamás não têm qualquer objeção a que o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas beneficie-se de alguns dos efeitos da reconciliação; tudo está sendo feito com vistas a atender interesses dos palestinos. O Hamás, disse Meshaal, há muito se livrou do peso dessas formalidades. Disse à Al Jazeera que cabe a Abbas usar o acordo para pressionar os EUA e Israel.

Perguntado sobre Mahmoud Abbas ter-se recusado a sentar ao seu lado, Meshaal comentou que “todos têm de aprender a conviver com alguns efeitos práticos da reconciliação, para não comprometer a eficácia do próprio acordo”. O Hamás escolheu não desperdiçar nenhuma chance de fazer o que os palestinos esperam que seja feito, e também os egípcios, que tanto trabalharam para viabilizar a reconciliação.

“Acho que todos, também o Fatah, têm de buscar suas melhores energias, temos de conseguir que as forças da solidariedade operem a favor dos palestinos. Mas não se deve subestimar a influência de Netanyahu, interessado em fechar todas as portas.” 

Sobre os próximos passos da implantação do acordo, Meshaal destacou três pontos do acordo entre Fatah e Hamás:

1. Libertação imediata de prisioneiros políticos presos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
2. Fixação de data para reunião que delineará o novo quadro de comando da OLP.
3. Fixação de prazo para discussão detalhada entre Fatah, Hamás e outros grupos, sobre formação do governo provisório, formação do Alto Comitê de Segurança e outras questões de segurança.



Nota de tradução: