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domingo, 28 de setembro de 2014

Irã apresenta-se como aliado natural do Ocidente

26/9/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no Quiosque do Neguimbró, na Vila Vudu:  
ZeroHedge  que traduzimos  diz que Obama estaria preso numa arapuca armada pelos sauditas, que só pensam em detonar primeiro a Síria e, na sequência, o Irã.

O embaixador Bhadrakumar  que traduzimos aqui  diz com todas as letras que:

(1) nem “meia dúzia de Arábias Sauditas” fariam da tal “coalizão” de Obama coisa que preste;
(2) que Obama faz-e-acontece e manda pácas; e que
(3) Obama estaria acolhendo alguma “coalizão” que o Irã estaria oferecendo.

Neguim aki tá achano que a gente tem de resolver de que lado estamos: ou estamos com Obama ou estamos com Putin. Mas ainda não decidimos, sequer, se essa questão tem alguma importância. Então, continuamos a traduzir qualquer coisa que faça qualquer sentido. E depois a gente vê de que lado ficamos.

Qualquer coisa que faça qualquer sentido é melhor que a opinião dos williamswaacks e daqueles “especialistas” de araque lá-dele, no canal (PAGO!) GloboNews.

De garantido, garantido mesmo, só sabemos que NÃO ESTAMOS COM OBAMA, pela suficiente razão de que “Obama” não existe: ou “Barack” é boneco de ventríloquo do império anglo-sionista & Wall Street, ou “Barack” é boneco de ventríloquo da Arábia Saudita, do Golfo Reacionário & Wall Street. E a gente aki é BRICS, pró Movimento dos Não Alinhados, pelo Sul-Sul, pró ALBA, pró Condenados da Terra, contra golberys, soros, marinassilvas et alii.

E “Putin”, além de ser BRICS, é, pelo menos, entidade TOTALMENTE EXISTENTE [pano rápido].
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Morador caminha sobre escombros dos bombardeios dos EUA no Iraque (23/9/2014)
A grande maioria com que a Casa dos Comuns em Londres aprovou há apenas algumas horas a resolução de apoiar a proposta do governo para unir-se aos EUA nos ataques contra o Estado Islâmico no Iraque catapultou o Primeiro-Ministro, David Cameron, para a mais crucialmente importante posição na estratégia do presidente Barack Obama. Com a Grã-Bretanha ao seu lado, os EUA não dependem tanto da desconjuntada “coalizão dos desejantes/dispostos”, enquanto que, sem a Grã-Bretanha, mesmo que ali houvesse seis Arábias Sauditas, a coalizão continuaria sem valer grande coisa.

Cameron já começou a preparar-se. Seu encontro na 4ª-feira (24/9/2014)em New Yorkcom o Presidente do Irã, Hassan Rouhani (pouco antes da votação na Câmara dos Comuns) foi simbólico: foi o primeiro encontro de britânicos e iranianos desde a Revolução Islâmica de 1979; mas Londres jamais teria feito movimento historicamente tão importante, se já não soubesse, de antemão, que a integração do Irã na comunidade internacional é iminente.

Acordo nuclear Irã - EUA
De fato, a fachada do processo P5+Alemanha já foi posta de lado, e Washington e aliados europeus selecionados estão negociando diretamente com Teerã, marginalizando completamente a Rússia. As consultas EUA-Irã intensificaram-se e as declarações iranianas também apontam na direção de uma real possibilidade de emergir um acordo nuclear até o final de novembro.

Como já escrevi, as duas vias – o papel do Irã na “coalizão” comandada pelos EUA contra o Estado Islâmico; e as conversações nucleares – estão correndo pescoço a pescoço. Ninguém mais nem tenta argumentar na direção oposta – de que as duas vias não estejam interligadas.

Cameron e Rouhani em New York (24/9/2014)
Num discurso extraordinário à Assembleia Geral da ONU na 5ª-feira, 25/9/2014 (um dia depois da reunião Cameron-Rouhani), o presidente iraniano disse com total clareza que um acordo nuclear abrirá infinitas possibilidades de cooperação entre o ocidente e o Irã. O argumento de Rouhani é constituído de dois passos:

(a) o ocidente que trate de ver que o Irã é seu único “aliado natural” no Oriente Médio; e
(b) se o problema nuclear for resolvido, o Irã poderá trabalhar com o ocidente, para criar um Novo Oriente Médio.

Com toda a certeza, Washington e Londres verão isso como o mais perto que o Irã jamais chegou de mostrar que está disposto a ajudar numa transição política na Síria, como ajudou na transição no Iraque, transição que satisfez plenamente Obama.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

sábado, 27 de setembro de 2014

Olhadela por dentro do acordo secreto EUA-Arábia Saudita

(que gerou o ataque contra a Síria)

25/9/2014, [*] Tyler DurdenZeroHedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bashar al Assad é saudado em Damasco
Para aqueles a cujos olhos o recente ataque dos EUA à Síria parece cena déjà vue da tentativa de criar “próxima guerra” do verão passado para derrubar o presidente Bashar al-Assad, e que foi impedida no último segundo graças a muito bem vinda intervenção dos russos e um quase início de guerra no Mediterrâneo entre navios russos e norte-americanos, o seguinte: parece déjà vu, porque é déjà vu. Lembro também que, como no ano passado, o coringa-agente na intervenção contra o estado sírio soberano, ou, como alguns já dizem, invasão ou mesmo guerra, não são (só) os EUA, mas a Arábia Saudita – relembrem agosto de 2013, Conheçam Bandar Bin Sultan da Arábia Saudita: é quem movimenta os fantoches por trás da Guerra à Síria (ing.).

Bin Sultan foi oficialmente demitido pouco depois que falhou a campanha de 2013 para derrubar o governo sírio e substituí-lo alguém mais “maleável”, mas as ambições sauditas para a Síria continuaram.

É o que noticia hoje (25/9/2014) o Wall Street Journal, em artigo no qual revela as negociações secretas entre EUA e Arábia Saudita para que os EUA obtivessem “luz verde” para iniciar os ataques contra partes de Iraque e Síria, ditos ‘ataques contra o ISIL’. E, como não surpreende ninguém, mais uma vez o principal item da barganha para pôr os sauditas no mesmo lado que os EUA é o destino do presidente Assad.

Verdade é que, para lançar ataque militar contra o território do estado sírio soberano, “foram necessários meses de trabalho secreto entre líderes dos EUA e árabes, que concordavam quanto à necessidade de cooperarem contra o Estado Islâmico, mas não quanto ao quando e ao como. O processo deu força aos sauditas para extrair dos EUA compromisso renovado para aceitarem treinar rebeldes para a luta contra Assad, cuja derrubada é alta prioridade para os sauditas”.

Em outras palavras, John Kerry veio, viu e prometeu tudo e qualquer coisa que tivesse, até, e inclusive, a peça que faltava do quebra-cabeças – a própria Síria numa bandeja de prata – só para fugir de outra humilhação diplomática.

Quando Kerry pousou em Jeddah para reunião com o rei Abdullah dia 11/9/2014, não sabia com certeza o que mais os sauditas estariam dispostos a fazer. Os sauditas haviam informado os norte-americanos, antes da visita, que estariam dispostos a oferecer poder aéreo – mas só se estivessem convencidos de que os norte-americanos falavam a sério sobre um esforço sustentado na Síria. Os sauditas, por sua vez, não tinham certeza sobre até que ponto Obama estaria disposto a ir – segundo os diplomatas.

Kerry visitou o Rei Abdullah da Arábia Saudita
Dito de outro modo: a libra de carne que a Arábia Saudita exigiu para “abençoar” os bombardeios norte-americanos e dar-lhes a aparência de representar alguma espécie de “coalizão”, é a derrubada do regime Assad. Por quê? Para que – como também explicamos ano passado – o gás dos grandes campos de gás natural do Qatar possa afinal tomar o rumo da Europa, o quê, não por acaso, também é desejo dos EUA. Que melhor modo para castigar Putin por suas ações recentes, que neutralizar o principal poder que o Kremlin tem sobre a Europa?

Mas voltemos aos sauditas e à montagem do negócio que levou ao bombardeio contra a Síria:

Os EUA sabiam que havia muita coisa em jogo naquela reunião de 11/9/2014 com o rei da Arábia Saudita, no seu palácio de verão no Mar Vermelho.

Um ano antes, o rei Abdullah ficara furioso quando o presidente Obama cancelou os ataques contra o regime de Bashar al-Assad da Síria. Agora, os EUA precisavam do compromisso do rei, de que apoiaria uma outra missão à Síria – contra o grupo Estado Islâmico –, sabendo que havia baixíssima possibilidade de conseguir reunir qualquer frente árabe, sem os sauditas.

No palácio, o secretário de Estado John Kerry pediu ajuda para, inclusive, ataques aéreos, segundo altos funcionários dos EUA e do Golfo. “Daremos todo e qualquer apoio de que precisem” – disse o rei.

Mas, isso, só depois de os sauditas terem obtido a garantia de que Assad seria derrubado. E para conseguir essa promessa, prenderam Obama numa chave de braço:

Desconfiados de que Obama novamente voltasse atrás, os sauditas e os Emirados Árabes Unidos conceberam uma estratégia para dificultar o mais possível que Obama mudasse de rota: “Peçam eles o que pedirem, digam que sim” – eis como um conselheiro do bloco do Golfo descreveu a tal estratégia. – “O objetivo era não dar aos norte-americanos nenhuma razão para adiar ou desistir”.

A participação árabe nos ataques aéreos tem valor mais simbólico que militar. Os norte-americanos estão fazendo tudo e já lançaram mais bombas que todos os “coligados” árabes. Mas a mostra de apoio dada por um grande estado sunita para campanha contra grupo sunita militante, dizem funcionários dos EUA, deixou Obama confortável para autorizar ataque contra o qual, antes, ele resistira.

Verdade é que até aqui Obama tem resistido contra bombardear Assad diretamente, mas o início dos bombardeios é só questão de tempo: “A duração da aliança dependerá de como os dois lados reconciliam suas diferenças fundamentais sobre a Síria e outras questões. Líderes sauditas e membros da oposição síria moderada apostam que os EUA podem vir a ser empurrados na direção de apoiar militarmente rebeldes que ataquem o presidente Assad, não só o Estado Islâmico. Funcionários dos EUA dizem que o governo não tem intenção de atacar forças do governo sírio” – por enquanto.

Barack Obama
Mas por que a Arábia Saudita tanto quer, tão empenhadamente, derrubar Assad? Eis o que escreve o Wall Street Journal:

Para os sauditas, a Síria tornou-se uma linha de frente crítica na batalha contra o Irã, aliado de Assad, pela influência regional. Com Assad ampliando seu poder doméstico, o rei decidiu fazer o que fosse preciso para derrubar o presidente sírio. É o que dizem diplomatas árabes.

Na última semana de agosto, uma delegação de militares e do Departamento de Estado voou a Riad para preparar o terreno para um programa militar de treinamento para a oposição síria moderada que combateria ao mesmo tempo o governo de Assad e o Estado Islâmico – operação que os sauditas haviam solicitado há muito tempo. A equipe dos EUA pediu autorização para usar instalações sauditas para o treinamento. Os principais ministros sauditas, depois de consultar o rei durante a noite, concordaram e ofereceram-se para pagar quase toda a conta. Mr. Jubeir foi ao Capitólio, para pressionar congressistas chaves a aprovar legislação que autorizasse o treinamento.

E, depois que os EUA mais uma vez dobraram-se à exigência dos sauditas para atacarem país soberano, o resto foi só questão de planejar:

Horas antes de a campanha militar estar pronta para começar, funcionários dos EUA reuniram-se em teleconferência para discutir os últimos preparativos. Nessa conferência, oficiais militares levantaram questões de último minuto, sobre se o Qatar tomaria parte no ataque e se os países divulgariam a própria participação.

Kerry estava numa suíte no 34º andar do hotel Waldorf Astoria em New York, em reunião com líderes que participavam dos trabalhos na ONU. Telefonou aos seus contrapartes no Golfo, para confirmar que continuavam no mesmo barco. Continuavam.

Os Emirados Árabes Unidos, que alguns funcionários da Defesa chamam de “Pequena Esparta”, por causa da desproporcional força militar, ficariam com o papel mais pesado. Um dos jatos de combate dos EAU era pilotado por uma mulher. Dois dos pilotos de F-15 eram membros da família real saudita, inclusive o príncipe Khaled bin Salman, filho do príncipe coroado. Na terceira onda do ataque inicial, metade dos aviões de ataque no céu eram de países árabes.

Bandar bin Sultan
A melhor notícia para Obama é que é só uma questão de tempo e ele poderá novamente empurrar goela abaixo do mundo a falsa bandeira que a aliança EUA−Sauditas já empurrou goela abaixo do mundo no verão de 2013, para justificar o primeiro atentado para derrubar Assad; talvez até obtenha a “simpatia” do mundo, com a ajuda, claro, da imprensa-empresa norte-americana.

Mas como se pode saber que não passa, mais uma vez, de encenação? O parágrafo seguinte explica tudo:

Os sauditas encarregaram também o príncipe Bandar bin Sultan, principal espião do rei que, ano passado, foi também enganado pela política de Kerry para Síria e Iraque, de participar da reunião do dia 11/9. Funcionários dos EUA interpretaram a presença de Bandar como sinal de que o rei quer ter certeza de que sua corte está unida.

A verdade é que a presença do príncipe Bandar é sinal, isso sim, de que o mesmo manobrador de fantoches que comandava os bonecos, e falhou, em 2013, e não derrubou Assad, e que, pelo menos oficialmente, foi logo depois removido do palco, está outra vez pessoalmente encarregado da guerra contra a Síria. Apenas que, dessa vez, não oficialmente; e com Obama completamente atado e controlado.


[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Entrevista com Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia em 23/9/2014


“O Ocidente agora bombardeia, depois de ter patrocinado, os terroristas do Estado Islâmico. OK. Antes tarde, do que nunca”, Sergey Lavrov

24/9/2014, RT − Rússia Today (resumo)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sergey Lavrov - MRE da Rússia em 23/9/2014
As potências ocidentais que adotaram extremistas islamistas para incitá-los contra alguns regimes no Oriente Médio bem fariam se parassem de classificar terroristas entre terrorista bons e maus, disse o ministro Sergey Lavrov, de Relações Exteriores da Rússia, em entrevista televisionada.

Na entrevista ao Channel 5 em São Petersburgo, Lavrov disse:

Agora que o Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIS/ISIL) foi declarado inimigo nº1 dos EUA, gostaria de relembrar que [os militantes do ISIS/ISIL] são exatamente a mesma gente que cresceu graças ao poderosíssimo patrocínio e rico apoio material que recebia do exterior, desde o tempo dos esforços para mudar o regime na Líbia e depois, a partir do momento em que o mesmo processo foi tentado na Síria.

O ministro de Relações Exteriores da Rússia relembrou os tempos em que norte-americanos e europeus faziam literalmente qualquer coisa, a qualquer preço, para justificar o apoio que davam a fundamentalistas islamistas, que usavam como ferramenta a favor de quem prometesse ajuda à oposição a alguns regimes.

Quando chamávamos a atenção deles para o fato de que havia muitos extremistas e terroristas na oposição a vários regimes, [os norte-americanos e europeus] nos diziam, essencialmente, que todas essas questões se resolveriam depois que os tais regimes “não apreciados” fossem derrubados e que eles mesmos resolveriam os problemas, depois – disse Lavrov. –Como todos estamos vendo, nada aconteceu como eles previram.

Gaddafi foi assassinado por terroristas
treinados e armados pelos EUA-OTAN
Noutro exemplo, Lavrov lembrou que a França armou militantes que lutavam contra Muammar Gaddafi da Líbia; pouco depois, os franceses enfrentavam os mesmos militantes no Mali, onde soldados franceses lutavam contra fundamentalistas islamistas que haviam migrado para lá, saídos de uma Líbia devastada depois da queda de Gaddafi.

É preciso fixar um critério geral: se lutamos contra o terrorismo, então somos contra o terrorismo em qualquer lugar onde apareça e sempre. Não é possível separar terroristas em terroristas bons e terroristas maus, só porque alguns terroristas ajudam os EUA a derrubar governante legítimo de país membro da ONU, mas governante que os EUA não apreciam –Lavrov continuou.

Washington insiste que só os “terroristas do mal” estão sendo mortos pelos EUA, disse Lavrov; mas os norte-americanos  só deram sinais de incômodos depois que alguns vídeos horrendos foram divulgados, em que se via a execução de jornalistas norte-americanos.

Aquelas execuções são inaceitáveis e desumanas, e aquela gente tem de ser caçada com unhas e dentes. Mas... por que os norte-americanos não perceberam a ameaça, antes de que tudo aquilo acontecesse? – Lavrov perguntou.

Nada perceberam a tempo, porque estão habituados a combater o terrorismo com padrões duplos; e nunca prestaram atenção ao que nós dizíamos a eles, sempre que propúnhamos unir nossos esforços e ajudar o governo sírio e a oposição moderada na Síria a formar uma frente unida para combater terroristas que estavam voando como enxame na direção da República Árabe Síria. Nunca nos deram atenção  disse Lavrov.

Agora que os EUA tentam montar uma coalizão antiterrorismo, disse Lavrov, Moscou absolutamente não tem plano algum para unir-se àquela coalizão.

Não há nada do que nos envergonharmos na ajuda que damos ao Iraque, a Síria e a outros países no mundo árabe, para fortalecer a capacidade de eles mesmos enfrentarem o perigo terrorista – disse Lavrov.

Steven Sotloft, decapitado pelo ISIS/ISIL treinado e armado pelos EUA-OTAN
Acrescentou que:

(...)  a Rússia continua a enviar armas aos governos do Iraque, Síria, Egito e Iêmen, países que sofrem pesadamente por causa de terroristas; e que a ajuda russa amplia a capacidade de os próprios países enfrentarem terroristas.

Mas Lavrov considera bem-vinda a disposição de estados ocidentais, com sua grande capacidade, ajudarem o legítimo governo iraquiano a dar combate aos terroristas.

OK. Antes tarde, do que nunca” – disse o ministro russo de Relações Exteriores, destacando que, se o ocidente planeja combater o terrorismo em outros países, mais especificamente na Síria, os EUA têm de obter a autorização do legítimo governo sírio para tais ações:

O governo sírio declarou repetidas vezes que estava pronto para cooperar com parceiros estrangeiros para eliminar o terrorismo no território sírio– disse Lavrov.

Pepe Escobar: Operação “Tomahawk-eiem” O Califa

24/9/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama e seu Discurso de Guerra (10/9/2014)

“Há apenas duas horas, forças aliadas começaram um ataque contra alvos militares no Iraque e Kuwait”
— Pres. George H. W. Bush, 16/1/1991

“Hoje, mais cedo, ordenei que as forças armadas dos EUA atacassem alvos militares e de segurança no Iraque”
— Pres. Bill Clinton, 16/12/1998

“Meus concidadãos. Nesse momento, forças dos EUA e da coalizão estão nos estágios iniciais de operações militares para desarmar o Iraque, libertar seu povo e defender o mundo de grave perigo”
— Pres. George W. Bush, 19/3/2003

“Meus concidadãos. Essa noite, quero falar-lhes sobre o que os EUA farão, com nossos amigos e aliados, para degradar e, na sequência, destruir, o grupo terrorista conhecido como ISIL
— Pres. Barack Obama, 10/9/2014

 11/9/2014, Philip Gourevich, The New Yorker, em: 

Mísseis Tomahawk foram disparados contra áreas urbanas (Raqqa, Síria e Mosul, Iraque)
Os mísseis Tomahawks estão outra vez zunindo – impulsionados por novilíngua. 42 Tomahawks disparados de um destróier da VIª Frota estacionado no Mare Nostrum, mais F-22s do inferno e mísseis Hellfire cuspidos por drones, e eis aí uma perfeita operação mini-Choque e Pavor em honra ao Califa Ibrahim, também conhecido como Abu Bakr al-Baghdadi, autodeclarado líder do Estado Islâmico.

Com munição convencional de 950kg o Tomahawk NÃO é recomendado seu uso em áreas urbanas, mas ninguém não se preocupa com as vidas de civis, mas...
Os EUA só querem "mudança de regime" na Síria!
É tudo tãããão cirúrgico. Todos os alvos – de “supostos” depósitos de armas às grandes mansões em Raqqah (quartel-general dos asseclas do Califa) e pontos variados de controle – foram devidamente neutralizados, além de “dúzias de”, talvez 120, jihadistas.

E graças àqueles “mais de 40” (na conta de Samantha Power) ou “mais de 50” (na de John Kerry) aliados internacionais na coalizão dos desejantes [ou “coalizão dos dispostos”, como prefere Antonio Luiz M. C. Costa, de Carta Capital (NTs)] [2]. Os EUA nunca estão sós, embora, nesse caso, viajem escoltados, de facto, só pelas ditaduras & petrodólares do Golfo de sempre e pelo reino do Reizinho de Playstation, a Jordânia, todos loucos para se meterem em “atividades cinéticas”.

Novilíngua asséptica à parte, ninguém viu ou ouviu falar de Força Aérea do Conselho de Cooperação do Golfo mobilizada para bombardear a Síria. Afinal, todos os fantoches ali estão trêmulos de pavor de ter de dizer às respectivas populações que seus “governantes” estão – mais uma vez! – bombardeando outra nação árabe amiga. Quanto a Damasco, disse discretamente que havia sido “notificada” pelo Pentágono de que o território sírio seria bombardeado. Ninguém sabe o quê, exatamente, o Pentágono está contando a Damasco.

O Pentágono diz que seria apenas o começo de “campanha sustentada” – palavra-código para Longa Guerra e que, seja como for, é um dos nomes pelos quais atende a GGaT [Guerra Global ao Terror, ing. Global War on Terror (GWOT)]. E, sim: para todas as finalidades práticas, é coalizão de um-só. Chamêmo-la “Operação Tomahawk-eiem o Califa”.

Sou Corassão

Amarrem seus F-22s. Não, não vai dar. O tomahawk-eamento mal começara, quando um míssil Patriot israelense fabricado nos EUA derrubou um Su-24 sírio que, disseram os israelenses, teria “violado” espaço aéreo israelense nas colinas de Golan. Que tal essa, em termos de recado para exibir perfeita coordenação de movimentos com o Pentágono?

Corassão - era região da antiga Pérsia
Significa que não se trata só de bombardear o Califa. É só um preâmbulo disfarçado, antes de se porem a bombardear Bashar al-Assad e suas forças. E trata-se também de bombardear – oito ataques a oeste de Aleppo – um fantasma: uma célula al-Qaeda do misterioso grupo Corassão.

Não é surpresa que os fãs globais da escola Marvel Comics de geopolítica não estejam entendendo nada. Dois vilões ao mesmo tempo? Sim. E o segundo bandidão é ainda mais bandidão-do-mal que O Califa.

Ben Rhodes
Aquela espantosa inacreditável mediocridade, Ben Rhodes, vice-conselheiro de Obama para segurança nacional, definiu o Corassão como “um grupo de extremistas que compreende um número de indivíduos que estamos rastreando há muito tempo”.

A novilíngua do governo Obama reza, em uníssono, que o Corassão inclui ex-quadros da al-Qaeda, não só de todo o Oriente Médio – incluindo al-Qaeda no Iraque e a Frente al-Nusra – mas também do Paquistão e, ainda, uma extensão linha ultra-duríssima dos Talibã no Paquistão.

Que confusão! Al-Qaeda no Iraque é o embrião do ISIL, que se converteu em Estado Islâmico (EI). Frente al-Nusra é franquiada da al-Qaeda na Síria, aprovada pelo Diretor-presidente Executivo, Ayman al-Zawahiri. Todos aí se desprezam mutuamente, mas o Corassão tem o mérito de unificar e manter coesos os bandidos do Califa e os bandidos da al-Qaeda, num só grupo. Como se não bastasse, a Frente al-Nusra é, aos olhos de Washington, grupo de jihadistas “moderados”; praticamente, são “os nossos filhos-da-puta”. Difícil entender quem é quem? Não há problema: na dúvida, bombardeie todo mundo.

Assim se vê que O Califa, coitado, é notícia velha. Os bandidos fantasmagóricos do Corassão é que são notícia quentíssima –, tão do mal, eles, que o Pentágono está convencido de que têm planos para “um já iminente” novo 11/9.

O fantasma dentro da máquina GGaT

O Corassão é o perfeito fantasma ativo dentro da máquina GGaT; o alvo de uma guerra dentro de uma guerra. Porque a verdade é que Obama declarou duas guerras – enviou duas diferentes notificações ao Congresso, nos termos da Resolução sobre os Poderes de Guerra, cobrindo duas guerras: o Califa e o Corassão.

E quanta coisa esconde-se num nome? Ora... uma demonização extra mal disfarçada contra o Irã? E por que não? O Corassão histórico, a antiga Parthia, estendia-se do Irã, por ali, na direção do Afeganistão.

Muhsin al-Fadhli, líder do Corassão
O Corassão é governado teoricamente pelo Coringa, digo, desculpem, pelo gângster em meio período, o honcho da al-Qaeda, Muhsin al-Fadhli, nascido no Kuwait em 1981, também “alto assessor-facilitador e financiador” de Abu Musab al-Zarqawi no Iraque – no impagável perfil traçado pelo Departamento de Estado. Embora Ayman al-Zawahiri, sempre muito atento ao próprio perfil de Relações Públicas & marketing, não tenha reclamado os méritos, o Pentágono está convencido de que ele enviou al-Fadhli para a parte síria do Califato para atrair jihadistas ocidentais com passaportes da União Europeia, que conseguem furar a segurança de aeroportos e plantar bombas em jatos comerciais.

O Departamento do Tesouro está convencido de que al-Fadhli comanda até uma célula da al-Qaeda no Irã – demonizar o Irã é vício duro de matar – “facilitando” a viagem de jihadistas para o Afeganistão ou o Iraque.

E que dramático contraste com O Califa, viciado em sociedade-do-espetáculo! O Corassão é o breu mais profundo, escuridão total. Ninguém sabe quantos são; há quanto tempo existem; o que realmente querem.

Por contraste, há cerca de 190 mil seres humanos vivos deixados para trás na Raqqa bombardeada até o osso. Ninguém está falando de dano colateral – embora a pilha de cadáveres já esteja aumentando; a ágil operação de Relações Públicas & marketing do Califa não tardará a exibi-la em spots de divulgação, pelo YouTube. Quanto aos bandidos do Califa, com certeza usarão táticas maoístas, e dissolver-se-ão no mar, feito peixe. Em breve o Pentágono estará bombardeando vastas áreas de deserto para nada – se já não estiver fazendo exatamente isso, nesse momento.

Já não existe nenhum “Exército Sírio Livre” – mito criado pelos qataris. Não sobrou nenhumjihadista “moderado” na Síria. Todos estão já empregados e lutando pelo Califa ou por al-Zawahiri. Pois ainda assim o governo Obama consegue um “OK” do Senado dos EUA para armar “rebeldes moderados”.

Samantha Power
A embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power − Rainha Primeira e Única da Piração Total de Cocô-na-Telha − pelo menos acertou uma. O “treinamento” deles “capacitará aqueles milicianos para a mesma luta na qual já estão desde o início desse conflito contra o regime de Assad”. Quer dizer... Está aí, tudo dito: essa “campanha sustentada” é a portinha do cachorro para voltar para “Assad tem de sair” remixed.

Gente realmente capaz de derrotar os bandidos do Califa não tomahawk-eia ninguém. Estão na luta há muito tempo. São os soldados do Exército Árabe Sírio e mais de 35 mil deles já morreram em ação contra ISIS/ISIL/EI e/ou al-Qaeda; são os combatentes do Hezbollah; são os operadores/conselheiros dos Guardas Revolucionários Iranianos; são os guerrilheiros curdos. Claro que não acontecerá assim.

O assunto arrasa-quarteirão esse ano é o Império do Caos bombardeando o Califa e o fantasma pirado dentro da máquina da GGaT. Dois ingressos pelo preço de um. Porque protegemos você até contra o mais “não sabido não sabido” dos males.

Notas dos tradutores

[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

[2] “Condenados à repetição”, Antônio Luiz M.C. Costa, Carta Capital, ano 20, n. 818, 24/9/2014, p. 50.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan Nimble Books, 2009.