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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Noel Rosa e a classe política


Publicado em 01/06/2011 por Mair Pena Neto

Nossa brasilidade se demonstra de diversas formas, como em uma platéia cantando em uníssono uma canção de Noel Rosa tocada por Jards Macalé ao violão. Uma platéia de diferentes faixas etárias e classes sociais, diga-se de passagem, que pagou um real para assisti-lo, junto a Jorge Mautner, numa fria noite de início de semana, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro.

Noel Rosa morreu há mais de 70 anos, mas suas canções permanecem vivas e fazem parte de nossa identidade, pois falam justamente de nossos hábitos e maneira de viver. Há poucas coisas tão brasileiras como uma boa média que não seja requentada e perguntar qual foi o resultado do futebol. E se acuse quem não puxa lá do fundo da alma os primeiros versos de Feitio de Oração: Quem acha, vive se perdendo/ por isso agora eu vou me defendendo/ da dor tão cruel desta saudade/que por infelicidade/meu pobre peito invade.

A identidade brasileira é simples em sua complexidade. Parafraseando Macalé, com liberdade, o brasileiro não precisa de muito dinheiro, graças a Deus. Prezamos as coisas simples e a alegria de viver. O povo quer tranquilidade para se divertir e manter seu espírito alegre. Isso se traduz em trabalho, educação, saúde, moradia e lazer. A cobiça não faz parte do nosso dicionário. E essa simplicidade não significa limitação e, sim, sabedoria.

A brasilidade está longe do mau sentido do “jeitinho” e do desrespeito pelas nossas coisas ou coisas nossas, mais uma vez me valendo de Noel. Por isso, soa tão repugnante saber que um vice-presidente da República se referiu à Agricultura como um “ministério de merda”. Estar à frente de um ministério ou ter um integrante de seu partido no comando de uma pasta deveria ser motivo de orgulho. Afinal, ministérios existem, ao menos em tese, para tratar dos assuntos mais relevantes ao país. E que o diga a pasta em questão, em um dos maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo.

A classe política de maneira geral se dissocia cada vez mais do país e já nem disfarça um suposto interesse em servi-lo. O que está em jogo para ela não é o Brasil e o bem estar de seu povo, e sim o prestígio e a grana que um determinado cargo possa representar. Michel Temer foi tão explícito como o ex-deputado Severino Cavalcanti, que se bateu por “aquela diretoria que fura poço”, quando defendia a nomeação de um aliado seu a alto posto na Petrobras. Severino não aceitava outra diretoria, pois sabia que era aquela que movimentava a bufunfa e renderia mais frutos.

A realpolitik exige o atendimento de interesses políticos e partidários, mas a coisa aqui ganhou um caráter tão explícito de toma lá dá cá, que afronta os cidadãos. Políticos não são vestais. São homens, com todas as suas fraquezas, mas se candidataram a nos representar e precisam fazê-lo com a maior dignidade. Que existam desvios, é natural, mas a situação tem se tornado regra.

A impressão que se tem é que o país caminha para um lado – melhoria na distribuição de renda, ascensão de novas classes sociais e desafios para manter o crescimento – e os políticos para outro, apegados a cargos, permanência no poder e lutas intestinas.

A representação parlamentar é um pilar da democracia e a classe política precisa se imbuir desse significado e deixar de agir como um bando de interesseiros, cada um cuidando do seu quintal – partidário e pessoal – e se lixando para o resto da nação. Isso envolve perigoso nível de descrédito e ameaças à própria democracia.

Macalé tem uma antiga idéia de incluir na bandeira brasileira a palavra amor, parte do lema positivista “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim” que deu origem à expressão ordem e progresso no pavilhão nacional. O compositor carioca diz que gostaria de ver o amor sendo discutido por lá. Quem sabe não despertaria sentimentos mais nobres na nossa classe política?


sexta-feira, 4 de junho de 2010

Izaías Almada: PSDB, no limite da irresponsabilidade

Izaías Almada: PSDB, no limite da irresponsabilidade


publicada quinta, 03/06/2010 às 12:05 e atualizada sexta, 04/06/2010 às 09:33 |


Tenho a satisfação de publicar mais um texto do jornalista e escritor Izaías Almada. Uma análise dura, mas ponderada, sobre a trajetória de José Serra: da esquerda (era militante da antiga AP) para a direita.

Izaías lembra que Lacerda, da UDN, seguiu trajetória semelhante. Mas parecia, ao menos, acreditar no que defendia. Serra parece apenas um ambicioso à procura de um discurso (que lhe permita realizar o desejo pessoal de chegar à presidência da República).

É triste vê-lo vagando, feito alma penada. Mas é - sobretudo - perigoso para o Brasil ter como líder da oposição alguém assim.


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NO LIMITE DA IRRESPONSABILIDADE

por Izaías Almada


Há qualquer coisa de sinistro na figura do candidato José Serra. Não digo isso com qualquer intenção de atacar gratuitamente um candidato à presidência da República, nem para fazer coro com os que, com ou sem razão, tentam desprestigiá-lo. Devo confessar que nunca prestei muita atenção ao homem público José Serra, mas desde que ficou evidente a sua obstinação em ser um dia presidente do Brasil, obstinação cada vez mais acentuada nos últimos anos, tornou-se impossível não acompanhar algumas das suas falas, das suas atitudes ou mesmo de seus atos como administrador. É o mínimo que um eleitor pode e deve fazer.


O fato de um dia ter sido considerado um homem de esquerda e hoje construir o seu discurso mais ao gosto do conservadorismo de vários matizes não é o que mais impressiona. A História está cheia de exemplos de pessoas que passaram de um extremo ao outro no arco da ideologia e de sua representação em termos de política partidária. Temos no Brasil dois exemplos emblemáticos dessa migração de ideias ou de ideais, para ser mais preciso: Carlos Lacerda e Dom Helder Câmara.


Não. O que verdadeiramente impressiona e chama a atenção no atual candidato do PSDB à presidência, nesses últimos oito anos, pelo menos, é a dissintonia existente entre o que fala, como age e o que faz com os cargos políticos que ocupa ou aspira. Inventa dados (algumas entrevistas sobre economia), distorce fatos (entrevistas sobre enchentes em São Paulo), acusa sem provas (diz que o governo da Bolívia facilita o envio de cocaína para o Brasil), mente (sobre completar o mandato na prefeitura de São Paulo), age às escondidas (os blogs de baixaria contra a candidatura de ministra Dilma Roussef) e – o que me parece bem grave – quando confrontado com um dado concreto da realidade, como a epidemia da gripe suína, por exemplo, faz categóricas afirmações destituídas de um mínimo de conhecimento sobre o qual foi questionado, beirando ao ridículo (Serra afirmou em entrevista que para se evitar a gripe suína bastaria a pessoa não ter contato muito próximo com os porquinhos).


A tal ponto José Serra vai se enveredando por um caminho político tortuoso, que já é possível identificar aqui e ali alguns sintomas do seu destempero. Um jornalista equilibrado como Luiz Nassif assim se expressou recentemente em seu blog: “Serra tem um monte de defeitos, mas o que anda dizendo não bate com seu histórico. Sempre foi um sujeito cartesiano, dono da boa opinião. Por tal, entenda-se a capacidade de assimilar conceitos inovadores divulgados pela mídia. Nunca foi de se aprofundar em nenhum tema, de assimilar nenhum conceito mais complexo – não por falta de capacidade, mas de gosto. Fora os temas das contas públicas – para os quais tem dois excelentes professores, o José Roberto Afonso e o Mauro Ricardo e de comércio exterior – não se conhece uma área em que tenha aprofundado os estudos. Mas o que anda dizendo, o linguajar chulo, as bobagens diplomáticas não batem com seu histórico de sujeito racional.”


Nassif é um homem educado, vê-se logo. Deve saber muito bem o que está falando nas linhas e nas entrelinhas. O assessor presidencial Marco Aurélio Garcia afirmou ainda que Serra "deveria ser mais prudente" em suas declarações, que não são compatíveis com as suas "aspirações" ao cargo de presidente.


Colocado no palco da disputa eleitoral mais importante da sua vida, o que não é segredo para ninguém, a impressão que fica é a de que José Serra tem mais ambição do que competência. Tem mais vontade do que discernimento. Não é um homem preparado para a função que almeja, ao contrário do que prega. E aqui volto à abertura do artigo, o lado sinistro de Serra. Por quê toda essa obsessão em fazer uma coisa para a qual não está preparado. O que Serra pensa? Qual sua visão do mundo atual? Qual seu programa de governo? Perguntas simples, mas que cada vez mais se tornam difíceis de serem respondidas pelo candidato da oposição.


José Serra parou no tempo. Vive, para dizer o menos, nos anos 80 e não percebeu que o mundo mudou de século. Que o Brasil mudou de norte. Que a vida se faz com alegria e entrega, com solidariedade, e não com acusações e cara amarrada. Com respeito e não com inveja. Serra representa um retrocesso perigoso para um país que, a duras penas, vai tentando organizar sua economia e aplicar melhor seus recursos em programas sociais. Quem insiste em não enxergar esse quadro, como Serra, está no limite do suicídio político, pois não distingue a realidade dos seus desejos interiores.


Parafraseando um ilustre membro do governo FHC durante a entrega de boa parte do patrimônio nacional às empresas privadas nos oito anos de seu mandato: José Serra está no limite da irresponsabilidade.


O texto original está publicado no Blog d’O Escrevinhador do Rodrigo Vianna


quinta-feira, 3 de junho de 2010

TV Gonzum - Comentários políticos (Óleo do Diabo)

TV Gonzum - Comentários políticos

Queridos leitores, tenho novidades. Um áudio de minha pessoa comentando as notícias do dia. Ainda estou enferrujado, lento, distante da desenvoltura acelerada de Arnaldo Jabor. Até porque meus comentários são improvisados. Mas a melhor forma de aprender é fazendo, não é? As tecnologias estão aí para serem usadas à exaustão. Jabor nos atazana no jornal, no rádio e na tv. Usarei igualmente todas as armas. 



O comentário está um pouco atrasado. É sobre a coluna do Merval desta quarta-feira, onde ele volta a insinuar sobre uma possível impugnação da candidatura de Dilma Rousseff e diz que isso não é golpismo. Demorei a publicar porque apanhei feio do youtube. O nome TV Gonzum é uma corruptela de Gonzo, de jornalismo Gonzo, inventado por Hunter Thompsom, que aliás se notabilizou, entre outras coisas, por coberturas políticas. 

Tiro férias por dois ou três dias, a partir de hoje. Espero que os malucos da oposição não dêem nenhum golpe de Estado nesse meio-tempo... 

terça-feira, 1 de junho de 2010

Políticos ocidentais: Covardes demais para ajudar a salvar vidas

1/6/2010, Robert Fisk, The Independent, UK traduzido por Caia Fittipaldi (excerto)

Verdade é que os muitos, gente comum, ativistas, deem-lhes o nome que quiserem, são os que hoje tomam as decisões que mudam o curso dos acontecimentos.

Israel perdeu? A guerra de Gaza de 2008-09 (1.300 mortos) e a guerra do Líbano de 2006 (1.006 mortos) e todas as outras guerras e, agora, a matança da madrugada da 2a.-feira significam que o mundo afinal decidiu rejeitar o mando de Israel? Não esperem tanto. Mas, sim, algo aconteceu.

Basta ler a desfibrada declaração da Casa Branca – que o governo Obama estaria “trabalhando para entender as circunstâncias que cercam a tragédia”. Condenação? Nem uma palavra. E pronto. Nove mortos. Mais uma estatística, na matança no Oriente Médio.

De fato, não, não é só mais uma estatística.

Em 1948, nossos políticos – norte-americanos e britânicos – atacaram Berlim. Uma população esfaimada (nossos inimigos, havia apenas três anos) estavam cercados por exército brutal, os russos, que haviam cercado a cidade. O levante do cerco de Berlim foi um dos momentos altos da Guerra Fria. Nossos soldados e aviadores arriscaram e deram a vida por aqueles alemães mortos de fome.

Parece incrível, não é? Naqueles dias, nossos políticos decidiam; muitas vezes decidiram salvar vidas. Os senhores Attlee e Truman sabiam que Berlim importava, tanto em termos morais e humanos quanto em termos políticos.

Hoje? Gente comum – europeus, norte-americanos, sobreviventes do Holocausto – sim, sim, santo Deus! Sobreviventes dos nazistas! –, os que decidiram viajar até Gaza, porque seus políticos e governantes os abandonaram, falharam, fracassaram.

Onde estavam os políticos e governantes na madrugada da 2ª-feira? OK, ok, apareceram o ridículo Ban Ki-moon, a declaração patética da Casa Branca e o caríssimo Sr. Blair, com cara de “profunda lástima e choque ante a tragédia de tantas mortes”. Mas... E Cameron? E Clegg?

Em 1948, claro, teriam ignorado os palestinos, não resta dúvida. Há aí, afinal, uma terrível ironia: o levante do cerco de Berlim coincidiu exatamente com a destruição da Palestina árabe.

Mas é fato irrecusável de que os muitos, gente comum, ativistas, deem-lhes o nome que quiserem, são os que hoje tomam as decisões que mudam o curso dos acontecimentos. Nossos políticos são desfibrados, sem espinha dorsal, covardes demais, para decidir as decisões que salvam vidas. Por quê? Como chegamos a isso? Por que, ontem, não se ouviu palavra saída da boca de Cameron e Clegg (dentre outros, claro)?

Claro, também, sim, que se fossem outros europeus (ora essa! Os turcos são europeus, não são?) os metralhados naqueles barcos, por outro exército árabe (ora essa! O exército de Israel é exército árabe!), então, sim, haveria ondas e ondas de indignação e ultraje.

E o que tudo isso diz sobre Israel? A Turquia não é aliada muito próxima de Israel? E, de Israel, os turcos recebem o que receberam? Hoje, o único aliado que restava a Israel, no mundo muçulmano, fala de “massacre” – e Israel parece não dar qualquer importância ao que diga a Turquia.

Israel tampouco deu qualquer importância quando Londres e Cabnerra expulsaram os diplomatas israelenses, depois de Israel forjar passaportes britânicos e australianos, para, com eles, perpetrar o assassinato do comandante Mahmoud al-Mabhouh do Hamás. Tampouco deu qualquer importância aos EUA e ao mundo, quando anunciaram a construção de novas moradias exclusivas para judeus em terra ocupada em Jerusalém Leste, durante visita de Joe Biden, vice-presidente dos EUA, aliado-supremo, a Israel. Se Israel não deu qualquer importância a esses aliados, por que daria alguma importância a alguém, hoje?

Como chegamos a esse ponto? Talvez porque já nos tenhamos habituado a ver israelenses matando árabes; talvez os próprios israelenses tenham-se viciado em matar árabes, até cansarem. Agora, matam turcos. E europeus.

Alguma coisa mudou no Oriente Médio, nas últimas 24 horas – e os israelenses, se se considera a resposta política extraordinariamente estúpida, pós-matança, não dão qualquer sinal de ter percebido a mudança. O que mudou é que o mundo, afinal, cansou-se das matanças israelenses. Só os políticos não têm o que dizer, hoje. Só os políticos estão calados.


O artigo original completo, em inglês, pode ser lido em: