Mostrando postagens com marcador Fyodor Lukyanov. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fyodor Lukyanov. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Conflicts Forum: Comentário semanal de 8 até 15/11/2103

21/11/2013, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Uma coisa que se resultou da primeira rodada de negociações dos EUA (P5+1) com o Irã é que, afinal, há clareza sobre as verdadeiras posições de vários atores: é visível que os sauditas (como uma espécie pervertida de Perseu no submundo), acionaram as forças mais obscuras, tentando matar “os demônios” do Oriente Médio (tudo e todos que não sejam os próprios sauditas). Mas, diferentes de Perseu, os sauditas não tem Hermes, para guiá-los e explicar que nunca conseguirão realmente “matar” a Medusa, nem o Cérbero de várias cabeças, porque essas entidades não passam de imagens – imagens que, em última instância, são projeções dos abismos interiores dos próprios sauditas.

Rei Abdullah
Arábia Saudita
Até aqui, não há sinal de que algum Hermes-guia tenha surgido dentro da família de Saud (pelo menos, alguém que se consiga ver de cá, de fora do círculo familiar). O que se vê é que todos parecem paralisados, numa luta viciosa pela coroa.

A menos que algum deus ex machina intervenha logo (o que pode bem acontecer), os sauditas parecem condenados a só aumentar suas ameaças contra todos os “demônios” que veem na Síria, no Líbano, no Iraque, no Iêmen e no Irã. A “missão” deles, nesse “mundo infernal” do Oriente Médio, com certeza afetará o timing para o início de alguma Genebra-2, mas também pode complicar as negociações do Irã. A violência dos sauditas está encorajando a França e Israel a tentar boicotar as negociações. (A França, principalmente por razões comerciais: a França espera substituir os EUA como parceiro comercial privilegiado da Arábia Saudita; e Israel, porque o atual primeiro-ministro jamais quis qualquer tipo de negociação que não tratasse exclusivamente dos “termos de rendição” do Irã).

Recentes declarações de porta-vozes oficiais dos EUA na imprensa-empresa norte-americana têm destacado a mudança de interesses dos EUA, além do abandono da noção de que os EUA devam agir só como “advogados de Arábia Saudita e Israel”; para eles, tudo isso sugere “um tranco” que o atual governo dos EUA estaria dando contra o eixo franco-saudita-israelense. Mas, mais importante, os comentários que têm aparecido sugerem que o contexto geral para o acordo provisório proposto em Genebra nada teve de “momentâneo” e deve a própria gênese a conversas entre EUA e Irã ao longo dos últimos meses em Omã; isso sugere, afinal, que os EUA têm forte intenção de persistir na sua iniciativa iraniana.

Mas o outro elemento chave em todos esses eventos intercomunicantes no Oriente Médio é a Rússia.

A Rússia, trabalhando com os EUA, produziu o Tratado das Armas Químicas para a Síria. A Rússia está-se engajando num Egito muito frágil, pela primeira vez em 30 anos – e num momento em que a influência dos EUA está ali sob eclipse total. A Rússia está profundamente envolvida na campanha para derrotar o extremismo sunita; e a Rússia pode, com plena justiça, reclamar os méritos de ter influenciado a modelagem do Acordo Provisório proposto em Genebra, a partir de contatos diretos já de longa data que mantém com o Irã, sobre sua “questão nuclear”. Mas será a Rússia um parceiro potencial de um Irã que emerge do isolamento? Ou a Rússia vê o Irã como concorrente, que ameaçaria diretamente os interesses energéticos da Rússia?

O presidente Vladimir Putin da Rússia (D) encontra-se com seu colega iraniano, Hassan Rouhani, durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), em Bishkek, 13/9/2013. (Foto M. Klimentyev) 
Fyodor Lukyanov
Já se disseobservou o conhecido analista Fyodor Lukyanovque a volta do Irã aos palcos mundiais, depois de longo isolamento, seria uma perda para a Rússia, porque o atual “relacionamento especial” se baseia principalmente no fato de Teerã enfrentar terríveis sanções e não ter mais ninguém a quem recorrer senão à Rússia (o que se aplica basicamente às relações que têm a ver com a construção de usinas nucleares e cooperação militar). Mas, se o Irã tiver outras oportunidades, o país se reorientará na direção de países ocidentais mais influentes. Sempre há o risco de o país que tanto se dispunha a relações “amistosas” em tempos de dificuldades, afaste-se, tão logo o isolamento seja afrouxado. É o que a Rússia já se viu acontecer, em certa medida, na Líbia de Gaddafi e na Sérvia depois de Milosevic.

Conflicts Fórum agradece a um de nossos colegas, pelo parecer sobre a região, que lhe solicitamos e que aqui transcrevemos:

Bashar al-Assad
O recente levante na Síria serviu, de fato, para exacerbar e tornar muito mais visível, a fratura existente na região, entre dois blocos opostos – um cisma que se ampliou ao longo da última década. Há, é claro, muitos fatores que nos levaram a esse ponto; mas o fator mais significativo é o projeto para a construção de um gasoduto para transportar gás natural a partir do Qatar passando por Arábia Saudita, Jordânia e Síria, até a costa Mediterrâneo, de onde pode ser embarcado para os mercados europeus. O governo Assad foi o primeiro obstáculo no caminho desse gasoduto politicamente estratégico. Mas Assad nunca esteve sozinho na obstrução, que serviu para empurrar a Rússia e o Irã na direção de encontrarem um interesse “energético” comum; e a apoiarem a posição de Assad, a qual complementa os interesses político-estratégicos dos dois países.

Há uma situação semelhante a essa entre Irã e Rússia, relacionada à exportação de gás a partir do Turcomenistão, onde os dois países estão bloqueando qualquer fornecimento direto à Europa que não passe por gasodutos russos ou iranianos.

Prioridade energética para a Rússia é, bem claramente, proteger seu objetivo de converter-se em principal fornecedor de energia para a União Europeia e dificultar a concorrência. É claro que o Irã também tem interesse em impedir que o Qatar se converta em principal exportador de gás do Golfo – sobretudo num momento em que o Irã está sob sanções, incapaz de exportar o próprio gás. Mas o interesse do Irã não se centra tão decididamente na Europa, mas no potencial de fornecer para seus vizinhos (inclusive Síria e Líbano), que o Irã vê como mercado crescente. Mais importante, os dois países têm interesse em impedir que aumente a importância estratégica, no campo energético, do Qatar e da Arábia Saudita, para os países europeus. Rússia e Irã têm, ambos, interesse comum em impedir que o gasoduto qatari veja a luz do dia; mas também têm interesse comum em ver Síria e Líbano estabilizados, estabilidade que um gasoduto ajudaria a consolidar.

Contudo, à parte esse interesse comum, a conciliação de interesses russos e iranianos é mais nuançada. A Rússia observa atentamente o projeto do gasoduto iraniano, que levará gás do Golfo à Síria, em esforço conjunto com o Iraque. O Irã declarou que seu principal interesse nesse gasoduto é fornecer gás à Síria e ao Iraque, e possivelmente também ao Líbano.

Estima-se, porém que, somados, Iraque, Síria e Líbano precisarão de cerca de 16 bilhões de barris/ano, enquanto a capacidade planejada do gasoduto é de 40 bilhões de barris/ano. É razoável que os russos estejam preocupados com a possibilidade de que esse superávit possa ser redirecionado para projetos de gasodutos alternativos, do Leste do Mediterrâneo para a Europa – os quais, atualmente, estão sendo ativamente pensados. Os iranianos não se cansam de repetir que não têm interesse em fornecer para a Europa; que aspiram a fornecer na direção leste, para Índia e China (o Paquistão está saindo da linha de interesse). Funcionários do governo iraniano têm insistido que só querem fornecer gás para seus vizinhos.

Um prolongamento da crise síria – pode-se argumentar – obrigaria a suspender o projeto iraniano, mas não afetaria diretamente os interesses energéticos russos, uma vez que não impedirá que a Gazprom expanda o Gasoduto do Norte na direção da Europa nem terá impacto na construção do Gasoduto do Sul. Nem Síria nem o Irã, contudo, veriam aí alguma razão para a Rússia adiar um acordo para a Síria – porque, para o governo russo, derrotar o extremismo sunita é interesse maior que qualquer interesse que os russos tenham na competição por energia.

Projetos de gasodutos da Gazprom construídas e a construir
(clique no mapa para visualizar melhor)
O novo governo do Irã quer, visivelmente, mudar a situação atual, na qual o Irã é importador líquido de gás, para explorar ao máximo o potencial significativo que o país tem como exportador de gás. Nesse contexto, o Irã negocia com o P5+1 e, paralelamente, indica sua intenção de abrir sua indústria de energia a investidores estrangeiros. O Irã precisa atrair investimento externo para o setor de energia na ordem de 100 bilhões de dólares norte-americanos. Para tanto, os iranianos já indicaram também que estão dispostos a alterar os procedimentos atuais para contratos e empréstimos, para torná-los mais atrativos aos investidores de fora. Naturalmente, o Irã deseja condições de concorrência entre as empresas internacionais de petróleo, incluindo as empresas russas, chinesas e talvez, até, as norte-americanas. E a Rússia também quer que o Irã abra sua indústria de gás para as empresas russas.

O comércio e a oferta internacionais de gás mudarão significativamente, se o Irã tornar-se grande exportador. A Rússia está acompanhando atentamente todos os movimentos do Irã nessa área, especialmente a extensão de uma possível abertura em direção ao ocidente em geral, preparando-se para proteger seus interesses, se as coisas tomarem esse rumo. Prestarão extrema atenção a qualquer tentativa de levar o gás iraniano até a Europa (pela Turquia, Azerbaijão ou o Leste do Mediterrâneo) deixando de fora a Rússia e excluindo a Gazprom desses projetos. Cabe esperar que a Rússia tome medidas concretas para dificultar esses movimentos, como já fez no passado. Por exemplo, a Gazprom assegurou que o gasoduto Irã-Armênia, que já opera desde 2009, tivesse sua capacidade limitada a 50% do previsto – insuficiente, assim, para que haja gás exportável para a Europa.

Uma prioridade estratégica para a Rússia é continuar como o maior fornecedor de gás natural para a Europa e continuar a usar essa posição como alavanca política em sua política europeia. Com esse objetivo, a Rússia está atualmente exercendo fortes pressões para remover os obstáculos remanescentes à construção do Gasoduto Sul – na Sérvia. Mas, tão logo o Gasoduto Sul se torne operacional, a Rússia estará provavelmente aberta para que o gás iraniano junte-se nesse fluxo.

Há pois várias razões pelas quais Rússia e Irã devam cooperar no campo energético e fazer avançar seus interesses comuns – como controlar o transporte mundial e a oferta e o preço do gás natural. Ambos os países têm apostas altas no futuro dessa indústria e no preço do gás no mercado internacional. Se não estreitarem a cooperação, inevitavelmente se tornarão concorrentes, em detrimento dos dois lados.

Rota sul de oleogasodutos da Gazprom em projeto e já construídos
(clique neste link para aumentar a imagem}
Uma parceria estratégica implicaria um acordo de divisão do mercado, com a Rússia focada na Europa, e o Irã na China, Índia, Japão e países vizinhos; projetos conjuntos para conectarem as redes de dutos; e promoção de cooperação regional no que tenha a ver com depósitos de energia na bacia do Cáspio, inclusive um acordo que controle a exportação de gás do Turcomenistão. Atualmente, há esforços para promover essa cooperação em três diferentes níveis:

(a) mediante um acordo bilateral para cooperação de petróleo e gás;
(b) no Fórum dos Países Exportadores de Gás [orig. Gas Exporting Countries Forum (GESF)], que reúne os 13 mais produtores de gás; e
(c) na Organização de Cooperação de Xangai, que reúne, como membros, os maiores produtores e consumidores de petróleo e gás na Ásia.

Mais importante, as relações bilaterais, em geral, e a aliança entre Rússia e Irã estão em ascensão. A Rússia é e continuará a ser a principal fornecedora de armas e de tecnologia nuclear para o Irã, e é contrapeso vital ao ocidente, especialmente se se leva em conta o fortalecimento da influência regional da Rússia e seu comprovado empenho no apoio e na proteção que garante aos aliados. Os dois países também têm muitos aspectos comuns entre os respectivos interesses estratégicos, dentre os quais, e principalmente, a proteção aos respectivos recursos naturais; impedir que se disseminem a militância da Al-Qaeda e a ideologia salafista radical; e proteger os respectivos interesses de segurança na bacia do Cáspio, na Ásia Central, no Oriente Médio e no Golfo. A confluência dos mais altos interesses estratégicos nacionais entre os dois países não lhes deixa alternativa, além de cooperarem também no campo do gás e da energia.

Essa opinião é apoiada por Fyodor Lukyanov, que argumenta:

(...) agora é a hora para [a Rússia] promover a “abertura” do Irã: o conflito sírio, em todas as suas diversas manifestações, mudou a paisagem diplomática no Oriente Médio. A firme posição da Rússia, não importa em que esteja baseada (considerações globais predominando sobre questões regionais), levou a um resultado não esperado. Os interesses da Rússia e do Irã ficaram muito intimamente alinhados, muito mais que antes, quando os dois países tentavam, em essência, explorar cada um as dificuldades do outro, considerando só os interesses de cada um. A emergência da aliança situacional – e também, no atual momento, lógica – entre Moscou, Teerã, Bagdá, Damasco e Hezbollah fez da Rússia um player regional muito mais influente do que seria de esperar há dois anos. Esse curso (...) plantou os pilares para a ação na região.


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

domingo, 21 de julho de 2013

Snowden: Hora da verdade para Rússia e EUA

19/7/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Durante a reunião do Grupo dos Oito na Irlanda do Norte, mês passado, o presidente Vladimir Putin da Rússia, segundo o diz-que-disse dos bastidores diplomáticos, quis usar o ginásio para exercitar-se, no resort Enniskillen. Não conseguiu, porque Barack Obama já o havia requisitado.

Putin nadando no Lough Erne (Irlanda do Norte) numa folga da última reunião do G8
Nenhum dos dois gostaria de partilhar os aparelhos, e Putin optou por um mergulho e braçadas no gelado Lough Erne, aventura excessiva para os músculos e histamina de Obama. É possível que sejam só bobagens, mas a historieta captura a situação incômoda em que estão, hoje, as relações Rússia-EUA.

Se a ninguém ocorrera que a clara linguagem corporal na reunião em Enniskillen revelava que as relações EUA-Rússia atingiam ali o ponto mais baixo em muitos anos, o caso de Edward Snowden, ex-funcionário e “vazador” de segredos da CIA, mostra que elas provavelmente piorarão ainda mais, antes de darem qualquer sinal de melhora.

Na Irlanda do Norte, Putin e Obama coabitaram numa mesma pequena cidade de veraneio. Segundo recentes indicações, Obama, irritado com a decisão do Kremlin de dar abrigo a Snowden, talvez cancele a visita bilateral a Moscou, em setembro, antes da reunião do Grupo dos 20 em São Petersburgo, que ele mesmo propôs.

As coisas estão mais frias que as águas do Lough Erne...
Por que as coisas chegaram a esse ponto? Em parte, pelo menos, a situação atual foi provocada por Pequim, querendo ou sem querer, quando meteu Snowden num voo da Aeroflot para Moscou, já sabendo que, porque Washington revogara seu passaporte, ele não teria documentos válidos para prosseguir viagem depois que o avião pousasse no aeroporto em Sheremetyevo.

Fyodor Lukyanov
Como Fyodor Lukyanov, figura importante no establishment da comunidade estratégica russa, observou em artigo no jornal oficial Rossiyskaya Gazeta na 3ª-feira,

Os serviços de inteligência da República Popular da China que meteram o americano num avião para Moscou e o convenceram de que estaria melhor lá merecem todos os elogios de seus chefes, porque pouparam a Pequim uma grande dor de cabeça. O resto foi menos bem feito.

Não há dúvida alguma de que Pequim agiu movida por diferentes motivos, para impedir que Snowden sequestrasse o nascente Novo Tipo de Relacionamento [orig. NTR - New Type of Relationship] entre China e governo Barack Obama. 

A China não extraiu bons efeitos de propaganda do caso Snowden, mas conseguiu livrar-se de ter de tomar decisões difíceis sobre o destino final do americano. Continua a criticar a Washington a “hipocrisia” de admitir ciberespiongem massiva, em escala gigante, contra países soberanos, e, ao mesmo tempo, forçou Moscou a responder a padrões de respeito a direitos humanos muito mais exigentes que os antes vigentes.

Desnecessária e mal feita

Mas a culpa, de fato, foi de Moscou, que errou ao não exercer a opção de deportar Snowden de volta a Hong Kong quando transpirou que o viajante em trânsito não portava documentos válidos para prosseguir viagem – que é prática usual e frequente. Não. Moscou optou por adotar uma saída formal legalista, segundo a qual Snowden não pisou território russo; e meteu-o sob uma redoma de segurança desnecessária e mal feita.

A invisível presença de Edward Snowden em Moscou
Mas, diferente do total e eficaz voto de silêncio em Pequim, começaram a surgir todos os tipos de comentários sobre a invisível presença de Snowden em Moscou, de fontes que iam de funcionários do governo russo a especialistas midiáticos em geral e políticos conhecidos, o que só conseguiu dar a impressão de que Moscou estaria num jogo de preliminares íntimas com Washington; e fez subir as expectativas de que fosse possível acertar algum acordo, talvez, com os EUA.

Por tudo isso, Moscou não pode agora começar lamentar-se de que Snowden tornou-se filho não desejado.

Washington, por sua vez, manteve sempre, consistentemente, a mesma linha, a partir do presidente Obama – que disse que, de modo algum haveria “manobras e conversas” com Moscou sobre Snowden; e que a Rússia tinha obrigação de expulsar Snowden que cometera crime grave conforme as leis dos EUA e teria de ser julgado por tribunais norte-americanos nos EUA.

William Burns
Os EUA também fizeram saber que nenhuma falta de cooperação de Moscou deveria contaminar negativamente as relações bilaterais.

O fato de um vice-secretário de Estado de alto nível, William Burns, velho e experiente operador dos EUA em Moscou, ter sido designado para administrar o caso Snowden mostra a importância que o governo Obama atribui à missão de tentar convencer os russos de que o Kremlin tem base legal suficiente e razões práticas para expulsar para os EUA um fugitivo sem documentos legais para viajar. É o mesmo que dizer a visita de Burns foi visita política.

Mas a posição que Moscou adotou é também absolutamente correta e legal. E, além disso, foi erigida sobre princípios morais “melhores”: a noção de que potência realmente grande e forte não pode deixar de lado ou desconsiderar as sempre importantes “considerações humanitárias”.

Acabaram-se as manobras e conversas

Mas a Rússia também espera que as relações Rússia-EUA continuem como se nada tivesse acontecido, tão logo mudem os ventos do interesse midiático, como tantas vezes aconteceu durante a Guerra Fria, apenas mais um caso a ser resolvido entre os dois governos. Eis como Lukyanov concluiu seu artigo:

Edward Snowden muito provavelmente logo obterá asilo temporário na Rússia, como ele mesmo disse; mas talvez permaneça por muito tempo na Rússia. Porque as circunstâncias que impedem que volte para casa ou mude-se para algum país da América Latina não desaparecerão tão cedo. Moscou e Washington têm interesse em que o caso seja esquecido o mais rapidamente possível e desapareça das manchetes. Só então será possível discutir tudo sem publicidade indesejada, para arrancar esse espinho cravado na carne das relações entre os dois países.

Kurmanbek Bakiyev
Lukyanov lembrou uma “solução elegante” construída em 2010 entre EUA e Rússia, quando o presidente Kurmanbek Bakiyev do Quirguistão foi derrubado e interessava simultaneamente a Moscou e Washington alocar o deposto chefe de Estado centro-asiático. Bakiyev, naquela ocasião, foi despachado para Minsk.

O governo Obama aceitaria alguma espécie de “fórmula Minsk” no caso Snowden? Eis a grande questão – e parece pouco provável que aceite, porque implicaria Washington fazer, essencialmente, o que Obama disse que não faria, a saber, “manobrar e conversar” com Pequim ou Moscou sobre o destino de Snowden.

Portanto, tudo considerado, aproxima-se uma difícil hora da verdade para Moscou e Washington no relacionamento pós-Guerra Fria. Para Moscou, nada menos que uma crise de identidade; para Washington, o que falta é uma sessão de terapia catártica no divã, que ajude os EUA a se entender melhor.

Para a Rússia, o caso Snowden exige um reboot na doutrina do Kremlin para a política exterior. Até aqui, tem sido política exterior carregada de “interesses nacionais”. Agora, a ideologia volta à cena. Talvez não a ideologia marxista, mas, ainda assim, uma ideologia humanista que dá primazia a “considerações humanitárias” na política exterior.

Até que ponto a Rússia pode praticar um política exterior carregada de ideologia, em mundo dividido por desigualdades, violência e autoritarismo? Isso é uma coisa.

A segunda pergunta é se influentes setores das elites russas aceitarão realmente a situação de serem confinadas a um ostracismo social pelo ocidente, que veem como seus parceiros naturais no norte?

O coração da matéria é que a aliança trans-Atlântica está sendo afinal montada, apesar de um ou outro eventual solavanco, e é questão que fere o orgulho norte-americano e faz os EUA aparecerem aos olhos do mundo como superpotência impotente, se os aliados dos EUA não puderem continuar a negociar normalmente com a Rússia.

Por outro lado, dada a formação social da Rússia no período pós-soviéticos, é improvável que a nata das elites moscovitas considere Bolívia ou Equador como destinos admissíveis para elas mesmas, sendo necessário, em substituição a Londres ou Zurich.

Isso nos leva a uma terceira pergunta, que concerne à ordem mundial na qual a Rússia precisa operar. Que ninguém se engane e suponha que os EUA reagirão positivamente a qualquer decisão que envolva “asilo” para Snowden – temporário ou outro. Se acontecer, o que virá?

BRICS
Até aqui, toda a trajetória das relações russo-americanas pós-soviéticos tem sido não confrontacional. Isso pode mudar. E é reflexo da ordem mundial na qual a Rússia tem de viver que, afinal, três (ou mesmo quatro, se se inclui a África do Sul) dos parceiros BRICS da Rússia (Brasil, Índia e China) sequer teriam considerado o curso de ação que Moscou parece estar escolhendo; a saber, dar abrigo a fugitivo da lei dos EUA, movidos por “considerações humanitárias”.

Reescrever a história do “velho Boris”

Em resumo, o caso Snowden exige que a Rússia defina o tipo de relacionamento que busca com o ocidente. Sim, é verdade, a Rússia está habituada a viver sob sanções ocidentais; mas naquele tempo era vida difícil não por escolha, mas por ausência de alternativa. Há limitações inerentes para a renovação e a globalização da economia russa sem a tecnologia e os investimentos ocidentais – por mais que se fale da “opção China”, do projeto da União Eurasiana ou da participação na Organização Mundial do Comércio.

Dito em palavras mais simples, Washington espera que a Rússia coopere – exatamente como Espanha, Itália, França e Portugal cooperaram e bloquearam a passagem do avião do presidente Evo Morales quando houve suspeitas de que Snowden estivesse a bordo – por mais furiosos que esses países estivessem em relação à ciberespionagem norte-americana. No mínimo, Washington esperaria da Rússia o mesmo grau de “pragmatismo”, que Pequim mostrou no caso Snowden.

Pode-se dizer que a armadilha que o governo Obama pôs no caminho da Rússia parece ser de a Rússia estar forçada a fazer uma escolha existencial sobre sua própria identidade e seu próprio papel como grande potência, de alcance e influência globais.

Bill Clinton e Strobe Talbott
Não é justo, porque os EUA até hoje só exigiram e exigiram, no relacionamento com a Rússia, sem atender nenhum dos pedidos dos russos. Como Bill Clinton disse certa vez ao ex-vice-secretário de Estado Strobe Talbott, num súbito surto de honestidade, quando Clinton era presidente e Boris Yeltsin estava no Kremlin:

Nós [EUA] nem sempre jogamos muito bem com aquela gente [russos]; nunca pensamos em um modo de dizer sim a eles, pensando em o quanto, quantas vezes, o quão frequentemente, quisemos que eles dissessem sim a nós. Só fazemos repetir ao Velho Boris, “OK, aqui está o que vocês têm de fazer – é mais merda na sua cara”.

Hoje, o governo Obama tem de considerar, nesse caso, que a equipe russa de Bill Clinton ainda continua quase totalmente intacta no circuito de Washington, apesar de o Velho Boris já ter deixado o Kremlin há 12 anos e seis meses. Dito em outras palavras, a Rússia não aceitará, dessa vez, “mais merda na cara”.

Se o governo Obama ainda tem alguma dúvida, as manobras militares das Forças Armadas russas, sem precedentes, que acontecem essa semana no Extremo Oriente devem fazer desaparecer qualquer vício de interpretação.

A Rússia não tem inimigos no Extremo Oriente. Nem a Rússia precisa preparar-se para qualquer provável guerra contra Japão, China ou Coreia do Norte. Nem seus famosos bombardeiros estratégicos Tu-95MS estão em prontidão para tarefas em tempo real.

A verdadeira mensagem daqueles exercícios militares que terminarão no sábado, que envolvem 160 mil soldados, cinco mil tanques e veículos blindados de combate, 160 aeronaves e helicópteros de longo alcance, transporte militar, aviação de combate, de bombardeio e do exército, além de 70 navios e barcos de combate armados – é que foram ordenados pelo Kremlin em apenas 48 horas, sem qualquer preparação prévia não rotineira. E aconteceram e foram executados com precisão de relógio.

Manobras em Tsugol - rápidas e precisas...
A presença do presidente Vladimir Putin em Tsugol, no 247º Distrito Militar do Leste, na 4ª-feira, mostra bem claramente que o Velho Boris já é história. E que também já é história o triunfalismo dos EUA no período pós-soviético.

Em resumo, a jogada do “reset” EUA-Rússia, que Obama inventou para seu primeiro mandato, já esgotou o prazo de validade e já não serve para nada. Nenhum engajamento seletivo da Rússia será doravante possível ou suficiente. A Rússia exige parceria compreensiva, entre iguais, baseada em respeito mútuo.

O caso Snowden é prova de que Washington precisa voltar com urgência à lousa e aos mapas, e reescrever novo rascunho de suas relações com a Rússia – semelhante ao Novo Tipo de Relacionamento [orig. NTR - New Type of Relationship], que a China está exigindo.
_________________________

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.