Onde foi parar a Democracia dos EUA?
6/5/2014, [*] Paul Craig Roberts − Institute
for Political Economy
Traduzido por mberublue
EUA - Estado Gângester (há muito tempo) |
Alguém que olhasse cuidadosamente por trás do véu de
palavras ocas, não vislumbraria a democracia nos EUA. Tenho escrito por anos
que o governo dos Estados Unidos deixou a muito de prestar contas à lei e ao
povo (veja, por exemplo, meu livro (How
America Was Lost – Como os EUA se perderam). Puseram de lado a
Constituição e o poder executivo está degenerando em absolutismo.
As agendas que resultam da relação simbiótica entre a
ideologia neoconservadora da hegemonia dos Estados Unidos e os interesses
econômicos de poderosos grupos privados estão sendo impostas ao governo, tais
como as agendas de Wall Street, do
complexo segurança/exército, do lobby
israelense, agronegócios e indústria extrativa (energia, mineração e madeira).
Os meios pelos quais essa hegemonia cresce e se mantém são a imposição
imperialista do US$ dólar, ameaças, subornos e guerras. Tais objetivos são
perseguidos sem qualquer aprovação ou conhecimento e apesar da eventual
desaprovação do povo americano.
Martin Gilens |
O professor Martin Gilens, da
Universidade Princeton e o professor Benjamin
Page da Universidade Northwestern,
analisaram a fundo o modo de governo americano e chegaram à conclusão que os
Estados Unidos têm um governo oligárquico, dirigido por ricos e poderosos
grupos do interesse privado e que os Estados Unidos apenas superficialmente se
assemelham a uma democracia. Sua
análise foi publicada recentemente no jornal Perspectives on
Politics (Perspectivas Políticas).
Suas conclusões são chocantes:
O ponto central que emerge de nossa pesquisa é que os grupos
organizados e elites econômicas que representam os interesses empresariais têm
seu próprio e substancial impacto na política governamental dos Estados Unidos,
enquanto os grupos de interesse da base e de cidadãos comuns têm pouca ou
nenhuma influência própria.
Quando há discordância entre a maioria dos cidadãos e as elites e/ou
grupos organizados dos interesses empresariais, geralmente os cidadãos levam
desvantagem.
Benjamin Page |
Descobrimos que nos Estados Unidos, atualmente a maioria não tem a
força de determinar – pelo menos como causa – os resultados de nossa política.
Estatisticamente, as prioridades do cidadão americano comum tem somente
um reflexo quase nulo, perto de zero, sem importância, sobre as políticas
públicas.
Vários fatores contribuíram para a decadência da democracia
e da responsabilidade governamental nos Estados Unidos. Um deles foi a
concentração, em poucas mãos, da mídia dos EUA. Nos últimos anos do governo
Clinton, a antiga mídia era diversificada, com grande independência; hoje concentrou-se
em cinco megacorporações. As licenças federais para transmissões constituem a
maior parte do valor dessas corporações. Inseguras quanto à renovação dessas
licenças, a mídia evita posições frontais ao governo em questões importantes.
Outro fator é a deslocalização (offshoring – busca por mão de obra barata e melhores condições fiscais
em outros países [NT]) industrial e de postos de trabalho na
indústria de transformação. Essa mórbida evolução causou a destruição dos
sindicatos da indústria e de seus trabalhadores, que eram a coluna vertebral
dos apoiadores e financiadores do Partido Democrata. Agora, os Democratas têm
que buscar os mesmos grupos de interesse que os Republicanos – Wall Street, o complexo
segurança/exército, e as indústrias poluidoras que destroem o meio ambiente.
Como os partidos políticos são agora financiados pelos mesmos grupos de
interesses privados, servem aos mesmos patrões. Não há mais contraponto ao
poder. O regime de Obama é uma continuação servil do regime de George W. Bush.
Eleições compradas ou roubadas |
Duas decisões recentemente emitidas pela maioria republicana
na Suprema Corte dos EUA é outro fator decisivo. A Corte acordou que é mero
exercício de livre expressão a compra pelos oligarcas do governo americano (Citizens vs. Federal Election Commission – e – McCutcheon vs. Federal Election Commission). Uma
Suprema Corte corrompida inventou um “direito constitucional” para permitir que
oligarcas e corporações usem seus imensos recursos financeiros para formar um
governo à sua escolha. Os interesses privados nos Estados Unidos são tão
poderosos que podem até mesmo comprar imunidade perante a lei. James Kidney,
procurador a se aposentar da Securities
and Exchange Commission – SEC (comissão de títulos e valores mobiliários),
afirmou que os procedimentos contra crimes financeiros do Goldman Sachs e
outros bancos gigantescos dos Estados Unidos
James Kidney |
(...) foram bloqueados por funcionários nomeados politicamente, que se
concentram em obter trabalho muito bem remunerado ao deixar o funcionalismo.
Recentemente, realizou-se um teste para provar a
receptividade dos membros do congresso aos interesses financeiros em
contraposição aos interesses de seus eleitores. Duas cartas foram enviadas aos
gabinetes dos congressistas. Uma carta convidava o representante a reunir-se
com grupos comunitários de seu distrito. A outra convidava o representante para
uma reunião com ativos doadores de campanhas políticas. A segunda carta recebeu
dos membros do congresso muito mais respostas que a primeira.
Há nos Estados Unidos e na Europa uma constante propaganda
sobre a “Rússia, Estado gângster”. Segundo esta propaganda, o presidente Putin
é apenas um instrumento dos oligarcas russos que o usam para governar ao seu
talante e explorar o povo. Esta propaganda, em minha opinião, se origina nas
ONGs (TODAS as
ONGs internacionais são quintas-colunas a favor dos interesses de países hegemônicos
− leia-se EUA e União Europeia, principalmente [Nrc]) fundadas por Washington e
que constituem uma quinta-coluna infiltrada na Rússia. O objetivo da propaganda
é destruir a legitimidade de Putin e de seu governo, na esperança de emplacar
no poder um governo moscovita submisso a Washington (como os governos Gorbachev e Yeltsin, p. ex.
[Nrc]).
Vladimir Putin na imprensa-empresa dos EUA |
Minha impressão é que o governo russo restringiu as
atividades de alguns oligarcas que se aproveitaram da era das privatizações
para assumir o controle dos recursos russos, mas que as ações governamentais
tomadas nesse sentido obedeceram aos imperativos legais. Em oposição, temos que
nos Estados Unidos os oligarcas controlam a lei e a usam para adquirir imunidade
legal.
O verdadeiro Estado gângster são os EUA. Todas as suas
instituições são corruptas. Funcionários de agências reguladoras vendem
proteção em troca de posteriores empregos regiamente pagos nas indústrias que
deveriam supostamente fiscalizar. A Suprema Corte não apenas permite que o
poder econômico compre o governo, mas também se vende, colocando para escanteio
a Constituição Federal em favor do Estado policial. A Suprema Corte acaba de se
recusar a examinar o caso contra a detenção indefinida
de cidadãos dos Estados Unidos sem o devido processo legal.
Indubitavelmente é uma legislação inconstitucional, mas a Suprema Corte se
recusa a examinar o caso, enquanto garante poderes policiais incontrolados ao
Estado gângster.
Criminalizar a dissensão e quem fala a verdade é outra
característica que define o Estado gângster. Washington está fazendo tudo o que
pode para criminalizar Julian Assange e Edward Snowden por terem revelado as
ações inconstitucionais, ilegais e criminosas do governo dos Estados Unidos. O mau
cheiro da hipocrisia tresanda de Washington. Em 26 de abril o Departamento de
Estado anunciou sua terceira campanha de imprensa livre, um exercício de
propaganda dirigida aos Estados estrangeiros que ainda não são marionetes dos
Estados Unidos. No mesmo dia, o Departamento de Justiça propôs à Suprema Corte
que retire a proteção aos jornalistas dos Estados Unidos que, ao abrigo da
Constituição, se
recusam a revelar suas fontes, e por causa disso James Risen pode vir a
ser preso por ter revelado delitos governamentais
Torturas em Guantánamo, típico de Estado Gângster |
No século 21, Washington desperdiçou trilhões de dólares em
guerras que destruíram países e mataram, mutilaram e deslocaram milhões de
pessoas em sete ou oito países. Declarando que tais crimes de guerra são a
“guerra ao terror”; os EUA usam o estado de guerra permanente que criou para destruir
as liberdades civis nos próprios EUA...
É muito difícil encontrar no decorrer do século 21, uma
declaração importante de Washington que não seja uma mentira.
- O Obamacare é uma mentira.
- Armas de destruição em massa supostamente na posse de Saddam Hussein é uma mentira.
- O uso por Assad de armas químicas é uma mentira.
- As bombas iranianas: mentira.
- A suposta invasão e anexação da Criméia pela Rússia é uma mentira.
- Zonas de exclusão aérea são grossas mentiras.
- A agressão russa à Geórgia é uma mentira.
- Até o próprio atentado de 9/11, a base através da qual Washington justifica a destruição dos direitos civis e ataques militares ilegais, também é uma mentira. A história da carochinha de que alguns árabes sauditas sem o apoio de nenhum governo ou agência de inteligência enganou espetacularmente todo o fantástico aparato de segurança nacional do mundo ocidental é inacreditável. Simplesmente não é crível que todas as instituições da segurança nacional falharam ao mesmo tempo.
A ousadia dos EUA em contar esse
amontoado de mentiras mostra que não tem o menor respeito pela inteligência do
povo americano, assim como pela integridade da imprensa-empresa dos Estados
Unidos. Mostra também que os EUA também não respeitam a inteligência e
integridade de seus aliados na Europa e na Ásia.
O crescimento de Barack Obama |
Em comparação, sequer nas pequenas coisas os EUA dizem a
verdade: trabalho, desemprego, inflação, crescimento do PIB, recuperação
econômica. Washington manipula o mercado para encobrir o sacrifício da economia
do país para beneficiar alguns interesses especiais. Em nome da “privatização”
Washington abre mão de interesse público e responsabilidade governamental, para
favorecer a rapina de interesses privados.
A conclusão da qual não se escapa é que os EUA são um Estado
gângster. Na realidade, os EUA não são apenas um Estado gângster. São uma
vergonhosa e exploradora tirania.
______________
[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano,
colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do
Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics.Ex-editor
e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps
Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30
ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem
frequentemente publicado emCounterpunch e no Information Clearing
House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e
mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter
destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos
EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado
posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as
drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel
contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da
Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da
Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.
A expressão usada no título do artigo me faz lembrar o deputado brasileiro da UDN que lutou pelo monopólio estatal do petróleo Gabriel Passos. Ele em livro de 1961 analisa a política internacional e nesse livro afirma que; "Os Estados Unidos não são um país, mas um acampamento de gangsters."!
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