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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A desgraça da Líbia

OTAN e EUA deveriam ter ouvido os conselhos de Brasil, Rússia, Índia, China...

11/12/2014, [*] Brian Cloughley - Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Líbia antes e depois da "intervenção humanitária"
dos EUA - União Europeia e OTAN
(clique na imagem para aumentar)
Dia 19/3/2011, os EUA lideraram os países da OTAN num ataque aéreo massivo, com mísseis, contra o governo de Muammar Gaddafi da Líbia, que recebera visita do primeiro-ministro britânico em 2004, em 2007 do presidente francês, Nicolas Sarkozy, em 2008 da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice e em 2009 do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, os quais, todos eles, cordialmente lhe asseguraram que havia confortabilíssimas relações entre seus países.

(...) A vida da maioria dos líbios era confortável e até a BBC teve de admitir que:

(...) o tipo especial de socialismo de Gaddafi garante, sim, educação e atendimento à saúde universais e gratuitos; e moradia e transportes subsidiados, mas os salários são extremamente baixos e a riqueza do estado e os lucros dos investimentos estrangeiros no país só enriqueceram uma reduzida elite (observou a BBC, como se esse tipo de “fenômeno” só acontecesse na Líbia e jamais tivesse sido observado em nenhum outro país do planeta, é claro).

O World Factbook da CIA registrava que a Líbia de Gaddafi alfabetizara 94,2% da população (índice melhor que o da Malásia, do México e da Arábia Saudita, para ficar nesses três exemplos), e a Organização Mundial da Saúde registrava expectativa de vida de 72,3 anos para a população líbia, das maiores no mundo em desenvolvimento.

Mas voltemos às figuras que voaram em bando para a Líbia antes da guerra da OTAN. Um telegrama diplomático vazado em 2009 registrava que:

(...) os senadores McCain e Graham promoviam os interesses dos EUA em manter e fazer avançar as relações bilaterais e o senador Lieberman declarou a Líbia importante aliada dos EUA na guerra ao terror.

Condoleezza Rice disse que:

(...) as relações EUA-Líbia andam em boas direções já há vários anos creio que a noite de hoje marca nova fase dessas boas relações.

Blair, o britânico, considerou seu encontro com Gaddafi “positivo e construtivo”, porque as relações de seu país com a Líbia haviam-se “transformado completamente nos últimos anos. Há agora forte cooperação entre nós nos setores de contraterrorismo e defesa".

Tony Blair e Muammar Gaddafi em 2004
A BBC noticiou “no encontro entre o Sr. Blair e o Sr. Gaddafi, foi anunciado que a gigante anglo-holandesa do petróleo Shell assinara negócio no valor de mais de 550 milhões [libras britânicas, US$ 860 millhões] para exploração de gás na costa da Líbia”. As empresas norte-americanas de petróleo ConocoPhillips, ExxonMobil, Marathon Oil Corporation e Hess Company também estavam profundamente envolvidas na produção de petróleo líbio – a nona maior reserva do planeta.

As coisas pareciam excelentes para a Líbia.

Mas dia 21/1/2011, a Reuters noticiou que:

Muammar Gaddafi disse que seu país e outros exportadores estão analisando a possibilidade de nacionalizar as empresas estrangeiras que operam no país, por causa dos baixos preços. Sugeriu que o petróleo deve ser propriedade do Estado, agora, para que possamos controlar melhor os preços, aumentando ou reduzindo a produção

Então, logo depois, em fevereiro, imediatamente depois de Gaddafi ter falado de nacionalizar o petróleo líbio, houve um “levante de rebeldes” que queriam derrubá-lo. E dia 17 de março de 2011, o Conselho de Segurança da ONU já estabelecera uma “zona aérea de exclusão” sobre a Líbia, “para proteger os civis que estavam sendo atacados no país”.

Os “rebeldes” eram apoiados por EUA, Grã-Bretanha e 12 dos seus 26 aliados na OTAN (com destaque para Alemanha e Turquia), três nações árabes (não incluída a Arábia Saudita), e a Suécia, que abandonou sua tão louvada neutralidade e tornou-se país da OTAN, em tudo, exceto no nome. 

Brasil, Rússia, Índia, China e Alemanha [talvez... os “países BRICA”? (NTs)] excluíram-se da Resolução, pregando resolução pacífica para o conflito interno líbio e alertando contra “consequências não desejadas de uma intervenção armada”.

Dois dias depois da resolução “zona aérea de exclusão” começou o massacre da Líbia pela OTAN-EUA e prosseguiu por sete meses, até o final de outubro/2011. Dia 30 de abril de 2011, um míssil dos EUA matou três netos e um dos filhos do coronel Gadaffi, no que a OTAN chamou de “um ataque de precisão” contra “prédio do comando militar e controle”. Perguntado sobre um ataque massivo contra o complexo residencial do coronel Gaddafi, o porta-voz do Pentágono anunciou que “nosso alvo não é a residência. Não temos notícia de qualquer morte de civis”. 

Obama, Cameron e Sarkozy - Os MENTIROSOS
No auge dos ataques à Líbia, o presidente Obama dos EUA, o primeiro-ministro Cameron da Grâ-Bretanha e Sarkozy da França declararam, em declaração conjunta que:

(...) continuamos hoje as operações militares para proteger civis líbios e estamos determinados a olhar sempre em frente. Temos certeza de que melhores tempos virão para o povo da Líbia (...) o coronel Gaddafi tem de sair, e sair por bem. Nesse ponto, a ONU e as nações-membros devem ajudar o povo líbio a reconstruir onde Gaddafi destruiu – reparar casas e hospitais, restaurar os serviços públicos básicos e ajudar os líbios enquanto desenvolvem instituições para servir como estrutura para uma sociedade próspera e aberta.

A esse amontoado de mentiras, Gaddafi respondeu que:

Vocês provaram ao mundo que não são civilizados, que são terroristas. Animais que atacaram uma nação que nada fez contra vocês.

Dia 20 de outubro de 2011, Gaddafi foi brutalmente assassinado por um grupo de “rebeldes”. Obama festejou o assassinado. Disse que:

(...) hoje podemos dizer que definitivamente chegou a fim o regime de Gaddafi. Sua principal fortaleza ruiu. Um novo governo está-se consolidando no país. Um dos mais longevos ditadores está morto.

A OTAN realizou 9.658 ataques aéreos contra a Líbia, e a BBC noticiou que:  

(...) ao longo dos sete meses de campanha a OTAN reconheceu que houve um “erro” por “mau funcionamento” de uma arma. Dia 19 de junho, vários civis foram assassinados por um míssil que atingiu prédios em Trípoli. Porta-voz da OTAN disse depois que “ocorreu um possível erro de sistema de armas, que levou a arma a atingir alvo não buscado”. (E houve também 105 ataques de drones dos EUA sobre os quais nada se sabe).

Líbia, um dos 9.658 ataques aéreos
"humanitários" sobre área urbana
É absolutamente inverossímil que, de 9.658 ataques aéreos, só um tenha assassinado civis. A ONG Human Rights Watch afirma que morreram muitos e muitos civis naqueles ataques – embora o número não seja importante, porque ninguém, nem dos EUA, nem de qualquer país OTAN, será jamais investigado por investigadores independentes sobre a morte de civis em lugar algum do planeta, por míssil, bomba ou foguete.

Nos diziam que o objetivo da guerra de EUA-OTAN contra a Líbia era impor a democracia à bombas, e o primeiro-ministro Cameron da Grã-Bretanha declarou que:

(...) estou otimista quanto à Líbia; sempre fui otimista desde o início e estou otimista agora quanto ao Conselho Nacional de Transição e o que são capazes de alcançar.

Acho que, claro, se se olha hoje para Trípoli – levar água àquela cidade, fazer valer a lei e a ordem − mas verdade é que já está provado que tudo que os cínicos mentirosos e os generais de sofá disseram está errado.

Os “cínicos mentirosos” – melhor dizendo, os realistas – e os generais de sofá, é claro, não erraram coisa alguma, só acertaram, quando previram que o colapso da Líbia era já então inevitável; exatamente como, antes, já haviam acertado também quando previram o caos no Iraque e no Afeganistão.

Dois intelectuais respeitados, Ivo Daalder, Representante Permanente dos EUA no Conselho da OTAN de 2009 a 2013, e o almirante James G (“Zorba”) Stavridis, do Comando Supremo dos Aliados dos EUA na Europa (o comando militar da OTAN), na mesma época escreveram em Foreign Affairs em 2012:

A operação da OTAN na Líbia foi corretamente saudada como intervenção modelo. A aliança respondeu rapidamente a situação que se deteriorava e ameaçava centenas de milhares de civis em rebelião contra regime opressor. Conseguiu proteger aqueles civis e, de fato, garantir o tempo e o espaço necessários para que as forças locais derrubassem Muammar al-Gaddafi.

Bombas "humanitárias" no centro de Benghazi
Segundo essa análise, a Líbia teria sido libertada e tornara-se país livre graças à OTAN. E os dois receberam o apoio de colunistas como Nicholas Kristof, para quem “a Líbia faz lembrar que às vezes é possível usar armas militares para promover causas humanitárias”. A frase seria cômica, não fosse tão obscenamente perversa, porque a Líbia mergulhara já na anarquia e na ruína. A declaração dos britânicos à ONU em 2012, de que:

(...) hoje, Trípoli e Benghazi são cidades transformadas. Onde antes havia medo, hoje há esperança e otimismo e fé verdadeiramente inspiradores.

Já se comprovara falsa, patética. A CNN noticia que:

Assassinatos, sequestros, bloqueios de refinarias, milícias rivais que lutam nas ruas, extremistas islamistas acampados e, sobretudo, governo cronicamente fraco fizeram da Líbia lugar perigoso, cuja instabilidade já respinga através de fronteiras e para o Mediterrâneo. Verdade é que a Líbia está convertido em estado fora da lei.

Claro: muito “verdadeiramente inspirador”.

Segundo a Anistia Internacional,

(...) desde julho de 2014 pelo menos 287 mil líbios tornaram-se migrantes internos, resultado de ataques indiscriminados e do medo de serem apanhados no fogo cruzado entre as milícias; e outros 100 mil líbios tiveram de deixar o país para não serem mortos.

Vários países ocidentais já retiraram de lá suas missões diplomáticas, e a Grã-Bretanha aconselha os cidadãos “contra viajar à Líbia, onde prosseguem os combates e é grande a instabilidade em todo o país”. 

A OTAN fez rigorosamente coisa alguma para (...) reconstruir (...), reparar casas e hospitais, restaurar os serviços públicos básicos e ajudar os líbios enquanto desenvolvem instituições para servir como estrutura para uma sociedade próspera e aberta”, como Obama, Cameron e Sarkozy haviam declarado que seria necessário, ao mesmo tempo em que, com bombas, foguetes e mísseis Tomahawk iam destruindo casas e hospitais e serviços públicos básicos. E nenhum desses sujeitos – excitados líderes mundiais, pseudo jornalistas “comentaristas” ou intelectuais respeitados, aí, repetindo, como perfeitos imbecis, que a “intervenção na Líbia foi corretamente saudada como intervenção modelo” – não davam nenhum sinal de sentirem qualquer vergonha ou arrependimento pelo entusiasmo com que saudaram o massacre que levou à devastação e ao desastre.

Mísseis Tomahawk, atirados "humanitariamente" sobre áreas de infraestrutura civil da Líbia
Durante a guerra deles contra a Líbia, Obama e Cameron declararam que “Temos certeza de que melhores tempos virão para o povo da Líbia”. Digam isso aos milhões de líbios cujas vidas foram destruídas pela “intervenção modelo” que a OTAN lançou contra eles.

A escala do sofrimento humano não é tão terrível quanto a que os mesmos EUA-GB infligiram ao Iraque, mas também é horrenda. Dia 30 de novembro de 2014, por exemplo, a agência Reuters noticiava que:

(...) cerca de 400 pessoas foram mortas em seis semanas de confrontos pesados entre forças pró-governo líbio e grupos islamistas na segunda maior cidade da Líbia, Benghazi.

E nada dos tais “melhores tempos” que viriam depois de seis meses de ataques incessantes dos mísseis e bombas de EUA-OTAN.

E o que acontecerá à OTAN? Onde decidirá montar a próxima “intervenção modelo”, depois de ter destruído a Líbia e de ter sofrido derrota humilhante no Afeganistão?

A OTAN procura desesperadamente uma “causa” que justifique a existência daquela aliança, e está movendo suas forças, entusiasticamente na direção do leste da Europa, envolvendo soldados norte-americanos em “exercícios” na Ucrânia e nos EUA e em outros deslocamentos para a Polônia e Estados Bálticos. Já criou uma “Missão Báltica de Policiamento Aéreo” multinacional e está empurrando outra operação (que recebeu o nome mais ridículo de todos os ridículos nomes de “operações”: “Operação Firmeza & Dedicação Atlântica – Compromisso Continuado dos EUA com a Segurança da Europa” [orig. Operation Atlantic Resolve]) na direção da Rússia, como ameaça.

Pois OTAN, e especialmente os EUA, OTAN e EUA deveriam ter ouvido os conselhos de Brasil, Rússia, Índia, China e Alemanha que alertaram contra “consequências não buscadas da intervenção armada”.

Vladimir Putin em 4/12/2014

Hitler, com suas ideias de ódio a povos, também estava decidido [como hoje os EUA e a OTAN] a destruir a Rússia e a nos empurrar para trás, para além dos Urais. Todos com certeza lembram como acabou aquilo.

Muito bem dito. É exatamente isso.
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[*] Brian Cloughley é ex-soldado e escreve sobre temas militares e políticos, principalmente dos países do sul da Ásia. Escreve sobre, Defesa, Segurança, Terrorismo, e é Analista de Estratégias no Jane’s Sentinel. Serviu nos exércitos da Inglaterra e da Austrália por 9 anos como oficial de artilharia, principalmente como observador avançado. Escreveu 4 livros:
  • A History of the Pakistan Army: Wars and Insurrections.
  • War, Coups and Terror: Pakistan's Army in Years of Turmoil
  • From Fabric Wings to Supersonic Fighters and Drones: A History of Military Aviation on Both Sides of the Northwest Frontier, em parceria com Lester W. Grau e Andrew Roe.
  • Trumpeters: The Story Orf The Royal Artillery's Boy Trumpeters.

Esse ano chegou às livrarias a 4ª edição de seu livro A History of the Pakistan Army.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Pepe Escobar: Operação “Tomahawk-eiem” O Califa

24/9/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama e seu Discurso de Guerra (10/9/2014)

“Há apenas duas horas, forças aliadas começaram um ataque contra alvos militares no Iraque e Kuwait”
— Pres. George H. W. Bush, 16/1/1991

“Hoje, mais cedo, ordenei que as forças armadas dos EUA atacassem alvos militares e de segurança no Iraque”
— Pres. Bill Clinton, 16/12/1998

“Meus concidadãos. Nesse momento, forças dos EUA e da coalizão estão nos estágios iniciais de operações militares para desarmar o Iraque, libertar seu povo e defender o mundo de grave perigo”
— Pres. George W. Bush, 19/3/2003

“Meus concidadãos. Essa noite, quero falar-lhes sobre o que os EUA farão, com nossos amigos e aliados, para degradar e, na sequência, destruir, o grupo terrorista conhecido como ISIL
— Pres. Barack Obama, 10/9/2014

 11/9/2014, Philip Gourevich, The New Yorker, em: 

Mísseis Tomahawk foram disparados contra áreas urbanas (Raqqa, Síria e Mosul, Iraque)
Os mísseis Tomahawks estão outra vez zunindo – impulsionados por novilíngua. 42 Tomahawks disparados de um destróier da VIª Frota estacionado no Mare Nostrum, mais F-22s do inferno e mísseis Hellfire cuspidos por drones, e eis aí uma perfeita operação mini-Choque e Pavor em honra ao Califa Ibrahim, também conhecido como Abu Bakr al-Baghdadi, autodeclarado líder do Estado Islâmico.

Com munição convencional de 950kg o Tomahawk NÃO é recomendado seu uso em áreas urbanas, mas ninguém não se preocupa com as vidas de civis, mas...
Os EUA só querem "mudança de regime" na Síria!
É tudo tãããão cirúrgico. Todos os alvos – de “supostos” depósitos de armas às grandes mansões em Raqqah (quartel-general dos asseclas do Califa) e pontos variados de controle – foram devidamente neutralizados, além de “dúzias de”, talvez 120, jihadistas.

E graças àqueles “mais de 40” (na conta de Samantha Power) ou “mais de 50” (na de John Kerry) aliados internacionais na coalizão dos desejantes [ou “coalizão dos dispostos”, como prefere Antonio Luiz M. C. Costa, de Carta Capital (NTs)] [2]. Os EUA nunca estão sós, embora, nesse caso, viajem escoltados, de facto, só pelas ditaduras & petrodólares do Golfo de sempre e pelo reino do Reizinho de Playstation, a Jordânia, todos loucos para se meterem em “atividades cinéticas”.

Novilíngua asséptica à parte, ninguém viu ou ouviu falar de Força Aérea do Conselho de Cooperação do Golfo mobilizada para bombardear a Síria. Afinal, todos os fantoches ali estão trêmulos de pavor de ter de dizer às respectivas populações que seus “governantes” estão – mais uma vez! – bombardeando outra nação árabe amiga. Quanto a Damasco, disse discretamente que havia sido “notificada” pelo Pentágono de que o território sírio seria bombardeado. Ninguém sabe o quê, exatamente, o Pentágono está contando a Damasco.

O Pentágono diz que seria apenas o começo de “campanha sustentada” – palavra-código para Longa Guerra e que, seja como for, é um dos nomes pelos quais atende a GGaT [Guerra Global ao Terror, ing. Global War on Terror (GWOT)]. E, sim: para todas as finalidades práticas, é coalizão de um-só. Chamêmo-la “Operação Tomahawk-eiem o Califa”.

Sou Corassão

Amarrem seus F-22s. Não, não vai dar. O tomahawk-eamento mal começara, quando um míssil Patriot israelense fabricado nos EUA derrubou um Su-24 sírio que, disseram os israelenses, teria “violado” espaço aéreo israelense nas colinas de Golan. Que tal essa, em termos de recado para exibir perfeita coordenação de movimentos com o Pentágono?

Corassão - era região da antiga Pérsia
Significa que não se trata só de bombardear o Califa. É só um preâmbulo disfarçado, antes de se porem a bombardear Bashar al-Assad e suas forças. E trata-se também de bombardear – oito ataques a oeste de Aleppo – um fantasma: uma célula al-Qaeda do misterioso grupo Corassão.

Não é surpresa que os fãs globais da escola Marvel Comics de geopolítica não estejam entendendo nada. Dois vilões ao mesmo tempo? Sim. E o segundo bandidão é ainda mais bandidão-do-mal que O Califa.

Ben Rhodes
Aquela espantosa inacreditável mediocridade, Ben Rhodes, vice-conselheiro de Obama para segurança nacional, definiu o Corassão como “um grupo de extremistas que compreende um número de indivíduos que estamos rastreando há muito tempo”.

A novilíngua do governo Obama reza, em uníssono, que o Corassão inclui ex-quadros da al-Qaeda, não só de todo o Oriente Médio – incluindo al-Qaeda no Iraque e a Frente al-Nusra – mas também do Paquistão e, ainda, uma extensão linha ultra-duríssima dos Talibã no Paquistão.

Que confusão! Al-Qaeda no Iraque é o embrião do ISIL, que se converteu em Estado Islâmico (EI). Frente al-Nusra é franquiada da al-Qaeda na Síria, aprovada pelo Diretor-presidente Executivo, Ayman al-Zawahiri. Todos aí se desprezam mutuamente, mas o Corassão tem o mérito de unificar e manter coesos os bandidos do Califa e os bandidos da al-Qaeda, num só grupo. Como se não bastasse, a Frente al-Nusra é, aos olhos de Washington, grupo de jihadistas “moderados”; praticamente, são “os nossos filhos-da-puta”. Difícil entender quem é quem? Não há problema: na dúvida, bombardeie todo mundo.

Assim se vê que O Califa, coitado, é notícia velha. Os bandidos fantasmagóricos do Corassão é que são notícia quentíssima –, tão do mal, eles, que o Pentágono está convencido de que têm planos para “um já iminente” novo 11/9.

O fantasma dentro da máquina GGaT

O Corassão é o perfeito fantasma ativo dentro da máquina GGaT; o alvo de uma guerra dentro de uma guerra. Porque a verdade é que Obama declarou duas guerras – enviou duas diferentes notificações ao Congresso, nos termos da Resolução sobre os Poderes de Guerra, cobrindo duas guerras: o Califa e o Corassão.

E quanta coisa esconde-se num nome? Ora... uma demonização extra mal disfarçada contra o Irã? E por que não? O Corassão histórico, a antiga Parthia, estendia-se do Irã, por ali, na direção do Afeganistão.

Muhsin al-Fadhli, líder do Corassão
O Corassão é governado teoricamente pelo Coringa, digo, desculpem, pelo gângster em meio período, o honcho da al-Qaeda, Muhsin al-Fadhli, nascido no Kuwait em 1981, também “alto assessor-facilitador e financiador” de Abu Musab al-Zarqawi no Iraque – no impagável perfil traçado pelo Departamento de Estado. Embora Ayman al-Zawahiri, sempre muito atento ao próprio perfil de Relações Públicas & marketing, não tenha reclamado os méritos, o Pentágono está convencido de que ele enviou al-Fadhli para a parte síria do Califato para atrair jihadistas ocidentais com passaportes da União Europeia, que conseguem furar a segurança de aeroportos e plantar bombas em jatos comerciais.

O Departamento do Tesouro está convencido de que al-Fadhli comanda até uma célula da al-Qaeda no Irã – demonizar o Irã é vício duro de matar – “facilitando” a viagem de jihadistas para o Afeganistão ou o Iraque.

E que dramático contraste com O Califa, viciado em sociedade-do-espetáculo! O Corassão é o breu mais profundo, escuridão total. Ninguém sabe quantos são; há quanto tempo existem; o que realmente querem.

Por contraste, há cerca de 190 mil seres humanos vivos deixados para trás na Raqqa bombardeada até o osso. Ninguém está falando de dano colateral – embora a pilha de cadáveres já esteja aumentando; a ágil operação de Relações Públicas & marketing do Califa não tardará a exibi-la em spots de divulgação, pelo YouTube. Quanto aos bandidos do Califa, com certeza usarão táticas maoístas, e dissolver-se-ão no mar, feito peixe. Em breve o Pentágono estará bombardeando vastas áreas de deserto para nada – se já não estiver fazendo exatamente isso, nesse momento.

Já não existe nenhum “Exército Sírio Livre” – mito criado pelos qataris. Não sobrou nenhumjihadista “moderado” na Síria. Todos estão já empregados e lutando pelo Califa ou por al-Zawahiri. Pois ainda assim o governo Obama consegue um “OK” do Senado dos EUA para armar “rebeldes moderados”.

Samantha Power
A embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power − Rainha Primeira e Única da Piração Total de Cocô-na-Telha − pelo menos acertou uma. O “treinamento” deles “capacitará aqueles milicianos para a mesma luta na qual já estão desde o início desse conflito contra o regime de Assad”. Quer dizer... Está aí, tudo dito: essa “campanha sustentada” é a portinha do cachorro para voltar para “Assad tem de sair” remixed.

Gente realmente capaz de derrotar os bandidos do Califa não tomahawk-eia ninguém. Estão na luta há muito tempo. São os soldados do Exército Árabe Sírio e mais de 35 mil deles já morreram em ação contra ISIS/ISIL/EI e/ou al-Qaeda; são os combatentes do Hezbollah; são os operadores/conselheiros dos Guardas Revolucionários Iranianos; são os guerrilheiros curdos. Claro que não acontecerá assim.

O assunto arrasa-quarteirão esse ano é o Império do Caos bombardeando o Califa e o fantasma pirado dentro da máquina da GGaT. Dois ingressos pelo preço de um. Porque protegemos você até contra o mais “não sabido não sabido” dos males.

Notas dos tradutores

[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

[2] “Condenados à repetição”, Antônio Luiz M.C. Costa, Carta Capital, ano 20, n. 818, 24/9/2014, p. 50.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan Nimble Books, 2009.