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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O dilema do “ocidente” depois da derrota em Debaltsevo: O que fazer de Poroshenko?


18/2/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Apesar de todos termos dado o melhor de Nós  do valente combate das forças militares e navais, da diligência e da assiduidade de Nossos funcionários públicos, e do devotado serviço de Nossos cem milhões de cidadãos  a situação da guerra desenvolveu-se não necessariamente para benefício do Japão.
(Imperador Hirohito reconhecendo a derrota do Japão)

Petro "Chocolatshenko"
O presidente fantoche da Ucrânia, Petro Poroshenko deveria fazer discurso semelhante. Não há dúvida alguma de que a situação da guerra na Ucrânia desenvolveu-se não necessariamente para benefício de seu governo. Mas Poroshenko fez discurso (veja abaixo) muito mais delirante, muito mais sem-noção que a fala−cortina de Hirohito.

Há seis dias, vários milhares de soldados do governo ucraniano foram cercados no bolsão de Debaltsevo. A única estrada em direção a linhas amigas foi minada e ficou sob fogo direto e indireto da oposição. Houve várias tentativas para escapar do cerco, pelos que estavam dentro, e de invadir o cerco, por soldados ukies que estavam fora; todas foram derrotadas, com altas perdas de vida e materiais.

Desde ontem, e depois de vários dias de preparação, as tropas das Repúblicas Populares de Donestk e Lugansk, atacam ininterruptamente a cidade. Anunciaram que cerca de 3 mil soldados de Kiev foram mortos e cerca de mil renderam-se e foram presos. Vídeo a seguir:


Umas poucas centenas escaparam a pé durante a noite e hoje cedo chegaram a Artemivsk, controlada pelo governo, a cerca de 30km ao norte de Debaltsevo. Outros fugiram para o sul, para longe das próprias linhas, penetrando no caldeirão. Logo serão capturados. Quantidades enormes de armas e munição foram deixadas para trás, entregues aos federalistas. Repórteres em Artemivsk viram chegar 40-50 mortos e 200 feridos. Foram feridos e mortos, disseram os repórteres, durante a fuga sob fogo, não antes, em combates em Debaltsevo. Os que escaparam vivos dizem que foram abandonados por Kiev, entregues à própria sorte e reclamam dos superiores.

reunião chamada “Minsk-2” foi arranjada em ritmo de emergência pela chanceler alemã Merkel, quando a situação em torno de Debaltsevo já estava gravemente deteriorada. Mas durante as negociações em Minsk, Poroshenko sempre repetiu que não havia cerco, nem bolsão, nem caldeirão, e que suas tropas tinham perfeito controle da situação. O presidente francês tentou explicar-lhe a real situação em campo, mas nada conseguiu.

Acertou-se um cessar-fogo, mas os protocolos não fizeram qualquer referência direta à situação em Debaltsevo. Os federalistas, bem razoavelmente, concluíram que o bolsão estava dentro de suas linhas reconhecidas e poderia ser eliminado sem romper as linhas gerais acertadas para o cessar-fogo. Ao longo dos últimos dias, nada se ouviu, de protesto do “ocidente” sobre esse movimento. Haveria aí um “de acordo” silencioso, para induzir Poroshenko a mastigar a própria gravata, como Saakashvili mastigou? (O mesmo Saakashvili que é agora conselheiro pessoal de Poroshenko). Vídeo a seguir:


O que acima se lê/vê é a realidade.

Na página do governo da Ucrânia, leem-se os delírios de Poroshenko, em discurso hoje. Vídeo a seguir:


I can inform now that this morning the Armed Forces of Ukraine together with the National Guard completed the operation on the planned and organized withdrawal of a part of units from Debaltseve. We can say that 80% of troops have been already withdrawn. We are waiting for two more columns. Warriors of the 128th brigade, parts of units of the 30th brigade, the rest of the 25th and the 40th battalions, Special Forces, the National Guard and the police have already left the area.
...
We were asserting and proved: Debaltseve was under our control, there was no encirclement, and our troops left the area in a planned and organized manner with all the heavy weaponry: tanks, APCs, self-propelled artillery and vehicles.
...
It is a strong evidence of combat readiness of the Armed Forces and efficiency of the military command. I can say that despite tough artillery and MLRS shelling, according to the recent data, we have 30 wounded out of more than 2,000 warriors.

( O pessoal da Vila Vudu se recusou a traduzir o BESTEIROL do “Chokolatshenko”)

Não há muitos “jornalistas ocidentais” em Debaltsevo, mas em breve começarão a aparecer relatos sobre a verdade das baixas do exército ucraniano naqueles combates. Será muito difícil esconder tudo.

Então será, também, muito difícil para o “ocidente” continuar a trabalhar com Poroshenko. Já se viu claramente demais que o homem está absolutamente descolado da realidade. Não será possível, daqui em diante, continuar a impô-lo à opinião pública como portador da verdade, cavaleiro galante do bem, em luta contra as obscuras forças putinescas russas.

O que farão o “ocidente”, Obama e seu neoconservadorizado Departamento de Estado?! Como reagirão?! Será que organizarão imediato golpe contra Poroshenko? Ou terão outros meios para se livrarem de fantoches já sem serventia? Ou para salvar a situação?


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Kerry não conseguiu incendiar o rio Moscou


9/5/2013, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

As preliminares dos encontros de alto nível entre russos e americanos sempre são reveladoras. Dessa vez, os dois lados jabearam, na preparação para a “visita de trabalho” de um dia, do Secretário de Estado dos EUA John Kerry a Moscou, na 3ª-feira.

John Kerry (E) e Sergey Lavrov (D) (Moscou 7/5/2013)
As conversas de Kerry produziram resultado significativo, com Washington e Moscou concordando sobre um “mapa do caminho” para resolver a crise na Síria. Parte da razão pela qual se formou quase instantaneamente a percepção de “algum avanço” está em que a visita de Kerry aconteceu em contexto de previsões quase exclusivamente sombrias.

Os ataques de Israel à Síria, os quais – para dizê-lo em termos suaves – Washington “liberou”, geraram uma estranha “abertura” para as conversas de Kerry em Moscou. De fato, Moscou fumegava de fúria. O presidente Vladimir Putin telefonou ao Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu (que estava em Xangai) e, segundo a rede Debka, aplicou-lhe uma carraspana “de alto a baixo”, avisando-o de que haverá consequências muito graves, se esse tipo de tresloucamento voltar a repetir-se.

Israel bombardeou áreas civis da Síria
Mais uma vez, sabendo perfeitamente que a Síria estaria no item 1 da agenda de Kerry em Moscou, na 2ª-feira a Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA encaminhou projeto de lei que autoriza o envio de ajuda militar aos “rebeldes” sírios. Foi mal disfarçada pressão tática, de ameaça a Moscou: se não fizesse concessões no caso sírio, Obama armaria os combatentes antirregime.

Baixas expectativas

Mikhail Saakashvilli
Além disso, posto que se tratava de “visita de trabalho”, Kerry deveria ter-se limitado a negócios de governo. Não. Recebeu grupos da sociedade civil russa na residência do embaixador em Moscou, sabendo muito bem das sensibilidades no Kremlin.

Para dizer o mínimo, também foi movimento diplomático de extremo mau gosto os EUA terem hospedado o Presidente da Georgia, Mikhail Saakashvilli, em Washington às vésperas de Kerry partir para a visita à Rússia. Kerry e Saakashvilli têm muito a conversar, mas o georgiano é como capa vermelha aos olhos do touro russo, e Putin nunca se deu o trabalho de disfarçar o profundo desprezo que lhe inspira esse homem, que fez correr sangue russo.

Tudo isso posto, é claro que Moscou não estava exatamente eufórica, quando Kerry pousou no aeroporto Vnukovo, para a primeira visita à Rússia como principal diplomata dos EUA. Foi deixado lá, congelando no aeroporto, por meia hora. Os anfitriões, quando apareceram, explicaram que haviam sido detidos num engarrafamento monstro no centro de Moscou, devido a um desfile militar.

Na sequência, a audiência previamente agendada para Kerry no Kremlin atrasou três horas. Porque Putin estava ocupado em reunião de Gabinete, que se prolongara além do previsto.

Para não deixar pontas soltas, foi mais que coincidência que, no instante em que Kerry pisava solo russo, as autoridades de Moscou invadiam os escritórios de mais três ONGs: porque receberam ilegalmente “consideráveis somas de dinheiro de fontes estrangeiras, principalmente de fontes localizadas nos EUA”. As ONGs com sede nos EUA que foram incriminadas dessa vez incluem grupos “5 estrelas”, como a Fundação George Soros e a National Endowment for Democracy.

Para resumir, na 3ª-feira pela manhã, os dois lados, Washington e Moscou davam sinais de já se terem conformado com baixas expectativas de resultado da visita de Kerry. E, de fato, os tópicos mais espinhosos que os separam, como a crise síria, o problema nuclear iraniano ou o sistema de defesa antimísseis, não têm conciliação simples.

Thomas Donilon
Moscou ainda não respondeu carta enviada pelo presidente Barack Obama, entregue a Putin pelo Assessor de Segurança Nacional, Thomas Donilon, em visita a Moscou, mês passado. Pelo que se divulgou, a carta conteria as propostas de Obama para um desarmamento nuclear estratégico, mas, para Moscou, o tema continua na dependência de haver algum progresso na discussão sobre o programa norte-americano de mísseis de defesa.

Simultaneamente e, interessantemente, dois bombardeiros russos com capacidade nuclear Bear H foram vistos dias 28 e 29 de abril sobrevoando zonas norte-americanas de defesa aérea no Alasca [orig. US military’s Alaska Air Defense Identification Zone e Alaska's North Slope region (NTs)], no Ártico e nos mares Chukchi, onde os EUA mantêm um radar estratégico antimísseis.

É o quinto incidente do mesmo tipo desde junho, em que se veem aviões bombardeiros estratégicos russos sobrevoando instalações militares norte-americanas super sensíveis – ocorrência de rotina em tempos de Guerra Fria.

“Quem são as partes?”

Tudo considerado, Kerry estava pressionado para mostrar frutos de suas conversas em Moscou. Suou, na conferência conjunta de imprensa, ele e o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, para mostrar algum avanço significativo na Síria – depois que Lavrov passou-lhe a palavra. Lavrov disse que:

Rússia e EUA trabalharão para levar o regime Assad e a oposição à mesa de negociações, juntos, com vistas a encontrar uma solução política para a crise. Acertamos também uma conferência internacional, para o final de maio, para construir a partir de um plano de transição negociado ano passado em Genebra. Rússia e EUA confirmaram a intenção de ambos os países de respeitar a soberania e a integridade territorial da Síria. [1]

Kerry transbordava de otimismo, certo de que a oposição síria está preparada para sentar à mesa com o regime de Assad e já adotou abordagem “inclusiva e democrática”. Sobre isso, Lavrov disse que, no momento, reservava-se o direito de não comentar.

Quanto à integridade territorial da Síria, Moscou trabalha com o dado de que os EUA ainda precisam evoluir, até as conversações, mas, também, precisam conseguir que seus parceiros na região suspendam a gigantesca contribuição financeira e material que continua a abastecer os “rebeldes” sírios.

A certa altura, só a muito custo Kerry conseguiu não repetir o mote de Washington a favor de “mudança de regime” na Síria:

Nossa posição tem sido de que é impossível para mim, como indivíduo, entender como a Síria poderia ser governada no futuro pelo homem que cometeu as coisas [orig. committed the things] que sabemos que aconteceram [orig. that we know have taken place]. Mas não que – não vou decidir nada hoje. E não vou decidir nada no final. Porque o comunicado de Genebra diz que o governo de transição tem de ser escolhido por mútuo consenso das partes. Quem são as partes? As partes são o atual regime e a oposição.

Lavrov não arredou pé da posição de que é simplesmente impossível excluir o governo sírio, do diálogo político:

O povo sírio não é noção abstrata, não é só o regime nem só a oposição, que há anos vive longe da Síria, à parte. O povo sírio é toda a nação. A maioria da população teme a derrubada do regime Assad. Temem que os que combatem contra o atual regime assumam o controle, e que a Síria passe a ser governada por extremistas.

Mais uma vez, Kerry de certa maneira “diluiu” a data da conferência; disse que:

...acontecerá tão logo seja prático, possivelmente, esperamos, pelo fim desse mês. Marcaremos – tentaremos agendar uma conferência internacional como seguimento da conferência de Genebra no verão passado.

Silêncio ensurdecedor

Do mesmo modo, ao ser convidado a comentar o projeto de lei encaminhado no Capitólio, 2ª-feira passada, sobre armar os rebeldes sírios, Kerry tergiversou e não respondeu diretamente. Moscou, não há dúvidas, anotou a ambiguidade de Kerry.

O governo Obama tentou criar a impressão de que Kerry daria “um empurrão em Putin, na questão síria”, agindo por dois ângulos: ameaças norte-americanas de que armarão a oposição e a prova de que o governo sírio usou armas químicas.

Vladimir Putin
Péssima tática diplomática que, muito provavelmente está voltando feito bumerangue, dado que Putin detesta ser mostrado como se estivesse pressionado pelos EUA. De fato, os EUA mudaram de posição na questão chave: já não estão exigindo, como precondição a qualquer diálogo, que Assad deixe o governo.

Por outro lado, surge agora um novo desafio para cada um dos dois lados. Para Moscou, tornou-se vitalmente importante manter Kerry fisgado pela palavra, no que tenha a ver com o imperativo de um diálogo político inclusivo, que inclua o governo Assad.

Para Washington, ao contrário, o desafio é conseguir persuadir os sauditas, qataris e o governo turco aliados, a aceitar Assad como participante legítimo do diálogo sírio, por maior que seja a antipatia que lhes inspire.

Barack Obama
A “mão” dos EUA parece provavelmente fortalecida pelo fato de que os aliados europeus estão “muito satisfeitos” com os sinais de que EUA e Rússia concordam na direção de que “a solução do conflito sírio está num acordo político amplo, compreensivo”. Mas persiste aquele silêncio ensurdecedor em Riad, Doha e Qatar sobre a “abertura” obtida nas conversações de Kerry em Moscou.

A Rússia, por seu lado, cuida para não esquecer que o governo Obama, e especialmente Kerry, estão sob descomunal pressão do Congresso, de setores influentes da comunidade estratégica dos EUA e, claro, dos aliados no Golfo Persa e de Israel – tanto quanto, por dentro, também do próprio establishment da política exterior norte-americana – para “fazer algo” sobre a Síria.

Mas o governo Obama também está agudamente consciente de que a opinião pública norte-americana rejeita o envolvimento dos EUA em mais uma guerra, depois de uma décadas de conflito no Iraque e no Afeganistão, que já custou a vida de 6.000 soldados norte-americanos.

Sergei Karaganov
Moscou sente que Kerry é interlocutor tratável, que pode ser persuadido. O importante pensador político russo, Sergei Karaganov, disse recentemente, que Hillary Clinton, que precedeu Kerry, falava demais, em tom professoral, de pregação, sobre uns seus “valores morais”, o que irritava muito mais de um alto funcionário russo.

Por tudo isso, é possível que o lado russo tenha-se arriscado mais do que o normal, para reforçar a posição de Kerry nessa situação. Mas também pode ter sido esperar demais, dado que há em jogo interesses cruciais de russos e norte-americanos e, no cômputo final, prevalecerão as políticas e objetivos respectivos, para as grandes questões globais.

O próprio Kerry fixou metas de certo modo modestas para que se avaliasse sua visita a Moscou: disse que esperava diálogo “saudável” entre EUA e Rússia. E tudo isso acontece com Putin e Obama já agendados para conversarem, mês que vem, às margens da Reunião do G-8, na Irlanda do Norte.
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Nota dos tradutores
[1]  8/5/2013, Ria Novosti, Rússia, em: Russia, US Want Talks Between Syrian Govt, Opposition
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*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sábado, 6 de outubro de 2012

Geórgia: “No espaço pós-soviético caiu a cidadela do Ocidente”


2/10/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A cidadela do Ocidente no espaço pós-soviético está caindo – a Geórgia. Bem triste epílogo, esse que agora se escreve, à história épica dessa “revolução colorida”. 

Mikheil Saakashvili
Os resultados da eleição para o Parlamento da Geórgia [1] na 2ª-feira exibem surpreendente resultado, segundo o qual o presidente Mikheil Saakashvilli (MS) sofreu exatamente o que se conhece como derrota acachapante. MS foi levado ao poder num golpe cuidadosamente arquitetado de “mudança de regime” em 2003, que, no léxico ocidental, atende pelo nome de “Revolução Cor-de-rosa” [2].

OK. Agora a maré virou. A coalizão de oposição, “Sonhadores” [orig. Dreamers], conquistou nada menos de 110 das 150 cadeiras do Parlamento. O sistema georgiano foi tão claramente construído para dar integral poder ao primeiro-ministro, com ainda mais autoridade depois da reforma de 2013, que, agora, lá estará primeiro-ministro muito poderoso e da oposição política ao governo “colorido” anterior. Pelos próximos meses, até 2014, MS terá de arrastar-se como pato manco.

Muito mais significativo, contudo, é que os “Sonhadores” são liderados pelo magnata bilionário Bidzina Ivanishvilli. A riqueza não é o mais importante. O que realmente importa é como Bidzina Ivanishvilli fez sua imensa fortuna. Em termos simplificados, pode-se dizer que toda aquela riqueza foi “ feita” nos dias de glória do início dos anos 1990s, quando Boris Yeltsin vendia na bacia das almas as vastas riquezas russas, e apresentava os russos às infinitas possibilidades do capitalismo de rapina dito “neoliberal” . Isso posto, os oligarcas deitaram e rolaram enquanto brilhava o sol e também depois que o sol se punha – e, entre eles, Bidzina Ivanishvilli. 

Bidzina Ivanishvili
Sabe-se que o presidente Putin entende-se às mil maravilhas com Bidzina Ivanishvilli. 

Moscou tem dado sinais de máximo entusiasmo com as imagens que chegam por televisão, de Tbilisi [3].

Washington não apreciará e ficará muito incomodada se acontecer de Moscou voltar a controlar os cordões em Tbilisi, outra vez, como antes. A Geórgia é peça vital no jogo geopolítico miúdo que está sendo disputado no espaço pós-soviético entre Washington e Moscou. E não se deve esquecer que tudo isso acontece quando a temperatura cai cada dia mais nas relações EUA-Rússia [4] – como se vê pela decisão de Moscou de expulsar do país os grupos da USAID.

A rivalidade EUA-Rússia está em visível erupção por todo o coração da Eurásia, já contagiando as periferias. Putin está promovendo seu projeto de uma União Eurasiana e os EUA trabalham para que o processo seja o menos bem sucedido possível. 

Vladimir Putin
Os EUA estão empurrando a influência russa nas capitais da Ásia Central para o norte do Afeganistão; a Rússia está-se inserindo, ela, dentro do bastião da influência norte-americana ao sul do Afeganistão – no Paquistão. Não importa que Putin tenha adiado a visita ao Paquistão. O comandante do exército paquistanês, Asfaq Kayani tem visita marcada a Moscou, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov fez agradável surpresa aos líderes civis do Paquistão [5], ao desembarcar lá, sem cerimônias, para explicar cordial e diretamente ao presidente Asif Zardari os motivos pelos quais Putin não pudera ir.

O espetáculo que se desenrola, pois, ante os olhos do mundo, agora, na Geórgia, é suspense de primeiríssima qualidade. Mas será tudo assim tão simples? Bastará à Rússia simplesmente declarar que ‘controla a Georgia’? Os “Sonhadores” são ambiciosos e parecem interessados em expandir os interesses georgianos [6] negociando com firmeza e barganhando sem tréguas, simultaneamente, com o ocidente e com a Rússia. (Por falar nisso: Bidzina Ivanishvilli tem dupla cidadania, russa e francesa).

Mikhail Yanokovich
É exatamente o que outro presidente ‘'pró-Rússia'’, o ucraniano Mikhail Yanokovich, também está fazendo, depois de já ter deslocado os revolucionários ‘coloridos’ que controlavam o governo de Kiev. 

Por menor que seja, nenhum país passa incólume pela experiência radical de viver como estado soberano. Ninguém jamais imaginaria que país minúsculo, como o Tadjiquistão, com população de cerca de 5 milhões, se ergueria contra os desejos da grande Rússia na questão de uma base militar russa [7]. Além disso, a localização estratégica da Geórgia é e sempre será fator crucialmente importante. Os oleodutos e a segurança energética; a expansão da OTAN; o sistema dos mísseis de defesa dos EUA; a projetada rota de passagem para o Afeganistão (contornando Rússia, Irã e Paquistão); a militância islâmica no norte do Cáucaso; a questão iraniana; as bases militares no Mar Negro – e esses são só alguns dos temas cuja discussão inclui necessariamente a Geórgia, de um ou de outro modo, como “parceiro indispensável” dos EUA para o século 21.

Em resumo, Washington não facilitará. Não deixará que Bidzina Ivanishvilli tombe desprotegido no abraço do urso. Nem o urso afrouxará o (re)abraço, ou dormirá no ponto a ponto de deixar que a águia capture a Geórgia pela segunda vez. O mais provável é que Bidzina Ivanishvilli busque a solidariedade do Movimento dos Não Alinhados, MNA.



Notas de rodapé e dos tradutores

[1] 2/10/2012, ITAR-TASS Agency, em: Georgian opposition may get 110 seats in Georgian parliament

[2] A “Revolução das Rosas”, conhecida, no “grupo” das “revoluções coloridas”, como “Revolução Cor-de-Rosa” foi mudança de regime na Georgia, em novembro de 2003, que sobreveio depois que surgiram denúncias de fraudes em eleições parlamentares nacionais. Fonte significativa de fundos para a “Revolução Cor-de-rosa” foram as várias ONGs e fundações do grupo do bilionário húngaro norte-americano George Soros. A “Fundação para a Defesa das Democracias” divulgou depoimento de parlamentar georgiano, em que conta que, nos três meses que antecederam a “Revolução Cor-de-rosa”, Soros gastou $42 milhões diretamente para derrubar Shevardnadze. Falando em T'blisi em junho de 2005, Soros disse que:

...estou muito satisfeito e orgulhoso com o trabalho da Fundação, que preparou a sociedade georgiana para o que, em seguida, converteu-se em “Revolução Cor-de-Rosa”, mas a mídia exagerou muito a participação do meu pessoal. (Ver “1/6/2005, NewMax.com, em: Soros Downplays Role in Georgia Revolution).

Resultado dessa “mudança de regime”/golpe, o presidente Eduard Shevardnadze foi forçado a renunciar dia 23/11/2003 (mais sobre isso em Rose Revolution).


[3] 2/10/2012, RiaNovosti, em: Georgian Opposition Leads in Early Results

[4] 21/9/2012, RiaNovosti, em: Due West: Confident Putin Buries Reset”.

[5  2/10/2012, Dawn.com, em: Russian FM due tomorrow on 2-day visit 


[7] 29/9/2012, Novinite.com, em: New Deal on Russian Military Base in Tajikistan Faces Delay


MK Bhadrakumarfoi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.