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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Império da hipocrisia (III)

8/2/2015, Dmitry MININ, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Part I, Part II [ing.] − não serão traduzidas


O dito “poder suave” [soft power] e suas graves consequências

A hipocrisia intrínseca à política dos EUA é especialmente visível no uso do chamado “poder suave”. O conceito foi criado por Joseph Nye, ex-Vice-Sub-Secretário de Estado para Assistência à Segurança, Ciência e Tecnologia, e Secretário-Assistente da Defesa para Assuntos de Segurança Internacional.

Nye acumulou experiência no processo de alcançar objetivos políticos sem usar a força a ponto de fazer disso uma sua política independente. Segundo ele: [1]

Poder suave [orig. Soft power] é a habilidade para obter o que se quer pela atração, não por coerção ou pagamentos. Surge da atratividade da cultura, dos ideais políticos e das políticas de um país. Quando nossas políticas são vistas como legítimas aos olhos dos outros, nosso poder suave é ampliado.

Na sequência, concluiu que só o poder suave não bastaria. Inventou então uma combinação de poder suave e poder nada-suave, ou poder ‘duro’, para criar estratégias otimizadas em contextos particulares.

Poder é a habilidade, capacidade ou competência para afetar outros para obter o que se deseja; e exige um conjunto de ferramentas. Algumas dessas são ferramentas de coerção ou pagamento, ou poder duro [orig. hard power]; e outras são ferramentas de atração, ou poder suave [orig. soft power]. Mas, com poder suave ou com poder duro, os políticos norte-americanos querem sempre a mesma coisa – estabelecer a superioridade deles mesmos, ao mais baixo preço possível. Para a Casa Branca, o poder suave sempre foi, em primeiro lugar, instrumento efetivo para manipular.

Na verdade, foi a manipulação que levou Obama ao poder. A duplicidade do personagem tornou-se evidente quando lhe foi dado o Prêmio Nobel. Ninguém sabe até hoje por quais realizações Obama recebeu aquela premiação. Rememorando aqueles dias, impossível não ver a total inconsistência do que Obama disse lá, e o objetivo da cerimônia: [2]

Não erradicaremos o conflito violento durante a nossa vida. Haverá momentos em que nações – agindo individualmente ou em conjunto – declararão o uso da força não só necessário, mas moralmente justificado.

É possível que a culpa nem seja de Joseph Nye; ele foi mal compreendido. Fato é que, quando citam pensadores, os políticos só citam os fragmentos de pensamentos que ajudam a confirmar o que queiram “demonstrar”.


Joseph Nye, por exemplo, considerou a possibilidade de uma potência minar a força de outra, sobretudo com ações militares. Acreditava que sanções raramente levam a alcançar os objetivos políticos para os quais são pensadas, porque ferem primeiro as pessoas comuns, não as elites governantes. Mesmo a ajuda financeira resulta mais frequentemente em mais corrupção, inclusive entre os escalões privilegiados. Ao agredir o equilíbrio entre grupos sociais, a ajuda financeira quase sempre exaspera os conflitos, mais do que desencadeia a reação desejada. Para Nye, muitos viram o “poder suave” no século XXI como uma forma de imperialismo cultural.

Criar mentiras e mitos converteu-se em moeda natural do poder suave, e os governos competem entre eles e com outros atores para ganhar mais “credibilidade”, ao mesmo tempo em que debilitam a credibilidade dos demais.

Propaganda nua & crua, numa guerra de propaganda, pode ser contraproducente e macular a reputação do país, minando sua credibilidade. Excesso de coerção pode ser danoso, se leva a excessiva autoconfiança. Nesse caso, o poder suave nada mais é que uma “cobertura” para o poder duro, para impedir que se alcancem determinados objetivos. Por exemplo, as cenas dos maus tratos a prisioneiros em Abu Ghraib não reduziram apenas a confiança nos valores norte-americanos, mas, mais que isso geraram convicção forte de que aqueles valores sempre estiveram carregados de hipocrisia.

Chris Patten
O governo Obama ignorou todos os avisos de Joseph Nye. O “duplo padrão” não tornou mais atraente a política dos EUA nem no Oriente Médio, nem na Ucrânia. O ex-Comissário Europeu para Relações Internacionais, Chris Patten, lembra que:

(...) quando funcionários norte-americanos, mesmo os de mais alto escalão reúnem-se com autoridades estrangeiras, não deveriam comportar-se como se fossem a única voz digna de atenção. Não importa o quanto os norte-americanos possam ser polidos e civilizados, quaisquer autoridades que apareçam diante deles devem ser “postas no seu lugar”, devem sentir-se dependentes; a missão de qualquer funcionário norte-americano é mostrar empenho nessa tarefa de humilhar todos os demais povos do mundo, na esperança de receber alguma bênção nas nomeações futuras. No exterior, os funcionários dos EUA fazem-se acompanhar de comitivas tão gigantescas, que fariam inveja a Dario, o Grande, rei da Pérsia. Ocupam hotéis inteiros, a cidade para, homens de pescoço de touro e fios metidos nos ouvidos empurram e espancam pedestres pelas ruas. Ninguém ganha corações e mentes agindo desse modo – diz Chris Patten.

Mas até aí é só um lado da moeda.

O outro lado é que há “consequências” contra todos que fiquem na posição de alvo dessas ações de poder, seja suave ou duro: sempre são consequências catastróficas. A nova estratégia “suave” da Casa Branca desestabiliza a situação mundial e mata muito mais gente, até, que o poder duro, porque é construída para provocar conflitos internos e disseminar o caos mais generalizado e incontrolável. Em momento algum, nem no mais alucinado surto de delírio, Joseph Nye poderia ter previsto que contribuiria para o parto desse tipo de Frankenstein.

Ao olhos de Washington, a necessidade de “democratizar” (verbo que significa mergulhar qualquer país num mar de sangue para mudar o regime que lá tenha sido eleito) varia conforme a lealdade que o “democratizador” preste aos EUA, caso a caso.

Fareed Zakaria
Fareed Zakaria, analista político norte-americano, escreve que:  

(...) os EUA jamais emitiram uma palavra de indignação quando democratas em Taiwan, Paquistão e na Arábia Saudita foram reduzidos violentamente ao silêncio.

Zakaria crê que:

(...) se Washington faz exceções à regra, outros copiam. Os EUA vivem a usar dois pesos e duas medidas. Mas pregar uma coisa e na sequência fazer coisa completamente diferente é hipocrisia. É atitude de que mina a confiança que outros poderiam ter, mas não têm, nos EUA.

Pierre Hassner escreve que: [3]

(...) os EUA perderam a habilidade para manter uma visão crítica sobre os próprios planos para estabelecer sua hegemonia no mundo unipolar que resultou da Guerra Fria. Se ninguém controla o poder, e nos EUA o poder está contaminado pela corrupção, como é possível que os EUA ainda se apresentem como “protetores”, num mundo em que a corrupção tornou-se global?

Esse é o impacto do traço específico intrínseco da mentalidade dos norte-americanos: qualquer norte-americano branco racista e proprietário de escravos negros crê que teria também, simultaneamente, todos os atributos para apresentar-se ao mundo como político “democrático”.

Yaakov Kedmi
Segundo Yaakov Kedmi, israelense especialista em assuntos políticos e militares e ex-Diretor do “Nativ”, dos serviços secretos de Israel,

(...) a duplicidade e a ausência de escrúpulos dos EUA tornaram-se evidentes antes da 2ª-Guerra Mundial, quando os EUA apoiaram os fascistas que chegavam ao poder, na esperança de que aqueles fascistas pudessem vir a atacar o bolchevismo soviético.

Depois da IIª Guerra Mundial os EUA deram abrigo a ex-nazistas, inclusive a vários que haviam servido na Gestapo e Abwehr, não importava que crimes tivessem cometido, porque os EUA acreditavam que pudessem vir a ser úteis na luta contra o principal inimigo – a União Soviética. Depois, os EUA decidiram que qualquer bandido que se dispusesse a lutar contra a expansão soviética e a intervenção dos soviéticos no Afeganistão mereceria receber integral apoio. Assim nasceu a Al-Qaeda. Assim também nasceu o grupo terrorista Estado Islâmico no Iraque e na Síria [Levante] (ISIS, ISIL).

Em nome da democracia, países europeus e os EUA fingem que não veem as atitudes antidemocráticas e discriminatórias em relação a minorias russas nos estados do Báltico. Fazem-se de cegos para o fato de que o fascismo está renascendo no leste da Europa, onde grupos que lutaram ao lado de nazistas são elogiados e convertidos em heróis nacionais! Por exemplo:

Herberts Cukurs, “o carniceiro de Riga”, eliminado (provavelmente pelo Mossad, serviço de inteligência israelense) por seus crimes, é hoje herói nacional na Letônia, como Shukhevych e Bandera na Ucrânia – diz Yaakov Kedmi.

Os eventos na Ucrânia são hoje exemplo clássico de consequências sangrentas do que, no início, chamou-se “poder suave” – protestos pacíficos, exigências de liberdade e governo honesto.

Barack Obama e o Estado da União 2015
No discurso “Estado da União”, Obama anunciou tolamente, arrogantemente, o que chamou de vitória do “novo pensamento” norte-americano: [4]

(...) hoje, somos os EUA que aparecemos, fortes e unidos com nossos aliados, e a Rússia está isolada, com a economia em ruínas. Eis como os EUA lideramos – não com turbulência, mas com firme, persistente determinação.

Dimitri Simes
Segundo Dimitri Simes, Presidente do Centro para o Interesse Nacional e editor do jornal National Interest de política internacional, o governo Obama contribuiu para agravar a crise na Ucrânia, ao tomar o lado dos manifestantes. Simes observa que: [5]

(...) essencialmente os EUA e a União Europeia decidiram apoiar os manifestantes. Deve-se considerar também que, se aqueles manifestantes estivessem nas ruas contra governo adversário dos EUA, nem seriam chamados de manifestantes: seriam chamados de rebeldes, ou mesmo, de terroristas. Quero dizer: os EUA tomaram o partido dos manifestantes/ rebeldes/ terroristas.  

Segundo Leonid Bershidsky, colaborador do jornal Bloomberg View de Berlim, o discurso do Estado da União de Obama prova que Obama ou não compreende o quanto é perigoso exacerbar as relações entre ocidente e Moscou, ou, então, puxa logo o canhão para fazer, de vitória ainda não alcançada, mais uma lantejoula de sua fantasia de general da banda. “Eis como os EUA lideramos”, disse Obama, vaidoso. É mais tranquilizador acreditar que ele finge esse “orgulho” vaidoso e fátuo, do que imaginar que o Presidente dos EUA realmente não compreende a extensão do fracasso dos EUA na Ucrânia. Melhor seria se Obama nada tivesse dito sobre Rússia e Ucrânia.  

NOTAS

[1] Nye J. Jr. The Paradox of American Power: Why The World's Superpower Can't Go It Alone. N. Y: Oxford University Press, 2003, p. 8


[3] Pierre Hassner, «Definitions, Doctrines, and Divergences», National Interest no. 69 (2002): 30-34.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Quatro lições a aprender da crise da Ucrânia

China: “Tooooma, Obama! Dáááá-lhe Putin!”

19/3/2014, [*] Wang Yiwei, People'sDaily Overseas Edition, Pequim (Editorial)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Kiev - campo de batalha de uma guerra nem tão fria assim...
A Ucrânia tornou-se campo de batalha final na “guerra fria” e vai-se convertendo em possibilidade que a crise dispare uma segunda “guerra fria”.

A declaração de independência da Ucrânia, pelo Parlamento da Crimeia, antes do referendo de 16/3 indica que a Crimeia pode seguir avante e unir-se à Rússia. Os tambores de guerra entre Rússia e países ocidentais nos ensinam quatro coisas.

Um conflito geoestratégico levou à catástrofe a política das grandes potências

Muitos no oeste da Ucrânia são católicos, e no leste da Ucrânia a maioria é de crentes da religião russa ortodoxa. A crise financeira causou conflito entre civilizações, empurrando a Ucrânia para a beira da bancarrota e da fragmentação. Assim se criou um vácuo que deram às grandes potências um incentivo para que se imiscuíssem em assuntos internos da Ucrânia.

A superdependência da Ucrânia à Rússia é o ponto vulnerável de sua segurança nacional

Em anos recentes, países ocidentais conseguiram promover várias mudanças de regime. A Ucrânia está à beira de ter de declarar “calote” e bancarrota. A superdependência da Ucrânia à Rússia é o ponto vulnerável de sua segurança nacional. Países ocidentais aproveitaram-se desse ponto fraco, para seus esforços para promover mudança de regime na Ucrânia.

O ocidente, comandado pelos EUA, fracassou na Ucrânia.
O fracasso dos países ocidentais, que não colheram as lições da história, resultou em conflito

O colapso da União Soviética no final da guerra fria gerou um grau de complacência no Ocidente. Na sequência, com a ascensão do neoconservadorismo e do neoimperialismo, os EUA embrulharam-se em conflitos, como a invasão do Iraque e a guerra no Afeganistão. Esses pontos de estresse são resultado da incapacidade do Ocidente para compreender as lições da história.

Os duplos padrões dos países ocidentais demonstram sua hipocrisia

Alguns países ocidentais foram lépidos ao apoiar o referendo pela independência que se fez na Província Autônoma do Kosovo e Metohija entre 26-30/9/1991. Agora, só fazem repetir objeções ao referendo na Crimeia. No passado, muito defenderam direitos humanos – por exemplo, que o direito à autodeterminação prevalece sobre a soberania. Agora, falam como se nada fosse mais importante que a soberania e a integridade territorial da Ucrânia. Esses duplos padrões explicam-se pelo fato de que, na análise final, os valores das potências ocidentais são inteiramente determinados por seus próprios interesses.

Dia 17/3, os primeiros resultados mostravam que 96,6% dos crimeanos votaram a favor de se integrarem à Rússia, no referendo de domingo. Os EUA recusam-se a aceitar o resultado do referendo. A crise da Ucrânia continua a ser duro desafio no caminho das grandes potências.  
_______________


[*] Wang Yiwei é professor na Tongii University, Diretor do Institute of International and Public Affairs, Diretor da China-EU Academic Network e pesquisador  sênior adjunto do The Chahar Institute. Graduou-se em Política Internacional na Fudan University onde também completou o mestrado e o Ph. D.. Cursou o pós-doutorado no Centro de Estudos Internacionais da Yale University. Escreveu vários livros, entre os quais: Beyond Balance of Power: Global Governance and Co-operations among Great Powers, Shanghai Lexicology Press, 2008; e The Mythed America, China Social Sciences Press, 2008. Escreve em inglês, alemão e chinês. Publicou artigos em vários jornais e revistas como American Review, International Survey, China Review, Teaching and Research, World Outlook, People’s Daily, World Economy & Politics, Wenhui Daily The hyperGlobal e Kulturaustausch (em alemão).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

David Cameron é um neo Ivan Karamazov


27/9/2012, Boris Volkhonsky, Voice of Russia, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
(caricatura por Medi Belortaja)

“Se Deus não existe, tudo é permitido”
(Ivan Karamazov, em Os Irmãos Karamazov, Dostoiévski, 1879)


David Cameron
Na 4ª-feira (26/9/2012), o primeiro-ministro britânico David Cameron lançou furioso ataque contra a ONU e sua incapacidade para conter as atrocidades na Síria. Disse que o sangue das criancinhas sírias é “terrível mácula” na reputação da ONU.

“Se a Carta das Nações Unidas ainda vale alguma coisa no século 21, temos de nos unir para apoiar uma rápida mudança de regime” – nas palavras do britânico, reproduzidas no jornal The Guardian. – “Ninguém que tenha consciência pode fazer ouvidos surdos às vozes dos que sofrem”. 

Não disse claramente quem, na sua opinião, seriam os “sem consciência”, mas diplomatas britânicos encarregaram-se de esclarecer que o premiê britânico falava de Rússia e China – os dois países que bloquearam a aprovação de várias resoluções patrocinadas pelos EUA sobre a Síria. 

É hora, data venia, de cobrar algumas respostas do Sr. Cameron.

Para começar, será que o que tanto o aflige é, mesmo, o destino das “criancinhas sírias”, ou será, muito mais, a perda do controle estratégico assegurado ao patrão dos britânicos no crucial Oriente Médio – domínio contra o qual Bashar al-Assad e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad impõem hoje a última resistência? Não fosse isso, por que insistir tanto numa “rápida mudança de regime”, antes, até, de lembrar das “vozes dos que sofrem”?

Em segundo lugar, o curso dos eventos na Síria mostra, bem claramente, que está em curso uma guerra civil, à qual o governo reage no esforço para controlar um motim. O motim, esse, foi declarado por radicais locais, com apoio direto de mercenários oriundos de vários países vizinhos armados pelo ocidente através de seus satélites no Oriente Médio. Guerras são sempre terríveis e, diga o que disser o Sr. Cameron, do palanque da ONU, os insurgentes não são cordeirinhos nem “crianças inocentes”.

Inúmeras fontes já demonstraram que o núcleo mais duro das atrocidades estão sendo cometidas pelos insurgentes armados com a ajuda de amigos do Sr. Cameron. Assim, ele acerta ao criticar as atrocidades, mas melhor faria se dirigisse sua crítica aos que estão instigando a violência na Síria com o único objetivo de promover os próprios interesses geoestratégicos. Para saber onde estão, o Sr. Cameron deve olhar, não para Rússia ou China, mas para o ocidente (enquanto estiver em New York, bastará olhar em volta).

Terceiro, ao falar do sofrimento das criancinhas sírias, por que o Sr. Cameron não inclui também o sofrimento das criancinhas iugoslavas assassinadas em 1990, sob os bombardeios da OTAN? Por que não inclui também os milhares de criancinhas iraquianas e afegãs assassinadas na agressão ocidental, na qual os britânicos foram muito ativos, menos ativos, só, que o patrão deles? Por que não lembrou dos Marines ocidentais que massacraram a Líbia, massacre que levou a atrocidades em massa contra os partidários de Gaddafi? A lista é infindável.

Verdade é que nem todos esses crimes parecem ter ensinado coisa alguma ao Sr. Cameron e seus amigos. A invasão do Iraque levou o país ao total caos. A invasão do Afeganistão não apenas indispôs 99,99% dos afegãos contra o ocidente, como afastou um antigo aliado que o ocidente sempre mantivera na região: o Paquistão. A “Primavera árabe” que tanto entusiasmo provocava há pouco mais de um ano, já volta hoje, como chicote, sobre o lombo do ocidente, de um modo que o ocidente preferiria jamais ter conhecido. 

Pois mesmo assim, ao mesmo tempo em que lamenta “os sofrimentos das criancinhas sírias” (sofrimento que, em grande parte, é efeito direto da intervenção ocidental), o ocidente, sob o pretexto liberal tolo de alguma “liberdade de expressão”, insiste na decisão de permitir que os instigadores de violência continuem ativos, jogando mais gasolina no incêndio que já arde em todo o mundo muçulmano. 

Ao referir-se ao “sofrimento das criancinhas”, o Sr. Cameron apresenta-se como Ivan Karamazov, que rejeitou a harmonia universal movido por uma lágrima infantil. Mas, de fato, a alusão é muito reveladora: Ivan Karamazov usou o argumento da “lágrima de criancinha” para tentar induzir Smerdyakov a assassinar Karamazov-pai. E se for esse o plano do ministro britânico?

sábado, 9 de junho de 2012

Síria: Rússia denuncia intervenção estrangeira e a hipocrisia ocidental


Sergey Lavrov
Sergey Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia: “Annan está paralisado por ação dos que querem a intervenção militar”


9/6/2012, Rick Rozoff, #NoNATO #ForaOTAN
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Rick Rozoff
Lavrov manifestou preocupação sobre “a reação de alguns atores de fora” os quais, disse ele, “apoiam grupos armados da oposição e, ao mesmo tempo exigem que a comunidade internacional dê passos decisivos para mudar o regime na Síria”.

O ministro disse que:

“... para justificar uma intervenção militar, continuam a falar dos refugiados que saem da Síria. Mas ninguém sabe dos que estão sitiados dentro da Síria. É o que já se viu na antiga Yugoslávia. Alguém pensou nos refugiados sitiados na Sérvia e na Eslovênia (Croácia)?” – perguntou Lavrov.

Lavrov continuou:

“Segundo estimativas recentes, há cerca de um milhão de refugiados do Iraque e meio milhão de refugiados palestinos, hoje, na Síria. E não vejo ninguém preocupado com eles ou falando deles”.

Para o ministro russo:

“... atores externos provocam a oposição síria para que continuem a ação militar. Assim, vão construindo ali cenário semelhante ao que construíram na Líbia.”
“O principal motivo pelo qual o plano de paz de Annan está paralisado é a ação dos que apoiam a intervenção militar externa na Síria, que impede a implementação do plano” – continuou Lavrov.

Lavrov disse que alguns atores “não gostam” da estabilidade que o plano pode gerar imediatamente. Querem manter a comunidade internacional indignada, e iniciar ofensiva total para intervirem na Síria.”

Lavrov manifestou preocupação sobre “a reação de alguns atores de fora” os quais, disse ele:

“... apoiam grupos armados da oposição e, ao mesmo tempo querem que a comunidade internacional aja de forma decisiva para “mudar o regime” na Síria.”

Repetiu, mais uma vez, que:

“... a Rússia jamais concordará com o uso da força, no Conselho de Segurança da ONU”. Disse que esse tipo de intervenção levaria a “consequências severas para todo o Oriente Médio”.

Lavrov disse que o governo sírio é responsável pela segurança dos cidadãos e pelo respeito aos direitos humanos, além de ser responsável por tudo que está acontecendo no país.

Tragédias como a de Houla e outros inúmeros atos de violência são resultado do confronto, hoje ativamente estimulado por atores externos. Também manifestou preocupação sobre a segurança de professores e especialistas russos que, sábado, foram atacados em Damasco.

Sobre a cobertura jornalística, o ministro das Relações Exteriores da Rússia disse que:

“... bloquear canais oficiais e privados na Síria e impedi-los de transmitir não é ação que deponha a favor da liberdade de expressão.”

Lembrou os ataques aéreos contra as instalações de transmissão de televisão em Belgrado, na Sérvia, e em Trípoli, na Líbia. “É indispensável que os atores responsáveis por esses ataques respeitem os direitos da comunidade internacional, de receber informação limpa – seja qual for a informação.”

Reunião em Moscou, para ajudar a implementar o plano de Annan

Kofi Annan
Moscou propôs uma conferência internacional sobre a crise síria, da qual participem todos os principais atores internacionais.

A Rússia manifestou esperança de que todos os atores internacionais consigam influenciar o desenrolar dos eventos na Síria, na saída de uma sessão da ONU na qual o secretário-geral dissera que o presidente sírio perdera a legitimidade.

“A conferência deve ser feita sob a autoridade da ONU” – disse Lavrov, e acrescentou que a discussão global não deve ser evento único. “A Rússia está gravemente preocupada com a presença crescente, na Síria, de terroristas internacionais e de extremistas”.

Com alguns países ocidentais já falando de impedir o Irã de participar da conferência sobre a Síria, Lavrov disse que banir Teerã “seria atitude, no mínimo, irrefletida”.

Para o ministro russo, são partes ativas e “integrais” do processo o Qatar, a Arábia Saudita, o Líbano, a Jordânia, o Iraque, a Turquia, o Irã, a Liga Árabe, a União Europeia e a Organização de Cooperação Islâmica, dentre outras.

Também ontem Lavrov repetiu a jornalistas que “não haverá autorização do Conselho de Segurança da ONU para intervenção militar na Síria.”

Nesse momento, o ministro de Relações Exteriores da Rússia está falando à imprensa sobre a Síria. A qualquer momento, detalhes atualizados.

sábado, 12 de maio de 2012

Pepe Escobar: “Vida longa aos ‘nossos’ bastardos do Golfo”


11/5/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
A vida é presente de ouro que você ganha de Deus, se for membro de carteirinha do Clube Contrarrevolucionário do Golfo (CCG), codinome Conselho de Cooperação do Golfo: Bahrain, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos podem torturar, matar, reprimir e demonizar os próprios cidadãos – em plena confiança de que escaparão, porque o máster jamais os atrapalhará.

No mesmo momento em que a dinastia sunita al-Khalifa no poder no Bahrain declara publicamente que continuará a prender, espancar, gás-lacrimogenear, invadir casas, confiscar empregos e bens e direitos e a obrigar os cidadãos pró-democracia do Bahrain a viver em estado non-stop de medo, o príncipe coroado do mesmo Bahrain, Salman bin Hamad al-Khalifa, é hóspede festejado, em Washington, do governo de Barack Obama.

O príncipe Salman – que a propaganda bahraini vende como “moderado” – apareceu lado a lado, com a secretária de Estado, Hillary “Fomos, vimos, ele morreu” Clinton. Os que “morrem” são ditadores do mal, do tipo Muammar Gaddafi. “Nossos” bastardos são festejados em DC, depois de recebidos com tapete vermelho.

Salman bin Hamad al-Khalifa
Há alguma repressão relacionada a alguma Primavera Árabe e matança no Bahrain? Claro que não. Segundo Clinton, palavras dela, são só “questões internas”.

Na prática, significa que Clinton subscreve a narrativa oficial segundo a qual a sectarização de tudo que está acontecendo no Bahrain é culpa dos manifestantes – não dos al-Khalifas, os quais, já faz um ano, estão destruindo mesquitas xiitas e investindo na total demonização dos xiitas (a culpa é do Irã “do mal”).

Os al-Khalifas têm sido muito mais cordatos que o presidente Bashar al-Assad na Síria: mataram só quantidade aceitável de gente. Mas por que o Bahrain é substancialmente “diferente” da Síria? Porque “abriga a V Frota da Marinha dos EUA, ajudando os EUA a projetarem sua força no Golfo e a conter o Irã” – e não é fala de algum neoconservador, mas do diretor da ONG Human Rights Watch, Tom Malinowski.

Um bando de covardes

Eis a conquistadora Clinton da Líbia:

O Bahrain é valioso aliado dos EUA. Somos parceiros em várias questões importantes de interesse mútuo para ambas nossas nações e também de interesse regional e global. Espero ansiosa a chance de conversar com Sua Alteza Real sobre várias dessas questões internas e externas com que o Bahrain está tendo de lidar e alcançar melhor compreensão dos esforços que estão sendo empreendidos pelo governo do Bahrain. Por tudo isso, Sua Alteza Real, bem-vindo aos EUA.

E aqui um porta-voz do governo do Bahrain, falando das coisas como as coisas são, à agência Reuters, apenas um dia antes do trololó Clinton-Príncipe Coroado:

Estamos de olho nos perpetradores e gente que usa a imprensa, o rádio e as mídias sociais para encorajar protestos ilegais e violência por todo o país. Se aplicar a lei significa resposta dura, assim será.

Tradução: a chacina prosseguirá, porque os senhores, em Washington, nos dão cobertura.

Nabeel Rajab
Nem uma palavra do governo Obama sobre a prisão do mais conhecido ativista bahraini defensor de direitos humanos Nabeel Rajab, que a Anistia Internacional declarou “prisioneiro de consciência” ao exigir que fosse imediatamente libertado. Quanto ao ativista Abdulhadi Alkhawaja, permanece há três meses em greve de fome, em protesto contra a sentença que recebeu, de prisão perpétua, condenado pelo regime al-Khalifa.

R2P, “responsabilidade de proteger”? Ora... a adorável doutrina esposada pelas Três Graças – Clinton; a Embaixadora dos EUA à ONU Susan Rice; e Samantha Power, Assessora Especial de Obama – não se aplica a manifestantes civis que protestam, a maioria dos quais são xiitas, no Bahrain. Gritam por direitos humanos básicos – dos quais jamais conheceram muitos –, já há mais de um ano.

Khalifa bin Salman al Khalifa
O primeiro-ministro do Bahrain, Khalifa bin Salman al Khalifa – cujos métodos medievais fariam corar de inveja o egípcio Omar “Sheikh al-Tortura” Suleiman, para nem falar do príncipe Nayef da Casa de Saud – está no poder há 40 anos.

E o rei do Bahrain, rei Hamad, sempre, oh, tão generoso: depois de tudo, pediu um relatório detalhado da repressão. Desnecessário dizer que as medidas recomendadas naquele relatório, embora altamente saneado, jamais foram implementadas.

Obama e Hillary
O que torna tudo ainda mais trágico, é que nada são além de um bando de covardes. Bastaria uma palavra de Clinton ou Obama, para que os al-Khalifas suspendessem imediatamente a repressão acertada entre eles todos, e que usa a polícia linha mais dura dos sunitas recrutados no Paquistão, Síria e Iêmen: libertem os milhares de prisioneiros, recontratem os milhares de trabalhadores demitidos porque seriam “subversivos”. São covardes.

Há rumores na Grã-Bretanha segundo os quais Nasser Bin Hamad, filho do rei do Bahrain, pode ser impedido de assistir aos Jogos Olímpicos de Verão, em Londres, dentro de alguns meses. E por boas razões: ele pessoalmente ameaçou muitos atletas, além de ser acusado de tortura. E o que fez, quando a coisa esquentou? Rapidamente deletou todos os tuítes ameaçadores. Podem contar: em julho, Nasser será visto nas principais festas em Mayfair.

Ilustrações colhidas na internet pela redecastorphoto