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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mais uma imensa vitória diplomática da Rússia

 13/5/2015, The SakerThe Vineyard of the Saker 
Yet another huge diplomatic victory for Russia
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 
 
The Saker
A menos que você leia russo ou monitore a blogosfera independente, é possível que você não tenha percebido, mas aconteceu evento realmente importante na Rússia: Kerry, Nuland e uma grande delegação do Departamento de Estado viajaram a Sochi onde o Ministro de Relações Exteriores os recebeu e, depois, foram recebidos também pelo presidente Putin. Com o presidente Putin, o pessoal aí passou mais de quatro horas. E não só isso, mas Kerry fez alguns comentários interessantes; disse que o Acordo Minsk-2 (M2A) é a única saída e que vai advertir seriamente Poroshenko, de que não é prudente reiniciar operações militares.
 
Bem-vindo à realidade, John!
Dizer que é evento extraordinário é pouco. 
 
Para começar, o chamado “isolamento da Rússia” está oficialmente cancelado, bem claramente, e pelo próprio “Império Indispensável”! 
 
Segundo, é, tanto quanto sei, o primeiro endosso oficial dos EUA ao M2A. É grande humilhação para os EUA, considerando que o Acordo Minsk-2 foi negociado sem os norte-americanos. 
 
Terceiro, pela primeira vez os EUA realmente alertaram a junta nazi-ucraniana contra a ideia de um ataque militar. Isso – num momento em que os nazi-ucranianos estão em pleno frenesi bélico e Poroshenko prometeu reconquistas não só o aeroporto de Donetsk, mas todo o Donbass e até a Crimeia – mostra que, pela primeira vez os EUA e Kiev não estão na mesma página. 
 
Quarto, os EUA, pela primeira vez, reconheceram que se o Acordo Minsk-2 for implantado, as sanções norte-americanas e da UE serão levantadas. Muito interessante: os russos não deram nenhum sinal de interesse em discutir o item “sanções”. 
 
Assim sendo, o que significa tudo isso? 
 
No momento, pouca coisa. 
 
Os norte-americanos são péssimos negociadores, e na discussão de cada item de qualquer negociação EUA-Rússia sobre o conflito na Ucrânia, os negociadores russos sempre deixam “no chinelo” os seus “parceiros geoestratégicos” norte-americanos (“parceiros geoestratégicos” é a expressão quase oficial, irônica, que os russos usam ao referir-se ao “ocidente”). O que acontece, tipicamente, é que Kerry aceita tudo, durante a negociação; depois volta para Washington e diz exatamente o contrário do que tenha ficado “acertado”. Os russos sabem disso, e a imprensa russa, nas suas análises, sempre considera esse traço dos norte-americanos. 
 
De qualquer modo, os EUA podem zig e depois zag o quanto queiram e quantas vezes queiram, mas nem por isso conseguem modificar a realidade. A recente presença de soldados chineses e indianos na Praça Vermelha mostrou que a ideia de “Rússia isolada” já não faz sentido algum, e pensem Kerry & Co. o que queiram, aceitem ou não. 
 
Victoria Nuland
Houve também o comportamento interessantíssimo da Nuland, que foi à Rússia, sim, na delegação de Kerry: ela se recusou a falar à imprensa e andava com ar muito infeliz.
 
Por fim, rápido exame dos troncos falantes imperiais televisionais mostra que o Departamento da Propaganda Imperial está sem saber o que fazer dessa viagem e desses fatos. 
 
Mas... E o que realmente está acontecendo? 
 
Sinceramente, ainda é muito cedo para falar, e é muito alta a probabilidade de os EUA “zaguearem” outra vez como fazem sempre. 
 
Mas, tudo isso considerado, é *possível* que os EUA tenham (afinal!) percebido alguns fatos básicos: 
 
1) A Rússia não retrocederá 
2) A Rússia está pronta para a guerra 
3) A Ucrânia ocupada pelos nazistas está desabando 
4) A maior parte do mundo apoia a Rússia 
5) Toda a política dos EUA para a Rússia fracassou.
 
Todos os itens acima são muito claros para qualquer observador medianamente competente, mas para um governo intoxicado de húbris imperial, de ignorância crassa e em estado de negação obsessiva, essas realidades são MUITO dolorosas, quase impossíveis de engolir. Mas se insistirem em negá-las, criam para eles próprios o risco de, no frigir dos ovos, os EUA levarem uma bomba nuclear pela popa. Como diz o povo, quanto mais alguém enfia a cabeça na areia, mais eleva ao vento o traseiro. 
 
Assim, é possível que o que acaba de acontecer seja o primeiro sinal de que os EUA estariam recobrando a consciência. E Kerry veio explorar com Lavrov e Putin se resta alguma saída que salve a cara da potência indispensável. Se for isso, as notícias para Poroshenko são terminais, porque tudo isso significa que os EUA jogaram a toalha e estão descartando completamente os doidos que puseram no poder em Kiev. 
 
Kerry e Putin em Sochi (12/5/2015)

Além do mais, pode haver aí, também, um sinal de que os analistas militares norte-americanos fizeram avaliação extremamente negativa da mudança de rota inventada pelos Ucranazis, sobre a planejada “reconquista” do Donbass. A viagem à Rússia e o endosso oficial que Kerry deu ao Acordo Minsk-2 pode ser a mensagem que os EUA estão enviando a Poroshenko:
 
Esqueça a “reconquista”! Não deu certo e não dará!

De qualquer modo, recomendo cautela e nenhum otimismo prematuro. Considero como praticamente uma “quase-certeza” que os EUA desmentirão tudo o que disseram em Moscou. Minha esperança é que o zig-zagueio, dessa vez, tenha de ser de magnitude bem limitada; e que, quando acontecer, tenha mais a ver com oferecer a Obama uma saída que lhe salve a cara, do que com alguma negação doentia da realidade. 
 
O que é certo é que a Rússia venceu mais uma batalha nessa guerra longa, e que todos os indícios apontam para a derrota inevitável do Império.


The Saker

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Genebra-2 gera esperanças sobre a Síria, mas com condições

14/1/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

John Kerry entrega duas grandes batatas de Idaho à Sergey Lavrov
(Ao vencedor, as batatas!)
Nunca saberemos se o estranho presente protocolar – duas grandes batatas de Idaho – que o secretário de estado dos EUA, John Kerry deu ao Ministro de Relações Exteriores da Rússia, no encontro entre eles na 2ª-feira em Paris para discutir a Síria, ia embalado numa metáfora política. Kerry insistiu que não havia “nenhum significado (...) e nenhuma metáfora” ocultados no presente. Lavrov não parece muito convencido.

Pelo menos, o presente chamou atenção para a renitência empedernida das relações EUA-Rússia e os “alertas” relacionados à disposição para realizar a conferência Genebra-2, que se espera que comece daqui a uma semana (dia 22/1). Kerry e Lavrov insistem que devem trabalhar a favor de um cessar-fogo limitado na luta na Síria e de abertura de um corredor para levar ajuda humanitária a civis nos subúrbios de Damasco, para criar “clima” para Genebra-2.

Conquanto possa haver aí indicações de que estejam havendo progressos na trilha política e diplomática, “as letras pequenas” não favorecem boas razões para otimismo. A fala de Kerry assumiu diferentes tons, conforme a pessoa para a qual estivesse falando, em diferentes momentos do dia de ontem – para Lavrov, para o Ministro francês de Relações Exteriores, Laurent Fabius, para o Ministro de Relações Exteriores do Qatar, Khalid bin Muhammad al-Atiyah, ou para o Ministro de Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu.

Terroristas "rebeldes" ainda dominam alguns subúrbios de Damasco
As transcrições dessas falas são janelas fantásticas para explorar os agudos dilemas que há à frente de EUA e Rússia, no trabalho de pôr fim ao conflito sírio. Primeiro de tudo: o que desejam os próprios protagonistas sírios? Nem o regime nem a oposição linha-dura, os que realmente contam na mesa de conversações sobre paz (quer dizer: quem realmente está lutando em campo), desistiram, até agora, da esperança de obter vitória militar completa – embora sejam remotas as chances de que o impasse atual possa mudar significativamente a favor de qualquer dos dois lados em futuro próximo ou medianamente distante.

Assim sendo, é normal e previsível que os dois lados só desejem aparecer em posições de força, em sejam quais forem as conversações de paz – e a oposição entende que o governo está hoje ligeiramente mais bem posicionado, o que, é claro, é inaceitável, do ponto de vista da oposição. O regime, por sua vez, confia suprema e absolutamente na vitória final, dada a confusão que reina nas hostes da oposição.

O regime depende criticamente do apoio de quadros especialistas do Irã e do Hezbollah – e do apoio material e de inteligência dos russos. Por outro lado, não importa a ameaça de EUA e Grã-Bretanha, de que suspenderão toda a ajuda que dão aos rebeldes caso não participem de Genebra-2; as “letras pequenas”, outra vez, mostram que essa ajuda pouca diferença faz, enquanto permanecer inalterada a ajuda que os mesmos rebeldes recebem da Arábia Saudita, do Qatar e da Turquia.

O ônus cai sobre Washington, de ter de confiar em aliados regionais e em Moscou para influenciar o regime (e o Irã), o que é muito mais fácil dizer, que fazer. Pode-se dizer, forçando a expressão, que esse seria o “significado” das batatas de Idaho: duas “batatas quentes”.

Bashar al-Assad
O ponto é que a ascensão de afiliados extremistas da al-Qaeda dentro da oposição preocupa os EUA. Mas os EUA não estão prontos para aceitar acordo de paz que deixe Bashar al-Assad no poder, solução com a qual os EUA entendem (com boa razão) que não conseguirão trabalhar. Por outro lado, os EUA não têm como dar qualquer garantia razoável aos rebeldes de que Genebra-2 possa pavimentar o caminho para a substituição de Assad e de seu governo.

Rússia e Irã, pelo outro lado, dificilmente participarão de projeto que vise a descartar Assad, um governo cuja continuidade lhes interessa hoje – exceto, talvez, se se criar fórmula mais ampla que atenda às exigências geopolíticas daqueles países. Mas Moscou e Teerã não desejam que o conflito sírio prolongue-se indefinidamente ou assuma a natureza de mais uma “guerra à distância” ou atoleiro.

Entremeado nisso tudo há a narrativa épica da rivalidade sauditas-iranianos que se desenrola no vasto teatro sírio-libanês-iraquiano, sobre a qual, nem EUA, nem Rússia têm capacidade para influir. Em última análise, só Riad e Teerã podem ordenar o término dessa rivalidade antiga, tornada mais empedernida pelo cisma sectário sunita-xiita; e em nenhum caso a política regional admitiria que terminasse, não, pelo menos, hoje, ou até que o engajamento EUA-Irã avance para estágio mais desenvolvido, quando então um “reset” da rivalidade torne-se inegável e inevitável.

Feitas todas essas contas, os protagonistas sírios parecem ter razão na confiança que mostram hoje de que serão deixados entregues a eles mesmos no futuro próximo, para decidir tudo em solo. Dito de forma simples, enquanto perdurar a falta de transparência nas relações gerais EUA-Rússia, o peixe pequeno continuará a gozar de muito espaço e liberdade para deambular como queira no pesqueiro sírio.

Mas esse nível de transparência no tango EUA-Rússia também é difícil de alcançar, por outra razão. Afinal, lidando simultaneamente com tantas contradições, que opções estão acessíveis para os EUA? Já se assume hoje que uma intervenção militar ocidental esta descartada. Mas... e se o impasse prosseguir – ou levar a “vitória” completa de Assad? Comentário publicado em People Daily, distribuído pela rede chinesa Xinhua, chega bem perto de acertar: diz que, embora Genebra-2 faça crescer a esperança de que o problema sírio possa ser resolvido por meios políticos, “há condições”.

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

domingo, 21 de julho de 2013

Snowden: Hora da verdade para Rússia e EUA

19/7/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Durante a reunião do Grupo dos Oito na Irlanda do Norte, mês passado, o presidente Vladimir Putin da Rússia, segundo o diz-que-disse dos bastidores diplomáticos, quis usar o ginásio para exercitar-se, no resort Enniskillen. Não conseguiu, porque Barack Obama já o havia requisitado.

Putin nadando no Lough Erne (Irlanda do Norte) numa folga da última reunião do G8
Nenhum dos dois gostaria de partilhar os aparelhos, e Putin optou por um mergulho e braçadas no gelado Lough Erne, aventura excessiva para os músculos e histamina de Obama. É possível que sejam só bobagens, mas a historieta captura a situação incômoda em que estão, hoje, as relações Rússia-EUA.

Se a ninguém ocorrera que a clara linguagem corporal na reunião em Enniskillen revelava que as relações EUA-Rússia atingiam ali o ponto mais baixo em muitos anos, o caso de Edward Snowden, ex-funcionário e “vazador” de segredos da CIA, mostra que elas provavelmente piorarão ainda mais, antes de darem qualquer sinal de melhora.

Na Irlanda do Norte, Putin e Obama coabitaram numa mesma pequena cidade de veraneio. Segundo recentes indicações, Obama, irritado com a decisão do Kremlin de dar abrigo a Snowden, talvez cancele a visita bilateral a Moscou, em setembro, antes da reunião do Grupo dos 20 em São Petersburgo, que ele mesmo propôs.

As coisas estão mais frias que as águas do Lough Erne...
Por que as coisas chegaram a esse ponto? Em parte, pelo menos, a situação atual foi provocada por Pequim, querendo ou sem querer, quando meteu Snowden num voo da Aeroflot para Moscou, já sabendo que, porque Washington revogara seu passaporte, ele não teria documentos válidos para prosseguir viagem depois que o avião pousasse no aeroporto em Sheremetyevo.

Fyodor Lukyanov
Como Fyodor Lukyanov, figura importante no establishment da comunidade estratégica russa, observou em artigo no jornal oficial Rossiyskaya Gazeta na 3ª-feira,

Os serviços de inteligência da República Popular da China que meteram o americano num avião para Moscou e o convenceram de que estaria melhor lá merecem todos os elogios de seus chefes, porque pouparam a Pequim uma grande dor de cabeça. O resto foi menos bem feito.

Não há dúvida alguma de que Pequim agiu movida por diferentes motivos, para impedir que Snowden sequestrasse o nascente Novo Tipo de Relacionamento [orig. NTR - New Type of Relationship] entre China e governo Barack Obama. 

A China não extraiu bons efeitos de propaganda do caso Snowden, mas conseguiu livrar-se de ter de tomar decisões difíceis sobre o destino final do americano. Continua a criticar a Washington a “hipocrisia” de admitir ciberespiongem massiva, em escala gigante, contra países soberanos, e, ao mesmo tempo, forçou Moscou a responder a padrões de respeito a direitos humanos muito mais exigentes que os antes vigentes.

Desnecessária e mal feita

Mas a culpa, de fato, foi de Moscou, que errou ao não exercer a opção de deportar Snowden de volta a Hong Kong quando transpirou que o viajante em trânsito não portava documentos válidos para prosseguir viagem – que é prática usual e frequente. Não. Moscou optou por adotar uma saída formal legalista, segundo a qual Snowden não pisou território russo; e meteu-o sob uma redoma de segurança desnecessária e mal feita.

A invisível presença de Edward Snowden em Moscou
Mas, diferente do total e eficaz voto de silêncio em Pequim, começaram a surgir todos os tipos de comentários sobre a invisível presença de Snowden em Moscou, de fontes que iam de funcionários do governo russo a especialistas midiáticos em geral e políticos conhecidos, o que só conseguiu dar a impressão de que Moscou estaria num jogo de preliminares íntimas com Washington; e fez subir as expectativas de que fosse possível acertar algum acordo, talvez, com os EUA.

Por tudo isso, Moscou não pode agora começar lamentar-se de que Snowden tornou-se filho não desejado.

Washington, por sua vez, manteve sempre, consistentemente, a mesma linha, a partir do presidente Obama – que disse que, de modo algum haveria “manobras e conversas” com Moscou sobre Snowden; e que a Rússia tinha obrigação de expulsar Snowden que cometera crime grave conforme as leis dos EUA e teria de ser julgado por tribunais norte-americanos nos EUA.

William Burns
Os EUA também fizeram saber que nenhuma falta de cooperação de Moscou deveria contaminar negativamente as relações bilaterais.

O fato de um vice-secretário de Estado de alto nível, William Burns, velho e experiente operador dos EUA em Moscou, ter sido designado para administrar o caso Snowden mostra a importância que o governo Obama atribui à missão de tentar convencer os russos de que o Kremlin tem base legal suficiente e razões práticas para expulsar para os EUA um fugitivo sem documentos legais para viajar. É o mesmo que dizer a visita de Burns foi visita política.

Mas a posição que Moscou adotou é também absolutamente correta e legal. E, além disso, foi erigida sobre princípios morais “melhores”: a noção de que potência realmente grande e forte não pode deixar de lado ou desconsiderar as sempre importantes “considerações humanitárias”.

Acabaram-se as manobras e conversas

Mas a Rússia também espera que as relações Rússia-EUA continuem como se nada tivesse acontecido, tão logo mudem os ventos do interesse midiático, como tantas vezes aconteceu durante a Guerra Fria, apenas mais um caso a ser resolvido entre os dois governos. Eis como Lukyanov concluiu seu artigo:

Edward Snowden muito provavelmente logo obterá asilo temporário na Rússia, como ele mesmo disse; mas talvez permaneça por muito tempo na Rússia. Porque as circunstâncias que impedem que volte para casa ou mude-se para algum país da América Latina não desaparecerão tão cedo. Moscou e Washington têm interesse em que o caso seja esquecido o mais rapidamente possível e desapareça das manchetes. Só então será possível discutir tudo sem publicidade indesejada, para arrancar esse espinho cravado na carne das relações entre os dois países.

Kurmanbek Bakiyev
Lukyanov lembrou uma “solução elegante” construída em 2010 entre EUA e Rússia, quando o presidente Kurmanbek Bakiyev do Quirguistão foi derrubado e interessava simultaneamente a Moscou e Washington alocar o deposto chefe de Estado centro-asiático. Bakiyev, naquela ocasião, foi despachado para Minsk.

O governo Obama aceitaria alguma espécie de “fórmula Minsk” no caso Snowden? Eis a grande questão – e parece pouco provável que aceite, porque implicaria Washington fazer, essencialmente, o que Obama disse que não faria, a saber, “manobrar e conversar” com Pequim ou Moscou sobre o destino de Snowden.

Portanto, tudo considerado, aproxima-se uma difícil hora da verdade para Moscou e Washington no relacionamento pós-Guerra Fria. Para Moscou, nada menos que uma crise de identidade; para Washington, o que falta é uma sessão de terapia catártica no divã, que ajude os EUA a se entender melhor.

Para a Rússia, o caso Snowden exige um reboot na doutrina do Kremlin para a política exterior. Até aqui, tem sido política exterior carregada de “interesses nacionais”. Agora, a ideologia volta à cena. Talvez não a ideologia marxista, mas, ainda assim, uma ideologia humanista que dá primazia a “considerações humanitárias” na política exterior.

Até que ponto a Rússia pode praticar um política exterior carregada de ideologia, em mundo dividido por desigualdades, violência e autoritarismo? Isso é uma coisa.

A segunda pergunta é se influentes setores das elites russas aceitarão realmente a situação de serem confinadas a um ostracismo social pelo ocidente, que veem como seus parceiros naturais no norte?

O coração da matéria é que a aliança trans-Atlântica está sendo afinal montada, apesar de um ou outro eventual solavanco, e é questão que fere o orgulho norte-americano e faz os EUA aparecerem aos olhos do mundo como superpotência impotente, se os aliados dos EUA não puderem continuar a negociar normalmente com a Rússia.

Por outro lado, dada a formação social da Rússia no período pós-soviéticos, é improvável que a nata das elites moscovitas considere Bolívia ou Equador como destinos admissíveis para elas mesmas, sendo necessário, em substituição a Londres ou Zurich.

Isso nos leva a uma terceira pergunta, que concerne à ordem mundial na qual a Rússia precisa operar. Que ninguém se engane e suponha que os EUA reagirão positivamente a qualquer decisão que envolva “asilo” para Snowden – temporário ou outro. Se acontecer, o que virá?

BRICS
Até aqui, toda a trajetória das relações russo-americanas pós-soviéticos tem sido não confrontacional. Isso pode mudar. E é reflexo da ordem mundial na qual a Rússia tem de viver que, afinal, três (ou mesmo quatro, se se inclui a África do Sul) dos parceiros BRICS da Rússia (Brasil, Índia e China) sequer teriam considerado o curso de ação que Moscou parece estar escolhendo; a saber, dar abrigo a fugitivo da lei dos EUA, movidos por “considerações humanitárias”.

Reescrever a história do “velho Boris”

Em resumo, o caso Snowden exige que a Rússia defina o tipo de relacionamento que busca com o ocidente. Sim, é verdade, a Rússia está habituada a viver sob sanções ocidentais; mas naquele tempo era vida difícil não por escolha, mas por ausência de alternativa. Há limitações inerentes para a renovação e a globalização da economia russa sem a tecnologia e os investimentos ocidentais – por mais que se fale da “opção China”, do projeto da União Eurasiana ou da participação na Organização Mundial do Comércio.

Dito em palavras mais simples, Washington espera que a Rússia coopere – exatamente como Espanha, Itália, França e Portugal cooperaram e bloquearam a passagem do avião do presidente Evo Morales quando houve suspeitas de que Snowden estivesse a bordo – por mais furiosos que esses países estivessem em relação à ciberespionagem norte-americana. No mínimo, Washington esperaria da Rússia o mesmo grau de “pragmatismo”, que Pequim mostrou no caso Snowden.

Pode-se dizer que a armadilha que o governo Obama pôs no caminho da Rússia parece ser de a Rússia estar forçada a fazer uma escolha existencial sobre sua própria identidade e seu próprio papel como grande potência, de alcance e influência globais.

Bill Clinton e Strobe Talbott
Não é justo, porque os EUA até hoje só exigiram e exigiram, no relacionamento com a Rússia, sem atender nenhum dos pedidos dos russos. Como Bill Clinton disse certa vez ao ex-vice-secretário de Estado Strobe Talbott, num súbito surto de honestidade, quando Clinton era presidente e Boris Yeltsin estava no Kremlin:

Nós [EUA] nem sempre jogamos muito bem com aquela gente [russos]; nunca pensamos em um modo de dizer sim a eles, pensando em o quanto, quantas vezes, o quão frequentemente, quisemos que eles dissessem sim a nós. Só fazemos repetir ao Velho Boris, “OK, aqui está o que vocês têm de fazer – é mais merda na sua cara”.

Hoje, o governo Obama tem de considerar, nesse caso, que a equipe russa de Bill Clinton ainda continua quase totalmente intacta no circuito de Washington, apesar de o Velho Boris já ter deixado o Kremlin há 12 anos e seis meses. Dito em outras palavras, a Rússia não aceitará, dessa vez, “mais merda na cara”.

Se o governo Obama ainda tem alguma dúvida, as manobras militares das Forças Armadas russas, sem precedentes, que acontecem essa semana no Extremo Oriente devem fazer desaparecer qualquer vício de interpretação.

A Rússia não tem inimigos no Extremo Oriente. Nem a Rússia precisa preparar-se para qualquer provável guerra contra Japão, China ou Coreia do Norte. Nem seus famosos bombardeiros estratégicos Tu-95MS estão em prontidão para tarefas em tempo real.

A verdadeira mensagem daqueles exercícios militares que terminarão no sábado, que envolvem 160 mil soldados, cinco mil tanques e veículos blindados de combate, 160 aeronaves e helicópteros de longo alcance, transporte militar, aviação de combate, de bombardeio e do exército, além de 70 navios e barcos de combate armados – é que foram ordenados pelo Kremlin em apenas 48 horas, sem qualquer preparação prévia não rotineira. E aconteceram e foram executados com precisão de relógio.

Manobras em Tsugol - rápidas e precisas...
A presença do presidente Vladimir Putin em Tsugol, no 247º Distrito Militar do Leste, na 4ª-feira, mostra bem claramente que o Velho Boris já é história. E que também já é história o triunfalismo dos EUA no período pós-soviético.

Em resumo, a jogada do “reset” EUA-Rússia, que Obama inventou para seu primeiro mandato, já esgotou o prazo de validade e já não serve para nada. Nenhum engajamento seletivo da Rússia será doravante possível ou suficiente. A Rússia exige parceria compreensiva, entre iguais, baseada em respeito mútuo.

O caso Snowden é prova de que Washington precisa voltar com urgência à lousa e aos mapas, e reescrever novo rascunho de suas relações com a Rússia – semelhante ao Novo Tipo de Relacionamento [orig. NTR - New Type of Relationship], que a China está exigindo.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.