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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pepe Escobar − “Europa e Ucrânia: um conto de duas eleições”

27/5/2014, [*] Pepe Escobar, Rússia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Petro Poroshenko passa diante do painel que anunciava sua vitória
As circunstâncias que cercam as eleições na Europa e na Ucrânia estão longe de ser mera coincidência.

Os mudadores de regime em Kiev decidiram fazer eleições presidenciais dia 25 de maio, no mesmo dia das eleições para o Parlamento Europeu, para assim manifestar o desejo de seguir política externa eurocêntrica. Praticamente, eleições que nasceram unidas pelos quadris! 

No final, a eleição na Ucrânia foi mesmo manifestação da própria política exterior europeia em ação – o mudancismo de regime, que acorda o monstro da guerra civil. 

Poucos na Europa terão observado o quanto esse processo é distante de qualquer “democracia” – em vez de conciliação democrática, está consagrando a intolerância e uma ideologia de confrontação brutal, cega, representada nesse “debate” em Kiev, “coordenado” por um historiador-de-Yale absolutamente sem-noção. 

Fatos chaves que têm de ser compreendidos são como o “ocidente” ignorou o massacre de Odessa e a prisão de jornalistas russos; e como o “ocidente” atropelou as aspirações dos ucranianos do leste e do sul, tratando-as como se fossem serviço de “pró-russos” ou de “terroristas”. O pessoal foi convertido em objeto de repressão violenta – amplamente supervisionada pelo “ocidente”, com, agora, todo o teatro-do-absurdo do mudancismo tresloucado de regime em Kiev já legitimado por uma eleição-farsa. 

Muito mais que o fato já comprovado de que houve uma avançada-putsch atlanticista contra fronteiras ocidentais da Rússia, a Ucrânia permanece como rinha-octógono de luta-livre entre oligarquias locais. Não surpreende que o novo presidente ucraniano seja, ele também oligarca: é o 7º homem mais rico do mundo, dono não só de um império de chocolate, mas, também de fábricas de automóveis, de um estaleiro na Crimeia e de um canal de TV. A única diferença, é que se trata, aí, de oligarca OTANista. 

É a economia, estúpido! 

Entrementes, no OTANistão, elites locais e transnacionais tentaram desesperadamente divulgar imagem de sucesso. A abstenção continua impressionante – apenas 4 em cada 10 europeus deram-se o trabalho de votar sobre o que se passa em Estrasburgo, com uma maioria suficientemente alienada para legitimar o mix de (i) austeridade para dentro da Europa e (ii) beligerância internacional. 

Mesmo assim, o voto no domingo foi muito além de apenas anti-establishment e nacionalista – e partidos francamente xenofóbicos ou, mesmo, fascistas consolidaram a rejeição de “mais União Europeia”. 

Praticamente não discutidas, na campanha pré-eleições, foram as revelações de Snowden sobre feitos da Agência de Segurança Nacional dos EUA; as negociações sombrias entre Washington e Bruxelas sobre acordo de livre comércio que MUITO ajudaria o Big Business dos EUA; e como o cassino financeiro supervisionado pelo Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia permanecerá inalterado, devastando, destruindo ainda mais completamente as classes médias europeias. 

A multidão anti-UE portou-se muito bem na França, Reino Unido, Dinamarca e Grécia. Menos bem na Itália e na Holanda. A tendência dominante saiu-se relativamente bem na Alemanha e na ultraconservadora Espanha – apesar de ter perdido votos para pequenos partidos. 

Vista geral do parlamento europeu durante o anúncio do resultado eleitoral-2014
Na Itália, o Partido Democrata governante, partido do primeiro-ministro Matteo Renzi saiu-se muito bem (quase 41%). O Tony Blair à italiana continua a prometer uma vaga “reforma radical” – seja isso o diabo que for. Quanto ao Partido 5 Estrelas, anti-establishment, do comediante Beppe Grillo, perdeu muitos, muitos votos. 

Em regiões como o noroeste da França, que inclui a Normandia – tradicional bastião da esquerda – o Front Nacional de Marine Le Pen obteve acachapantes 32,6% dos votos. Com os socialistas da linha patética de François Hollande no poder, Le Pen riu por último. 

Bastou isso para que uma portentosa nulidade intelectual do quilate do ex-editor executivo do jornal International Herald Tribune zurrasse que Marine Le Pen “é” o Vladimir Putin da França.

Essencialmente, os eleitores europeus disseram duas coisas, bem alto: “União Europeia, você é um saaaaaco” ou “não damos a mínima p’ra vocês, seus eurocratas panacões”.”. 

Como se o oceano de apparatchiks de gordos salários de Bruxelas – os eurocratas – dessem alguma bola para eleitores. Afinal, o mantra deles é “democracia” só é boa para os outros (até ucranianos, pode ser!), mas não é boa para a União Europeia; quando o rebanho de ovelhas-poodles europeias votam, só podem considerar alguns tratadinhos aprovados por Bruxelas, e para aprovar, depois de Bruxelas ter aprovado. 

Bruxelas, por falar dela, está condenada a persistir esse epítome de kafkiano político de controle centralizado e confusão de secretudes semisecretas. Não surpreende que a União Europeia corre alucinada a pivotear-se ela também, com toda a economia global a pivotear-se incansavelmente para a Ásia. 

Siga o dinheiro 

Crer que a União Europeia, sob a austeridade da troika “resgatará” Kiev de sua dívida-monstro é pensamento delirante-desejante. A receita – já inserida no pacote de “resgate” do FMI de $17 bilhões – é, claro, austeridade. 

Os oligarcas permanecerão no controle, enquanto os saqueadores já fazem fila à porta. A ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright – para quem centenas de milhares de crianças iraquianas seriam descartáveis – “observou” as eleições, e, sobretudo, observou muito como privatizar a Telecom Ucrânia, como ela já está fazendo agora com a Telekom Kosovo.

Não há qualquer sinal de que os partidos Setor Direita e Svoboda deixarão de ser criptofascistas, racistas e intolerantes, só porque Poroshenko – o Rei do Chocolate Ucraniano – e, agora, presidente. Por falar dele, sua margem de manobra é estreita e seus próprios mercados – para nem falar de algumas de suas fábricas – estão na Rússia. Toda a indústria pesada e a indústria de armamento no leste da Ucrânia depende da demanda russa. Seriam necessários estonteantes $276 bilhões, para que o “ocidente” “estabilizasse” o leste da Ucrânia. A ideia de que a União Europeia “salvará” a Ucrânia faleceu ao desembarcar, MaD [Morta ao Desembarcar]. D.O.A. 

Moscou, mais uma vez, só tem de fazer o que já está fazendo: nada. E cuidar para que não apareça nenhuma ajuda econômica ou política, a menos que uma Ucrânia federalizada – e finlandizada –, com regiões fortes, veja a luz do dia. 

Até a Brookings Institution teve de admitir, embora relutantemente, que o gambito dos neoconservadores norte-americanos deu miseravelmente côs burros n’água; não existe Ucrânia sem ajuda russa. 

Homem auxilia senhora a votar na em Dinipropetrovsk , sul da Ucrânia 
Assim sendo, cabe ao Rei do Chocolate provar que é líder de todos os ucranianos; só depois disso haverá cheiro de entente cordiale para o lado dele – e até alguma ajuda – de Moscou.

Até aqui, os sinais não são claros. Poroshenko disse que a Ucrânia poderia “possivelmente” tornar-se estado-membro da União Europeia lá por 2025 (nunca acontecerá). Descartou entrar para a OTAN. [Movimento esperto. Rejeita a federalização (movimento idiota). Acredita que com uma economia forte, a Crimeia desejará voltar (pensamento delirante-desejante). Mesmo assim, acredita em promover algum acerto com Moscou (o que Moscou sempre quis, mesmo antes do golpe de mudança de regime]. 

Que confusão!

De volta ao OTANstão, há a questão crucial de o que acontece à brigada de ultra-direita anti-União Europeia no Parlamento, em Estrasburgo. Podem até detestar a União Europeia, mas aquele cesto de ideologias dificilmente constituirá qualquer tipo de aliança.

Uma aliança significaria pelo menos 25 membros do Parlamento, de pelo menos sete países diferentes. Marine Le Pen já subiu ao ring. Ela tem um acordo com o detestável Geert Wilders na Holanda; e pode também contar com o FPO da Áustria e com o belga Vlaams Belang. Os democratas suecos – que, de fato, são criptonazistas – permanecem sentados na cerca. Os neonazistas gregos do Aurora Dourada e o Jobbik húngaro estão fora. Quanto ao UK Independence Party, UKIP, definitivamente não se vê como parte dessa “família”. 

Isso significa, no frigir dos ovos, que esses partidos conservadores e moderados, pelo próprio status quo, permanecerão no controle, manifesto pela extremamente provável coalizão do European People’s Party (de centro-direita) com os Socialistas e Democratas (centro-esquerda). 

O que virá a seguir, no segundo semestre de 2014, é a indicação de uma nova Comissão Europeia. É Kafka redux, como no braço executivo infestado de burocratas da UE, que formata a agenda (digamos assim, quando não está ocupado demais distribuindo subvenções em pastinhas de cores diferentes, para diferentes vaquinhas europeias). 

Há cinco candidatos disputando a posição de presidente da Comissão Europeia. Segundo o tratado da UE vigente, os estados membros têm de considerar o resultado das eleições para o Parlamento Europeu, ao indicar o novo presidente. Alemanha quer um conservador. França e Itália querem um socialista. Podem todos aguardar um terrível debate à frente, para encontrar substituto para o espetacularmente medíocre José Manuel Barroso. 

O favorito é direitista do European People’s Party, ex-primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker. É empenhado defensor dos sigilos e secretudes para os bancos e faz pose de defensor da “economia social de mercado”.

E há mais Kafka: escolher o novo presidente do Conselho da União Europeia e o Alto Representante para Assuntos Externos. Tradução: a União Europeia não decidirá nada nem reformará coisa alguma, durante meses! Inclui-se nesse nada as críticas negociações com os norte-americanos sobre o acorde de livre comércio. 

É absolutamente impossível noticiar as eleições desse domingo, sem desacreditar ainda mais o projeto da União Europeia, no pé em que está. 

Como vi com meus próprios olhos, desde o início de 2014, em cinco dos países top da União Europeia, o que interessa ao cidadão mediano é o seguinte: como lidar com a imigração; como combater a erradicação do estado de bem-estar; as implicações do acordo de livre comércio com os EUA; o valor do euro – incluindo o custo de vida absurdamente alto; e o que a máfia do Banco Central Europeu está realmente fazendo para combater o desemprego. 

Com Kafka no timão do futuro previsível, certo é que Paris e Berlim navegarão cada vez mais por rotas divergentes. Não haverá nada de redesign das instituições da União Europeia. E o novo Parlamento, cheio de som e fúria, nada será além de refém da inexorável, devastadora fragmentação política da Europa.

 “Salvar” a Ucrânia? Que piada! A União Europeia não consegue salvar nem ela mesma.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009

sábado, 10 de maio de 2014

Pepe Escobar: “No tabuleiro da Ucrânia, Putin joga xadrez de grande-mestre”

9/5/2014, [*]  Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O herói soviético, Abdulkhaim Ismailov, hasteia a bandeira vermelha da URSS no alto do Reichstag em 2 de maio de 1945 – Vitória sobre o nazi-fascismo do III° Reich − decretando o fim da IIª Guerra Mundial na Europa. (Imagem e legenda levantadas por Maurício Porto)
As celebrações do 69º aniversário da derrota do fascismo, na Rússia, na IIª Guerra Mundial, aconteceram dias depois de os neofascistas ucranianos terem cometido um horrendo massacre em Odessa. Para quem já conheça a genealogia, as imagens a seguir falam por si mesmas. 


E, na sequência, um gambito geopolítico no jogo de xadrez em curso acrescentou surpresa que ninguém conseguiu disfarçar, à hipocrisia que já é marca registrada dos autoproclamados representantes da “civilização ocidental”.

O gambito foi jogado por – e quem mais seria?! – Vladimir Putin, presidente da Rússia, que, atualmente, mistura movimentos de xadrez, com ensinamentos de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e do Tao Te Ching, de Lao Tzu. Não surpreende que aquelas figuraças, os capi do “marketing político” e das Relações Públicas & porta-vozes mortos-vivos do Departamento de Estado e generais do OTANistão estejam perdidos no mato sem cachorro.

Diferente do que prega a escola de diplomacia de delinquentes juvenis chefiada por Obama – que quer-porque-quer-porque-quer “isolar” Putin e a Rússia – é possível negociar uma trégua e algum acordo na tragédia em andamento na Ucrânia. E, sim, foram negociados entre adultos capazes de falar e dizer coisa com coisa, Valdimir Putin e a chanceler alemã Angela Merkel; a coisa foi discutida e, na sequência, foi finalmente anunciada numa conferência de imprensa pelo presidente da Organização para Segurança e Cooperação na Europa, Didier Burghalter.

O acordo será vigente, desde que os mudadores de regime em Kiev – cujo nome completo é “Junta Neofascista Neoliberal da OTAN” – abandonem a sua tal “operação antiterrorista” e disponham-se a negociar com os federalistas no Leste e no Sul da Ucrânia.  

No gambito, Putin sacrificou não um, mas dois peões; ele preferiria que os referendos previstos para esse domingo no Leste da Ucrânia fossem adiados. Ao mesmo tempo, ao mudar a posição do Kremlin, Putin disse que as eleições presidenciais do próximo 25 de maio podem estar um passo mais perto, na direção correta.

Moscou sabe que os referendos serão interpretados erroneamente pelo combo do OTANistão mal informado, como argumento para que o leste da Ucrânia se autointegre à Rússia, como aconteceu na Crimeia. Podem, também, ser usados como pretexto para mais sanções. E, sobretudo, Moscou tem todo o interesse em evitar todos e quaisquer possíveis ataques-provocações dissimulados sob falsa bandeira.

Soldados ucranianos com uniformes russos preparam-se para atacar  Donetsk em 8/5/2014
Mas Moscou não abandonou em momento algum sua posição, firme desde o primeiro momento: antes de eleições presidenciais, têm de haver mudanças constitucionais na direção da federalização, e as províncias têm de receber maiores poderes de autonomia. E ainda não aconteceu, se é que algum dia acontecerá.

Com a junta-da-OTAN-de-Kiev armando a maior confusão com o que chamam de “governar”; o Fundo Monetário Internacional já no comando de seu showde capitalismo de desastre, a Rússia cortando subsídios comerciais e à energia; e o movimento federalista crescendo mais a cada minuto depois do massacre de Odessa, a Ucrânia virou questão tão tóxica que Moscou, agora, tem todo o tempo do mundo a seu favor. A estratégia de Putin é Tao Te Ching combinado à Arte da Guerra: observe o rio que flui adiante, e dê corda, dê corda, dê corda, até seu inimigo enforcar-se bem enforcado.

Estão conosco ou estão contra nós

Putin ter pedido ao povo da região do Donbass que adiasse o referendo – que acontecerá mesmo assim – desencadeou debate feroz, no leste da Ucrânia e em toda a Rússia, em torno de a Rússia poder estar traindo os falantes de russo na Ucrânia.

Afinal, a junta neofascista neoliberal da OTAN lançou uma “operação antiterroristas” contra os cidadãos ucranianos, na qual até a terminologia é saída, diretamente do regime à Dick Cheney, de “estão conosco ou estão contra nós”.

Imediatamente e mais uma vez o desinformador-engambelador-em-Chefe é o Secretário de Estado John Kerry, que se declarou:

(...) muito preocupado com os esforços dos separatistas pró-Rússia em Donetsk, em Lugansk, para organizar um falso referendo de independência dia 11 de maio. É o manual da Crimeia aplicado outra vez, e nenhuma nação civilizada reconhecerá os resultados desse esforço ridículo.

É absolutamente inútil, porque Kerry não sabe nem jamais saberá do que fala, cada vez que abre a boca, mas... vamos lá: o povo do Donbass NÃO É SEPARATISTA. São ucranianos médios – metalúrgicos, mineiros, balconistas, sitiantes – todos são pró-democracia, e contra a junta da OTAN e eles são – ah! Mas que crime! – falantes de russo.

As cédulas para o referendum federalista na Ucrânia oriental já estão prontas
E, por falar nisso, ninguém precisa ser Thomas Piketty para ver aí a luta de classes clássica: operários e camponeses contra oligarcas – os oligarcas atualmente alinhados com a Junta-da-OTAN, alguns já empregados como governadores regionais e com planos de assim continuar mesmo depois das eleições de 25 de maio.

O povo do Donbass quer federalismo e forte autonomia em suas províncias. Não querem separar-se da Ucrânia. Contra o massacre de “antiterrorismo” que os EUA prescreveram e a Junta-da-OTAN aplicou, eles têm seus comitês de defesa popular, associações locais e, sim, claro, milícias armadas para se autodefenderem. E têm referendos, “ridículos”, como Kerry delira que sejam, para deixar claro, bem claro, que não, de modo algum, nunca se submeterão a junta-nenhuma centralizada e infestada de oligarcas.

Assim sendo, os referendos prosseguirão – e serão devidamente ignorados pela imprensa-empresa-gangue do OTANistão. As eleições presidenciais de 25 de maio de 2014 acontecerão como previstas – bem no meio de uma “operação antiterrorista” contra metade da população – e serão reconhecidas como “legítimas” pela imprensa-empresa-gangue do OTANistão.

O que poderia ser pior que esse cosmicamente vergonhoso, escandaloso comportamento do “civilizado” ocidente?

Nada fará sumir o ódio profundo que a junta neofascista neoliberal da OTAN com seu Banderastão neonazista sentem pelo Donbass do leste. Mas então, dentro de alguns meses, todos os ucranianos estarão sentindo na própria pele o que o FMI guardou para eles, morem onde morarem, porque há para todos os endereços. E esperem só p’ra ver o que acontece, se o novo presidente – seja o bilionário do chocolate Petro Porashenko, ou “Santa Yulia (Timoschenko) da Corrupção” – não pagar em dia a conta de energia que a Gazprom lhe enviará: US$2,7 bilhões.

Vladimir Putin
Mais uma vez: Putin não precisa “invadir” coisa alguma. Putin sabe que essa não é a via para “resgatar” o leste e o sul da Ucrânia. Sabe que o povo do Donbass fará da vida um inferno, para a junta-da-OTAN e seus rebentes de 25 de maio de 2014. Sabe que Kiev precisa de dinheiro vivo – não dos empréstimos-chantagem do FMI, cujo dinheiro sempre volta aos mesmos bancos-bandos. –Quando chegar a hora, ninguém aparecerá, vindo da União Europeia. Ninguém por ali tem interesse em estados falidos. E Kiev, sim, sim, terá de pedir ajuda a Moscou – emprestadora de primeiro e último recurso.

Lao Tzu Putin não tem pressa: o xeque-mate vai demorar. Deve esperar – e esperará. O império excepcional continuará a fazer o que mais faz – gerar caos, fazer ferver o caos – mesmo que europeus um pouco sensíveis, Merkel, por exemplo, tentem algum apaziguamento.

Mas... prêmio de consolação, as rezas de Washington afinal foram ouvidas. Demorou um pouco, mas, sim, finalmente acharam o neo-bicho-papão sem o qual os EUA não vivem: Osama Bin Putin.




[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the SurgeNimble Books, 2007.     
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Pepe Escobar: “Pé na estrada pelo sul do OTANistão”

15/4/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vila de Bandol - vista noturna
Pé na estrada na Provence – Para citar Lênin, o que fazer? Voltar a Bruxelas e Berlim? Um encontro íntimo com o triste norte do OTANistão, consumido pela paranoia de sua obsessão anti-Rússia e escravizado pelo infinitamente expansível euro-embuste do Pentágono? Quem sabe uma excursão ao Erdogastão bêbado de guerra-à-Síria?

Nem se discute. A joie de vivre resolveu tudo; assim, esse Olhar Errante pendurou-se em Nick, Olhar-Errante-Filho, na Catalunha e, armados com La Piccolina – a caravan Peugeot 1980, motor Citroën, de Nick − metemos o pé na estrada pela Provence, mansão de restauração, no sul do OTANistão. Em vez de metermos o pé na jaca do crystal meth, foi pé na jaca non-stop no primor dos líquidos de infieis e gastronomia provençal de primeira.

Chamem de investigação subterrânea, sem saudade-de-casa, sem fossa, sobre o mal-estar econômico das nações do Club Med; a pauperização da classe média europeia; o avanço da extrema direita; e a possibilidade iminente de uma OTAN econômica. Tudo isso emoldurado por ótimo, super ótimo, um tempo com a família. E, super subversivo, com laptop e celular desligados.


Tivemos a sorte de estar lá na semana da inauguração da Fundação Van Gogh em Arles – com um notável portal e a assinatura de Van Gogh em tamanho gigante; o jardim suspenso de espelhos coloridos; e exibição estupenda da evolução cromática do pintor durante os frenéticos 15 meses que viveu em Arles. Alguns minutos de contemplação frente à La Maison Jaune [Casa Amarela] (1888) − imagem a seguiré intimar a imortalidade, revelação do que é, isso sim, ser excepcional.

La Maison Jaune (Vincent van Gogh)
Iluminações estéticas, por todos os lados – do castelo de Baux ao pôr-do-sol com um Perrier mint num terraço sobre o campo, em torno da colina de Gordes; de uma noite estrelada ao ar livre no Colorado Provençal (estranhamente, atravessado por um helicóptero militar voando baixo, estilo avançada-em-Bagdá), a discutir os méritos do “Chèvre de Banon – aquele queijo epicúreo, queijo “de exceção”, embrulhado em folhas de castanheira.

E cruzando daí para o grande canyon de Verdon – o mais norte-americano dos canyons europeus, que se ataca por várias faces, tanto pelo norte como pelo sul, incluindo uma trilha que acompanha a velha trilha romana e encontro com as silhuetas caóticas, fantasmagóricas de Les Cadieres (“cadeiras”, em provençal) – resposta de Verdon às Torres Gêmeas. Uma montagem peculiar de imagem de Osama e al-Zawahiri fazendo trilha pelo Hindu Kush.

Quando descíamos do Col de Leques, o proprietário de um café de montanha contou-nos que acabava de abrir para a temporada, que vai até meados de setembro. Mas aqui, no começo de abril, o Verdon estava banhado em silenciosa glória, exceto um ou outro ciclista, ruidoso, incômodo.

Então – como em Pierrot Le Fou de Godard – mergulho para o Mediterrâneo. Primeira parada, Toulon, controlada pelo Front National, tão limpa, tão organizada, tão assustadiça ante, até, skatistas visitantes, não imigrantes, já exibindo um navio cargueiro monstro da OTAN em plena ostentação.

É impossível comer um prato de moules [mexilhões] no porto, no meio da tarde; mas no restaurante chinês Ah-Ha há canyons de Verdon de comida, 24 horas por dia, e serve para mostrar mais uma vez que a fúria empreendedorista da Ásia já deixou a Europa a comer poeira.

Bouillabaisse (sopa de frutos do mar, típica da região de Marselha)
Corta para um banquete platônico no venerando Auberge Du Port Bandol bouillabaisse orgíaca, com o melhor vinho da casa, perfeitamente comparável a uma combinação de Bastide de la Ciselette com Domaine de Terrebrune. Nenhum desses deslumbrantes líquidos de infiel, por falar nisso, foram sequer tocados pela globalização.

Não resta um milímetro quadrado de solo não construído na costa em torno de Marselha – é parte de um bem conhecido dossiê, a destruição ambiental do sul do OTANistão. Mesmo assim, demos jeito de encontrar um canto relativamente reservado para o apropriado mood à Rimbaud (la mer, la mer, toujours recommencée) [o mood pode ser de Rimbaud, mas o verso é de Paul Valéry (em Cimetière Marin) NTs].  

Foi quando chegou o temido momento e ergueu sua cabeça feia – em Sanary-sur-Mer, onde Huxley escreveu Admirável Mondo Novo em sua Villa Huxley, e Thomas Mann andava pelo Chemin de la Colline. Brecht de fato bem pode ter cantado canções anti-Hitler de uma mesa no Le Nautique; então, depois de debater com Nick os méritos comparativos dos veleiros Beneteau, decidi, finalmente parar com tanto distanciamento brechtiano, caminhei até a banca mais próxima, comprei os jornais, pedi um café com leite e liguei o celular.

Bar-tabac Le Nautique em Sanary-sur-Mer
Que NADA me impressionou muito é dizer pouco. Uma semana fora da grade, e a mesma sarabanda de paranoia, pivoteamentos os mais frenéticos e excepcionalismo monocromático. Até que, lá estava ela, como um pérola no fundo cor de turquesa do Mediterrâneo, soterrada na info-avalanche: a notícia, a definitiva notícia, a notícia da semana, talvez do ano, talvez da década.

O presidente da Gazprom, Alexey Miller, encontrou-se com o presidente da China National Petroleum Corporation, Zhou Jiping em Pequim, na quarta-feira (9/4/2014). Estão no processo para assinar “o mais rapidamente possível” o megacontrato, para 30 anos, para fornecer à China gás natural siberiano. Provavelmente será assinado dia 20 de maio, quando Putin estará em Pequim.

Isso, sim, é material genuíno. O Oleogasodutostão encontra a parceria estratégica Rússia-China, solidificada nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai, com a arrepiante possibilidade de o negócio preço/pagamento ser feito por fora dos petrodólares, a chamada “opção termonuclear”. Comparada a isso, a Ucrânia é terceiro palco.

Bem-vindos ao Ratódromo de Bruxelas

Foi na estrada, do Mediterrâneo de volta a Arles, via Aix-en-Provence: a coisa me pegou, feito um drone de Obama. Toda essa viagem, afinal, cuidou só do sublime queijo de leite de cabra envolto em folhas de castanheira em Banon, daquelas garrafas cor rosa-pétala, de vinho; em Bandol, produtores artesãos e gente da montanha que só falam de seus medos, pelos mercados das pequenas cidades e pequenos, despretensiosos chateaux. Tudo isso é, sempre, a OTAN econômica.

Queijo de leite de cabra de Banon aberto da embalagem de folhas de castanheira
O Tratado Trans-Atlântico de Livre Comércio é prioridade top do governo Obama. As tarifas já são quase desprezíveis para muitos produtos, entre os EUA e a União Europeia. Portanto, se trata, essencialmente, de o Grande Agronegócio dos EUA passar a mão nos mercados continentais (numa invasão de produtos geneticamente modificados), e de os gigantes da empresa-imprensa dos EUA, idem. Podem chamar de um pequeno adendo à Parceria Trans-Pacífico [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)] – o qual, para dizer numa linha, significa os EUA ocuparem a super protegida economia japonesa.

O sul do OTANistão, sim, oferece rápidas imagens de um paraíso europeu pós-histórico – um jardim de rosas Kantiano protegido contra o imundo mundo Hobbesiano, pelo Império “benigno” (a nova expressão a ser repetida e repetida, cunhada – e por quem mais seria? – por neoconservadores da cepa de Robert Kagan). Mas a principal emoção que envolve o sul do OTANistão, como vi desde o início de 2014 sucessivamente na Itália, Espanha e França, é o medo. Medo do Outro – do pobre que chega, negro ou mulato; medo do desemprego perene; medo do fim dos privilégios da classe média até recentemente tidos por garantidos; e medo da OTAN econômica – porque praticamente nenhum europeu médio confia naquelas hordas de burocratas de Bruxelas.

Já são agora nove meses que a Comissão Europeia negocia uma chamada Parceria de Comércio e Investimento [orig. Trade and Investment Partnership]. A “transparência” que cerca o que será o maior acordo de livre comércio da história do mundo, envolvendo mais de 800 milhões de consumidores, cobre King Jong-eun da Coreia do Norte de vergonha.

Todo aquele blá-blá-blá secreto dá-se em torno de eufemísticos “obstáculos não tarifários” – uma rede de normas éticas, ambientais, jurídicas e sanitárias − que protegem os consumidores, não as gigantes multinacionais. O que esses monstros querem, por sua vez, é coisa lucrativa “livre-para-todos” – que implica, só para dar um exemplo, o uso indiscriminado da ractopamina, energético para porcos, já proibido até na Rússia e na China.

Ractopamina, produto proibido por provocar doenças nos sistemas cardiovasculares, músculo-esqueléticos, reprodutivos e endócrinos em seres humanos
Assim sendo, por que o governo Obama, de repente, parece tão apaixonado por um Acordo de Livre Comércio com a Europa? Por que o Big Business dos EUA finalmente descobriu que o Santo Graal daquele pivoteamento econômico para a China nada tem, nem de santo, nem de Graal, bem feitas as contas. A coisa será sempre conduzida, lá, por parâmetros chineses – com as principais marcas chinesas se qualificando, progressivamente, para controlar a maior parte do mercado chinês.

Então... veio o Plano B: um mercado transatlântico que submeta 40% do comércio internacional às mesmas normas-amigas-do-Big-Business. Obama só faz repetir e repetir que o acordo criará “milhões de empregos norte-americanos bem remunerados”. Muito discutível, para dizer o mínimo. Mas que ninguém se engane quanto ao movimento dos EUA; Obama está pessoalmente envolvido.

Quanto aos europeus, parecem, mais, ratos tentando salvar-se pelos buracos de uma sala secreta de jogatina. Com a Agência de Segurança Nacional dos EUA a monitorar todos os telefones e telefonemas em Bruxelas, os europeus médios absolutamente não têm nem ideia de com que porrete serão espancados. O debate público sobre o acordo é verboten [alemão no original; “proibido”] para todas as finalidades práticas, para a sociedade civil europeia.

Os negociadores da Comissão Europeia só falam com lobbyistas e presidentes de multinacionais. Em caso de acontecer “volatilidade de preços” aí, pelo caminho, os fazendeiros europeus serão os maiores perdedores, não os norte-americanos, agora protegidos por uma nova “Farm Bill” [aprox. “Lei dos produtores agrícolas”].

Não surpreende que a mensagem direta e indireta que recebi de praticamente todos, no interior da Provence, seja “Bruxelas está nos vendendo em liquidação”. No final, o que desaparecerá, morrendo morte de mil talhos, é a agricultura de alta qualidade, procissões de pequenos produtores artesanais, os únicos que conhecem um savoir-faire acumulado ao longo de muitos séculos.

Assim sendo, viva os hormônios, viva os antibióticos, viva o cloro e os organismos geneticamente modificados (transgênicos). E cortem a cabeça dos pequenos produtores!

A OTAN a lançar ameaças contra a Rússia é tática muito conveniente, suja, diversionista. Deixando a Provence, com La Piccolina carregando sua carga preciosa de produtos artesanais sublimes, entendo perfeitamente a tamanha Van Goghiana ansiedade com que os locais veem chegar a futura OTAN econômica.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.