Mostrando postagens com marcador Polônia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Polônia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Embargo contra Rússia? E a Europa já se afoga em frutas, carne de porco e cavala

15/8/2014, The Guardian, UK (Ashifa Kassam de Madri;  Kim Willsher de Paris; Philip Oltermann de Berlin; Remi Adekoya Varsóvia,; e Libby Brooks Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os russos continuarão a comer maçãs, tomates e pêssegos, a diferença é que não comerão produto europeu. Comerão pêssegos, maçãs e tomates importados da Ásia, do Brasil, da África do Sul... Quer dizer: quando eles [os russos] reabrirem o mercado para nós, precisaremos de vários anos para reconquistar parte do mercado. É terrível!
(Luc Barbier, Federação dos Produtores Franceses de Frutas).

A cavala [orig. mackerel] sempre foi o item mais valioso dos estoques de pescado na Escócia (Foto Getty Images/iStockphoto)


Quantidades inadministráveis de peras francesas, armazéns lotados de salsicha alemã, pimentas polonesas apodrecendo e peixe da Escócia que ninguém compra: o movimento dos russos, de pôr fim a todas as importações de alimentos que comprava de produtores europeus, como retaliação contra as sanções que a UE impôs contra a Rússia, já começa a mostrar seus efeitos em todo o continente, que já andava a passos largos rumo a mais uma recessão.


Ano passado, as exportações de produtos de fazenda, da União Europeia para a Rússia, alcançaram € 11 bilhões  (£ 9 bilhões). Funcionários da UE em Bruxelas dão tratos à bola para encontrar remédios, que se espera que sejam anunciados na próxima semana, para suavizar o impacto das decisões dos russos, que podem reduzir à metade o mercado de exportação europeu.

Mas já se veem claros sinais de divisão dentro da própria UE. Nos últimos dias, ministros da Hungria, Eslováquia e Suécia já se manifestaram sobre o dano que seus países sofrerão se perseverarem nessa política de sanções contra os russos, que já começaram a morder empresas dos dois lados. O ministro húngaro, Viktor Orbán, disse que a União Europeia estava “atirando contra o próprio pé”. E quem já começa a mancar mais lastimavelmente são os agricultores, dos principais países exportadores de alimentos – Alemanha, Países Baixos, Polônia, Espanha e França.

Comércio bilateral Alemanha-Rússia em 2013
(clique na imagem para aumentar)
Alemanha

Os alemães exportam mais comida e produtos agrícolas para a Rússia, que qualquer outro país da União Europeia – em 2013, 1,6 bilhões de euros; e já cresce a preocupação de que, com o fim das importações pela Rússia, agricultores alemães serão empurrados para uma feroz competição contra outros países europeus, por poucos mercados. O item que a Alemanha mais exporta para a Rússia é carne de porco: das 750 mil toneladas de porco, no valor de mais de 1 bilhão de euros, vendidas à Rússia ano passado, cerca de ¼ é porco alemão.

A associação alemã de criadores de porcos, ISN, calcula que uma fazenda de criação de tamanho médio pode vir a perder vendas no valor de 40 mil euros, esse ano.

Felizmente, os exportadores europeus de carne conseguiram abrir alguns outros mercados nos últimos meses, o que os salvará das perdas que terão com o embargo imposto pela Rússia. Especialmente as Filipinas, o Japão e a Coreia do Sul, que já começam a comprar mais da Europa. E a demanda pode aumentar, se os fornecedores latino-americanos passarem a direcionar sua produção para Moscou – disse a ISN.

O ministro da Agricultura alemão, Christian Schmidt, do Partido da Democracia Cristã, disse que, apesar de o embargo russo poder ter “consequências notáveis” para os agricultores alemães, seu ministério acredita que

é claro que ninguém precisa preocupar-se com turbulências de mercado.

Valor dos produtos agroalimentares proibidos de entrar na Rússia (em euros, valores de 2013) (.pdf)
(clique no "link"para visualizar)

França

Os franceses exportaram 1 bilhão de euros em produtos alimentícios para a Rússia ano passado; o embargo russo está atingindo muito duramente os 27 mil exportadores franceses de frutas e legumes: 1% de toda a produção francesa de frutas frescas e 3% dos vegetais – 50 mil toneladas/ano, no total – saem da França diretamente para a Rússia. Mais 50 mil toneladas são exportadas para a Rússia via os países Benelux e do Báltico, em comércio de 48 milhões de euros/ano. Dessas 100 mil toneladas, 54% são maçãs, 20% batatas, 8% tomates e pepinos, 6% peras e 6% couves-flor.

Xavier Beulin, presidente do principal sindicato de produtores agrícolas da França pediu uma audiência com o presidente francês, François Hollande, e disse que estava preocupado ante a possibilidade de quantidade imensa de frutas e vegetais destinados à Rússia vir a inundar o mercado interno na França, o que jogaria os preços por terra, sobretudo no caso de produtos rapidamente perecíveis. Disse ao presidente que muitos produtores já começaram a demitir.

O mercado europeu já está super arrochado em algumas áreas (...) o que implica que os preços já praticamente não cobrem os custos de produção – disse ele. – O produto que não pode mais entrar na Rússia fatalmente aparecerá por aqui, no mercado europeu, e tememos uma crise.

A federação dos produtores franceses de frutas teme que tudo isso venha a agravar o que descreve como “dumping comercial” no mercado de frutas, sobretudo de pêssegos.

O presidente dessa federação, Luc Barbier, disse que

(...) os russos continuarão a comer maçãs, tomates e pêssegos, a diferença é que não serão produto europeu. Comerão pêssegos, maçãs e tomates importados da Ásia, do Brasil, da África do Sul... Quer dizer: quando eles [os russos] reabrirem o mercado para nós, precisaremos de vários anos para reconquistar parte do mercado. É terrível.

Fazendeiros franceses desesperados com embargo russo
Eric Guasch, que produz maçãs na região de Avignon, vende 80% das suas frutas aos russos e já dispensou os nove trabalhadores temporários que contratara.

Ainda estamos em estado de choque por causa do embargo russo. Não só por todos os pedidos cancelados, mas também por causa dos nossos caminhões que estavam na estrada e foram parados na fronteira russa e mandados retornar.

Temos problemas hoje não só com o estoque não vendido mas, também com o produto em trânsito.

Espanha

A Espanha está contando as feridas: frutas, carne e verduras foram incluídas nas sanções da Rússia contra a Europa, mas vinho e azeite de oliva não estão na lista.

Mesmo assim alguns produtores espanhóis estão sentindo a mordida, sobretudo porque as 30 mil toneladas de tomates, pêssegos e laranjas mandarin exportadas anualmente para a Rússia não encontrarão mercado num continente já afogado em excesso de produtos não comercializados.

Isabel Garcia Tejerina - Ministra da Agricultura da Espanha
“Ontem e hoje pela manhã já tivemos vários pedidos cancelados” – disse a COAG, associação que representa agricultores espanhóis. Teme-se que os produtores das regiões de Murcia, Valência e Andaluzia sejam os mais duramente atingidos pelas sanções russas.

A sanções de retaliação da Rússia, resposta às sanções que os EUA aplicaram contra o país e forçaram a União Europeia a também aplicar, aconteceram num momento em que o setor exportador de alimentos já lutava contra dificuldades. A temperatura excepcionalmente elevada para a primavera fez pêssegos e nectarinas amadurecerem muito antes do previsto em toda a zona do euro, o que prolongou a temporada. Com oferta crescente, os preços já estavam em queda mesmo antes de o embargo russo entrar em vigência – disse a COAG.

O setor já está sofrendo crise profunda em relação aos preços, e a crise só se agravou ainda mais com o fechamento do importante mercado russo.

Agora, os produtores correm para tentar encontrar vias para escoar o excesso de produção, antes que o preço de seus produtos evaporem no mercado europeu.

Polônia

A mais surpreendente resposta às sanções russas foi campanha de publicidade & marketingdistribuída pelas redes sociais, conclamando os poloneses a “comer mais maçãs, para derrotar Putin”. Mas o principal problema não são as maçãs, mas legumes mais perecíveis que estão sendo colhidos agora, como pimentões e repolho.

As maçãs podem ser armazenadas por até nove meses, mas vegetais como a páprica têm de ser comercializados imediatamente depois de colhidos; e 40% do que produzimos sempre foi destinado ao mercado russo – queixou-se Roman Sobczak, presidente do grupo produtor Polish Paprika.

Polônia - campanha "comer maçãs para derrotar Putin"
O preço de vários vegetais já caiu a menos da metade.

O ministro da Agricultura da Polônia, Marek Sawicki, manifestou seu “desapontamento” essa semana, depois de conversações com a União Europeia sobre o assunto. Sawicki foi a Bruxelas para exigir imediata compensação para os agricultores poloneses; ouviu, de resposta, que a União Europeia tem de esperar até que haja mais dados analisados, para determinar as perdas causadas ou potenciais, do embargo russo contra a União Europeia. Mas Sawicki garantiu que o comissário da Agricultura da UE Dacian Ciolos prometeu acelerar os procedimentos compensatórios com vistas aos produtores poloneses de itens agrícolas mais sensíveis, que não podem ser armazenados por longos períodos de tempo.

Reino Unido

A cavala [orig. mackerel] sempre foi o item mais valioso dos estoques de pescado na Escócia, e 20% – equivalente a 16 milhões de libras – desse estoque é anualmente exportado para a Rússia.

Para Bertie Armstrong, chefe-executivo da Federação Escocesa de Pescadores,

(...) a Rússia é mercado importante para exportação da cavala escocesa, e impedir essa via de comercialização terá consequências muito graves para os pescadores e para todo o setor de processamento do pescado em terra. Entendemos que se trate de grave questão geopolítica, mas o impacto abaixo, até o fim da cadeia, atingirá muitos setores de negócios, inclusive a indústria pesqueira escocesa.

Richard Lochhead, secretário do governo escocês para questões rurais, alimento e meio ambiente, reuniu-se com sua contraparte no governo do Reino Unido, Elizabeth Truss, na 6ª-feira, para discutir o impacto das sanções comerciais russas sobre as frotas de pesqueiros escoceses de cavala e as empresas processadoras.

Lochhead destacou a necessidade de o Reino Unido buscar algum tipo de seguro-exportação, para ajudar a indústria a exportar para a Ucrânia [sic] e explorar com a União Europeia a possibilidade de “bancar a quota” – o que significa ser pago para deixar o peixe no mar.

Pescadores do Reino Unido sob intensa pressão face embargo russo
Alex Wiseman, pescador de cavala e presidente da Associação Escocesa de Pesqueiros de Alto Mar, antevê dificuldades econômicas extremas, como resultado das sanções russas.

Tentar encontrar mercados que preencham o vazio deixado pela Rússia é impossível no curto prazo – disse ele.

Os amplamente divulgados benefícios que haveria para a saúde humana pela ingestão de peixes de carne oleosa fizeram aumentar muito a demanda no Reino Unido e na Europa continental em anos recentes; e, para Wiseman, serão necessários vários anos para recuperar a demanda, depois de perdida.

Pode até acontecer, mas demorará dez anos – disse ele; explicou que países com mercados emergentes para a cavala terão de investir muito em infraestrutura para armazenamento em baixas temperaturas, para conseguir administrar os grandes estoques.

Disse também que as sanções russas não poderiam ter chegado em pior hora para os pescadores:

Nossas quotas foram aumentadas em 80% esse ano, porque a demanda estava forte.

Agora, estamos pedindo que o governo do Reino Unido nos permita deixar o peixe nadando no mar, para que possamos pescá-lo e distribuí-lo adequadamente no mercado no próximo ano, quando as coisas tiverem melhorado. Pelo menos, não haverá os custos de armazenamento nem será preciso mexer na quota. Mas ainda temos de atravessar espessas camadas de burocracia da União Europeia, para chegar lá. 


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O “Zen” das frutas e legumes poloneses

4/8/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Rússia suspende importação de legumes, verduras e frutas da Polônia a partir de 4/8/2014
Para mandar um recado, ignore o gângster-chefe e chute primeiro o guarda-costas – eis um velho moribundo método da guerra fria, que a Rússia pode estar ressuscitando, ao notificar a Polônia de que está suspendendo a importação de frutas e legumes daquele país, medida que entra em vigor hoje, ao mesmo tempo em que medidas similares estão sendo consideradas contra os países da União Europeia em conjunto. [1]

A Rússia diz que foram violadas as condições sanitárias, mas, se, como suspeita a Voice of America, Moscou está apenas chutando deliberadamente um dos guarda-costas dos EUA, os norte-americanos não poderão fingir que não perceberam ou não entenderam o recado. A decisão de Moscou equivale a chutar as partes moles sensíveis da Polônia, que exporta 2/3 de toda a sua produção de frutas e legumes para a Rússia.

Na verdade, trata-se de momento de provação Zen para o presidente Obama dos EUA. Um guarda-costa dos mais firmes e leais está sendo impiedosamente espancado... E o chefão-em-chefe tem de assistir de longe, sem poder mover um músculo. É pouco provável que Washington tenha condições de oferecer compensação financeira a Varsóvia pela renda que perderá. Obama, provavelmente, recomendará que Varsóvia procure Bruxelas, para tentar compensação. Estará começando um ciclo vicioso de sanções?

É difícil dizer quem vencerá e o mais provável é que todos só percam. Todos os relatos sugerem que a Rússia entrou em modo de revide. A União Europeia terá de incluir nessa contabilidade, que Moscou começará em breve a remover as cláusulas de tratamento preferencial (isenção de taxas e impostos de aduana) que há tempos garante aos produtos que a Ucrânia exporta para o mercado russo.

Vladimir Putin
A Agência Reuters diz que Moscou está preparando as necessárias novas regras. É problema para a União Europeia, porque os EUA estão com as mãos firmemente fechadas no que tenha a ver com dinheiro, e esperarão que a Europa (leia-se: a Alemanha) compense a Ucrânia por qualquer perda de renda, o que virtualmente significa salvar a economia daquele país, porque, sem as exportações para o mercado russo, a indústria ucraniana ruirá.

Mas, nessa história ainda em andamento, todos os olhos estão postos na parte da Terceira Rodada de sanções que envolvem transferência, para a Rússia, de “tecnologias sensíveis” no setor do petróleo. A impressão que ficou da fala de Obama na 3ª-feira (29/7/2014), quando anunciava as sanções, é que a exploração e a produção de petróleo russas serão terrivelmente atingidas.

A Agência Reuters conta história bem diferente, em análise aprofundada da situação presente do mercado de petróleo, e sugere que a coisa é muito complicada e que é altamente provável que Obama tenha marcado gol contra.

As três principais conclusões da análise distribuída pela Reuters são:

  1. a Rússia dependeu sempre, tradicionalmente, da tecnologia ocidental, sobretudo por uma questão de conveniência; agora, será obrigada a pôr a mão na massa e a desenvolver tecnologias próprias, o que só fará acelerar a erosão que já se observa no monopólio do ocidente sobre aquela tecnologia;
  2. a China, principalmente, apostará na situação que se vê e, no final, será a grande vencedora nessa questão; e
  3. as sanções contra a Rússia, muito provavelmente, marcarão o fim da liderança tecnológica do ocidente no setor petróleo.

Os BRICS possuem tecnologia de petróleo & gás
Curiosamente, os especialistas em petróleo também estão questionando o fundamento da onda de propaganda comandada por Obama. Cito um trecho mais longo da opinião de especialistas, no conceituado periódico sobre petróleo, Peak Oil News:

Os estudiosos de política externa no Departamento de Estado talvez não compreendam que a produção de petróleo na Rússia acaba de atingir um pico do período pós-URSS e daqui em diante já estaria em declínio. O efeito das sanções de EUA-UE será apressar esse declínio russo, o que fará subir os preços do petróleo, no instante em que a produção dos EUA atinja seu máximo possível e imediatamente depois despenque em mergulho inevitável, de nariz rumo ao fundo do poço, o que deve acontecer em 2017-2020. A Rússia, ainda estará exportando petróleo naquele ponto futuro, e se beneficiará dos preços mais altos (talvez suficientemente mais altos a ponto de compensar a produção perdida por causa das sanções). Os EUA, por sua vez, que ainda serão um dos maiores importadores de petróleo do mundo, estarão ante reprise do choque do petróleo de 2008, que contribuiu para seu crash financeiro.

Não há dúvidas de que os especialistas em política externa do Departamento de Estado acreditam sinceramente na propaganda recente, sobre os EUA repentinamente convertidos em nova superpotência energética, capaz de abastecer a Europa de petróleo e gás, para substituir as exportações russas. É possível que os europeus sejam doidos a ponto de também terem embarcado nessa fantasia. Mas essa aposta tem de altíssima, o que tem de ruinosa. Deve-se esperar que os jogadores acordem dessas alucinações, antes de o jogo ficar realmente feio.

A Europa é muito dependente do gás da Rússia
(clique na imagem para aumentar)
Bem obviamente, os europeus não são doidos. Bateram na mesa e exigiram que o gás ficasse fora do pacote de sanções que Obama propunha. A questão é simples: as economias europeias não vivem sem o gás russo (Washington Post).

Pode-se dizer, para manter a metáfora, que quem está em posição de poder bater na mesa agora é a Rússia. Será que a Rússia retaliará, racionando o gás para a Europa? Analistas de Morgan Stanley estimam que, sim, Moscou pode decidir-se por essa opção. Hmm. Sentiram calafrios?

Minha opinião, porém, é que não se deve temer que Moscou escolha essa via. Por um lado, o imposto sobre exportações de gás para a Europa é bom dinheiro para a Rússia; segundo, Moscou compreende perfeitamente bem que os grandes países europeus – exceto talvez a Grã-Bretanha – não estão realmente empenhados no que o chefão-em-chefe os pressiona a fazer, e só cederam porque sangue, afinal, é mais denso que água.

Esse parece ser também o entendimento de Moscou sobre a coisa toda. A reação mais detalhada dos russos à Terceira Rodada de sanções veio do ministro Sergey Lavrov, de Relações Exteriores, em reunião com a imprensa em Moscou na 3ª-feira (29/7/2014). Lavrov ofereceu resumo detalhado e consistente do que realmente se passa por trás do teatro de sombras apresentado para a opinião pública na Ucrânia; destacou que os EUA estão calibrando deliberadamente as tensões, torpedeando toda e qualquer incipiente iniciativa de paz que apareça.

Sergey Lavrov - MRE da Rússia
Revelou que parceiros europeus da Rússia revelaram a Moscou, em contatos privados, as desconfianças e preocupações que lhes causam o plano de jogo de Obama. Lavrov disse, com palavras cuidadosamente medidas e selecionadas, que as atitudes europeias ante as sanções contra a Rússia são “artificiais”.

Interessante: o jornal britânico The Independent publicou também matéria exclusiva, evidentemente baseada em fontes ocidentais de alto nível, em que diz que Berlim e Moscou estavam, sim, bem próximos de firmar acordo sensibilíssimo sobre a Ucrânia; mas tiveram de pô-lo em banho-maria, quando o avião da Malaysia Airlines foi derrubado no leste da Ucrânia.

Em palavras do The Independent,

(...) fontes internas, que participaram das discussões, disseram ontem que o “plano de paz” alemão continua sobre a mesa e é a única proposta de acordo que está sendo analisada. As negociações pararam por causa do desastre do MH17, mas recomeçarão tão logo as investigações tenham sido concluídas.

Ora, ora... Essa informação dispara uma pergunta grávida de possibilidades: Por que, afinal, nesse mundo, um homem racional como o presidente Putin tomaria atitude tão descabida e bizarra como minar o seu próprio plano de paz, que ele trabalhosamente estava discutindo com a chanceler Angela Merkel, e derrubaria à bomba o avião de um país amigo, como a Malásia, com o qual a Rússia até já teve cooperação de defesa?

Angela Merkel e Vladimir Putin 
Será possível, pois, que alguém tenha tentado minar o tratado de paz russo-alemão? Será possível, pois, que os russos tenham razão todas as vezes que sugerem que haja mais, na tragédia do MH17 no leste da Ucrânia, do que o olho já viu? (Lavrov também tocou nisso).

Curiosamente, na declaração de 29/7/2014, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia especifica EUA, Grã-Bretanha e Lituânia, que estão recorrendo “desavergonhadamente” a táticas de bloqueio dentro do Conselho de Segurança da ONU contra qualquer movimento a favor de o caso do voo MH17ser investigado por comissão internacional.


Nota dos tradutores
[1] Quem queira conhecer, não algum fato, mas a opiniãozinha velha conhecida de sempre dos “especialistas” da revista Exame, da Ed. Abril, sobre esses mesmos fatos, encontra aquela opiniãozinha em: “Rússia barra frutas e vegetais da Polônia por sanções” de 30/7/2014”. Muito estranhamente, a notícia só se encontra aí, hoje, nessa versão – e em revista orientada para público “especialista” – em toda a mídia brasileira.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Eurocopa e o complexo de vira-lata



Publicado em 14/06/2012 por Mair Pena Neto*

Tenho acompanhado, com interesse, a Eurocopa, que se disputa na Polônia e na Ucrânia, mas não deixo de me sentir incomodado pela diferença de tratamento que os próprios brasileiros, imprensa incluída, dão à competição européia em comparação com a Copa América, que reúne as seleções da América do Sul e, desde 1993, o México e mais um convidado da América Central ou do Norte.

Não nego o nível de importância e, principalmente, a dimensão da Eurocopa, que, devido ao grande número de países do continente, permite uma competição com 16 seleções, divididas em quatro grupos, o que seria o tamanho ideal até para uma Copa do Mundo. A América do Sul tem apenas 10 países e, mesmo com os dois convidados, não pode ter um torneio tão grande.

Mas como tamanho não é documento, a importância das duas competições se equivale, e, se perdemos em alguns aspectos, ganhamos em outros. Curiosamente, um dos primeiros pontos a nosso favor é a tradição. A Copa América é muito mais antiga que a Eurocopa, apesar do início do futebol organizado no velho continente. Os países sul-americanos se enfrentam desde 1916, enquanto os europeus só começaram a disputar um torneio entre seleções em 1960.

Essa longevidade da Copa América, inicialmente disputada a cada ano, proporcionou a realização de 43 edições, ricas em histórias. O Uruguai, sempre pioneiro, assim como na Copa do Mundo, ganhou as duas primeiras edições (1916 e 1917), e a competição de 1918, prevista para o Rio de Janeiro, não aconteceu pelo surto da gripe espanhola, que matou milhares de pessoas, inclusive Otávio Egídio, que jogara no primeiro jogo internacional da seleção brasileira, como conta Ivan Soter, em Enciclopédia da Seleção.

O adiamento retardou em um ano a inscrição do nome do Brasil na taça, o que aconteceu em 1919, no torneio disputado no novo estádio do Fluminense, então o maior da América Latina, com capacidade para 25 mil pessoas. Segundo os cálculos da época, essa capacidade só seria atingida em 30 ou 40 anos, mas no jogo de abertura o estádio estava lotado, sem contar os que não conseguiram entrar em assistiram ao jogo na pedreira da rua Pinheiro Machado.

Brasil, Argentina e Uruguai protagonizaram muitas batalhas na Copa América, muitas vezes descambando para a pancadaria, e criaram uma rivalidade que transcende o continente pelo sucesso do seu futebol. A supremacia brasileira nas Copas do Mundo não se repete na Copa América, na qual os uruguaios são os maiores vencedores, com 15 títulos, seguidos pelos argentinos, com 14. O Brasil vem em terceiro, com oito títulos, quatro deles nas edições mais recentes, excetuando a última, vencida pelo Uruguai.

Também pelos craques em campo, a Copa América, mesmo em menor escala, rivaliza e, muitas vezes, supera, a Eurocopa. Uma competição sul-americana hoje com Messi, Neymar e Forlán não perderia para a atual edição da Eurocopa. Alguns poderiam argumentar que a Copa América se reduz a Brasil, Argentina e Uruguai. É verdade indiscutível, já que são as principais potências esportivas da América do Sul. Mas a Eurocopa não é muito diferente. A Alemanha é a maior vencedora, seguida por França e Espanha. A poderosa Itália só venceu uma vez, e existem outros títulos isolados, que podem ser comparados às vitórias de Colômbia e Bolívia, por exemplo.

Nas competições entre seleções, a Europa não pode ostentar o poderio econômico que leva para seus clubes os melhores jogadores do mundo. Com isso, entram em campo os jogadores europeus. E se vemos grandes jogos, como Espanha e Itália, também assistimos a peladas, como Polônia e Grécia.

O propósito aqui não é desmerecer a Eurocopa, uma excelente competição, muito bem organizada e, sobretudo, propagandeada. Mas chamar a atenção para a necessidade de se valorizar mais a nossa competição continental, a partir daqui, para não voltarmos no tempo e reeditarmos o complexo de vira-lata, superado desde a gloriosa conquista da Copa de 1958 na Suécia.

Mair Pena Neto* é um jornalista, carioca e trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.

Enviado por Direto da Redação