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terça-feira, 26 de maio de 2015

EUA - Washington bombardeia o próprio pé

24/5/2015, [*] F. William Engdhal, New Eastern Outlook
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
John Kerry e Sergey Lavrov
São tempos bem tristes em Washington e Wall Street. Aquela única superpotência sem desafiantes, quando do colapso da União Soviética, apenas um quarto de século depois, está perdendo a própria influência global, como se vê hoje; e muito depressa, como a maioria jamais teria previsto há seis meses. O ator chave que catalisou um desafio global contra a pressuposta UP (“única superpotência”) em Washington é Vladimir Putin, Presidente da Rússia.
Esse é o real cenário da surpreendente visita que fez o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, a Sochi, para encontrar-se com o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. Depois de revistado por Lavrov, Kerry foi levado à sala de Satã em pessoa, Putin.
Longe de alguma tentativa de “reset”, os infelizes estrategistas geopolíticos de Washington tentam desesperadamente encontrar algum meio de pôr de joelhos o Urso Russo.
Rápido flash back até dezembro de 2014 é instrutivo para compreender por que o Secretário de Estado parece estar levando um ramo de oliveira à Rússia de Putin, e bem no atual momento. Em dezembro do ano passado, Washington parecia a ponto de jogar a Rússia à lona, com aquela brilhante tática de sanções financeiras dirigidas a alvos atentamente selecionados, e com o acordo, com a Arábia Saudita, para derrubar os preços do petróleo. Em meados de dezembro, o rublo estava em queda livre na relação com o dólar. Os preços do petróleo também haviam desabado, de US $107, apenas seis meses antes, para os então US$ 45 o barril. Sendo a Rússia fortemente dependente da renda das exportações de petróleo e gás para o custeio do estado, e com as empresas russas carregadas de dívidas em dólares no exterior, a situação, vista do lado de dentro do Kremlin era difícil.
Naquele ponto, o destino, como tantas vezes acontece, interveio de modo inesperado (inesperado, pelo menos, para os arquitetos norte-americanos da estratégia da guerra financeira + colapso do petróleo). O acordo que John Kerry firmara em setembro de 2014 com o já muito gravemente doente rei Abdullah da Arábia Saudita não estava provocando apenas grave sofrimento nas finanças russas. Estava também ameaçando fazer explodir estimados US$ 500 bilhões em “papéis podres” de alto-risco-alto-rendimento, dívidas que a indústria de petróleo de xisto dos EUA havia tomado em bancos de Wall Street ao longo dos últimos cinco anos, para financiar a muito incensada revolução do petróleo de xisto norte-americano, que por alguns dias pusera os EUA à frente da Arábia Saudita como maior produtor de petróleo do mundo.
A estratégia dos EUA sai-lhes pela culatra
O que Kerry não percebeu no seu negócio de vender cavalo manco aos espertos sauditas foi que os monarcas sauditas tinham agenda própria. Desde antes haviam deixado bem claro que não queriam ter seu lugar de primeiro produtor e rei do mercado mundial de petróleo roubado por uma iniciante indústria de petróleo de xisto norte-americana. Até que gostaram de fazer sangrar Rússia e Irã. Mas o objetivo deles era matar e tirar de cena os norte-americanos, rivais deles, sauditas, na guerra do petróleo.
John Kerry e o Rei Abdullah em setembro/2014
Os projetos norte-americanos de xisto foram calculados quando o petróleo custava US$ 100/barril, há menos de um ano. O preço mínimo para que muitas das empresas norte-americanas de xisto escapassem da falência estava entre US$ 65 e US$ 80/barril.
A extração do petróleo de xisto é não convencional e mais cara. Douglas-Westwood, empresa de assessoria no campo de energia, estima que cerca de metade dos projetos de petróleo em desenvolvimento nos EUA só sobrevivem se o petróleo estiver acima de US $120/barril, mínimo indispensável para gerar fluxo positivo de caixa.
Ao final de dezembro, uma série de falências, em cadeia, de empresas do petróleo de xisto esteve perto de detonar novo tsunami financeiro, em momento em que estava longe de resolvida a carnificina da crise dos derivativos em 2007-8. O estouro, mesmo que de apenas uns poucos papéis podres, de empresas de xisto e alta cotação, bastaria para disparar um pânico com efeito dominó no mercado da dívida de US$ 1,9 trilhões em papéis igualmente podres, o que com certeza dispararia novo derretimento financeiro que os super estressados governo dos EUA e a Federal Reserve dificilmente conseguiriam deter. Poderia até levar ao fim do dólar como moeda global de reserva.
Repentinamente, nos primeiros dias de janeiro, lá estava Lagarde, Presidenta do FMI, a elogiar o Banco Central da Rússia pelo modo “bem-sucedido” de enfrentar a crise do rublo. O Gabinete de Terrorismo Financeiro do Tesouro dos EUA suavizou os discursos contra a Rússia. Só o governo Obama mantinha que se tratava da IIIª Guerra Mundial “de sempre” contra Putin. A estratégia dos EUA para o petróleo provocara muito mais danos aos EUA, que à Rússia.
Fracasso da política dos EUA contra a Rússia
E não só isso. A brilhante estratégia de Washington de guerra total contra a Rússia, que começara em novembro de 2013 com o golpe de estado da Praça Maidan em Kiev, em 2015 já era fracasso evidente, manifesto, um super fracasso que está criando para Washington o pior pesadelo geopolítico imaginável.
Longe de reagir como vítima e acovardar-se diante das manobras dos EUA para isolar a Rússia, Putin pôs em andamento uma série de brilhantes iniciativas de economia externa, militares e políticas, que, em abril se acrescentaram ao projeto de uma nova ordem monetária global e a um novo colosso econômico eurasiano, em condições de ofuscar a hegemonia da UP (“única potência”).
Putin atacou as fundações do sistema-dólar dominado pelos EUA e a correspondente ordem mundial global em vários pontos, da Índia ao Brasil, Cuba, Grécia, Turquia. Rússia e China assinaram novos tratados mamutes de energia, graças aos quais a Rússia pôde redirecionar sua estratégia de energia para longe do ocidente. Porque, no ocidente União Europeia (UE) e Ucrânia, ambas sob violenta pressão de Washington, sabotaram os fornecimentos de gás russo para a UE, que tinham de atravessar a Ucrânia. A UE, outra vez sob pressão intensa de Washington, atacou o mais que pôde o projeto da Gazprom para o gasoduto Ramo Sul de gás natural que chegaria ao sul da Europa.
Vladimir Putin fecha acordo com a Turquia
Em vez de se encolher na defensiva, Putin chocou a UE quando, em visita à Turquia e reunido com o Presidente Erdogan, anunciou, dia 1º de dezembro, que havia cancelado todo o projeto da Gazprom para o Ramo Sul. Anunciou que buscaria um acordo com a Turquia, para entregar gás russo na fronteira da Grécia. E que se a UE quisesse gás, ficasse à vontade para financiar ela mesma a construção dos seus próprios gasodutos. Estava desmascarado o blefe da UE. O gás entregue à porta dos europeus ia-se tornando, fantasia dia a dia mais distante.
As sanções da União Europeia contra a Rússia também saíram pela culatra, quando a Rússia retaliou com proibição de alimentos importados, o que empurrou a Rússia de volta à busca da autossuficiência alimentar. E bilhões de contratos ou exportações de empresas alemãs como a Siemens, ou francesas como a Total caíram repentinamente no limbo. A empresa Boeing viu sumirem grandes negócios, quando a Rússia cancelou encomendas importantes. E a Rússia anunciou que passava a recorrer a fornecedores nacionais produtores de componentes críticos para a Defesa.
Na sequência, a Rússia tornou-se membro “asiático” chave do excepcionalmente bem-sucedido novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII). Esse BAII é iniciativa dos chineses, concebida para financiar seu ambicioso Cinturão Econômico da Nova Rota da Seda, a gigantesca rede de trens de alta velocidade que atravessará a Eurásia até a União Europeia.
Em vez de isolar a Rússia, a política de Washington saiu-lhe espantosamente errada quando, apesar da mais furiosa pressão dos EUA, importantes aliados (Grã-Bretanha, Alemanha, França e Coreia do Sul) correram, todos, a unir-se ao novo BAII.
Além disso, em reunião que tiveram em maio/2015, em Moscou, o Presidente da China, Xi Jinping e Vladimir Putin anunciaram que a infraestrutura da Rota da Seda chinesa será completamente integrada com a União Econômica Eurasiana, da Rússia – o que acrescenta notável impulso ao avanço russo na Eurásia e daí até a China, na região onde vive a maior parte da população mundial.
Em resumo, no momento em que John Kerry recebeu ordens para engolir em seco e voar até Sochi, chapéu na mão, para oferecer algum tipo de cachimbo da paz a Putin, a elite governante dos EUA, os oligarcas norte-americanos, começavam a cair na real.
Falcões hiper agressivos como a neoliberal, Victoria “F*da-se a União Europeia” Nuland do Departamento de Estado, e o Secretário da Defesa, Ash Carter, estavam querendo inventar uma estrutura mundial alternativa, brotada da cabeça deles e dos interesses que se escondem por trás das cabeças deles, que estava pondo sob ameaça existencial todo o sistema-dólar pós-Bretton Woods dominado por Washington. Epa!
Como se não bastasse, ao forçar seus “aliados” europeus a entrar na linha anti-Putin dos EUA – com grave prejuízo para os interesses políticos e econômicos da União Europeia, além do prejuízo a que se exporiam os países europeus que não se integrassem ao boom dos investimentos chineses – os neoliberais de Washington haviam conseguido acelerar também um provável “racha” entre Washington e Alemanha, França e outras potências da Europa Continental.
Por fim, todo o mundo, inclusive anti-Atlanticistas ocidentais, passaram a ver Putin como símbolo da resistência à dominação pelos EUA. Essa percepção já emergira quando da acolhida que a Rússia deu a Snowden, mas firmou-se depois das sanções e bloqueios. Vale lembrar que esse tipo de percepção tem importante papel psicológico na luta geopolítica – a presença de um símbolo (Snowden) dessa natureza – abre novas vias até aqui nunca imaginadas na luta contra a hegemonia.
Por tudo isso, Kerry foi claramente mandado a Sochi para farejar pontos fracos para um renovado futuro ataque. Disse aos bandidos lunáticos que os EUA apoiam em Kiev que se acalmassem e respeitassem os acordos de cessar-fogo de Minsk.
John Kerry e a junta-de-Kiev
A ordem foi um choque para os doidos de Kiev. “Yats”, Arseniy Yatsenyuk, o Primeiro-Ministro que La Nuland pôs no cargo em Kiev, disse à TV francesa que “Sochi definitivamente não é o melhor resort nem o melhor local para bater um papo com Presidente russo e Ministro russo de Relações Exteriores”.
Nesse quadro, a única coisa clara é que Washington parece ter afinal percebido a estupidez que foram suas provocações contra a Rússia, na Ucrânia e globalmente. O que virá na sequência, ainda ninguém sabe. O que se sabe é que o governo Obama recebeu ordens das mais altas instituições dos EUA para mudar completa e absolutamente sua atuação. Nenhuma outra coisa explica a mudança. Se a sanidade conseguirá substituir a insanidade neoliberal fascista na política externa dos EUA, ainda não se sabe.
O que já está claro é que Rússia e China estão absolutamente decididas a não se porem à mercê de uma UP (“única potência”) alucinada e imprevisível. A patética tentativa de Kerry, buscando um segundo “reset” na política dos EUA para a Rússia em Sochi, nesse ponto dos acontecimentos, pouco ajudará Washington. A oligarquia dos EUA, como Shakespeare diz pela boca do seu Hamlet, está sendo “explodida com a própria bomba”, é o bombardeador que se deixa autoexplodir com a própria bomba (HAMLET, Ato 3, cena 4 p. 9.).
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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pelaPrinceton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online  New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.

Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.


sábado, 27 de setembro de 2014

Olhadela por dentro do acordo secreto EUA-Arábia Saudita

(que gerou o ataque contra a Síria)

25/9/2014, [*] Tyler DurdenZeroHedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bashar al Assad é saudado em Damasco
Para aqueles a cujos olhos o recente ataque dos EUA à Síria parece cena déjà vue da tentativa de criar “próxima guerra” do verão passado para derrubar o presidente Bashar al-Assad, e que foi impedida no último segundo graças a muito bem vinda intervenção dos russos e um quase início de guerra no Mediterrâneo entre navios russos e norte-americanos, o seguinte: parece déjà vu, porque é déjà vu. Lembro também que, como no ano passado, o coringa-agente na intervenção contra o estado sírio soberano, ou, como alguns já dizem, invasão ou mesmo guerra, não são (só) os EUA, mas a Arábia Saudita – relembrem agosto de 2013, Conheçam Bandar Bin Sultan da Arábia Saudita: é quem movimenta os fantoches por trás da Guerra à Síria (ing.).

Bin Sultan foi oficialmente demitido pouco depois que falhou a campanha de 2013 para derrubar o governo sírio e substituí-lo alguém mais “maleável”, mas as ambições sauditas para a Síria continuaram.

É o que noticia hoje (25/9/2014) o Wall Street Journal, em artigo no qual revela as negociações secretas entre EUA e Arábia Saudita para que os EUA obtivessem “luz verde” para iniciar os ataques contra partes de Iraque e Síria, ditos ‘ataques contra o ISIL’. E, como não surpreende ninguém, mais uma vez o principal item da barganha para pôr os sauditas no mesmo lado que os EUA é o destino do presidente Assad.

Verdade é que, para lançar ataque militar contra o território do estado sírio soberano, “foram necessários meses de trabalho secreto entre líderes dos EUA e árabes, que concordavam quanto à necessidade de cooperarem contra o Estado Islâmico, mas não quanto ao quando e ao como. O processo deu força aos sauditas para extrair dos EUA compromisso renovado para aceitarem treinar rebeldes para a luta contra Assad, cuja derrubada é alta prioridade para os sauditas”.

Em outras palavras, John Kerry veio, viu e prometeu tudo e qualquer coisa que tivesse, até, e inclusive, a peça que faltava do quebra-cabeças – a própria Síria numa bandeja de prata – só para fugir de outra humilhação diplomática.

Quando Kerry pousou em Jeddah para reunião com o rei Abdullah dia 11/9/2014, não sabia com certeza o que mais os sauditas estariam dispostos a fazer. Os sauditas haviam informado os norte-americanos, antes da visita, que estariam dispostos a oferecer poder aéreo – mas só se estivessem convencidos de que os norte-americanos falavam a sério sobre um esforço sustentado na Síria. Os sauditas, por sua vez, não tinham certeza sobre até que ponto Obama estaria disposto a ir – segundo os diplomatas.

Kerry visitou o Rei Abdullah da Arábia Saudita
Dito de outro modo: a libra de carne que a Arábia Saudita exigiu para “abençoar” os bombardeios norte-americanos e dar-lhes a aparência de representar alguma espécie de “coalizão”, é a derrubada do regime Assad. Por quê? Para que – como também explicamos ano passado – o gás dos grandes campos de gás natural do Qatar possa afinal tomar o rumo da Europa, o quê, não por acaso, também é desejo dos EUA. Que melhor modo para castigar Putin por suas ações recentes, que neutralizar o principal poder que o Kremlin tem sobre a Europa?

Mas voltemos aos sauditas e à montagem do negócio que levou ao bombardeio contra a Síria:

Os EUA sabiam que havia muita coisa em jogo naquela reunião de 11/9/2014 com o rei da Arábia Saudita, no seu palácio de verão no Mar Vermelho.

Um ano antes, o rei Abdullah ficara furioso quando o presidente Obama cancelou os ataques contra o regime de Bashar al-Assad da Síria. Agora, os EUA precisavam do compromisso do rei, de que apoiaria uma outra missão à Síria – contra o grupo Estado Islâmico –, sabendo que havia baixíssima possibilidade de conseguir reunir qualquer frente árabe, sem os sauditas.

No palácio, o secretário de Estado John Kerry pediu ajuda para, inclusive, ataques aéreos, segundo altos funcionários dos EUA e do Golfo. “Daremos todo e qualquer apoio de que precisem” – disse o rei.

Mas, isso, só depois de os sauditas terem obtido a garantia de que Assad seria derrubado. E para conseguir essa promessa, prenderam Obama numa chave de braço:

Desconfiados de que Obama novamente voltasse atrás, os sauditas e os Emirados Árabes Unidos conceberam uma estratégia para dificultar o mais possível que Obama mudasse de rota: “Peçam eles o que pedirem, digam que sim” – eis como um conselheiro do bloco do Golfo descreveu a tal estratégia. – “O objetivo era não dar aos norte-americanos nenhuma razão para adiar ou desistir”.

A participação árabe nos ataques aéreos tem valor mais simbólico que militar. Os norte-americanos estão fazendo tudo e já lançaram mais bombas que todos os “coligados” árabes. Mas a mostra de apoio dada por um grande estado sunita para campanha contra grupo sunita militante, dizem funcionários dos EUA, deixou Obama confortável para autorizar ataque contra o qual, antes, ele resistira.

Verdade é que até aqui Obama tem resistido contra bombardear Assad diretamente, mas o início dos bombardeios é só questão de tempo: “A duração da aliança dependerá de como os dois lados reconciliam suas diferenças fundamentais sobre a Síria e outras questões. Líderes sauditas e membros da oposição síria moderada apostam que os EUA podem vir a ser empurrados na direção de apoiar militarmente rebeldes que ataquem o presidente Assad, não só o Estado Islâmico. Funcionários dos EUA dizem que o governo não tem intenção de atacar forças do governo sírio” – por enquanto.

Barack Obama
Mas por que a Arábia Saudita tanto quer, tão empenhadamente, derrubar Assad? Eis o que escreve o Wall Street Journal:

Para os sauditas, a Síria tornou-se uma linha de frente crítica na batalha contra o Irã, aliado de Assad, pela influência regional. Com Assad ampliando seu poder doméstico, o rei decidiu fazer o que fosse preciso para derrubar o presidente sírio. É o que dizem diplomatas árabes.

Na última semana de agosto, uma delegação de militares e do Departamento de Estado voou a Riad para preparar o terreno para um programa militar de treinamento para a oposição síria moderada que combateria ao mesmo tempo o governo de Assad e o Estado Islâmico – operação que os sauditas haviam solicitado há muito tempo. A equipe dos EUA pediu autorização para usar instalações sauditas para o treinamento. Os principais ministros sauditas, depois de consultar o rei durante a noite, concordaram e ofereceram-se para pagar quase toda a conta. Mr. Jubeir foi ao Capitólio, para pressionar congressistas chaves a aprovar legislação que autorizasse o treinamento.

E, depois que os EUA mais uma vez dobraram-se à exigência dos sauditas para atacarem país soberano, o resto foi só questão de planejar:

Horas antes de a campanha militar estar pronta para começar, funcionários dos EUA reuniram-se em teleconferência para discutir os últimos preparativos. Nessa conferência, oficiais militares levantaram questões de último minuto, sobre se o Qatar tomaria parte no ataque e se os países divulgariam a própria participação.

Kerry estava numa suíte no 34º andar do hotel Waldorf Astoria em New York, em reunião com líderes que participavam dos trabalhos na ONU. Telefonou aos seus contrapartes no Golfo, para confirmar que continuavam no mesmo barco. Continuavam.

Os Emirados Árabes Unidos, que alguns funcionários da Defesa chamam de “Pequena Esparta”, por causa da desproporcional força militar, ficariam com o papel mais pesado. Um dos jatos de combate dos EAU era pilotado por uma mulher. Dois dos pilotos de F-15 eram membros da família real saudita, inclusive o príncipe Khaled bin Salman, filho do príncipe coroado. Na terceira onda do ataque inicial, metade dos aviões de ataque no céu eram de países árabes.

Bandar bin Sultan
A melhor notícia para Obama é que é só uma questão de tempo e ele poderá novamente empurrar goela abaixo do mundo a falsa bandeira que a aliança EUA−Sauditas já empurrou goela abaixo do mundo no verão de 2013, para justificar o primeiro atentado para derrubar Assad; talvez até obtenha a “simpatia” do mundo, com a ajuda, claro, da imprensa-empresa norte-americana.

Mas como se pode saber que não passa, mais uma vez, de encenação? O parágrafo seguinte explica tudo:

Os sauditas encarregaram também o príncipe Bandar bin Sultan, principal espião do rei que, ano passado, foi também enganado pela política de Kerry para Síria e Iraque, de participar da reunião do dia 11/9. Funcionários dos EUA interpretaram a presença de Bandar como sinal de que o rei quer ter certeza de que sua corte está unida.

A verdade é que a presença do príncipe Bandar é sinal, isso sim, de que o mesmo manobrador de fantoches que comandava os bonecos, e falhou, em 2013, e não derrubou Assad, e que, pelo menos oficialmente, foi logo depois removido do palco, está outra vez pessoalmente encarregado da guerra contra a Síria. Apenas que, dessa vez, não oficialmente; e com Obama completamente atado e controlado.


[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Obama erra e erra: o ISIS/ISIL é, sim, Islâmico; e é sim, Estado

20/9/2014, [*] Alastair CrookeConflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Barack Obama e John Kerry


“Estamos combatendo uma ideologia, não um regime”
– John Kerry, Secretário de Estado dos EUA


“Vamos deixar bem claras duas coisas: o ISIS/ISIL não é “Islâmico”. Nenhuma religião prega o assassinato de inocentes, e a vasta maioria das vítimas do ISIS/ISIL foram muçulmanas. E o ISIS/ISIL com certeza não é Estado. Foi antes afiliado da al-Qaeda no Iraque, e extraiu vantagens da luta sectária e da guerra civil na Síria, para ganhar território dos dois lados da fronteira Iraque-Síria. Não é reconhecido por nenhum governo, nem pelo povo que subjuga. O ISIS/ISIL é organização terrorista pura e simples. E não tem qualquer outra visão além do massacre de todos que se interponham no caminho dele.”
– Barack Obama, Presidente dos EUA


Falando claro, mas claro mesmo: a premissa básica do presidente Obama (e de Kerry), de que os EUA e aliados estão combatendo uma ideologia desviante, não islâmica, que deve e pode ser deslegitimada reunindo contra ela o mundo árabe sunita para que a declare “não islâmica” só faz provar e comprovar o quão pouco a dupla realmente SABE sobre o ISIS/ISIL – contra o qual estão indo à guerra.

No Islã não existe “verdadeiro Islã”. Jamais houve qualquer autoridade central no Islã que pudesse definir tal entidade. Para o melhor e para o pior (principalmente para o melhor), o Islã sempre teve muitas faces. Mas, paradoxalmente, há hoje uma orientação que, sim, é a única que se apresenta como o tal “verdadeiro Islã”: o wahhabismo.

Como observa o professor As’ad Abu Khalil:

As’ad Abu Khalil
O que Mohammed Ibn ‘Abdul-Wahab dizia e repetia – e seus seguidores dizem e repetem hoje – é que os homens com a espada julgam em nome de Deus na terra, e sobre todos os assuntos, dos maiores aos menores. É onde o Reino Saudita e o ISIS/ISIL combinam perfeitamente. Estão fora dos limites do Islã mainstream, porque se recusam a conceder, sequer, que falam só como representantes de uma seita. Os wahhabistas (de todas as bandeiras) protestam até contra o adjetivo “wahhabistas”: “somos os únicos muçulmanos”, dizem. Significa que só eles são muçulmanos, e o resto do mundo é povoado por kafirs [incréus] que têm de ser combatidos como os antigos pagãos do tempo de Maomé. Os wahhabistas dizem que representam o “verdadeiro Islã’, quando a força do Islã ao longo das eras sempre esteve no fato de que jamais existiu essa coisa de “o verdadeiro Islã”.

Assim sendo, só a Arábia Saudita – e o ISIS/ISIL repete – insistem nessa noção de “verdadeiro Islã que Obama-Kerry tentam ressuscitar. Apenas para registrar a informação: essa comunhão de ideias deriva de a Arábia Saudita e o ISIS/ISIL partilharem uma mesma base doutrinal, “O livro do monoteísmo”, Texto chave de Abd al-Wahhab.

Em resumo, o ISIS/ISIL é tão wahhabista quanto o rei Abdullah da Arábia Saudita. Há aqui, sem dúvida, uma engraçada ironia: Obama e Kerry estão aí, super empenhados na tarefa de tentar “deslegitimar” a própria doutrina da qual nasceu o reino saudita!

Abdullah bin Abdulaziz al-Saud, Rei da Arábia Saudita - Guardião da Meca - Zelador do Islã
Fato é que o defensor-promotor do “verdadeiro Islã” e guardião de Meca é também fiel zelador do “mesmo” Islã que o ISIS/ISIL. Como poderia o rei Abdullah denunciá-lo?

Ao mesmo tempo, como pode alguém supor que algum muçulmano, que vive familiarizado com essas questões e conhece a fundo essas discussões, algum dia levará a sério essa “conversa” de Obama-Kerry?

E SIM, SIM, O ISIS/ ISIL É ESTADO

John Kerry estaria certo se dissesse que a al-Qaeda é uma ideologia, não um regime. Mas erra sobre o ISIS/ISIL. Diferente da al-Qaeda que só tinha “uma ideia”, o ISIS/ISIL tem projeto e objetivos claros: estabelecer o “principado” de Deus aqui e agora. Tem uma doutrina para como fazer existir tal estado (extraída das guerras lançadas para estabelecer o Estado Islâmico original); controla hoje território maior, em tamanho, que a Grã-Bretanha; tem consideráveis recursos financeiros; tem exército muito bem armado e equipado (cortesia dos EUA, da Grã-Bretanha e outros); tem comandantes militares competentes; e tem um líder que, na opinião de muitos, disse muito bem a que veio (pelo menos, na única ocasião em que se deixou ver em público).

Em resumo, esse desenvolvimento (o “Estado Islâmico”) pode, sim, ser problema muito mais grave, com fundamentos muito mais firmes, com muito mais apelo às massas muçulmanas, que a conversa fiada ocidental sobre “bandidos” e “degoladores cruéis” pode(ria) fazer crer.

O verdadeiro alvo dos EUA e seus aliados árabes é o presidente Assad

Vários estados árabes e do Golfo alistaram-se com Washington para combater o ISIS/ISIL, mas exclusivamente porque planejam enfiar um Cavalo de Troia na agenda da “guerra”.

Os soldados escondidos na barriga do “cavalo” de madeira estão reunidos – não para dar combate ao ISIS/ISIL – mas para guerra muito diferente. Querem converter a guerra em renovada ofensiva contra o presidente Assad e a Síria. De fato, na reunião preliminar feita em Jeddah, os estados árabes definiram uma nova arquitetura de segurança árabe que converteria a “guerra contra o ISIS/ISIL” em guerra não só contra o Isis/ISIL, mas também contra o presidente Assad e todos os islamistas (esperam, claramente, empurrar o ocidente para guerra maior contra a Fraternidade Muçulmana, Hamas, Hezbollah, etc.). Em artigo recente, o conhecido colunista saudita Jamal Khashoggi:

Jamal Khashoggi
Pode-se pois dizer que eliminar o ISIL exige também a eliminação de Assad (...) A operação deve visar o aliado de Moscou em Damasco e derrubá-lo, ou preparar o caminho para derrubá-lo (...) Essa talvez seja a explicação lógica de por que a Arábia Saudita aprovou manter campos de treinamento para a oposição síria moderada. É equivalente a declarar guerra indireta ao regime sírio (...) A Aliança de Jeddah  [orig. Jeddah alliance] é a oportunidade de um recomeço, para todos. Não se limita à tarefa imediata de eliminar o ISIL, mas também inclui a possibilidade de expansão no rumo de reformar a situação no Iraque e na Síria.

A posição dos EUA é nuançada: não será de “coordenação” com Damasco, mas vai “desconflitar” [orig. deconflict] (palavras de Kerry) a relação com Damasco.

As Forças Armadas sírias são comprovadamente efetivas, em termos militares, e os EUA sabem disso; e, afinal “o único jogo na cidade” (como se diz) é o ISIS/ISIL. Assim sendo, os EUA, ao que parece, concederam – como migalha jogada ao Golfo, para mantê-lo engajado – que os sauditas de certo modo modificassem a “guerra contra o ISIS/ISIL” e a reorientassem na direção de derrubar o presidente Assad.

Essa reorientação combina confortavelmente com a narrativa de “desculpas preventivas” do Golfo, de que o ISIS/ISIL não seria alguma espécie de movimento neo-wahhabista de vanguarda, mas, meramente, uma “reação” natural dos sunitas, brotada das políticas sectárias de Assad e do ex-primeiro-ministro Maliki do Iraque.

A Arábia Saudita – como contribuição para derrotar o ISIL – pois treinará e armará 5 mil oposicionistas “moderados” para que retornem à Síria. Os EUA compreendem perfeitamente bem que o objetivo desses “moderados” (como se seus patrocinadores sauditas) será derrubar Assad – não combater o ISIS/ISIL (com os quais os “moderados” sírios já estão entendidos e coordenados em campo e já têm um pacto de não agressão).

Exército sírio no resgate a Qusair
O exército sírio tem 130 mil soldados, mais 100 mil auxiliares. Não é que as brigadas sauditas sírias – até aqui sem registro de sucesso em campo – possam derrubar o presidente Assad, mas deixará a política dos EUA ainda mais incoerente e a Síria ainda mais ensanguentada.

Se há dois protagonistas na Síria – o Exército Árabe Sírio e o ISIS/ISIL – então os EUA não têm escolha: é seu dever preferir Assad. Mas os EUA não podem fazer tal coisa, sem ofender a Arábia Saudita. Então os EUA entram nessa guerra com um braço amarrado às costas (pelos próprios árabes do Golfo, “aliados” dos EUA).

No quintal sírio tão estrategicamente importante para o ISIS/ISIL, os EUA não têm parceiro visível e direto – de fato, como comentou Ryan Crocker, ex-embaixador dos EUA no Iraque e na Síria: “Temos de fazer todo o possível para descobrir quem é a oposição [síria] não-ISIS/ISIL. Francamente, não temos nenhuma pista” – mas só podem trabalhar com Assad de modo indireto e que possa ser completamente negado (o que os EUA já estão fazendo).

Mas os EUA não podem, de fato, acalentar qualquer esperança de derrotar o ISIS/ISIL nas atuais circunstâncias – e com os “aliados” no Golfo (e muitos think-tanks tambémaliados) fazendo de tudo para turvar as águas e meter dentro da Síria o próprio exército de “moderados” treinados pelos sauditas, para enfraquecer Assad; enquanto isso, Kerry vai “desconflitando” a coisa com o presidente da Síria. A seguir entrevista de Samantha Power, Embaixatriz dos EUA na ONU sobre a "aliança"anti ISIS/ISIL (em inglês):


Ataques aéreos dos EUA vistos como antissunitas, não como anti-ISIS/ISIL

Mesmo no Iraque, as limitações da coalizão anti-ISIS/ISIL já se vão tornando mais visíveis. Ataques aéreos ali serão vistos, não como ataques contra o ISIS/ISIL mas como ataques contra as próprias comunidades sunitas nas quais o ISIS/ISIL fundiu-se e nas quais mergulhou. (O governo iraquiano já teve de suspender ataques aéreos, pela mesma razão).

Os xiitas iraquianos defenderão seus territórios com o máximo vigor, mas podem bem decidir não entrar no Vale do Eufrates, que tem longa história como coração do território de sunitas militantes. Bagdá não quererá converter a guerra em total conflito sectário, e a guerrilha Peshmerga não terá nem desejo nem meios para fazer mais do que proteger as próprias comunidades. Em resumo, o ISIS/ISIL pode vir a descobrir que, na verdade, não há desejo regional algum de reparar a fratura do Iraque; que a região só deseja, mesmo, que a fratura seja contida e não aumente.

Palestinos, muçulmanos europeus e árabes de Israel alistam-se em grande número no ISIS/ISIL


Tudo isso considerado, o Estado Islâmico é algum tipo de ameaça? Vale a pena recordar que, diferente da al-Qaeda, o objetivo primário do ISIS/ISIL não é tanto provocar os EUA para uma super-reação, até a implosão (como Bin Laden acreditava que a guerra no Afeganistão tivesse feito à União Soviética).

O ISIS/ISIL não é, obviamente, indiferente aos EUA, mas o seu foco principal é implantar o Principado de Deus na Terra e instituir a Lei de Deus. Não surpreende que vários funcionários do governo dos EUA digam que o ISIS/ISIL não ameaça, atualmente, a pátria norte-americana.

Ao ISIS/ISIL o que interessa é ganhar território por meios militares, firmar e dar segurança às suas fronteiras, eliminar a idolatria e a heresia e implantar fisicamente, no mundo real, um Califato.
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[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.