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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Pepe Escobar: Operação “Tomahawk-eiem” O Califa

24/9/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama e seu Discurso de Guerra (10/9/2014)

“Há apenas duas horas, forças aliadas começaram um ataque contra alvos militares no Iraque e Kuwait”
— Pres. George H. W. Bush, 16/1/1991

“Hoje, mais cedo, ordenei que as forças armadas dos EUA atacassem alvos militares e de segurança no Iraque”
— Pres. Bill Clinton, 16/12/1998

“Meus concidadãos. Nesse momento, forças dos EUA e da coalizão estão nos estágios iniciais de operações militares para desarmar o Iraque, libertar seu povo e defender o mundo de grave perigo”
— Pres. George W. Bush, 19/3/2003

“Meus concidadãos. Essa noite, quero falar-lhes sobre o que os EUA farão, com nossos amigos e aliados, para degradar e, na sequência, destruir, o grupo terrorista conhecido como ISIL
— Pres. Barack Obama, 10/9/2014

 11/9/2014, Philip Gourevich, The New Yorker, em: 

Mísseis Tomahawk foram disparados contra áreas urbanas (Raqqa, Síria e Mosul, Iraque)
Os mísseis Tomahawks estão outra vez zunindo – impulsionados por novilíngua. 42 Tomahawks disparados de um destróier da VIª Frota estacionado no Mare Nostrum, mais F-22s do inferno e mísseis Hellfire cuspidos por drones, e eis aí uma perfeita operação mini-Choque e Pavor em honra ao Califa Ibrahim, também conhecido como Abu Bakr al-Baghdadi, autodeclarado líder do Estado Islâmico.

Com munição convencional de 950kg o Tomahawk NÃO é recomendado seu uso em áreas urbanas, mas ninguém não se preocupa com as vidas de civis, mas...
Os EUA só querem "mudança de regime" na Síria!
É tudo tãããão cirúrgico. Todos os alvos – de “supostos” depósitos de armas às grandes mansões em Raqqah (quartel-general dos asseclas do Califa) e pontos variados de controle – foram devidamente neutralizados, além de “dúzias de”, talvez 120, jihadistas.

E graças àqueles “mais de 40” (na conta de Samantha Power) ou “mais de 50” (na de John Kerry) aliados internacionais na coalizão dos desejantes [ou “coalizão dos dispostos”, como prefere Antonio Luiz M. C. Costa, de Carta Capital (NTs)] [2]. Os EUA nunca estão sós, embora, nesse caso, viajem escoltados, de facto, só pelas ditaduras & petrodólares do Golfo de sempre e pelo reino do Reizinho de Playstation, a Jordânia, todos loucos para se meterem em “atividades cinéticas”.

Novilíngua asséptica à parte, ninguém viu ou ouviu falar de Força Aérea do Conselho de Cooperação do Golfo mobilizada para bombardear a Síria. Afinal, todos os fantoches ali estão trêmulos de pavor de ter de dizer às respectivas populações que seus “governantes” estão – mais uma vez! – bombardeando outra nação árabe amiga. Quanto a Damasco, disse discretamente que havia sido “notificada” pelo Pentágono de que o território sírio seria bombardeado. Ninguém sabe o quê, exatamente, o Pentágono está contando a Damasco.

O Pentágono diz que seria apenas o começo de “campanha sustentada” – palavra-código para Longa Guerra e que, seja como for, é um dos nomes pelos quais atende a GGaT [Guerra Global ao Terror, ing. Global War on Terror (GWOT)]. E, sim: para todas as finalidades práticas, é coalizão de um-só. Chamêmo-la “Operação Tomahawk-eiem o Califa”.

Sou Corassão

Amarrem seus F-22s. Não, não vai dar. O tomahawk-eamento mal começara, quando um míssil Patriot israelense fabricado nos EUA derrubou um Su-24 sírio que, disseram os israelenses, teria “violado” espaço aéreo israelense nas colinas de Golan. Que tal essa, em termos de recado para exibir perfeita coordenação de movimentos com o Pentágono?

Corassão - era região da antiga Pérsia
Significa que não se trata só de bombardear o Califa. É só um preâmbulo disfarçado, antes de se porem a bombardear Bashar al-Assad e suas forças. E trata-se também de bombardear – oito ataques a oeste de Aleppo – um fantasma: uma célula al-Qaeda do misterioso grupo Corassão.

Não é surpresa que os fãs globais da escola Marvel Comics de geopolítica não estejam entendendo nada. Dois vilões ao mesmo tempo? Sim. E o segundo bandidão é ainda mais bandidão-do-mal que O Califa.

Ben Rhodes
Aquela espantosa inacreditável mediocridade, Ben Rhodes, vice-conselheiro de Obama para segurança nacional, definiu o Corassão como “um grupo de extremistas que compreende um número de indivíduos que estamos rastreando há muito tempo”.

A novilíngua do governo Obama reza, em uníssono, que o Corassão inclui ex-quadros da al-Qaeda, não só de todo o Oriente Médio – incluindo al-Qaeda no Iraque e a Frente al-Nusra – mas também do Paquistão e, ainda, uma extensão linha ultra-duríssima dos Talibã no Paquistão.

Que confusão! Al-Qaeda no Iraque é o embrião do ISIL, que se converteu em Estado Islâmico (EI). Frente al-Nusra é franquiada da al-Qaeda na Síria, aprovada pelo Diretor-presidente Executivo, Ayman al-Zawahiri. Todos aí se desprezam mutuamente, mas o Corassão tem o mérito de unificar e manter coesos os bandidos do Califa e os bandidos da al-Qaeda, num só grupo. Como se não bastasse, a Frente al-Nusra é, aos olhos de Washington, grupo de jihadistas “moderados”; praticamente, são “os nossos filhos-da-puta”. Difícil entender quem é quem? Não há problema: na dúvida, bombardeie todo mundo.

Assim se vê que O Califa, coitado, é notícia velha. Os bandidos fantasmagóricos do Corassão é que são notícia quentíssima –, tão do mal, eles, que o Pentágono está convencido de que têm planos para “um já iminente” novo 11/9.

O fantasma dentro da máquina GGaT

O Corassão é o perfeito fantasma ativo dentro da máquina GGaT; o alvo de uma guerra dentro de uma guerra. Porque a verdade é que Obama declarou duas guerras – enviou duas diferentes notificações ao Congresso, nos termos da Resolução sobre os Poderes de Guerra, cobrindo duas guerras: o Califa e o Corassão.

E quanta coisa esconde-se num nome? Ora... uma demonização extra mal disfarçada contra o Irã? E por que não? O Corassão histórico, a antiga Parthia, estendia-se do Irã, por ali, na direção do Afeganistão.

Muhsin al-Fadhli, líder do Corassão
O Corassão é governado teoricamente pelo Coringa, digo, desculpem, pelo gângster em meio período, o honcho da al-Qaeda, Muhsin al-Fadhli, nascido no Kuwait em 1981, também “alto assessor-facilitador e financiador” de Abu Musab al-Zarqawi no Iraque – no impagável perfil traçado pelo Departamento de Estado. Embora Ayman al-Zawahiri, sempre muito atento ao próprio perfil de Relações Públicas & marketing, não tenha reclamado os méritos, o Pentágono está convencido de que ele enviou al-Fadhli para a parte síria do Califato para atrair jihadistas ocidentais com passaportes da União Europeia, que conseguem furar a segurança de aeroportos e plantar bombas em jatos comerciais.

O Departamento do Tesouro está convencido de que al-Fadhli comanda até uma célula da al-Qaeda no Irã – demonizar o Irã é vício duro de matar – “facilitando” a viagem de jihadistas para o Afeganistão ou o Iraque.

E que dramático contraste com O Califa, viciado em sociedade-do-espetáculo! O Corassão é o breu mais profundo, escuridão total. Ninguém sabe quantos são; há quanto tempo existem; o que realmente querem.

Por contraste, há cerca de 190 mil seres humanos vivos deixados para trás na Raqqa bombardeada até o osso. Ninguém está falando de dano colateral – embora a pilha de cadáveres já esteja aumentando; a ágil operação de Relações Públicas & marketing do Califa não tardará a exibi-la em spots de divulgação, pelo YouTube. Quanto aos bandidos do Califa, com certeza usarão táticas maoístas, e dissolver-se-ão no mar, feito peixe. Em breve o Pentágono estará bombardeando vastas áreas de deserto para nada – se já não estiver fazendo exatamente isso, nesse momento.

Já não existe nenhum “Exército Sírio Livre” – mito criado pelos qataris. Não sobrou nenhumjihadista “moderado” na Síria. Todos estão já empregados e lutando pelo Califa ou por al-Zawahiri. Pois ainda assim o governo Obama consegue um “OK” do Senado dos EUA para armar “rebeldes moderados”.

Samantha Power
A embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power − Rainha Primeira e Única da Piração Total de Cocô-na-Telha − pelo menos acertou uma. O “treinamento” deles “capacitará aqueles milicianos para a mesma luta na qual já estão desde o início desse conflito contra o regime de Assad”. Quer dizer... Está aí, tudo dito: essa “campanha sustentada” é a portinha do cachorro para voltar para “Assad tem de sair” remixed.

Gente realmente capaz de derrotar os bandidos do Califa não tomahawk-eia ninguém. Estão na luta há muito tempo. São os soldados do Exército Árabe Sírio e mais de 35 mil deles já morreram em ação contra ISIS/ISIL/EI e/ou al-Qaeda; são os combatentes do Hezbollah; são os operadores/conselheiros dos Guardas Revolucionários Iranianos; são os guerrilheiros curdos. Claro que não acontecerá assim.

O assunto arrasa-quarteirão esse ano é o Império do Caos bombardeando o Califa e o fantasma pirado dentro da máquina da GGaT. Dois ingressos pelo preço de um. Porque protegemos você até contra o mais “não sabido não sabido” dos males.

Notas dos tradutores

[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

[2] “Condenados à repetição”, Antônio Luiz M.C. Costa, Carta Capital, ano 20, n. 818, 24/9/2014, p. 50.
___________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan Nimble Books, 2009.

sábado, 15 de junho de 2013

Obama começa a destruir a Síria

14-16/6/2013, Franklin Lamb, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Franklin Lamb
Beirute – Por que Obama declarou guerra à Síria? A resposta curta é: Irã e Hezbollah, segundo fontes do Congresso dos EUA:

A vitória do exército sírio em al-Qusayr foi mais do que o governo Obama pode aceitar, dada a posição estratégica da cidade na região. A vitória das forças de Assad nessa cidade acrescenta a Síria à lista de vitórias do Irã, começando com o Afeganistão, Líbano, Iraque. Além da crescente influência do Irã no Golfo.

A perda de al-Qusayr perto da fronteira Síria-Líbano foi estrategicamente fatal para a derrota dos "rebeldes" da OTAN. A rota Damasco-Homs-Aleppo ficou aberta para as tropas de Assad

Outras fontes dizem que Obama não queria invocar ajuda militar direta aos rebeldes que lutam para derrubar o governo de Assad, nem queria ver militares norte-americanos na Síria, e por várias razões. Dentre elas, a falta de apoio, dentro dos EUA, para mais uma guerra norte-americana no Oriente Médio; a evidência de que não há alternativa viável para o governo de Assad; a posição da comunidade de inteligência dos EUA, do Departamento de Estado e do Pentágono, para quem uma intervenção na Síria teria consequências potencialmente desastrosas para os EUA e arrasaria qualquer influência positiva que os EUA ainda tenham conseguido preservar na Região.

O pacote de "democracy made in USA" de Obama... O mesmo da Líbia...

Em resumo, é a opinião de todos que entendem que qualquer envolvimento dos EUA na Síria levará a resultado ainda pior que o que se viu no Iraque; que intensificará uma guerra regional sectária, sem qualquer resultado positivo à vista.

Obama chegou a dar sinais de que estaria atuando com alguma seriedade, buscando um acordo diplomático negociado (antes de Qusayr) e viam-se até sinais positivos vindos de Damasco, Moscou, e até de Teerã – como disse John Kerry.

Mas tudo isso mudou, em parte porque os dois lados, Rússia e EUA, endureceram no quesito reivindicações. Consequência disso, o governo Obama acaba de abandonar completamente a via diplomática.

Em vários contatos com pessoal do Congresso dos EUA, ouvi que a equipe de Obama concluiu que o governo Assad não estaria aceitando a mensagem dos EUA ou não a estaria levando a sério. E que os avanços militares recentes do exército sírio, com o crescente apoio popular, significariam que nenhuma Conferência Genebra 2 seria jamais bem-sucedida em direção que interessasse aos EUA.

McCain e Lindsay Graham
Além disso, Obama estaria cada vez mais fraco no plano doméstico, além de vários escândalos – com destaque para as revelações que afinal vêm a público, sobre invasão massiva de privacidade dentro dos EUA, pela Agência de Segurança Nacional. E há também o “lobby pró-guerra”, comandado pelos senadores McCain e Lindsay Graham, que já disseram, até, que Obama teria traído o juramento que fez ao assumir a presidência e estaria pondo em risco “interesses da segurança nacional dos EUA”, porque estaria “entregando a Síria ao Irã – logo que Assad consiga conter o levante da oposição”. Esses dois senadores festejaram a conclusão sobre “armas químicas”. Durante meses, repetiram incessantemente que Obama não estava ajudando devidamente os “rebeldes”. “A credibilidade dos EUA está ameaçada” – disseram em declaração conjunta, essa semana. “Já não é hora para nos limitarmos só a pequenos passos. A hora exige ação para decidir” (e citaram os mísseis de longo alcance para destruir o poder aéreo e os mísseis de Assad).

Robert P. Casey
Outro senador neoconservador, Robert P. Casey Jr. (D-Pa.), disse que:

(...) as forças da oposição serão derrotadas se não receberem armamento mais pesado, mas acrescentou, só as armas talvez não bastem. Os EUA devem mover-se imediatamente para alterar o equilíbrio em solo na Síria, destruindo a aviação síria e implantando uma zona aérea de exclusão no norte da Síria, usando para isso os mísseis Patriot que temos na Turquia.

Segundo alguns analistas, Obama poderia, como alternativa, autorizar a entrega de armas e treinamento para a oposição síria na Jordânia, sem zona aérea de exclusão. Não foi considerada via possível, segundo esses meus interlocutores em Washington, porque o Pentágono quer pôr fim à crise síria até o fim desse verão [aqui, do inverno], como ouvi, em vez de:

(...) ter de trabalhar no longo prazo com bandos de jihadistas nos quais não se pode jamais confiar ou dos quais não se pode depender. O governo Obama, ao que parece, concluiu que entre entrar lá por pouco ou por tudo, melhor entrar de vez. Isso significa impedir o Irã de controlar a Síria, e o Hezbollah, de tomar conta do Líbano.

John Kerry
O secretário de Estado Kerry reuniu-se com mais de duas dúzias de especialistas militares dia 13/5/2013. O Washington Post está noticiando que Kerry entende que:

(...) fornecer armas aos rebeldes pode ser pouco e vir tarde demais, para realmente alterar a correlação de forças em campo na Síria; que a situação exige ataque militar para paralisar as capacidades militares de Al-Assad.

Fonte do Pentágono disse que EUA, França e Grã-Bretanha consideram uma ação decisiva para reverter o momentum de Assad e rapidamente construir ímpeto a favor dos “rebeldes”, com prazo que não exceda o fim desse verão [inverno aqui].

rei Abdullah
Pouco depois de iniciada aquela reunião, o rei Abdullah da Arábia Saudita voltou para a Arábia Saudita, de seu palácio em Casa Blanca, Marrocos, depois de receber telefonema de seu chefe de inteligência, príncipe Bandar Bin Sultan. Bandar, segundo o noticiário, tinha um representante na Casa Branca, presente às reuniões com a equipe de Obama. Os mesmos noticiários dizem que o rei Abdullah teria sido aconselhado por Kerry a preparar-se para rápida expansão no crescente conflito regional.

O que acontecer entre hoje e o fim do verão [inverno aqui] será provavelmente catastrófico para os sírios e talvez também para o Líbano.

Ninguém no Capitólio dá qualquer importância à “linha vermelha” das armas químicas, porque não há qualquer prova que já não fosse conhecida há meses, as mesmas que agora voltam a ser citadas para justificar o que pode tornar-se, essencialmente, guerra total contra o governo sírio e quem mais se interponha. Frases feitas sobre as 125 mortes que teriam sido causadas por armas químicas, não importa quem as tenha usado, somem, à vista das mais de 50 mil novas mortes nos próximos meses: esse é o número que os planejadores do Pentágono e a Casa Branca “orçaram”, como preço a pagar para derrubar o governo de Assad.

Em e-mail para mim, um funcionário da Comissão de Relações Externas do Senado escreveu:

(...) o presidente tomou a decisão de garantir toda a ajuda humanitária além de apoio político e diplomático à oposição que sejam necessários. Além disso, dará apoio direto ao Conselho Militar Supremo, inclusive apoio militar.

Ben Rhodes
Minha fonte citou palavras do vice-conselheiro de Segurança Nacional, Ben Rhodes, para a mídia, na mesma direção, dia 13/6/2013. 
Como parte dessa “ajuda humanitária”, os EUA estabelecerão nas próximas semanas uma

(...) zona aérea de exclusão limitada, humanitária, que começará a algumas milhas das fronteiras jordaniana e turca em algumas áreas militares em território sírio, e será implantada e apresentada como movimento limitado para treinar e equipar forças rebeldes e proteger refugiados.

Mas, na realidade, como todos vimos acontecer na Líbia, é praticamente certo que qualquer zona aérea de exclusão incluirá todo o território sírio.

As zonas aéreas de exclusão na Líbia já mostraram bem claramente que não existe “zona limitada”. Em resumo: uma “zona aérea de exclusão” significa declaração de guerra total. A partir do momento em que os EUA e seus aliados comecem qualquer “zona aérea de exclusão”, eles a expandirão sempre, cada dia com mais intensidade, e empreenderão incontáveis ataques militares para proteger suas “zonas” até derrubarem o governo sírio. “É angustiante esperar para ver como isso tudo acabará e como Irã e Rússia responderão” – concluiu uma das minhas fontes.

A Casa Branca está tentando convencer alguns poucos recalcitrantes no Congresso e a maioria da opinião pública norte-americana de que o envolvimento dos EUA será limitado e que a zona aérea de exclusão não implica a destruição total das baterias antiaéreas sírias. Mais e mais nonsense.

Na zona aérea de exclusão que testemunhei na Líbia, no verão de 2011, os EUA a apoiaram de todos os modos, com reabastecimento, guerra eletrônica, agentes especiais em terra e, em meados de julho, nem uma criança pedalando numa bicicleta foi poupada. Durante os 192 dias em que patrulharam as zonas aéreas de exclusão na Líbia, os países da OTAN fizeram 24.682 voos-ataques, incluindo 9.204 ataques a bombas. 

A OTAN anunciou que nunca errou alvo, mas isso também é mentira. 

Centenas de civis foram mortos na Líbia em ataques para implantar e manter a zona aérea de exclusão, que erravam o alvo, ou eram aviões que, simplesmente, descarregavam a munição transportada, antes de retornarem à base; foram aproximadamente 48 bombardeios por dia, usando vários tipos de bombas e mísseis, inclusive mais de 350 mísseis Tomahawks.

Robert Gates
Em depoimento ao Congresso, em 2011, o então secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates não mentiu quando explicou, discutindo a Líbia, que:

(...) uma zona aérea de exclusão começa com um ataque para destruir todas as defesas aéreas (...). Depois se pode voar por todo o país, sem se preocupar com nossos rapazes serem derrubados. Mas começa assim.

Em resposta a pergunta que lhe fiz, sobre como supõe que os eventos desenrolem-se nessa região nos próximos meses, um assessor muito experiente e atento, de um senador, respondeu:

Bem, Franklin... Talvez alguém tire um coelho da cartola e consiga sustar o ímpeto em direção à guerra. Mas, francamente, duvido. De onde estou, o que vejo é que a Síria que conhecemos em breve já não existirá. E talvez, com ela, sumam também outros países da região.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

“Zero coturnos” dos EUA em solo afegão?!


11/1/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Vivemos mesmo tempos extraordinários, de “todas as opções” sempre “sobre a mesa” – para Irã, Coreia do Norte, talvez Síria. Pois agora o Afeganistão foi acrescentado à lista. As declarações do Vice-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Ben Rhodes, na 3ª-feira, segundo as quais o governo Obama também considera uma “opção zero soldados” no Afeganistão pós-2014 surpreendeu e desestabilizou muita gente.

Ben Rhodes
Será verdade? Rhodes declarou realmente o que se diz que teria declarado? Fará exata ideia do significado do que disse? Obama estaria realmente considerando a tal opção? Vai-se ver nesse caso, a verdade interessa pouco. Em termos políticos, permanece no ar, em todos os casos, uma complexa mensagem política para vários públicos.

Lembremos que o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai acaba de pousar em solo norte-americano para confabular com Obama sobre o papel dos EUA no período pós-2014.

Karzai leva com ele uma lista de desejos. Quer 100% de certeza de que o compromisso dos EUA com a estabilização do Afeganistão continuará, mesmo depois da retirada de parte dos soldados prevista para acontecer ao longo desse ano e do próximo.

Por mais que Karzai não perca chance de repetir que é ele quem manda em sua casa, sabe com certeza que, sem o apoio continuado dos EUA, a casa ruirá como castelo de cartas. Nada além de realismo pedestre combinado a agudo instinto de sobrevivência em país difícil.

Não esqueçamos que, das três dúzias de brigadas do exército afegão que a OTAN treinou em todos esses anos, só uma tem competência para não se deixar exterminar, no calor de um confronto com os guerrilheiros Talibã. Vamos e venhamos: é grave.

Mas, dirão os americanos, não há almoço gratuito. Se mesmo assim os soldados dos EUA são necessários no Afeganistão, então... nesse caso... Só se o Pentágono mantiver pleno controle sobre eles e se receberem plena imunidade legal, de forma a que absolutamente não possam ser acusados ou julgados ou condenados por leis afegãs (mesmo no caso de cometerem “transgressões” – por exemplo: estupro coletivo de mulher afegã; urinar sobre o Corão; invadir casas afegãs em missão de busca e destruição de bens e moradores etc., etc.).

Mais importante: Washington quer garantias, preto no branco, escritas e assinadas, documento solene – o que tecnicamente se chama “Acordo sobre a Situação das Tropas” [ing. Status of Forces Agreement, SOFA].

Hamid Karzai
Ora, Karzai sabe que essa é a questão que pode matar todo o negócio. Foi mediante um SOFA, por exemplo, que o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki conseguiu livrar-se dos soldados dos EUA, ao mesmo tempo em que dava a impressão de que queria mantê-los no Iraque no médio e longo prazo. Mas Karzai não é Maliki, e o Afeganistão não é o Iraque.

Karzai trabalhou muito para conseguir um “consenso” afegão a favor de atender ao que exigem os norte-americanos. Mas essa não é precisamente uma daquelas situações em que um Lawrence da Arábia podia pegar um pedaço de papel e escrever promissória a ser paga por Sua Majestade em Londres, a qual valia aos olhos do chefe beduíno no Golfo de Aqaba como propina paga em moeda de ouro, para “incentivizá-lo” [orig. ‘incentivise’] a envolver-se na “revolta árabe” contra os Otomanos Turcos.

Dito de forma simples, Karzai não tem a necessária capacidade para entregar o seu tal consenso nacional afegão, em bandeja de prata, no Salão Oval. E Rhodes enviou a bola de volta para o campo de Karzai, ao fazê-lo lembrar gentilmente que “Caro presidente Karzai, é tudo ou nada...”.

Ao enunciá-lo a plenos pulmões, Rhodes também espera que suas palavras ecoem no bazaar afegão e ajudem a arregimentar alguma opinião pública naquele país tão gravemente fragmentado, a favor de um acordo Estado das Forças com as feições que o Pentágono exige.

A jogada funcionará? Matéria distribuída pela Radio Free Europe/Radio Liberty  (RFERL, mantida pelos EUA) insiste que sim, que a jogada está dando certo, que Rhodes abalou os nervos afegãos, que os afegãos estão mortos de medo de que os EUA os abandonem lá, atirados aos lobos, adotando sua “opção zero”.

Falando francamente, a farsa é muito flagrante. Os Talibã devem estar rindo às gargalhadas deles todos: de Karzai, de Rhodes e da Radio Free Europe/Radio Liberty.

Do ponto de vista dos Talibã, “opção zero” significa que os EUA estão reduzidos hoje a zero opções no Afeganistão, exceto pôr fim àquela guerra fútil.

Nem qualquer potência regional levará a sério ameaças de Rhodes. Das capitais regionais, só se ouve o mais ensurdecedor silêncio. Rhodes não explicou por que, se realmente há a tal “opção zero” sobre a mesa no Salão Oval, o Pentágono consumiu centenas de milhões de dólares, ano passado, para reformar e remobiliar as bases militares em Bagram, Herat, Kandahar, Jalalabad etc. – que já lá estão, perfeito lar-doce-lar longe de casa para os soldados norte-americanos.



*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.