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terça-feira, 12 de maio de 2015

Ser russo


Nasci vermelho

10/5/2015, [*] Andre VltchekCounterpunch  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O ocidente mentiu a Lênin, a Stálin, a Khrushchev e por fim, a Gorbachev. 

O ocidente agora mente a Putin e sobre Putin.

O nazismo só se compara ao imperialismo europeu e norte-americano, ao colonialismo. 

Nazismo e colonialismo são feitos do mesmo estofo. 

E a União Soviética esmagou ambos, derrotou ambos! A Rússia empunha hoje a histórica bandeira soviética.(...)

Os chauvinistas e xenófobos ocidentais lutam hoje pelo controle sobre todo o planeta, até pela própria sobrevivência deles. 

A menos que divida Rússia, China e América Latina, o ocidente está acabado.



Presidente Putin: "O fascismo não passará"
(Presidente Putin, no desfile com as famílias russas que portam fotos de familiares
mortos na IIa.GM, leva o retrato de seu pai)

Está quebrada a confiança entre o ocidente e a Rússia. Já estava abalada há bastante tempo, mas agora está irreversivelmente quebrada. Boa coisa, que confiança poderia haver entre o imperialismo fascista e as forças que hoje lutam para libertar a humanidade?

Não é difícil enganar o povo russo. É preciso pouco para ganhar-lhe a confiança; às vezes um sorriso, meia dúzia de palavras carinhosas, algumas promessas e juras feitas com sinceridade. Os russos podem ser facilmente “comprados” com gentileza. São povo confiante, vulnerável.

Se abordados com ternura e simpatia, eles logo abrem o coração, partilham até o último pedaço de pão com quem tenha fome, oferecem a camisa do corpo a quem tenha frio.

Chegue-se a um russo com promessa de amor eterno, devoção, simples amizade, que seja, e as chances são de que todas as portas se abram para você e as defesas caiam.

Talvez, algum dia, ele ou ela lhe peça: “Por favor, nunca, nunca me atraiçoe”. Mas ninguém lhe pedirá garantias, nenhum compromisso por escrito, nenhuma assinatura em contrato.

Por causa dessa confiança e abertura, morreram milhões, dezenas de milhões de russos!

***

A defesa de Stalingrado - jan. 1943
Os russos deram ao mundo tudo que tinham. Os russos lutaram pela humanidade inteira. Abriram o coração e as portas. Alimentaram os que estavam em miséria extrema, muitas vezes a morrer de fome.

E no fim os russos foram traídos, não uma, nem duas, mas várias, várias vezes!

Num mundo sem espinha dorsal, baseado no individualismo, no lucro, no servilismo, é fácil, muito fácil trair alguém generoso, alguém que doa. Tiranos só muito raramente são traídos, porque a lealdade que recebem é baseada no medo, na autopreservação, no autointeresses mercantil.

No mundo covarde, corrupto, que o ocidente construiu e suas religiões construíram, só se obtém lealdade mediante o terror.

Apesar de horríveis traições e da selvageria contra o povo russo ao longo da história, os russos realmente jamais “aprenderam a lição”, nunca aprenderam o cinismo ocidental e jamais dominaram a arte de sacrificar outros em nome dos próprios interesses.

Todos os acordos com a Rússia foram quebrados, sempre que assim interessou aos invasores. Os escandinavos ceifaram incontáveis vidas russas, e o mesmo fizeram os alemães, franceses, poloneses, britânicos, norte-americanos e tchecos, para ficar só nesses. Os russos jamais de fato “puniram” alguém, como fazem os protestantes e anglo-saxões. Castigo é lixo puritano, basicamente. O modo russo de pensar é quixotesco demais para castigar alguém.

O ocidente mentiu a Lênin, a Stálin, a Khrushchev e por fim, a Gorbachev. O ocidente agora mente a Putin e sobre Putin.

Traída, a Rússia mergulharia em inimaginável agonia, passaria por fogo e devastação, pelo desespero. A Rússia enterraria milhões de filhos e filhas. É provável que nenhuma outra nação no planeta tenha algum dia passado por devastação daquela magnitude.

Então, de repente, o país começaria a erguer-se dos joelhos, lentamente e assustadoramente, para mostrar todo o seu poder, seu tamanho, a determinação, a força. Ferida e enganada, mas orgulhosa e magnificamente bela em sua ira santa, a Rússia ergueria sua espada pesada, poria retas as costas, secaria as lágrimas e começaria a andar diretamente contra o inimigo.

As batalhas da Rússia sempre são às claras. A Rússia combate honestamente as suas batalhas. Foram derramados oceanos de sangue, a maior parte desse sangue é sangue do povo russo.

Diferente do ocidente, a Rússia não bombardeia à distância, não usa drones nem bombas atômicas para matar milhões de civis e assegurar para si a Vitória. As batalhas russas são homem a homem. São dezenas de milhares de tanques, como na batalha de Kursk, milhões de soldados, como em Stalingrado.

Ninguém jamais pôde ou pode derrotar a Rússia, porque a ira dos russos, como o amor deles, é grande e puro. A Rússia nunca foi derrotada. Seu coração ferido está cheio de amor e poesia, mesmo quando o peso de seu punho cai sobre os déspotas, usurpadores e assassinos de massa. A Rússia jamais foi derrotada, também porque quase todas as guerras que a Rússia jamais lutou foram guerras justas – guerras para salvar a vida do povo russo, mas guerras, também, pela sobrevivência de toda a humanidade.

***

Rendição do VIº Exército alemão em Stalingrado
70 anos da grande Vitória! 70 anos desde que o povo soviético salvou o mundo, quando esmagou o nazismo. 70 anos desde que o povo soviético, quase imediatamente, uniu-se a outra luta, dessa vez contra o imperialismo e o colonialismo ocidental.

20 ou talvez 27 milhões de soviéticos, principalmente russos, perderam a vida defendendo o planeta com as hordas de Hitler. Depois, centenas de milhões de outros continuaram a dedicar a vida a construir mundo melhor, mais igualitário.

Sem a União Soviética, sem o povo russo, não haveria liberdade, não haveria independência para países asiáticos, africanos e do Oriente Médio. Sem os soviéticos não teriam sido possíveis as revoluções na América Latina.

Por isso o ocidente tanto odiou a União Soviética e é por isso que tanto odeia hoje o povo russo. O ocidente perdeu colônias, perdeu a guerra da propaganda e perdeu o monopólio que tivera, para definir tudo sob o sol.

Só imbecis podem responder as mais tóxicas mentiras da propaganda ocidental, que comparam a Alemanha nazista à União Soviética stalinista. Sobre isso, escreverei em breve. O nazismo só se compara ao imperialismo europeu e norte-americano, ao colonialismo. Nazismo e colonialismo são feitos do mesmo estofo. E a União Soviética esmagou ambos, derrotou ambos! A Rússia empunha hoje a histórica bandeira soviética.

Os chauvinistas e xenófobos ocidentais lutam hoje pelo controle sobre todo o planeta, até pela sua própria sobrevivência. A menos que dividam Rússia, China e América Latina, o ocidente está acabado. Eles sabem disso! A menos que esmaguem tudo que é honesto, bom e otimista nas nações que resistem ao monstruoso regime ocidental, os dias do ocidente estão contados.

Ver: A bem-sucedida campanha de 70 anos de mentiras, para convencer o povo norte-americano de que os EUA, não a União Soviética, derrotaram Hitler [8/5/2015, The successful 70-year campaign to convince people the USA and not the USSR beat Hitler, Les Crises].


Batalha de Berlim - Bandeira da URSS hasteada no Reichstag
foto de Yevgeny Khaldei em 2/5/1945
Dia 9/5/1945, o mundo todo mudou. A humanidade voltou a andar adiante. Lentamente, em ritmo desigual, frequentemente com erros e voltas, mas mesmo assim, adiante! Os grilhões coloniais começaram a ser quebrados. Pessoas de todos os continentes voltaram a sonhar com real liberdade, igualdade e a irmandade de todos os homens. Aquela bela bandeira vermelha agitada no telhado do Reichstag em Berlin tornou possíveis esses sonhos (foto acima)

O povo soviético provou que dignidade humana e liberdade são valores pelos quais vale a pena sacrificar-se. A Ode a Vitória foi escrita com o sangue dos soviéticos oferecido com generosidade, e pode por isso inspirar e modelar gerações futuras.

Mas a ganância e o niilismo do ocidente recusam-se a morrer. Sua obsessão com controlar e saquear o mundo atingiu nível inimaginável. Todas as forças do Império foram mobilizadas. Luz e esperança foram confrontadas pela escuridão e a falsidade. Sonhos belos e puros foram antagonizados pela corrupção. Numa orgia de truques sujos e ardis, a União Soviética foi destruída.

Num único instante da história, todo o mundo oprimido perdeu seu mais poderoso aliado e defensor.

O que veio depois, foi o mais completo horror. O Império pôs-se a desestabilizar um país depois do outro: na África, Ásia, no Oriente Médio e até no ex-bloco oriental. Morreram milhões, expostos, desprotegidos, totalmente abandonados.

As hordas fascistas acreditaram que, daquela vez, haviam vencido. Em Moscou, Yeltsin, beberrão e lacaio do ocidente, começou a matar o próprio povo pelas ruas, e a bombardear o próprio Parlamento. Aquilo era “democracia”, como os jornais em Paris, Londres e New York escreveram quase imediatamente. Era tudo com que sonhava o ocidente: uma Rússia fraca e desestabilizada, de joelhos, à mercê do Império.

Viajei a Moscou e à Sibéria. Vi cientistas russos em Novosibirsk vendendo suas bibliotecas na rua, em estações de metrô, sob o frio mais intenso. Vi velhos veteranos de guerra pedindo esmolas, vendendo as medalhas. Vi trabalhadores russos passando fome, sem receber salários durante meses.

Então, alguma coisa aconteceu. A Rússia recusou-se a continuar de joelhos. Rapidamente os russos detectaram as mensagens que vinham do exterior; e viram a armadilha. O povo russo compreendeu que o que as mais horríveis invasões não haviam conseguido, as mentiras, os ardis, o jogo mais sujo do Império fascista obtivera em apenas uns curtos poucos terríveis anos.

Como tantas vezes em sua história, a Rússia teve de ou erguer-se, ou morreria. E ergueu-se. Indignada e decidida! E como sempre no passado, quando se ergueu para enfrentar o mal, enfrentou-o pelo próprio povo e também por toda a humanidade.

A Rússia reuniu-se, ao longo da última década, em torno da bandeira russa. Não é perfeita e não é tão ‘socialista’ como tantos de nós gostaríamos que fosse, mas há uma grande herança, uma inércia soviética que permanece na política externa da Rússia, assim como permanece o grande orgulho e a firme decisão de melhorar o mundo, de proteger os fracos.

70 da Grande Vitória! Esse ano, a Rússia não celebra só esse grande aniversário. A Rússia festeja também o próprio renascimento.

***

Eu sou russo!
Sou russo. Nasci na Rússia, e minha mãe é meio russa, meio chinesa. Mas mesmo minha parte chinesa vem do Cazaquistão, que foi república soviética. Meu avô, Hussein, foi alto Comissário, equivalente a ministro do gabinete, chinês étnico, linguista, morreu muitas décadas antes de eu nascer.

Fui criado na Tchecoslováquia. Meu pai, cientista, mudou-se para a Europa. Desde criança vivi em New York. Depois meti o pé na estrada e não parei nunca. Hoje sou internacionalista. Mas no fundo de mim, sou russo.

Não sei se me qualifico como russo. Menino, sempre tive passaporte soviético. Os momentos mais felizes da minha vida eram quando, ainda criança, minha mãe me levava, todos os verões, para o aeroporto de Praga, onde eu era despachado por avião, para Leningrado. Na outra ponta, minha avó me esperava.

Minha avó Elena não era só minha babushka. Minha avó Elena foi soldada, combateu contra os nazistas, defendeu aquela sua cidade bem-amada, sua Leningrado. Minha avó cavou trincheiras, enfrentou tanques alemães, e foi duas vezes condecorada. E era a mulher mais doce que conheci na vida. Ensinou-me a gostar de poesia e literatura. Contou-me centenas de histórias, algumas bonitas, outras de meter medo. Sou escritor por causa dela, escritor russo, apesar de escrever toda minha ficção exclusivamente em inglês e a maioria dos meus filmes recentes terem sido feitos em espanhol.

Quase toda a minha família russa morreu lá, em Leningrado, durante o cerco, décadas antes de eu nascer.

Todos os anos, durante os dois meses de verão, minha avó minha avó dedicava-se a mimar-me o mais que podia. Ou era o que eu pensava que ela estivesse fazendo. Hoje entendo que, para ela, era como um combate cultural, um esforço empenhado de injetar em mim tudo o que há de grande, sobre a Rússia.

Minha avó fazia economia durante dez meses, e então, quando eu chegava para visita-la, ela me levava às óperas, aos teatros, aos museus, aos parques em torno de Leningrado. Cozinhava para mim a comida mais deliciosa. E pelo menos uma vez por ano, levava-me ao Cemitério Piskarevskoe, onde a enorme estátua da Mãe Terra abre os braços“Ninguém foi esquecido, nada foi esquecido”, lê-se em letras douradas gravadas no granito. Durante o cerco de Leningrado morreram 1,5 milhão de pessoas, muitos estão sepultados ali, em incontáveis trilhas de grandes valas comuns.

Cresci. Tornei-me escritor e cineasta; viajei pelo mundo. Mas, estivesse onde estivesse, aquelas palavras sempre me seguiram, gravadas em mim. Minha avó sempre estava comigo, ela também, e também a cidade, o sacrifício e a Vitória!

Não se se isso faz de mim objetivamente russo. Mas sinto-me russo e ajo como russo.

***

Orgulho de ser russo!
Ser russo... Hoje, “russo” não é só a nacionalidade: é verbo. Significa erguer-se contra a opressão, contra o imperialismo ocidental, construir pontes entre os países que estão resistindo ao terror imperialista ocidental.

E hoje há muitos “novos russos”. Não são os mesmos da era Yeltsin, não são personagens da bufonaria capitalista. Os “novos russos” de que falo são ao mesmo tempo russos e internacionalistas. E muitos desses frequentemente não têm uma gota de sangue russo. Mas lá estão, orgulhosamente defendendo o mundo, e estão unindo forças com a Rússia, a China e a América Latina em sua luta determinada por um mundo melhor.

Conheço vários grandes russos. Alguns são camaradas, como o renomado advogado internacional canadense, poeta, novelista e pensador, Christopher Black. Como Peter Koenig, economista suíço, que deixou o Banco Mundial por total desgosto, deu meia volta a abertamente atacou o establishment. Ou como meu ‘compá’ Patrice Greanville, nova-iorquino/chileno/argentino editor-chefe do lendário The Greanville Post.

Essas pessoas trabalham sem parar, desmontando as mentiras que o Império espalha pelo mundo: mentiras sobre a Rússia, mentiras sobre a União Soviética, mentiras sobre a 2ª. Guerra Mundial e mentiras sobre o imperialismo ocidental.

***

OCIDENTE = TRAIÇÃO e MENTIRAS
Durante séculos, a Rússia foi apunhalada e enganada por gente de fora. Foi traída, engambelada, ofendida.

Muitos países que a Rússia libertou traíram-na da maneira mais vulgar. Tchecos e poloneses violaram monumentos aos soldados russos – aqueles jovens que deram a vida por Praga e Varsóvia no final da 2ª Guerra Mundial. A Europa Oriental abriu as portas à OTAN e à União Europeia. Por egoísmo pragmático, abandonaram as mais belas ideias, os mais belos projetos – entre os quais o internacionalismo – e, em vez disso, uniram-se aos opressores da humanidade – o Império.

Quanto mais esses países prostituem-se, mais agressivamente berram os slogans da propaganda ocidental, insultando diretamente e provocando, primeiro a União Soviética, mais recentemente, a Rússia. Lacaios lastimáveis e avarentos, e colaboradores do imperialismo ocidental têm buscado, desesperadamente e continuadamente, qualquer justificativa moral para a traição que cometeram. Distorceram a história e inventaram fatos. Desencadearam agressões contra os que defendiam as partes e os povos usurpados e saqueados do mundo.

Recentemente, o ocidente disparou o conflito na Ucrânia, onde ajudou a derrubar o governo eleito em Kiev. Na sequência, imediatamente, puseram-se a alimentar os mais histéricos sentimentos anti-Rússia. Quanto mais óbvia se tornava a situação, mais altas as vozes do pacto anti-Rússia, tanto na Europa Ocidental, como Oriental.

Ucrânia, Síria e Líbia – todos esses conflitos provaram que nenhuma lógica consegue prevalecer. O ocidente quer destruir todos os países que apareçam no seu caminho rumo ao controle global total, e tentará alcançar sua meta macabra por todos os meios. O aparelho de propaganda está sempre pronto para “justificar” qualquer ato de terrorismo cometido pelos EUA e Europa. Nenhum mecanismo internacional legal há, para proteger as vítimas.

Só uma grande força pode impedir a tragédia. A Rússia é essa força. A China também. E por isso o Império está em pânico ante o despertar desses dois grandes países.

BRICS versus EUA
Sim, dessa vez, depois de tantos séculos de dor e sofrimento, a Rússia afinal não está só. Está forte e alta, e pode afinal contar com seus amigos. Algumas das maiores cabeças do planeta estão únicas com Rússia e China. Esqueçam a Europa Oriental! O maior e mais poderoso país do planeta – a China –, repete e repete: “China e Rússia são os mais importantes parceiros estratégicos uma da outra”. É claro que não permitirão que o que está planejado seja comido pelas chamas da guerra.

Toda a América Latina revolucionária está hoje com a Rússia, e também estão com a Rússia dúzias de outras nações independentes e orgulhosas por todo o mundo.

No Oriente Médio e na África, na América do Sul e em muitas partes da Ásia, a Rússia é cada dia mais vista como uma poderosa força moral. Rússia é sinônimo de esperança. Não para os que creiam em EUA e Europa, mas para todos que, por séculos sofreram sob o peso do tacão deles.

Em todos os lugares onde falo publicamente, na Eritreia ou na África do Sul, na Índia, na China, até no Timor-Leste, as pessoas só querem saber da Rússia. O que a Rússia fará agora, para impedir mais ataques contra a Síria, ou o Irã, ou contra a Venezuela?

Respondo sempre que “a Rússia está viva e vai bem. E também estão vivos e bem os amigos da Rússia, da China à Venezuela e Cuba!”.

Nunca perco a esperança. Repito: eu sinceramente creio que logo derrotaremos o colonialismo e o fascismo, e construiremos uma bela sociedade sobre esse planeta coberto de feridas e cicatrizes, mas sempre maravilhoso. E ela será criada sobre os mesmos ideias que hoje comemoramos e celebramos.

“70 anos da grande Vitória! Obrigado, Rússia, por ter salvado o mundo! Parabéns, Rússia !”

E sempre, então, enrolo as mangas e me ponho a trabalhar, dia e noite – por Leningrado e por tudo que minha avó defendeu, e pela Rússia e pela humanidade.

Meu pai e minha mãe revolucionários

Andre Vltchek
_____________________________________________ 

[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles). É autor também de Indonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O dilema do “ocidente” depois da derrota em Debaltsevo: O que fazer de Poroshenko?


18/2/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Apesar de todos termos dado o melhor de Nós  do valente combate das forças militares e navais, da diligência e da assiduidade de Nossos funcionários públicos, e do devotado serviço de Nossos cem milhões de cidadãos  a situação da guerra desenvolveu-se não necessariamente para benefício do Japão.
(Imperador Hirohito reconhecendo a derrota do Japão)

Petro "Chocolatshenko"
O presidente fantoche da Ucrânia, Petro Poroshenko deveria fazer discurso semelhante. Não há dúvida alguma de que a situação da guerra na Ucrânia desenvolveu-se não necessariamente para benefício de seu governo. Mas Poroshenko fez discurso (veja abaixo) muito mais delirante, muito mais sem-noção que a fala−cortina de Hirohito.

Há seis dias, vários milhares de soldados do governo ucraniano foram cercados no bolsão de Debaltsevo. A única estrada em direção a linhas amigas foi minada e ficou sob fogo direto e indireto da oposição. Houve várias tentativas para escapar do cerco, pelos que estavam dentro, e de invadir o cerco, por soldados ukies que estavam fora; todas foram derrotadas, com altas perdas de vida e materiais.

Desde ontem, e depois de vários dias de preparação, as tropas das Repúblicas Populares de Donestk e Lugansk, atacam ininterruptamente a cidade. Anunciaram que cerca de 3 mil soldados de Kiev foram mortos e cerca de mil renderam-se e foram presos. Vídeo a seguir:


Umas poucas centenas escaparam a pé durante a noite e hoje cedo chegaram a Artemivsk, controlada pelo governo, a cerca de 30km ao norte de Debaltsevo. Outros fugiram para o sul, para longe das próprias linhas, penetrando no caldeirão. Logo serão capturados. Quantidades enormes de armas e munição foram deixadas para trás, entregues aos federalistas. Repórteres em Artemivsk viram chegar 40-50 mortos e 200 feridos. Foram feridos e mortos, disseram os repórteres, durante a fuga sob fogo, não antes, em combates em Debaltsevo. Os que escaparam vivos dizem que foram abandonados por Kiev, entregues à própria sorte e reclamam dos superiores.

reunião chamada “Minsk-2” foi arranjada em ritmo de emergência pela chanceler alemã Merkel, quando a situação em torno de Debaltsevo já estava gravemente deteriorada. Mas durante as negociações em Minsk, Poroshenko sempre repetiu que não havia cerco, nem bolsão, nem caldeirão, e que suas tropas tinham perfeito controle da situação. O presidente francês tentou explicar-lhe a real situação em campo, mas nada conseguiu.

Acertou-se um cessar-fogo, mas os protocolos não fizeram qualquer referência direta à situação em Debaltsevo. Os federalistas, bem razoavelmente, concluíram que o bolsão estava dentro de suas linhas reconhecidas e poderia ser eliminado sem romper as linhas gerais acertadas para o cessar-fogo. Ao longo dos últimos dias, nada se ouviu, de protesto do “ocidente” sobre esse movimento. Haveria aí um “de acordo” silencioso, para induzir Poroshenko a mastigar a própria gravata, como Saakashvili mastigou? (O mesmo Saakashvili que é agora conselheiro pessoal de Poroshenko). Vídeo a seguir:


O que acima se lê/vê é a realidade.

Na página do governo da Ucrânia, leem-se os delírios de Poroshenko, em discurso hoje. Vídeo a seguir:


I can inform now that this morning the Armed Forces of Ukraine together with the National Guard completed the operation on the planned and organized withdrawal of a part of units from Debaltseve. We can say that 80% of troops have been already withdrawn. We are waiting for two more columns. Warriors of the 128th brigade, parts of units of the 30th brigade, the rest of the 25th and the 40th battalions, Special Forces, the National Guard and the police have already left the area.
...
We were asserting and proved: Debaltseve was under our control, there was no encirclement, and our troops left the area in a planned and organized manner with all the heavy weaponry: tanks, APCs, self-propelled artillery and vehicles.
...
It is a strong evidence of combat readiness of the Armed Forces and efficiency of the military command. I can say that despite tough artillery and MLRS shelling, according to the recent data, we have 30 wounded out of more than 2,000 warriors.

( O pessoal da Vila Vudu se recusou a traduzir o BESTEIROL do “Chokolatshenko”)

Não há muitos “jornalistas ocidentais” em Debaltsevo, mas em breve começarão a aparecer relatos sobre a verdade das baixas do exército ucraniano naqueles combates. Será muito difícil esconder tudo.

Então será, também, muito difícil para o “ocidente” continuar a trabalhar com Poroshenko. Já se viu claramente demais que o homem está absolutamente descolado da realidade. Não será possível, daqui em diante, continuar a impô-lo à opinião pública como portador da verdade, cavaleiro galante do bem, em luta contra as obscuras forças putinescas russas.

O que farão o “ocidente”, Obama e seu neoconservadorizado Departamento de Estado?! Como reagirão?! Será que organizarão imediato golpe contra Poroshenko? Ou terão outros meios para se livrarem de fantoches já sem serventia? Ou para salvar a situação?


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O combate das palavras: A nova propaganda

por Robert Fisk

Têm acompanhado a semântica mais recente nos noticiários? O jornalismo e o governo israelense estão novamente em amores. É terror islâmico, terror turco, terror do Hamas, terror da jihad islâmica, terror do Hezbollah, terror activista, guerra ao terror, terror palestino, terror muçulmano, terror iraniano, terror sírio, terror anti-semita, ...

Mas estou a fazer uma injustiça aos israelenses. O seu léxico, e o da Casa Branca – a maior parte do tempo – e o léxico dos nossos repórteres é o mesmo. Sim, sejamos justos para com os israelenses. O seu léxico anda assim: Terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror, terror.

Quantas vezes utilizei a palavra "terror"? Vinte. Mas poderiam bem ser 60, ou 100, ou 1000, ou um milhão. Estamos caídos deCartoon de Poderiu. amor pela palavra, seduzidos por ela, fixados por ela, atacados por ela, assaltados por ela, violados por ela, comprometidos com ela. É amor e sadismo e morte em duas sílabas, a canção de fundo do horário nobre, a abertura de toda sinfonia na televisão, a manchete de todas as páginas, uma marca de pontuação no nosso jornalismo, um ponto e vírgula, uma vírgula, nosso mais poderoso ponto final. "Terror, terror, terror, terror". Cada repetição justifica a sua antecessora.

Acima de tudo, é acerca do terror do poder e o poder do terror. Poder e terror tornaram-se intermutáveis. Nós jornalistas deixámos isto acontecer. A nossa linguagem tornou-se não apenas um aliado degradado, mas um parceiro verbal de pleno direito na linguagem de governos, exércitos, generais e armamento. Recordam o "destruidor de bunkers" ("bunker buster") e o "destruidor de mísseis Scud" ("Scud buster") e o "ambiente rico em alvos" na Guerra do Golfo (Parte Um)? Esqueça as "armas de destruição em massa" (WMD). Demasiado obviamente imbecil. Mas as "WMD" na Guerra do Golfo (Parte Dois) têm poder por si próprias, um código secreto – talvez genético, como o DNA – para alguma coisa que recolheria terror, terror, terror, terror, terror. "45 minutos de terror".

O poder e os media não se limitam apenas a relações cómodas entre jornalistas e líderes políticos, entre editores e presidentes. Não se limitam apenas à relação osmótico-parasítica entre jornalistas supostamente honestos e o nexo de poder que flui entre a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono, entre Downing Street, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da Defesa, entre os EUA e Israel.

No contexto do Ocidente, o poder e os media consistem em palavras – e na utilização de palavras. Consiste em semântica. Consiste no emprego de frases e nas suas origens. E consiste no abuso da história, e da nossa ignorância da história. Cada vez mais, hoje em dia, nós jornalistas nos tornámos prisioneiros da linguagem do poder. Será porque já não nos importamos com a linguística ou a semântica? Será porque os computadores portáteis "corrigem" a nossa ortografia, "retocam" a nossa gramática de modo a que as nossas sentenças muitas vezes acabam por ser idênticas àquelas dos nossos dominadores? Será porque os editoriais dos jornais de hoje muitas vezes soam a discursos políticos?

Nas últimas duas décadas, as lideranças estado-unidenses e britânicas – e israelenses e palestinas – utilizaram as palavras "processo de paz" para definir o incorrigível, inadequado e desonroso acordo que permitiu aos EUA e Israel dominarem quaisquer bocadinhos de terra de um povo ocupado. Questionei esta expressão, e a sua proveniência, primeiro no tempo de Oslo – embora facilmente esqueçamos que as capitulações secretas em Oslo foram elas próprias uma conspiração sem qualquer base legal.

Pobre velha Oslo, sempre pensei. O que é que Oslo fez para merecer isto? Foi o acordo da Casa Branca que selou este tratado absurdo e dúbio – no qual refugiados, fronteiras, colonatos israelenses e mesmo calendários – estiveram a ser atrasados até que já não podiam mais ser negociados.

E quão facilmente esquecemos o relvado da Casa Branca – embora, sim, recordemos a imagens – sobre o qual era Clinton que citava o Corão e Arafat que preferiu dizer: "Obrigado, obrigado, obrigado, Sr. Presidente". E o que chamámos a esta insensatez posteriormente? Sim, foi "um momento histórico"! Será que foi? Realmente?

Lembra-se o que Arafat chamou àquilo? "A paz dos bravos". Mas não me recordo de ninguém a destacar que "paz dos bravos" foi a expressão utilizada pelo general De Gaulle perto do fim da guerra da Argélia. Os franceses perderam a guerra na Argélia. Nós não reconhecemos esta ironia extraordinária.

O mesmo agora, outra vez. Nós jornalistas ocidentais – utilizados mais uma vez pelos nossos mestres – temos estado a cobrir os nossos alegres generais no Afeganistão, a dizer que a sua guerra só pode ser ganha com uma campanha de "corações e mentes". Ninguém lhes perguntou a questão óbvia: Não era esta a mesma frase utilizada em relação aos civis vietnamitas na Guerra do Vietname? E não perdemos nós – não o Ocidente – a guerra no Vietname? Mas agora nós jornalistas ocidentais estamos a utilizar – em relação ao Afeganistão – a frase "corações e mentes" nas nossas reportagens como se ela tivesse uma nova definição no dicionário, ao invés de ser um símbolo de derrota pela segunda vez em quatro décadas.

Olhe simplesmente para palavras individuais que recentemente adoptámos dos militares estado-unidenses. Quando nós ocidentais descobrimos que os "nossos" inimigos – a al-Qaida por exemplo, ou o Taliban – colocou mais bombas e efectuou mais ataques do que o habitual, chamamos a isso um "surto" (spike) de violência".

Ah, sim, um "surto"! "Surto" é uma palavra utilizada pela primeira vez neste contexto, segundo meus ficheiros, por um general de brigada na Zona Verde de Bagdad em 2004. Mas agora nós utilizamos aquela frase, utilizamo-la a torto e a direito, enviamo-la para o ar como frase nossa, nossa invenção jornalística. Estamos a utilizar, literalmente, uma expressão criada para nós pelo Pentágono. Um surto, naturalmente, sobe agudamente e a seguir cai agudamente. Um "surto de violência" evita portanto a agourenta utilização das palavras "aumento na violência" – pois um aumento, naturalmente, pode não se reduzir posteriormente.

Agora, mais uma vez, quando generais estado-unidenses referem-se a um súbito aumento nas suas forças para um assalto a Faluja ou centro de Bagdad ou Kandahar – um movimento em massa de soldados levados a países muçulmanos às dezenas de milhares – eles chamam a isto um "surto". E um surto, como um tsunami, ou qualquer outro fenómeno natural, pode ser devastador nos seus efeitos. Os que estes "surtos" realmente são – para utilizar as palavras reais do jornalismo sério – são reforços. E reforços são enviados para conflitos quando exércitos estão a perder guerras. Mas os rapazes e garotas da nossa televisão e jornais ainda estão a falar acerca de "surtos" sem qualquer qualificação. O Pentágono vence mais uma vez.

Entretanto, o "processo de paz" entrou em colapso. Portanto os nossos líderes – ou "actores chave" como gostamos de chamá-los – tentaram fazê-lo funcionar outra vez. O processo tinha de ser colocado "de volta aos trilhos". Era um comboio, como se vê. As carruagens haviam descarrilado. A administração Clinton utilizou primeiro esta frase, a seguir os israelenses e então a BBC. Mas havia um problema quando o "processo de paz" foi repetidamente posto "fora dos trilhos" – e continuava ainda fora da linha. Assim, produzimos um "mapa da estrada" ("road map") – dirigido por um Quarteto e liderado pelo velho Amigo de Deus, Tony Blair, que – numa obscenidade da história – nós agora mencionaremos como um "enviado da paz". Mas o "mapa da estrada" não está a funcionar. E agora, percebo, o velho "processo da paz" está de volta aos nossos jornais e aos nossos écrans de televisão. E no mês passado, na CNN, um daqueles aborrecidos botas de elástico a quem os rapazes e garotas da TV chamam "peritos" contou-nos mais uma vez que o "processo de paz" estava a ser colocado "de volta aos trilhos" por causa da abertura de "conversações indirectas" entre israelenses e palestinos. Não se trata apenas de clichés – isto é um jornalismo ridículo. Não há qualquer batalha entre os media e o poder, através da linguagem nós, os media, tornaram-se extensões do poder.

Aqui está uma outra peça da covardia dos media que faz a minha dentadura de 63 anos crispar-se depois de comer homus
[1]e tahine [ [2]durante 34 anos no Médio Oriente. Dizem-nos, em muitas análises jornalísticas, que no Médio Oriente temos de tratar com "narrativas competitivas". Como é cómodo. Já não há justiça, nem injustiça, apenas um par de povos que conta estórias diferentes da história. "Narrativas competitivas" agora surgem regularmente na imprensa britânica.

A frase, vinda da falsa linguagem da antropologia, elimina a possibilidade de que um grupo de povos – no Médio Oriente, por exemplo – seja ocupado, enquanto outro está a fazer a ocupação. Mais uma vez, não há justiça, nem injustiça, nem opressão ou oprimido, apenas algumas amistosas "narrativas competitivas", um campeonato de futebol, se quiser, um terreno de jogo nivelado porque os dois lados estão – não estão? – "em competição". E aos lados tem de ser dado tempo igual em toda estória.

Dessa forma, uma "ocupação" torna-se uma "disputa". Portanto uma "muralha" torna-se uma "protecção" ou "barreira de segurança". Então os actos israelenses de colonização da terra árabe, contrários a todo direito internacional, tornam-se "colonatos" ("settlements") ou "postos avançados" ("outposts") ou "vizinhanças judias". Foi Colin Powell, no seu estrelato, a sua aparição impotente como secretário de Estado de George W. Bush, que recomendou aos diplomatas dos EUA que se referissem à terra palestina ocupada como "terra disputada" – e isso foi bastante bom para a maior parte dos media dos EUA. Não havia "narrativas competitivas", naturalmente, entre os militares estado-unidenses e o Taliban. Quando houver, você saberá que o Ocidente perdeu.

Mas vou dar um exemplo de como "narrativas competitivas" acabaram desfeitas. Em Abril, fiz uma palestra em Toronto para assinalar o 95º aniversário do genocídio arménio de 1915, o deliberado assassinato em massa de 1,5 milhão de arménios cristãos pelo exército e a milícia dos turcos otomanos. Antes da minha palestra, fui entrevistado pela televisão canadiana, CTV, a qual também é dona do jornal Globe and Mail, de Toronto. E desde o princípio pude ver que o entrevistador tinha um problema. O Canadá tem uma vasta comunidade arménia. Mas Toronto também tem uma vasta comunidade turca. E os turcos, como o Globe and Mail sempre nos diz, "contestam acaloradamente" que isto tenha sido um genocídio.

Assim, o entrevistador chamou ao genocídio "massacres mortais". Naturalmente, reconheci o seu problema específico de imediato. Ela não podia chamar os massacres de "genocídio", porque a comunidade turca seria ultrajada. Mas ela percebia que "massacres" em si mesmo – especialmente com as pavorosas fotografias de arménios mortos no fundo do estúdio – não era inteiramente adequado para definir o assassínio de um milhão e meio de seres humanos. Portanto os "massacres mortais". Como é estranho! Se há massacres "mortais", haverá alguns massacres que não sejam "mortais", dos quais as vítimas saiam vivas? Era uma tautologia ridícula.

Mas a utilização da linguagem do poder – das suas palavras guia e da suas frases guia – ainda continua entre nós. Quantas vezes ouvi repórteres ocidentais falarem acerca de "combatentes estrangeiros" no Afeganistão? Eles estão a referir-se, naturalmente, aos vários grupos árabes supostamente a ajudar o Taliban. Ouviamos a mesma estória no Iraque. Combatentes sauditas, jordanos, palestinos, chechenos, naturalmente. Os generais chamaram-nos "combatentes estrangeiros". Imediatamente, nós repórteres ocidentais fizemos o mesmo. Chamá-los "combatentes estrangeiros" significava que eles eram uma força invasora. Mas jamais ouvi – desde sempre – uma estação de televisão ocidental referir-se ao facto de que há pelo menos 150 mil "combatentes estrangeiros" no Afeganistão e que acontece todos eles estarem a envergar uniformes americanos, britânicos e de outros países da NATO. É que "nós" é que somos os "combatentes estrangeiros" reais.

Analogamente, a frase perniciosa "Af-Pak" – tão racista quanto é politicamente desonesta – é agora utilizada pelos repórteres, embora originalmente tenha sido uma criação do Departamento de Estado no dia em que Richard Holbrooke foi nomeado representante especial dos EUA para o Afeganistão e o Paquistão. Mas a frase evita a utilização da palavra "Índia" – cuja influência no Afeganistão e cuja presença no Afeganistão é uma parte vital da estória. Além disso, "Af-Pak" – ao eliminar a Índia – eliminou efectivamente toda a crise da Cachemira do conflito no Sudeste da Ásia. Portanto privou o Paquistão de qualquer palavra na política local dos EUA sobre a Cachemira – afinal de contas, Holbrook foi tornado o enviado "Af-Pak", proibido especificamente de discutir a Cachemira. Portanto a frase "Af-Pak", que esvazia totalmente a tragédia da Cachemira – talvez demasiadas "narrativas competitivas"? – significa que quando nós jornalistas utilizamos a mesma frase, "Af-Pak", a qual certamente foi criada para nós jornalistas, estamos a fazer o trabalho do Departamento de Estado.

Agora vamos olhar a história. Nossos líderes amam a história. Acima de tudo, amam a Segunda Guerra Mundial. Em 2003, George W. Bush pensava que era Churchill. É verdade que Bush havia passado a Guerra do Vietname a proteger os céus do Texas do Vietcong. Mas agora, em 2003, ele erguia-se contra os "apaziguadores" que não queriam uma guerra com Saddam o qual era, naturalmente, "o Hitler do Tigre". Os apaziguadores foram os britânicos que não queriam combater a Alemanha nazi em 1938. Blair, naturalmente, também tentou vestir o colete e o casaco de Churchill para a ocasião. Ele não era "apaziguador". A América era a mais antiga aliada britânica, proclamou ele – e tanto Bush como Blair recordaram aos jornalistas que os EUA haviam lutado ombro a ombro com a Grã-Bretanha na sua hora de aflição em 1940.

Mas nada disto era verdadeiro. O mais antigo aliado da Grã-Bretanha não eram os Estados Unidos. Era Portugal, um estado fascista neutro durante a Segunda Guerra Mundial, o qual arvorou as suas bandeiras nacionais a meio mastro quando Hitler morrer (mesmo os irlandeses não fizeram isso).

Nem tão pouco a América combateu junto à Grã-Bretanha na sua hora de aflição em 1940, quando Hitler ameaçava invasão e a Luftwaffe atacava Londres. Não, em 1940 a América estava a desfrutar um muito lucrativo período de neutralidade e não se juntou à Grã-Bretanha na guerra até o Japão ter atacado a base naval de Pearl Harbour em Dezembro de 1941. Analogamente, remontando a 1956, Eden chamou Nasser de "o Mussolini do Nilo". Um erro grosseiro. Nasser era amado pelos árabes, não odiado como Mussolini pela maioria dos africanos, especialmente os árabes líbios. O paralelo Mussolini não foi desafiado ou questionado pela imprensa britânica. E todos nós sabemos o que aconteceu no Suez em 1956. Quando se chega à história, nós jornalistas deixamos os presidentes e primeiros-ministros usarem-nos como cavalgaduras.

Mas o lado mais perigoso da nossa nova guerra semântica, nossa utilização das palavras do poder – embora não seja uma guerra, uma vez que nos rendemos completamente – é que isso nos isola dos nossos espectadores e leitores. Eles não são estúpidos. Eles entendem palavras em muitos casos – receio – melhor do que nós. E também de História. Eles sabem que estamos a retirar o nosso vocabulário da linguagem de generais e presidentes, das assim chamadas elites, da arrogância dos peritos do Brookings Institute, ou aqueles da Rand Corporation. Portanto temos de nos tornar parte desta linguagem.

Nas últimas duas semanas, quando estrangeiros – humanitários ou "terroristas activistas" – tentaram levar alimentos e remédios por via marítima para os famélicos palestinos de Gaza, nós jornalistas deveríamos ter estado a recordar aos nossos espectadores e ouvintes de um tempo remoto em que a América e a Grã-Bretanha correram em ajuda de um povo cercado, trazendo-lhe alimentos e combustível para ajudar uma população faminta. Aquela população fora cercada por uma protecção erguida por um exército brutal o qual pretendia reduzir o povo à submissão. O exército era russo. A cidade era Berlim. O muro estava para vir mais tarde. O povo havia sido nosso inimigo apenas três anos antes. Mas nós fizemos a ponte aérea para Berlim a fim de salvá-los. Agora olhemos para a Gaza de hoje: qual jornalista ocidental – uma vez que amamos paralelos históricos – alguma vez mencionou Berlim 1948 no contexto de Gaza?

Mas ao invés disso, o que é que tivemos? "Activistas" que se transformaram em "activistas armados" no momento em que se opuseram à abordagem do exército israelense. Como ousam estes homens transtornar o léxico? A sua punição foi óbvia. Eles tornaram-se "terroristas". E os raids israelenses – nos quais foram mortos "activistas" (outra prova do seu "terrorismo") – tornaram-se então raids "mortais". Neste caso, "mortal" era mais desculpável do que fora na CTV – nove mortos de origem turca sendo ligeiramente menos do que um milhão e meio de arménios assassinado em 1915. Mas era interessante que os israelenses – que por suas próprias razões políticas haviam até agora vergonhosamente corroborado a negação turca – agora subitamente quisessem informar o mundo do genocídio arménio de 1915. Isto provocou uma compreensível tensão entre muitos dos nossos colegas. Jornalistas que regularmente omitiam qualquer menção ao primeiro Holocausto do século XX – a menos que se pudessem referir também ao modo como os turcos "contestam acaloradamente" a etiqueta genocida (logo, o Globe and Mail de Toronto) – subitamente podiam referir-se a isto. A recem encontrado interesse histórico de Israel tornava o assunto legítimo, embora quase todas as reportagens fizessem por evitar qualquer explicação do que realmente aconteceu em 1915.

E no que se tornou o raid marítimo israelense? Tornou-se um raid "mal feito" ("botched"). Mal feito é uma linda expressão. Ela teve origem numa palavra do inglês medieval de origem germânica, a qual significava "reparar toscamente". E nós mantivemos mais ou menos aquela definição até que os nossos conselheiros do léxico jornalístico mudaram o seu significado. Escolares "botch" um exame. Podíamos "botch" uma peça de costuma, uma tentativa de reparar uma peça de material. Mas não podíamos "botch" uma tentativa de persuadir o nosso padrão a dar-nos um aumento. Mas agora nós "botch" uma operação militar. Não foi um desastre. Não foi uma catástrofe. Apenas matou alguns turcos.

Assim, dada a má publicidade, os israelenses apenas "botched" o raid. De modo estranho, ultimamente repórteres e governos utilizaram esta palavra particular a seguir à tentativa de Israel de matar o líder do Hamas, Khaled Meshaal, nas ruas de Aman. Neste caso, assassinos profissionais de Israel foram apanhados depois de tentarem envenenar Meshaal, e o rei Hussain obrigou o então primeiro-ministro israelense (um certo B. Netanyahu) a providenciar um antídoto (e a deixar um bocado de "terroristas" do Hamas fora do cárcere). A vida de Meshaal foi salva.

Mas para Israel e os seus obedientes jornalistas ocidentais isto tornou-se um "atentado botched" contra a vida de Meshaal. Não porque não estivesse destinado a morrer, mas porque Israel fracassou em matá-lo. Portanto você pode "botch" uma operação matando turcos – ou você pode "botch" uma operação não matando um palestino.

Como podemos romper com a linguagem do poder? Ela certamente mata-nos. Esta, suspeito, é uma razão porque os leitores se afastaram da imprensa dita "de referência" em favor da Internet. Não porque a net seja livre, mas porque os leitores sabem que lhes mentem e são enganados; sabem que o que assistem e o que lêem em jornais é um prolongamento do que ouviram do Pentágono ou do governo israelense, que as nossas palavras tornaram-se sinónimo da linguagem aprovado por um governo, o cuidadoso meio termo, o qual obscurece a verdade tão certamente como nos fazem nossos aliados políticos – e militares – de todos os principais governos ocidentais.

Muitos dos meus colegas em vários jornais ocidentais acabariam por arriscar os seus empregos se fossem desafiar constantemente a falsa realidade das notícias jornalísticas, o nexo de poder media-governo. Quantas organizações noticiosas pensaram apresentar , no momento do desastre de Gaza, filmes da ponte aérea para romper o bloqueio de Berlim? Será que a BBC o fez?

Para o inferno que o tenham feito! Preferimos "narrativas competidoras". Os políticos não queriam – eu disse isso na reunião de Doha a 11 de Maio – que a viagem a Gaza alcançasse o seu destino, "fosse o seu fim um êxito, uma farsa ou uma tragédia". Nós acreditamos no "processo de paz", no "mapa da estrada". Em manter a "protecção" em torno dos palestinos. Deixem os "actores chave" destrinçarem isto. E recordem do que trata tudo isto: "Terror, terror, terror, terror, terror, terror."

1- Homus: prato libanês, pasta de grão-de-bico com óleo de gergelim
2- Tahine: Gergelim


O original, em inglês, encontra-se em: The Independent

Este artigo, em português, foi extraído de Resistir.Info