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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pepe Escobar – “O som de Munique”


Nada noviços, nada rebeldes

6/2/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
As colinas (geopolíticas) vibram ao som da... não, não é música; é esse tipo de ruído pós-industrial, mais Kraftwerk* que Schubert, que nos chega, zumbindo, da 49ª edição, recém encerrada, da Conferência de Segurança de Munique.

Quem não pagaria bônus de Goldman Sachs para ser informado sobre o que se cochichava, sempre muito privadamente, naquele seleto coquetel de políticos, ministros, generais e espiões que confraternizam pelos ricos corredores e desvãos do Hotel Bayerischer Hof em Munique?!

Sabe-se, pelo menos, a versão oficial. E as estrelas do show não são estrelas musicais. É mais como Bayern versus Barcelona em jogo da Liga dos Campeões. Pode-se chamar, simplificando, de “A peleja Biden versus Lavrov”.

O que eu digo, vale

Joe Biden
Comecemos com o vice-presidente dos EUA Joe Biden:

Os EUA são a potência do Pacífico. E a maior aliança militar [a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN] ajuda a fazer de nós também a potência do Atlântico. Como nossa nova estratégia de defesa deixa claro, assim continuaremos: como potência do Pacífico e como potência atlântica.

Mais um bônus de Goldman Sachs para saber o que nossos amigos no Zhongnanhai em Pequim pensaram ao ouvir isso.

Biden repetiu a mesma ideia também em termos da estratégia de “liderar pela retaguarda” do governo Obama 2.0: a “abordagem ampla” implica usar “todos os instrumentos à nossa disposição – inclusive nossos militares”.

Subiu a aposta e atreveu-se até a elogiar os becos-sem-saída/casos-catástrofes do Iraque, Afeganistão e Líbia como modelos; e deixou subentendido que a Guerra Global ao Terror (GWOT), sim, sim, prosseguirá para sempre (ver 22/1/2013, redecastorphoto em: Guerra ao Terror forever), com os EUA dando-se “claramente conta da ameaça crescente que são vários afiliados [da al-Qaeda] como AQAP no Iêmen, al-Shabaab na Somália, AQI no Iraque e Síria e AQIM no Norte da África”.

Ali Akbar Salehi
E, além do mais, o Irã... A turma da geopolítica da luz no fim do túnel pode ter dado destaque ao reconhecimento, por Biden, de que o governo Obama 2.0 não descarta a possibilidade de diálogo direto com Teerã, mas mesmo assim, Biden insistiu que “nossa política não é de contenção”. Não surpreende que o ministro de Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi, tenha dito que, sim, podemos conversar, é claro; mas só se Washington for “séria”.

“Séria”, no contexto, significa que Washington terá de suspender as precondições de proporções himalaicas – entre as quais a proibição de que Teerã enriqueça urânio, direito que o Irã tem, como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, além das sanções mantidas ad infinitum.

Finalmente, sobre a Síria, Biden repetiu o mesmo velho roteiro gasto: Bashar al-Assad seria “um tirano, que não se separará do poder por vontade própria”, que “já não é adequado a liderar o povo sírio” e que “tem de sair”. Mas, na língua dura do liderar-pela-retaguarda, tudo isso significa que não haverá intervenção militar direta dos EUA... para grande desespero da mais recente “coalizão nacional síria” inventada por Washington-Doha.

Sergei Lavrov
O que vocês dizem não vale nada

Agora, quanto ao ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. Reuniu-se, sim, com Moaz al-Khatib, líder da nova coalizão de oposição síria, o qual – e seria impensável há algum tempo – também se reuniu com Salehi, ministro das Relações Exteriores do Irã.

Nos dois casos, sobre Irã e sobre Síria, Lavrov foi direto, focado e reto como laser. Para o Irã, insistiu na necessidade de “incentivos” para atrair o Irã para conversações sérias: “Temos de convencer os iranianos de que não se cogita de mudança de regime”. Para a Síria, insistiu que a “continuada tragédia” é resultado da persistência dos que dizem que a prioridade absoluta seria remover o presidente Assad”.

Ouçam então o buzzing, ao estilo do Kraftwerk, vindo de Munique, que resultou da reunião de representantes da oposição síria co os dois principais apoiadores de Assad – Irã e Rússia. Só no mais longo prazo se verá o que realmente significa esse notável desenvolvimento. Por hora, só se sabe que aconteceu bem poucos dias depois que al-Khatib declarou-se disposto a conversar com o regime de Assad – sob a condição de que 160 mil prisioneiros políticos sejam libertados (onde será que guardam toda essa gente? Num imensíssimo calabouço por baixo do [castelo-fortaleza] Crac des Chevaliers dos Cruzados, talvez?).

Krak des Chevaliers, Síria - Patrimônio mundial da UNESCO 
Seja como for, no esquema do grande choque de placas tectônicas na Eurásia, o futuro da Síria é apenas um detalhe, se comparado ao Terremoto Final, o “Big One”: o que fazer para penetrar o Muro de Desconfiança que separa Washington e Teerã?

Aiatolá Khamenei 
Qualquer negociação real tem, imperativa e necessariamente, de envolver o Supremo Líder Aiatolá Khamenei – ou, no mínimo, alguém que goze de sua confiança incondicional. Um primeiro passo é o que o mundo inteiro acompanhará como cena de suspense radical, preparando para o capítulo seguinte: a reunião entre o P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança + a Alemanha) e o Irã, dia 25 de fevereiro, no Cazaquistão.

Alguns poucos atores geopolíticos já sonham com encontro bilateral entre norte-americanos e iranianos, naquele momento, em Astana, que assinalaria o começo do fim de uma excepcionalmente repugnante Guerra Fria. Não por acaso, já circulam boatos de que Ali Larijani, presidente do Parlamento iraniano (Majlis) – candidato mais do que definido à presidência do Irã, para as eleições de junho próximo; e protege do Supremo Líder – esteve duas vezes em visita secreta aos EUA, reunido com negociadores norte-americanos.

Assumindo-se que se trate do início de uma détente – e mesmo que, realisticamente, ainda esteja a anos-luz de distância –, podem todos já começar a temer confusão vinda dos suspeitos de sempre, Israel e aqueles campeões da democracia do Clube Contrarrevolucionário do Golfo (CCG) também conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

Em Munique, Israel já admitiu, tensa, que bombardeara território sírio recentemente, e que voltaria a bombardear. Isso, para nem lembrar que o duo Bibi-Barak ainda se reserva o direito privado de bombardear o Irã.

Rei Abdullah (Arábia Saudita)
A Casa de Saud, por sua vez, entrará em surto de piração total se houver qualquer tipo de acomodação nas relações Washington-Teerã. Toda a estratégia da Casa de Saud – em termos de sua ultrarreacionária contrarrevolução contra a Primavera Árabe – consistiu sempre em converter todos os confrontos em guerra de sunitas contra xiitas. É projeto plenamente apoiado e corroborado por Washington: sunitas “virtuosos” (especialmente os wahhabistas, no papel dos EUA) contra um “eixo do mal” de apóstatas: Teerã, Assad e o Hezbollah.

Para tornar mais arenosa a tempestade de areia, a Casa de Saud vive – para simplificar – confusão real das maiores. Basta ler essa deliciosa crônica do que está acontecendo no processo de definir a sucessão nepotista do rei Abdullah. Em seguida, é só verificar o que é vendido como “inteligência” dos EUA, cortesia de Strarfor – “instituto” que, afinal, já admite o que Asia Times Online noticia há mais de um ano sobre jihadistas salafistas na Síria: todos ainda defendem a Casa de Saud.

Resumo da ópera: ainda que o governo Obama 2.0 empreenda real esforço para penetrar o Muro de Desconfiança, o próprio esforço pode levar a nada, não só por ação dos “amigos” israelenses e sauditas, mas, também, por ação deliberada do inimigo interno.



Nota dos tradutores
Kraftwerk* é um influente grupo musical alemão de música eletrônica. O grupo foi formado por Ralf Hütter e Florian Schneider em 1970, em Düsseldorf e liderado por ambos até a saída de Schneider, em 2008. Pode-se assisti-los a seguir no I Love Techno festival Gent (Belgium) 21th october 2006 Nafoute TV: [NTs].

sábado, 6 de outubro de 2012

Geórgia: “No espaço pós-soviético caiu a cidadela do Ocidente”


2/10/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A cidadela do Ocidente no espaço pós-soviético está caindo – a Geórgia. Bem triste epílogo, esse que agora se escreve, à história épica dessa “revolução colorida”. 

Mikheil Saakashvili
Os resultados da eleição para o Parlamento da Geórgia [1] na 2ª-feira exibem surpreendente resultado, segundo o qual o presidente Mikheil Saakashvilli (MS) sofreu exatamente o que se conhece como derrota acachapante. MS foi levado ao poder num golpe cuidadosamente arquitetado de “mudança de regime” em 2003, que, no léxico ocidental, atende pelo nome de “Revolução Cor-de-rosa” [2].

OK. Agora a maré virou. A coalizão de oposição, “Sonhadores” [orig. Dreamers], conquistou nada menos de 110 das 150 cadeiras do Parlamento. O sistema georgiano foi tão claramente construído para dar integral poder ao primeiro-ministro, com ainda mais autoridade depois da reforma de 2013, que, agora, lá estará primeiro-ministro muito poderoso e da oposição política ao governo “colorido” anterior. Pelos próximos meses, até 2014, MS terá de arrastar-se como pato manco.

Muito mais significativo, contudo, é que os “Sonhadores” são liderados pelo magnata bilionário Bidzina Ivanishvilli. A riqueza não é o mais importante. O que realmente importa é como Bidzina Ivanishvilli fez sua imensa fortuna. Em termos simplificados, pode-se dizer que toda aquela riqueza foi “ feita” nos dias de glória do início dos anos 1990s, quando Boris Yeltsin vendia na bacia das almas as vastas riquezas russas, e apresentava os russos às infinitas possibilidades do capitalismo de rapina dito “neoliberal” . Isso posto, os oligarcas deitaram e rolaram enquanto brilhava o sol e também depois que o sol se punha – e, entre eles, Bidzina Ivanishvilli. 

Bidzina Ivanishvili
Sabe-se que o presidente Putin entende-se às mil maravilhas com Bidzina Ivanishvilli. 

Moscou tem dado sinais de máximo entusiasmo com as imagens que chegam por televisão, de Tbilisi [3].

Washington não apreciará e ficará muito incomodada se acontecer de Moscou voltar a controlar os cordões em Tbilisi, outra vez, como antes. A Geórgia é peça vital no jogo geopolítico miúdo que está sendo disputado no espaço pós-soviético entre Washington e Moscou. E não se deve esquecer que tudo isso acontece quando a temperatura cai cada dia mais nas relações EUA-Rússia [4] – como se vê pela decisão de Moscou de expulsar do país os grupos da USAID.

A rivalidade EUA-Rússia está em visível erupção por todo o coração da Eurásia, já contagiando as periferias. Putin está promovendo seu projeto de uma União Eurasiana e os EUA trabalham para que o processo seja o menos bem sucedido possível. 

Vladimir Putin
Os EUA estão empurrando a influência russa nas capitais da Ásia Central para o norte do Afeganistão; a Rússia está-se inserindo, ela, dentro do bastião da influência norte-americana ao sul do Afeganistão – no Paquistão. Não importa que Putin tenha adiado a visita ao Paquistão. O comandante do exército paquistanês, Asfaq Kayani tem visita marcada a Moscou, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov fez agradável surpresa aos líderes civis do Paquistão [5], ao desembarcar lá, sem cerimônias, para explicar cordial e diretamente ao presidente Asif Zardari os motivos pelos quais Putin não pudera ir.

O espetáculo que se desenrola, pois, ante os olhos do mundo, agora, na Geórgia, é suspense de primeiríssima qualidade. Mas será tudo assim tão simples? Bastará à Rússia simplesmente declarar que ‘controla a Georgia’? Os “Sonhadores” são ambiciosos e parecem interessados em expandir os interesses georgianos [6] negociando com firmeza e barganhando sem tréguas, simultaneamente, com o ocidente e com a Rússia. (Por falar nisso: Bidzina Ivanishvilli tem dupla cidadania, russa e francesa).

Mikhail Yanokovich
É exatamente o que outro presidente ‘'pró-Rússia'’, o ucraniano Mikhail Yanokovich, também está fazendo, depois de já ter deslocado os revolucionários ‘coloridos’ que controlavam o governo de Kiev. 

Por menor que seja, nenhum país passa incólume pela experiência radical de viver como estado soberano. Ninguém jamais imaginaria que país minúsculo, como o Tadjiquistão, com população de cerca de 5 milhões, se ergueria contra os desejos da grande Rússia na questão de uma base militar russa [7]. Além disso, a localização estratégica da Geórgia é e sempre será fator crucialmente importante. Os oleodutos e a segurança energética; a expansão da OTAN; o sistema dos mísseis de defesa dos EUA; a projetada rota de passagem para o Afeganistão (contornando Rússia, Irã e Paquistão); a militância islâmica no norte do Cáucaso; a questão iraniana; as bases militares no Mar Negro – e esses são só alguns dos temas cuja discussão inclui necessariamente a Geórgia, de um ou de outro modo, como “parceiro indispensável” dos EUA para o século 21.

Em resumo, Washington não facilitará. Não deixará que Bidzina Ivanishvilli tombe desprotegido no abraço do urso. Nem o urso afrouxará o (re)abraço, ou dormirá no ponto a ponto de deixar que a águia capture a Geórgia pela segunda vez. O mais provável é que Bidzina Ivanishvilli busque a solidariedade do Movimento dos Não Alinhados, MNA.



Notas de rodapé e dos tradutores

[1] 2/10/2012, ITAR-TASS Agency, em: Georgian opposition may get 110 seats in Georgian parliament

[2] A “Revolução das Rosas”, conhecida, no “grupo” das “revoluções coloridas”, como “Revolução Cor-de-Rosa” foi mudança de regime na Georgia, em novembro de 2003, que sobreveio depois que surgiram denúncias de fraudes em eleições parlamentares nacionais. Fonte significativa de fundos para a “Revolução Cor-de-rosa” foram as várias ONGs e fundações do grupo do bilionário húngaro norte-americano George Soros. A “Fundação para a Defesa das Democracias” divulgou depoimento de parlamentar georgiano, em que conta que, nos três meses que antecederam a “Revolução Cor-de-rosa”, Soros gastou $42 milhões diretamente para derrubar Shevardnadze. Falando em T'blisi em junho de 2005, Soros disse que:

...estou muito satisfeito e orgulhoso com o trabalho da Fundação, que preparou a sociedade georgiana para o que, em seguida, converteu-se em “Revolução Cor-de-Rosa”, mas a mídia exagerou muito a participação do meu pessoal. (Ver “1/6/2005, NewMax.com, em: Soros Downplays Role in Georgia Revolution).

Resultado dessa “mudança de regime”/golpe, o presidente Eduard Shevardnadze foi forçado a renunciar dia 23/11/2003 (mais sobre isso em Rose Revolution).


[3] 2/10/2012, RiaNovosti, em: Georgian Opposition Leads in Early Results

[4] 21/9/2012, RiaNovosti, em: Due West: Confident Putin Buries Reset”.

[5  2/10/2012, Dawn.com, em: Russian FM due tomorrow on 2-day visit 


[7] 29/9/2012, Novinite.com, em: New Deal on Russian Military Base in Tajikistan Faces Delay


MK Bhadrakumarfoi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.  

quinta-feira, 22 de março de 2012

O sorriso de Lênin


15/3/2012, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline Blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Sergei Lavrov
As políticas regionais da Rússia estão-se posicionando para uma virada dramática, agora que a Rússia ofereceu aos EUA uma base aérea a ser usada como entreposto, no trânsito de soldados e suprimentos militares destinados ao Afeganistão. Há nessa oferta alguma deliciosa ironia: a base que os russos ofereceram aos norte-americanos e à OTAN está localizada na cidade de Ulyanovsk às margens do rio Volga – cidade natal de Vladimir Ilyich Lênin.

Em termos geopolíticos, o movimento do Kremlin é estratégico. O Kremlin está sinalizando, e espera de que Washington perceba, que a próxima presidência de Vladimir Putin poderá levar o pragmatismo, na política externa russa, a píncaros nunca antes imaginados; basta, para isso, que os EUA retribuam.

E, de fato, Washington já está retribuindo – ao sinalizar que pode partilhar com os russos, como "medida para construir confiança", alguns dados secretos relacionados ao sistema de mísseis de defesa, tema que interessa muito a Moscou.

A oferta da base militar para uso de OTAN-EUA, contudo, talvez exija mais um gesto de gratidão. Alguém arrisca algum palpite? Meu palpite é que Putin talvez seja convidado para participar do encontro histórico, em maio, em Chicago, quando se comemorarão os 60 anos da OTAN.

Pelo menos duas capitais do Oriente Médio (Teerã e Damasco), e uma capital do Extremo Oriente (Pequim), além de pelo menos mais três capitais centro-asiáticas (Bishkek, Dushanbe e Tashkent) levarão grande susto, ante a perfeita coordenação, cronometrada, de todos esses passos. Não há motivo para sustos. A Rússia pós-soviética jamais escondeu que seus interesses nacionais e um empenhado pragmatismo, são e sempre serão o leitmotif da política exterior do Kremlin.

E considerem também um outro ângulo. As compulsões de Moscou são genuínas e, talvez, compreensíveis. Em poucas palavras: a Rússia precisa desesperadamente da retomada do tal "reset". Floreios retóricos à parte, a dura verdade é que a política exterior russa já sabe que está num beco sem saída.

A Rússia estagnará, a menos que consiga acesso aos capitais e à tecnologia do ocidente. Mas os laços com o ocidentes estão em baixa, e Moscou teme ser condenada à posição de sócio júnior da China. Do ponto de vista das elites políticas em Moscou, o melhor que pode acontecer à Rússia será Barack Obama, de algum modo, dedicar alguma atenção às preocupações dos russos.

E, sim, será uma grande alegria, para Obama, se tiver os russos ao seu lado, na guerra do Afeganistão. Claro que, simultaneamente, a Rússia fará algum dinheiro, com o aluguel que os EUA pagarão pela base militar de Ulyanovsk (250 milhões de dólares por ano), mas o Pentágono não achou caro. Em troca, os EUA auferirão bom lucro: a Rússia não voltará a jogar sujo, instigando o Quirguistão a ordenar o fechamento da base norte-americana em Manas.

O secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, visitou Bishkek, Quirguistão, na 3ª-feira, 15/3, para discutir a prorrogação do contrato de aluguel da base militar em Manas – que expirará em julho de 2014. Mas o governo do Quirguistão, aliado bem próximo de Putin, nada disse, nem sim nem não. Agora, Washington volta a esperar que Bishkek baixe a crista.
Quer dizer: se Rússia e EUA juntarem-se nesse tenebroso negócio da guerra no Afeganistão, diminuirá a dependência, de Washington, das duas rotas de suprimento (e retirada) que cruzam o Paquistão. O que criará melhores condições para Washington, no trabalho de negociar mais calmamente o reinício dos contatos com Islamabad.

Islamabad investe grandes esperanças numa visita de Putin, que auguraria novo capítulo no grande jogo da Ásia Sul e Central. Tudo isso estava previsto no congelamento das relações entre EUA e Rússia. E pode bem virar caso clássico de negócio de dá errado no último e inesperado momento.

Lênin
Se a Rússia virar "acionista", na presença militar de EUA-OTAN no Afeganistão, Islamabad terá de refletir sobre os efeitos da "parceria". E Cabul e Teerã, também.

Fato é que o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, foi muito claro e deixou pouco espaço para especulações. Na 4ª-feira, Lavrov disse, em Moscou, que "os russos estamos interessados em que os [norte-americanos] que lutam contra os problemas do Afeganistão que preocupam a Rússia [o terrorismo] completem eficientemente o serviço" [1]. Falou Lavrov, diplomata brilhantíssimo. Viu-se um sorriso, no rosto embalsamado de Lênin.

Nota dos tradutores

[1] 14/3/2012, RIANovosti, em: "Gov't Yet to Decide on Ulyanovsk NATO Transit Base - Lavrov".

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Rússia sobre OTAN-EUA no Afeganistão: “Entrevista de Sergei Lavrov”


“As Forças Especiais de OTAN-EUA ainda não cumpriram satisfatoriamente a missão que receberam do CS-ONU”

18/3/2012, Sergei Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia 
Entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu
EGLB TV, TOLOnews, Afeganistão (vídeo),

Ver também
19/3/2012, MK Bhadrakumar, “O segredo do Sgt. Bales e um impasse afegão


TOLOnews: Obrigado, ministro, por nos receber. Os afegãos querem saber que importância tem o Afeganistão, na política exterior russa.

Ministro Sergei Lavrov: O Afeganistão é vizinho tradicional dos russos. Temos longa história de amizade e relações de boa vizinhança e, claro, temos todo o interesse em ver o Afeganistão em paz, estável, democrático, neutro e, claro, queremos que as ameaças do terrorismo e do tráfico de drogas que pairam sobre os afegãos sejam neutralizadas. Estamos desenvolvendo diálogo político muito intenso. Há um ano, pouco mais de um ano, o presidente Karzai fez sua primeira visita oficial à Federação Russa. Há reuniões regulares entre o presidente Karzai e o presidente russo em vários formatos internacionais multilaterais, inclusive no contexto da Organização de Cooperação de Xangai. O próprio contexto daquele encontro, criado pelos presidentes da Rússia, Afeganistão, Paquistão e Tadjiquistão. Os ministros da economia também se reúnem regularmente. Nosso parlamento mantém contato intensivo e, pessoalmente, já recebi e já visitei meu colega afegão em Moscou. Temos muitos interesses comuns e acreditamos que esses interesses comuns são a melhor garantia de que nossas relações são sustentáveis, orientadas para o futuro.

TOLOnews: Está em curso um diálogo entre o governo afegão e os Talibã, apoiado também pelo governo dos EUA. Como a Rússia vê esse diálogo?

Lavrov: Claro que a reconciliação nacional é indispensável para uma solução pacífica dos problemas que ainda preocupam os afegãos, e apoiamos a posição do governo afegão no contexto da reconciliação nacional. Essa é a posição endossada pelo Conselho de Segurança da ONU, que favorece o diálogo com todos que rejeitem a violência como meio para alcançar objetivos políticos, que rompam todos os laços com a Al-Qaeda e outros grupos terroristas e reconheçam e respeitem a Constituição da República Islâmica do Afeganistão. Evidentemente, não é possível nenhuma negociação com grupos, como a Al-Qaeda e outros, listados pelo Conselho de Segurança da ONU como grupos terroristas.

TOLOnews: Sr. Ministro, como o senhor acaba de dizer, se o governo afegão ou o governo dos EUA não falam com grupos das listas das sanções, com quem falarão?

Lavrov: Ora, a lista não é universal! Há vários líderes Talibã não incluídos naquela lista. Afinal, os princípios a que me referi são os princípios propostos pelo governo afegão, aprovados pelo Conselho de Segurança da ONU e em inúmeros fóruns internacionais. Há gente que se encaixa nesses critérios e são os supostos interlocutores do governo, no contexto da reconciliação nacional.

TOLOnews: O senhor entende, então, que alguns elementos dos Talibã não devem ser incluídos no processo de diálogo?

Lavrov: Não disse isso. Em nenhum caso os russos podemos ditar cursos de ação ao governo afegão; não se pode ditar, de fora do governo, modos pelos quais o governo deva promover o diálogo nacional e a reconciliação nacional. Nós apoiamos os princípios que o governo afegão demarcou e que orientam o governo nos contatos com os Talibã e outros que queiram participar do diálogo de reconciliação nacional.

TOLOnews: A Rússia apoia as conversações de paz com os Talibã, porque muitos afegãos temem que os Talibã voltem ao poder, como alguns creiam que seja provável?

Lavrov: Veja... Como já disse, não podemos impor a um Estado soberano ideias ou “diretivas’ sobre como o país deva ser governado. Há aqui um problema de reconciliação nacional que tem de ser resolvido. Apoiamos os esforços do governo legítimo do Afeganistão, na direção de resolver aquele problema, e seus esforços regidos pelo que lhes pareça aceitável, nos termos do que determina a Constituição da República Islâmica do Afeganistão, que claramente define como proibidas as práticas terroristas.

TOLOnews: Alguns grupos da oposição afegã opõem-se totalmente àqueles diálogos e acham que haveria algum tipo de ‘acerto’ em andamento, entre o governo afegão e os Talibã, que pode pôr a perder todos os avanços dos dez últimos anos. Isso não o preocupa?

Lavrov: Não podemos julgar a discussão política que se trava dentro do Afeganistão. Não interferimos em questões internas de outros países. Muita gente discute os muitos aspectos da situação no Afeganistão. Mas os russos, diferentes de outros governos, não ‘ordenamos’ ao governo de Cabul o que fazer para construir o processo de reconciliação nacional. Sabemos que, além de pashtuns, há uzbeques, tadjiques, hazaras. Todos esses precisam encontrar seu caminho até o sistema político, para que se sintam incluídos, não isolados, no processo. Esse é o princípio geral; como aplicá-lo na prática, não cabe aos russos dizer às autoridades afegãs.

TOLOnews: Recentemente, o governo dos EUA anunciou que começará a reduzir o número de soldados no Afeganistão. Há preocupação crescente com a saída dos soldados, que poderia gerar instabilidade. Como o senhor analisa esse quadro?

Lavrov: Nós analisamos essa questão, do ponto de vista da lei internacional. A presença de uma força internacional de estabilização no Afeganistão foi missão decidida no Conselho de Segurança da ONU. O mandado do Conselho de Segurança é bem claro. Só depois de cumprida a missão que receberam, as Forças Internacionais serão autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU a sair do Afeganistão. E antes de saírem do Afeganistão, evidentemente, as Forças Internacionais que operaram no Afeganistão em nome do Conselho de Segurança têm de apresentar relatório exaustivo do que foi feito, para demonstrar ao Conselho de Segurança que o mandado do Conselho de Segurança foi cumprido. 

Todos entendem que, para que as Forças Internacionais retirem-se do Afeganistão, o governo afegão deve já estar capacitado para manter a lei e a ordem e para atender os afegãos em seus problemas nacionais de segurança. Evidentemente, a plena capacitação dos afegãos e a retirada das Forças Internacionais são processos necessariamente ligados entre eles e, claro, têm de ser sincronizados. Não se pode cogitar de retirada, antes que o governo afegão, os próprios afegãos, tenham adquirido as competências para manter a lei e a ordem. 

TOLOnews: Queria saber, por favor, do ponto de vista da Rússia: os russos entendem que os EUA cumpriram a ‘missão afegã’ que receberam do Conselho de Segurança? 2014 é data indicada para a retirada?

Lavrov: Não. Não vejo como se possa dizer que os EUA fizeram o que o Conselho de Segurança os mandou fazer no Afeganistão. É visível que os problemas continuam, que os ataques terroristas não foram contidos. Preocupa-nos, sobretudo, que as atividades terroristas tenham chegado já ao norte do Afeganistão, onde, há três anos, a situação era calma. Os terroristas estão sendo empurrados, basicamente, para os territórios do norte do Afeganistão, de onde passam facilmente para países da Ásia Central vizinhos da Federação Russa. Nada disso favorece a estabilidade dessa região. É preciso que as Forças Especiais façam, no Afeganistão, o que foram mandadas fazer lá, por mandado do Conselho de Segurança. E é indispensável que apresentem relatório do que tenha sido conseguido e do que tenha ficado sem fazer.

TOLOnews: Em tempos recentes, tem havido um diálogo entre o governo afegão e o governos dos EUA sobre parceria de longo prazo e sobre a presença de soldados dos EUA no Afeganistão depois de 2014. Qual a posição russa?

Lavrov: Não se entende por que isso deva ser encaminhado desse modo, porque, de um lado, se você precisa de presença militar, é sinal que o mandado do Conselho de Segurança ainda não foi satisfatoriamente cumprido. E se você não quer cumprir o mandado do Conselho de Segurança, ou se supõe que o mandato já tenha sido cumprido... Para que, então, seriam necessárias as bases militares? Não me parece que haja aí qualquer lógica. Acho também que o território afegão não deve ser usado para implantar espaços militarizados, que evidentemente preocuparão outros povos. 

Não vejo que lógica haveria em supor que, em 2014, o mandado do Conselho de Segurança possa ser dado por cumprido... se ainda for necessário haver lá muitos soldados, dentro das bases militares. Não se entende que finalidade teriam as tais bases militares e, além disso, os EUA estão em contato com países da Ásia Central, pedindo que autorizem presença militar de longo prazo. 

A Rússia quer entender o motivo disso tudo. Por que as tais bases seriam necessárias? Não acreditamos que esse grande número de bases militares contribua para a estabilidade da região.

TOLOnews: Sr. Ministro, como o senhor vê a conferência de Chicago, que deve focar-se no Afeganistão? Que ajuda a Rússia poderia dar à OTAN, sobretudo na questão das rotas de suprimento?

Lavrov: Não fomos convidados para a conferência de Chicago. Não posso, portanto, comentar o assunto. Quanto a ajudar a OTAN, já estamos ajudando. Oferecemos às forças internacionais de estabilização a possibilidade de utilizarem território russo, a chamada “Rede Norte”, na qual a Rússia está ativamente envolvida. Acho que a Rede Norte já é a principal rota de suprimentos para os exércitos da ISAF no Afeganistão; alguma coisa como 2/3 das entregas viajam pela Rede Norte. Entendemos que é nosso dever contribuir para o pleno cumprimento do mandado que o Conselho de Segurança da ONU deu às forças da ISAF lideradas pelos EUA. E temos o direito de exigir que o mandado para implementar algo para cuja implementação contribuímos, seja plenamente cumprido. Claro que tudo isso tem de ser coordenado com o governo afegão.

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TOLOnews: Quanto à construção do exército nacional afegão, o governo afegão sempre solicitou ajuda internacional. Em que a Rússia pode ajudar, em termos de treinamento e equipamento para o exército afegão?

Lavrov: Sim, podemos ajudar, para o futuro; e já ajudamos bastante, no passado. Há alguns anos, associados à Alemanha, os russos doamos dois helicópteros-ambulância para evacuação de ferido, ao Ministério do Interior do Afeganistão – doação, não venda. Temos fornecido regularmente armas leves e munição. Estamos entregando 21 helicópteros, compra que contratamos com os EUA, para o exército afegão. Anualmente, damos treinamento a várias centenas de especialistas em segurança das agências afegãs. Também treinamos anualmente dezenas e dezenas de pessoal militar e agentes das políticas antidrogas afegãs. Essa ajuda, com certeza, será mantida.

TOLOnews: Outra questão importante a discutir é o Irã, país muito importante para o Afeganistão e para a Rússia. Há preocupações no ocidente, que teme que o Irã venha a desenvolver armas atômicas. Em sua opinião, essa percepção seria errada?

Lavrov: Bem... Há muita informação sobre essa questão, acessível a quem se interesse. Todos podem ler e formar opinião própria. A Agência Internacional de Energia Atômica está trabalhando no Irã. Seus especialistas, técnicos, e um vasto equipamento monitoram todos os sítios onde os iranianos produzem combustível nucelar, e os sítios onde enriquecem urânio para finalidades médicas e outras destinações humanitárias, no reator nuclear de pesquisas, em Teerã. A AIEA tem informado, em relatórios oficiais, que até agora não constatou qualquer dimensão militar no programa iraniano. 

Mais recentemente, disseram que ainda havia algumas questões a elucidar, às quais os iranianos devem responder, para que a AIEA possa concluir, com 100% de certeza, que o programa nuclear iraniano é inteiramente pacífico. Logo que se cumpra essa última etapa, o Irã conseguirá livrar-se das sanções, depois de atender a todas as exigências da comunidade internacional. O Pentágono e a comunidade de inteligência norte-americana também têm falado sobre o assunto, sempre na mesma direção. Recentemente, declararam que não há qualquer informação de que o governo do Irã algum dia tenha tomado a decisão política de produzir armas nucleares. Essa é a informação que se tem de fontes autorizadas. Evidentemente, não faz qualquer sentido desconsiderar a informação que há.

TOLOnews: Recentemente, o primeiro-ministro de Israel disse que Israel considera a possibilidade de atacar as instalações atômicas do Irã, dentro do Irã. A Rússia ajudaria nesse movimento?

Lavrov: Os russos entendemos que isso seria erro gigantesco, esperamos que jamais aconteça. Nossa posição coincide com a dos EUA que, como se viu durante recente visita do primeiro-ministro Netanyahu a Washington, já disseram que desejam uma solução política. É a abordagem mais inteligente. O uso da força, nessa região, seria catastrófico.

TOLOnews: É importante para o povo afegão compreender se os russos estão preocupados com uma possível volta dos Talibã ao poder. Já temos visto movimentos no governo na direção de exigir que as mulheres usem trajes islamistas e não saiam de casa, salvo se acompanhadas por homem da família.

Lavrov: Não tenho dúvidas de que o povo afegão encontrará soluções adequadas para equacionar seus problemas domésticos. Não nos envolvemos em questões internas, nem no Afeganistão nem em outro país. Ajudamos e ajudaremos, o mais possível, o Afeganistão, a construir vida em paz. Há apenas alguns dias, houve a primeira reunião da Comissão Bilateral Rússia-Afeganistão sobre comércio e cooperação econômica.

Assinaram lá um Memorando de Entendimento, para a reconstrução da área urbana em Kabul e alguns outros projetos que interessam à Rússia e ao Afeganistão e que serão importantes para outros projetos – como a reconstrução do túnel Salang; reconstrução de várias fábricas em Mazar-e Sharif; construção de pequenas estações e usinas hidrelétricas, dentre outros projetos. Há mais tempo, chegaram a haver em andamento 150 projetos construídos no Afeganistão com ajuda soviética. Muitos daqueles projetos seriam muito úteis ao povo afegão e estamos prontos a revitalizar todos esses projetos de cooperação, ajudando a construir a economia afegã, a solucionar os problemas sociais da população e, claro, também queremos preservar e ampliar nossos laços culturais e humanitários. Estamos reconstruindo o antigo Centro Cultural Soviético em Kabul. Será um centro cultural russo, e ficará como símbolo da amizade entre nossos povos.

TOLOnews: O senhor falou do túnel Salang, muito usado como ligação entre o norte e o sul do Afeganistão. O que os russos farão?

Lavrov: Apenas citei esse projeto, porque é um dos que estamos discutindo com o governo afegão. Aquele túnel foi projetado e construído por engenheiros soviéticos, e ainda temos todas as plantas da construção original. Várias empresas russas trabalharão nesse projeto. A questão do financiamento terá ainda de ser discutida, e estamos nesse ponto das conversações, com afegãos e outros parceiros. Será provavelmente projeto conjunto, de vários empreendedores.

TOLOnews: Minha última pergunta: que previsões o senhor faz para o Afeganistão pós-2014?

Lavrov: [risos] Ainda não abracei o ramo da adivinhação, mas... Evidentemente, preferimos que as tropas das Forças Internacionais deixem a região, depois de os afegãos já estarem perfeitamente capacitados para garantir a própria segurança. Com certeza, queremos que a ameaça terrorista seja efetivamente derrotada; que a ameaça das drogas seja eliminada de todo o território afegão; que o Afeganistão volte a ser nação pacífica e neutra. Nada há de excepcional nisso, parecem-me aspirações razoáveis e lógicas. Mas são opções e decisões políticas que cabem aos próprios afegãos. Todos desejamos ver um Afeganistão próspero, amistoso, pacífico, neutro. Mas nada disso faz-se por milagre. Os esforços de todos nós – dos amigos do Afeganistão – serão necessários para que as coisas aconteçam, apoiando o governo do Afeganistão e o povo do Afeganistão na trilha rumo ao futuro brilhante que os afegãos merecem.

==== FIM DA ENTREVISTA ====