Mostrando postagens com marcador Oleodutostão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oleodutostão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pepe Escobar – Rússia: Jogo de poder por trás da “mudança de regime”

16/3/2015, [*] Pepe EscobarSputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Império do Caos

Com “amigos” como o Presidente do Conselho da Europa, Donald Tusk e o comandante da OTAN general Philip Breedlove [literalmente “filho do amor”, ou, mais, “da raça do amor” (NTs)], a União Europeia (UE) com certeza não precisa de inimigos.

O general Breedhate [literalmente “filho do ódio”, ou, mais, “da raça do ódio”(NTs)] anda encarnando seu melhor arremedo de Dr. Fantástico, a alertar que a Rússia-do-mal está invadindo a Ucrânia todos os dias. O establishment político alemão não está gostando.

Tusk, no encontro com o presidente Obama dos EUA, virou de cabeça para baixo a máxima “Divide e Impera”: insistiu que “adversários estrangeiros” tentam dividir os EUA e a União Europeia (EU) – por mais que, na verdade, sejam os EUA que só fazem tentar dividir a Rússia e a União Europeia. Na mesma linha, culpou a Rússia – que se teria aliada ao falso Califato do ISIS/ISIL/Daesh.

O que Tusk está(ria) fazendo? A UE que assine o sistema fraudulento concebido pelos EUA-empresa, conhecido como Tratado Transatlântico de Parceria para Comércio e Investimento [orig. Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)], nada além de uma OTAN comercial. E daí em diante o “ocidente” reinará para sempre.

A OTAN pode, sim, realmente, encarnar o paradoxo geopolítico/existencial máximo: uma aliança que existe para administrar o caos que ela mesma cria e ceva.

E ainda, orbitando em torno da OTAN, há muitas outras táticas diversionistas até onde a vista alcança. Considerem-se as mais recentes jaculatórias do conhecido russófobo Dr. Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski. Em conferência no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, o Dr. Zbig pregou que EUA e Rússia devam acertar entre elas que, no caso de a Ucrânia vir a ser membro da UE, ela nunca será membro da OTAN.

Zbigniew Brzezinski
Ora, ora, caro Doctor, temos um problema. A UE tem interesse zero em incorporar um estado falido, mantido vivo artificialmente (sistema caríssimo de vida artificial) pelo FMI, e mergulhado, tecnicamente, numa guerra civil.

Por outro lado, os EUA têm interesse monolítico, não diviso, em meter a Ucrânia como membro da OTAN: aí está todo o fundamento digamos “racional” para a incansável demonização pós-Maidan, do Presidente Putin da Rússia.

Digamos que seja manobra do Dr. Zbig; pensamento maníaco-desejante de neoconservador; coisa pela qual algumas facções do Império do Caso/Masters of the Universe morreriam; ou todas as anteriores; o alvo definitivo, radical, é conseguir “mudar o regime” na Rússia e esquartejar a Rússia. A inteligência russa sabe tudo dessa “história secreta”.

A reação igual e contrária, da Rússia, exige que, para haver qualquer acordo, só se se acabarem as sanções contra a Rússia; fim do ataque especulativo contra o rublo/guerra dos preços do petróleo; todos os países do leste europeu fora da OTAN; a Crimeia reconhecida como parte da Federação Russa; o leste da Ucrânia convertido em região autônoma, mas ainda como parte da Ucrânia.

Todos sabemos que, tão cedo, não acontecerá (se algum dia acontecer). Assim, o mais provável é que continue essa horrível atmosfera de Guerra Fria 2.0 – além de campanha de incansável demonização da Rússia, que já começa a dar seus frutos.

Uma nova pesquisa Gallup mostra que mais americanos veem hoje a Rússia – mais que a Coreia do Norte, a China e o Irã – como inimigo público n. 1 dos EUA e como principal ameaça contra o ocidente.


O sonho do Império do Caos, de conseguir “mudança de regime” na Rússia, sempre foi condição absoluta para que os EUA controlem grandes porções da Eurásia. Um fantoche em Moscou – cópia carbono de Yeltsin, o pateta beberrão – facilmente “liberaria” todos os imensos recursos naturais da Rússia para o “ocidente”, junto com os dos “-stões” contíguos, na Ásia Central, como brinde.

Oleogasodutostão - transporte dos tubos
Se, por outro lado, a Rússia mantém sua influência, mesmo indireta, na Ucrânia e sobre o petróleo e gás natural da Ásia Central, Moscou é capaz de se projetar outra vez como superpotência. Como se vê, é sempre sobre a dominação do Oleogasodutostão Eurasiano; tudo que não seja isso significa como ameaça direta ao mundo unipolar.

inteligência russa está bem consciente da incansável pressão dos EUA sobre a Rússia, com vistas a arrancar pedaços da Rússia, enfraquece-los, até que a Rússia seja convertida em terra devastada e caos, não diferente de Iraque ou Iêmen – com seus recursos naturais fluindo livremente para o “ocidente”.

Esse é o motivo pelo qual a pressão continua gigantesca, já alcançando proporções de guerra nuclear. Mas alguns adultos na UE, parece, estão começando a entender do que realmente se trata.

A UE simplesmente não tem dinheiro para realmente investir nos “-stões” da Ásia Central ou para bombear bilhões de euros (desvalorizados) em oleogasodutos através do Azerbaijão. Líbia, Nigéria e o Oriente Médio (do Iraque até o Iêmen) são uma confusão só. A UE não recebe nenhuma garantia de fornecimento de energia, nem do Oriente Médio nem do Norte da África. E se não receber garantias da Rússia, de que a energia continuará a fluir até lá, não terá nenhuma garantia, de coisa alguma.

Esse conjunto de circunstâncias expõe o fantasma de uma Guerra Fria 2.0 que vai esquentando muito perigosamente. Desnecessário dizer, Polônia, Ucrânia e outros leste-europeus desamparados nunca passarão de peões, se explodir guerra civil total na Ucrânia – objetivo explícito daquela Terra do Nunca, o Kaganato de Nulands, ou Nulandistão.

Num cenário – admitidamente aterrorizante – de guerra, a Rússia fechará o espaço aéreo do leste da Ucrânia servindo-se de seus sofisticados mísseis de defesa. Pela primeira vez na história seriam usadas armas nucleares táticas. A Europa lá ficaria, basicamente sem defesas, no caso de os Drs. Fantásticos da OTAN serem tentados a iniciar guerra nuclear total.

Seja como for, os Mísseis Balísticos Cruzadores Intercontinentais e mísseis cruzadores e jatos de caça da OTAN não fariam nem cócegas nos sistemas S-400 e S-500 de mísseis russos de defesa.

S-400 - Mísseis anti-aéreos (2009)
(clique na imagem para aumentar)
S-500 - Mísseis anti-aéreos (2014)

Provocar o urso russo é posição perdedora. A Rússia já desligou-se do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa – o que é negócio realmente sério (a OTAN está mais que muito alarmada). E, isso, ainda sem falar que Moscou já anunciou que tem pleno direito de instalar (e talvez já tenha instalado) armas nucleares na Crimeia. Enquanto isso, os militares russos continuam a testar as defesas inimigas, mandando seus aviões voar sobre o perímetro protegido pela OTAN.

A Eurásia balança de um minuto para outro, entre reconciliação e provocação. Cui bono?Quem ganha com isso? Moscou é mestra em manter Washington e OTAN cercadas, num mar de palpites.

Isso é que é cantar! (vídeo a seguir)


Putin foi o primeiro a propor, anos atrás, que se criasse uma rota comercial que iria de Lisboa a Vladivostok, incluindo também a China, usando trens de alta velocidade para evitar os oceanos e mares controlados pelos EUA. Foi o plano original movido a comércio, em vez de alguma aliança China-Rússia contra a OTAN.

O que o Império do Caos conseguiu na Ucrânia, pelo menos por enquanto, foi dividir a Eurásia em três blocos em disputa entre eles: Alemanha-França aliadas aos EUA (mas os dois países já muito preocupados com os “desenvolvimentos” da “aliança”); a Rússia; e a China perturbada pelo Japão. Mais uma vez, é “Divide e Impera” – com os EUA como hegemon perpétuo, sempre capaz de adaptar e acionar sua proverbial estratégia de política exterior: “Bombardeie e Abuse”.

Mas a ópera (geopolítica) só acaba depois que a dama gorda canta. [2] A parceria estratégica Rússia-China continua a evoluir – bastará ver as próximas reuniões dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai na Rússia, nesse verão.

A riqueza de petróleo e gás natural da Rússia e Ásia Central continuará a fazer a volta, de volta, para China e Ásia. E em poucos anos o mantra dos “Excepcionalistas que reinam sobre as ondas” deixará de ser fator determinante pró excepcionalistas.

Mudar o regime? Vão sonhando.
_____________________________________________________________


[1] “Venha passear no meu cruzeiro”: Frankie Ford, em "Sea Cruise" (cruzeiro marítimo). Levado ao ar no programa Saturday Night Beech-Nut Show, 21/3/1959. Vídeo a seguir:


[2] No orig. Yet it ain’t over till the fat (geopolitical) lady singsSobre “Depois que a dama gorda canta”, vide Edward Hugh, 25/11/2012:

Os jornalistas financeiros em todo o mundo ficaram surpreendidos e intrigados quando ouviram, muito recentemente, Christine Lagarde utilizar uma estranha expressão. “Sabem: a coisa só termina depois que a dama gorda canta, como diz o ditado” – disse ela aos espantados jornalistas numa conferência de imprensa em Manila. Que senhora gorda, e o que é que ela canta, devem ter sido questões que atravessaram a mente de muitos dos presentes. Se fossem ver, descobririam que, longe de ser alguma nova deixa de sabedoria feminina que a Diretora-Geral do FMI quisesse transmitir, a frase, na verdade, tem origem no mundo machista dos negócios e dos comentadores desportivos de jogos cujo resultado se mantém incerto até ao último minuto, e, nos negócios, para significar que um negócio não está efectivamente fechado até que seja feito o último lance.
_________________________________________________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books.  

sexta-feira, 16 de março de 2012

Guerra à moda do Óleo-gasodutostão


16/3/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Pepe Escobar
A mensagem da secretária de Estado dos EUA Hillary (Viemos, vimos, ele morreu”) Clinton ao Paquistão foi curta e grossa: tentem tocar adiante o gasoduto Irã-Paquistão (IP), e acabamos financeiramente com vocês.

Islamabad, com a economia em cacos, vivendo em terra de apagão elétrico e desesperada para conseguir energia, tentou argumentar. O mais alto funcionário do Ministério de Petróleo e Recursos Naturais Muhammad Ejaz Chaudhry repetiu que o gasoduto IP, de 2.775km e $1,5 bilhão, era absolutamente crucial para a segurança energética do Paquistão.

Caiu em ouvidos surdos. Clinton evocou as sanções “especialmente danosas” – associadas ao movimento de Washington para isolar o Irã por todos os meios existentes e a campanha sem limites para obrigar especialmente a Índia, a China e a Turquia a cortar suas importações de petróleo e gás iranianos.

Dado que Washington continua fracassando nos esforços para interromper os avanços do Óleo-gasodutostão na Ásia Central – isolando o Irã e contornando a Rússia – tornou-se agora caso balístico de vida ou morte impedir, custe o que custar, a integração entre o sudoeste e o sul da Ásia, do campo-gigante de gás iraniano de South Pars até as províncias paquistanesas do Baloquistão e de Sindh.

O óleo-gasoduto Irã-Paquistão, IP, vale relembrar, é o original IPI (Irã-Paquistão-Índia) de $7 bilhões, também conhecido como “o óleo-gasoduto da paz”. A Índia caiu fora em 2009, sob pressão furiosa e incessante que sofreu dos governos George W Bush e, depois, Barack Obama. A Índia ganhou acesso a tecnologia nuclear para objetivos civis.

A China, por sua vez, ainda está de olho na possibilidade de estender o IP do porto de Gwadar, cruzando até o norte do Paquistão ao longo da rodovia Karakoram, até Xinjiang. A China já está ajudando Islamabad a construir reatores nucleares civis – como parte da política de segurança energética do Paquistão.

O Industrial and Commercial Bank of China Ltd. (ICBC), maior banco da China e primeiro do mundo em empréstimos, já estava posicionado como assessor e conselheiro financeiro do IP. Mas então, considerando o que se via escrito nas estrelas (sanções), passou a “mostrar menos interesse”, como Islamabad decidiu divulgar. O ICBC está completamente fora do negócio? Não exatamente. Pelo menos segundo o porta-voz do ministro paquistanês do Petróleo, Irfan Ashraf Qazid: “O banco ICBC continua engajado no projeto do óleo-gasoduto IP e as negociações prosseguem”.

Um megabanco como o ICBC, com zilhões de interesses globais, tem de ser cauteloso, se se trata de desafiar a máquina de sanções de Washington; mas há outras opções de financiamento a encontrar, outros bancos ou acordos em nível de governo com China e Rússia. A ministra de Relações Exteriores do Paquistão Hina Rabbani Khar acaba de deixar isso muito claro. O Paquistão precisa muito do gás que começará a fluir em dezembro de 2014.

Islamabad e Teerã já acertaram o preço. O trecho iraniano de 900km já está construído; o do Paquistão está começando a ser construído, pela empresa ILF Engineering, da Alemanha. A agência IRNA do Irã disse que o Paquistão anunciou que o projeto IP prossegue. Deve-se prever que a imprensa ocidental passe a dizer que os chineses assustaram-se e desistiram.

E o IPC? Quem se interessa?

Para Washington, a única via que resta é outro gambito no Óleo-gasodutostão – o perenemente tumultuado óleo-gasoduto TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia). Ainda que se pressuponha que encontre financiamento; ainda que se pressuponha que os Talibãs recebam sua parte (aspecto que já fez desmoronar negociações entre os Talibã e o governo Clinton e, depois, o governo Bush); e mesmo que se assuma, até, que o óleo-gasoduto TAPI não seja bombardeado de hora em hora pelos mujahideen desde a pedra inaugural, o TAPI só estará pronto, otimistamente, em 2018. E Islamabad não pode simplesmente esperar até lá.

Como seria de esperar, a campanha de Washington contra o IP foi incansável – incluindo, é claro, guerra clandestina. Islamabad está convencida de que a CIA, a agência indiana de inteligência RAW, o Mossad israelense e o MI-6 britânico conspiram ativamente para conseguir, seja como for, que uma espécie de Baloquistão Ampliado decida levantar-se em armas para separar-se do governo central. Todas essas agências têm andado, mais ou menos à moda líbia, financiando e armando grupos de dissidentes baloques. Não por amor à independência – mas como via para balcanizar o Paquistão.

Para arrematar a fúria de Washington, o Irã dito “isolado”, vai começar a exportar mais 80 mil barris/dia de petróleo para o Paquistão; e já alocou $250 milhões para financiar o trecho paquistanês do óleo-gasoduto Irã-Paquistão, IP.

Tudo isso tem potencial para virar coisa muito, muito mais feia. Nada conseguirá conter a fúria que Washington aplicará na operação para esmagar o IP. Do ponto de vista do Irã pressionado e de uma economia estrangulada no Paquistão – e também do ponto de vista da China – trata-se aqui da Grade Asiática de Segurança Energética [orig.Asian Energy Security Grid].

O chinês ICBC talvez esteja (mais ou menos) fora. Mas a coisa toda pode ficar ainda mais suculenta, se Pequim decidir entrar na roda e converter o óleo-gasoduto Irã-Paquistão, IP, em óleo-gasodutostão IPC, Irã-Paquistão-China.

Washington terá coragem para desafiar Pequim cara a cara?



Leia outras postagens afins:

25 Jan 2012
Em declaração antes do discurso, Obama “aplaudiu” a decisão da União Europeia de impor embargo contra o petróleo do Irã, e acrescentou que “Aquelas sanções demonstram, mais uma vez, a unidade da...

23 Dez 2011
21/12/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online. Playing chess in Eurasia. Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu. Ver também. 5/9/2011, Pepe Escobar: “O Amado Líder e o Oleodutostão” (Asia Times Online) em português. Estão abertas as apostas sobre .... Há pelo menos um ano, nosso Gurbanguly repete, a todos os diplomatas e altos executivos do petróleo que apareçam, que rejeita a interferência da Rússia na estratégia turcomena...

29 Dez 2011
A disputa por petróleo, água e outros recursos intensifica-se, as relações globais mudam, criando o pano de fundo para uma cadeia de conflitos, do Iraque à Líbia. ...Lars Schall: Pepe Escobar, dada sua experiência nesse campo, qual, em sua opinião, o principal mal-entendido que se constata na opinião pública em geral, relacionado à chamada...

12 Jul 2011
Antes do final de 2011, o Paquistão iniciará a construção de seu trecho do óleo-gasoduto IP (Irã-Paquistão) – segundo Asim Hussain, ministro paquistanês para o Petróleo e Recursos Naturais. Os 1.092 quilômetros do óleo-gasoduto do lado iraniano já estão prontos. O óleo-gasoduto ... É desenvolvimento importantíssimo nas “guerras” do Oleodutostão na Eurásia. O óleo-gasoduto Irã-Paquistão (IP) é uma das principais intersecções da grande Grade Asiática de ...

29 Mai 2011
27/5/2011, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar. Do the China-Pakistan pipeline ... Será terremoto geopolítico monstro, em ponto crucial do “Oleodutostão” e também no Novo Grande Jogo na Eurásia. Ainda adormecido, Gwadar ...

30 Jul 2011
29/7/2011, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Catar. The Allure of Afghanistan. Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu. Potências asiáticas disputam politicamente as reservas minerais e construção de oleodutos estratégicos ...

26 Jun 2011
22/6/2011, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar. Beijing and ... Basicamente, envolve desenvolvimento/produção de petróleo, gás e minérios na Rússia – na Sibéria e no extremo oriente do país – e processamento na China. ... O que o Oleodutostão encobre é a questão extremamente sensível de quem será o cão alfa econômico na Ásia Central. ...E há também o “Rosebud” desse filme “Cidadão Eurásia” – que é o invencível labirinto das encruzilhadas afegãs.

05 Set 2011
Acabava de oferecer a Medvedev um saco de doces: luz verde para o gambito [1] de um grande Oleodutostão transcoreano, uma moratória na produção e teste de armas nucleares e a promessa de reiniciar conversações ...

10 Set 2010
E, como sempre, jamais se ouve falar sobre o jogo chave do Oleodutostão. Prendam os suspeitos de sempre. Já deveria ser bem claro, a essa altura, que o Paquistão é um establishment militar-de-inteligência, disfarçado de ...

18 Jan 2012
Nesse crucial tabuleiro eurasiano de xadrez, o Oleodutostão (orig. Pipelineistan [11]), gasoduto Irã-Paquistão (IP) de gás natural – para extremo incômodo de Washington – está em pleno andamento. O Paquistão precisa ...

20 Nov 2010
... do Pentágono) e do aparato para guerra-relâmpago com navios-patrulha distribuídos em todos os mares do globo, à disseminação de bases militares para cobrir nós estratégicos em todo o Oleodutostão [da Ásia Central].

(e muitas outras postagens sobre petróleo no Oriente Médio e Sul da Ásia)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Pepe Escobar: “O mito do Irã isolado”


Os caminhos do dinheiro, na crise iraniana

17/1/2012, Pepe Escobar, Tom Dispatch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comecemos pela linha vermelha. Cá está ela, colhida diretamente da boca do leão [1]. Semana passada, o secretário de Defesa Leon Panetta disse dos iranianos: “Estão tentando desenvolver bomba atômica? Não. Mas sabemos que estão tentando desenvolver alguma capacidade nuclear. E é isso que nos preocupa. Nossa linha vermelha para o Irã é “não desenvolvam bomba atômica”. Para nós, é a linha vermelha.” 

Estranho, mesmo, é que as tais linhas vermelhas não param de encolher. Era uma vez, antigamente, a linha vermelha para Washington era “o enriquecimento” do urânio. Agora, só falam de bomba atômica. Lembrem todos que, desde 2005, o Supremo Líder iraniano, aiatolá Khamenei já dizia [2] que seu país não trabalha para construir bomba atômica. A mais recente National Intelligence Estimate  [3] sobre o Irã, produzida pela inteligência dos EUA já disse várias vezes que o Irã não está, de fato, construindo bomba atômica (o que não significa que não venha, algum dia, a ter capacidade para construir).

Mas e se não se tratar de coisa alguma como “linha vermelha”? E se tratar-se, de fato, de algo completamente diferente, de uma, digamos, “linha do petrodólar”?

Sanções e novos bancos?

Comecemos por aqui: em dezembro de 2011, indiferente às graves consequências para a economia global, o Congresso dos EUA – sob as pressões habituais pelo lobby israelense (não que fossem necessárias) – impôs um pacote de sanções goela abaixo do governo Obama (100 a zero no Senado, e apenas 12 [4] votos “não” na Câmara de Deputados). Começando em junho, os EUA terão de boicotar todos os bancos e empresas de terceiros países que negociem com o Banco Central do Irã, o que implica paralisar as vendas de petróleo do país. (O Congresso prevê algumas “exceções”).

O objetivo final? Mudar o regime – e o que mais seria? – em Teerã. O funcionário norte-americano não identificado de sempre admitiu claramente ao Washington Post, e o jornal publicou o comentário. (“O objetivo dos EUA e das novas sanções contra o Irã é levar o regime ao colapso, disse alto funcionário da inteligência dos EUA, em clara indicação de que o governo Obama tem, no mínimo, uma intenção de derrubar o governo do Irã, apesar do corrente engajamento”). Mas... Epa! O jornal logo depois teve de revisar [5] esse trecho, para eliminar essa citação embaraçosamente clara. Sem dúvida, essa “linha vermelha” aproximara-se excessivamente da verdade e abalara o conforto geral.

O ex-comandante geral do Estado-Maior das Forças dos EUA almirante Mike Mullen acreditava que só evento monstro estilo choque-e-pavor, que humilhasse completamente a liderança em Teerã, levaria a genuína mudança de regime – e de modo algum estava sozinho. Defensores de ações que vão de ataques aéreos à invasão (pelos EUA, por Israel ou por alguma combinação de ambos) sempre foram legiões na Washington neoconservadora. (Basta ver, por exemplo, o relatório de 2009 da Brookings Institution, Which Path to Pérsia  [6]).

O problema é que quem conheça, por pouco que seja, o Irã, sabe que esse tipo de ataque fará a população cerrar fileiras a favor de Khamenei e dos Guardas Revolucionários. Nessas circunstâncias, o que menos importará é a profunda aversão que vários iranianos nutrem contra a ditadura militar do mulariato. 

Além disso, até a oposição iraniana apoia um programa nuclear nacional pacífico. É questão de orgulho nacional.

Intelectuais iranianos, mais familiarizados com as fumaças e espelhos persas que os ideólogos em Washington, descartam completamente [7] quaisquer cenários de guerra. Dizem que o regime de Teerã, afiado nas artes do teatro de sombras persa, não tem qualquer intenção de provocar qualquer tipo de ataque que levaria ao cerco contra o próprio governo. Por sua vez, certos ou não, os estrategistas de Teerã assumem que Washington não tem condições para lançar mais uma guerra no Oriente Médio Expandido, sobretudo se se fala de guerra que levaria a terrível dano colateral para a economia mundial.

Enquanto isso, as expectativas de Washington, de que sanções duríssimas possam forçar os iranianos a ceder um pouco, se o governo não for derrubado, podem revelar-se nada além de quimera. Em Washington, os especialistas só falam de uma suposta mega-desvalorização desastrosa da moeda iraniana [8], o Rial, dadas as novas sanções. Infelizmente para os fãs do colapso econômico do Irã, o professor Djavad Salehi-Isfahani [9] já expôs em detalhes elaborados a natureza de longo prazo desse processo, que os economistas iranianos receberam como dádiva. Afinal, as sanções farão aumentar a importância de outros itens de exportação iraniana e ajudarão a indústria local, hoje obrigada a enfrentar a concorrência dos produtos chineses baratos. Em resumo: um Rial desvalorizado tem boas chances de ajudar a reduzir o desemprego no Irã. [10]

Mais conectado que o Google

Embora poucos nos EUA tenham observado, o Irã não está absolutamente “isolado”, por mais que Washington deseje que esteja. O primeiro-ministro do Paquistão Yusuf Gilani tornou-se passageiro frequente de voos para Teerã. E não se compara, em assiduidade, com o chefe da segurança nacional da Rússia, Nikolai Patrushev, que recentemente alertou Israel para que não force os EUA a atacar o Irã. Acrescente-se a tudo isso também o aliado dos EUA e presidente do Afeganistão Hamid Karzai. Num Loya Jirga (Grande Conselho) no final de 2011, frente a 2.000 chefes tribais, Karzai disse que Kabul planejava aproximar-se ainda mais de Teerã.

Oleodutostão - as várias linhas que passam e/ou saem do Irã
Nesse crucial tabuleiro eurasiano de xadrez, o Oleodutostão (orig. Pipelineistan  [11]), gasoduto Irã-Paquistão (IP) de gás natural – para extremo incômodo de Washington – está em pleno andamento. O Paquistão precisa muito de energia e o governo já decidiu claramente que não está disposto a esperar até o dia do juízo final pelo projeto que é a menina-dos-olhos de Washington [12] – o oleogasoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia (TAPI) – para tentar atravessar o Talibãnistão.

Até o ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutoglu esteve recentemente em Teerã, embora as relações entre os dois países estejam cada dia mais complicadas. Afinal, a energia sobrepõe-se a todas as ameaças na região. A Turquia é membro da OTAN e já está envolvida em operações clandestinas na Síria, aliada a sunitas fundamentalistas linha-duríssima no Iraque e – em movimento ostensivo de dar as costas à(s) primavera(s) árabe(s) – trocou um eixo Ankara-Teerã-Damasco por eixo Ankara-Riad-Doha. Já planeja até hospedar componentes do longamente planejado sistema de mísseis de defesa de Washington, mirados para o Irã.

Tudo isso, vindo de um país para o qual o mesmo Davutoglu inventara uma política exterior de “zero problemas com nossos vizinhos”. Apesar de tudo, a necessidade de Oleogasodutostão faz disparar todos os corações. A Turquia precisa desesperadamente de acesso aos recursos energéticos do Irã e, se o gás natural iraniano algum dia chegar à Europa Ocidental – chegada que os europeus esperam com máxima ansiedade – a Turquia será país de trânsito daquele gás, com os correspondentes privilégios e impostos a cobrar. Líderes turcos já demonstraram que rejeitam quaisquer novas sanções que os EUA imponham ao petróleo iraniano.

Por falar em conexões, o mundo assistiu, semana passada, a um espetacular coup de théâtre diplomático, com o tour do presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã, pela América Latina. A direita dos EUA imediatamente pôs-se a falar sobre um eixo do mal Teerã-Caracas – que supostamente estaria promovendo o “terror” na América Latina, como preparação para futuros ataques contra a superpotência do norte – mas, de volta à vida real, o que se viu foi outro tipo de clara verdade [13]. Mesmo depois de tantos anos, Washington ainda não é capaz de digerir a ideia de que perdeu o controle e, até, a influência, sobre aquelas duas potências regionais sobre as quais, há tempos, exerceu sua impiedosa hegemonia imperial. 

Acrescente a tudo isso a barreira de desconfiança que só fez solidificar-se desde a revolução islâmica do Irã de 1979. Misture também uma América Latina nova, já praticamente soberana e que busca a integração, não só pelos governos de esquerda na Venezuela, Bolívia e Equador, mas também pelas potências regionais Brasil e Argentina. Mexa tudo e você obterá as fotos históricas em que se veem os presidentes Chávez da Venezuela e Ahmadinejad do Irã, , saudando o presidente Daniel Ortega da Nicarágua. 

Washington continua a tentar divulgar a imagem de um mundo do qual o Irã teria sido completamente desconectado. Como já aconteceu, a porta-voz do Departamento do Estado Victoria Nuland insistia novamente, recentemente, que “o Irã permanece em total isolamento internacional”.  Não. Como também acontece com frequência, a porta-voz precisa prestar mais atenção aos fatos.

Esse Irã que permaneceria “isolado” tem $4 bilhões em projetos conjuntos com a Venezuela, dentre os quais – crucialmente importante – um banco (como também com o Equador, o Irã tem vários projetos planejados, da construção de usinas a, outra vez, também bancos). Tudo isso levou a equipe dos “Primeiro-Israel” que Israel controla em Washington a exigir, em altos brados, que se aplicassem sanções também contra a Venezuela. O problema é o seguinte: como, nesse caso, os EUA pagariam para receber o petróleo da Venezuela de que muito precisam?

A imprensa dos EUA comentou muito que Ahmadinejad não tenha visitado o Brasil nesse tour latino-americano, mas não há dúvidas de que Teerã e Brasília continuam em sintonia diplomática. No que tenha a ver com o dossiê diplomático, a história do Brasil só atrai simpatias. Afinal, o Brasil desenvolveu – e depois cancelou – um programa de armas nucleares. Em maio de 2010, Brasil e Turquia construíram um acordo de troca de urânio para o Irã que bem poderia ter desatado os nós mais apertados do imbróglio nuclear entre EUA e Irã. Aquele acordo foi imediatamente sabotado por Washington. Membro chave dos BRICS, o clube das principais economias emergentes, Brasília opõe-se firmemente à estratégia dos EUA de sanções/embargo [14].

O Irã está “isolado” dos EUA e da Europa Ocidental, mas dos BRICS aos MNAs (120 países do Movimento dos Não Alinhados), o Irã tem, a seu favor, a maioria do sul global. E, além do mais, há os aliados de Washington, Japão e Coreia do Sul, que suplicam para serem excluídos da obrigação de boicotar/embargar o Banco Central do Irã.

Não surpreende, porque essas sanções unilaterais dos EUA visam também a atingir a Ásia. Afinal, China, Índia, Japão e Coreia do Sul, juntos, compram nada menos que 62% de todo o petróleo que o Irã exporta.

Com a polidez que é marca registrada asiática, o Ministro das Finanças do Japão Jun Azumi fez saber ao secretário do Tesouro dos EUA Timothy Geithner o problema que Washington está criando para Tóquio, que depende do Irã para suprir 10% do petróleo que consome. Está prometendo [15] pelo menos “reduzir” aquela proporção “o mais depressa possível”, para obter de Washington uma isenção daquelas sanções, mas que ninguém espere muita coisa. A Coreia do Sul já anunciou que, em 2012, comprará do Irã, sim, 10% do petróleo de que necessita.

Rota da Seda Redux 

O mais importante de tudo é que um Irã “isolado” é assunto gravíssimo, de alta segurança nacional, para a China, que rejeitou [16] imediatamente as últimas sanções de Washington, sem nem piscar [17]. O ocidente parece esquecer que o Império do Meio e a Pérsia fazem negócios já há quase dois mil anos. (“Rota da Seda”, alguém já ouviu falar?)

Os chineses já montaram grande negócio [18] para o desenvolvimento do maior campo de petróleo do Irã, Yadavaran. Há também a questão de entregar o petróleo iraniano no Mar Cáspio, por um oleoduto que se estende do Cazaquistão à China Ocidental. De fato, o Irã fornece nada menos que 15% do petróleo e do gás natural que a China consome. O Irã é mais crucial [19] para a China, especialista em energia, que a Casa de Saud para os EUA, que importam da Arábia Saudita 11% do petróleo que consomem.

A verdade é que a China pode sair como vencedora [20] da nova rodada de sanções de Washington, porque provavelmente conseguirá preço mais baixo por petróleo e gás, com os iranianos agora mais dependentes do mercado chinês. Nesse momento, de fato, os dois países estão em meio a uma complexa negociação [21] sobre o preço do petróleo iraniano, e os chineses aumentaram a pressão cortando muito de leve as compras de energia. Mas tudo isso estará resolvido em março, pelo menos dois meses antes de a última rodada de sanções dos EUA entrar em vigência, segundo especialistas em Pequim. No final, os chineses com certeza comprarão muito mais gás e petróleo iranianos, mas o Irã permanecerá na posição de seu terceiro maior fornecedor de petróleo [22], depois de Arábia Saudita e Angola.

Quanto a outros efeitos sobre a China das novas sanções, que ninguém conte muito com eles. Empresários chineses no Irã estão produzindo carros, redes de fibras óticas e expandindo o metrô de Teerã. O comércio bilateral é de $30 bilhões hoje e deve alcançar os $50 bilhões em 2015. Não há dúvidas de que comerciantes chineses encontrarão um meio de circunavegar os impedimentos bancários impostos pelas novas sanções.

A Rússia, é claro, é outra apoiadora chave do “isolado” Irã. Opôs-se fortemente contra as sanções aplicadas através da ONU e as aplicadas pelo pacote aprovado em Washington [23] e que visam o Banco Central do Irã. De fato, a Rússia deseja que sejam suspensas as sanções já aplicadas pela ONU e também trabalha num plano alternativo [24]que poderia, pelo menos teoricamente, levar a um acordo nuclear aceitável, sem demérito, por todas as partes.

No front nuclear, Teerã já manifestou disposição para acertar-se com Washington, seguindo as linhas do plano que Brasil e Turquia sugeriram e Washington boicotou imediatamente, em 2010. Dado que hoje já se vê bem claramente que, para Washington – com certeza para o Congresso – a questão nuclear é secundária (e a mudança de regime é a questão principal) – quaisquer novas negociações estão condenadas a enfrentar processo extremamente doloroso.

Tudo isso é especialmente verdade agora que os líderes da União Europeia conseguiram afastar-se de qualquer futura mesa de negociação, atirando, eles mesmos, nos próprios pés calçados em sapatos Ferragamo. À moda típica, seguiram caninamente a liderança de Washington para implementar um embargo ao petróleo do Irã. Como alto funcionário da União Europeia disse a Trita Parsi, presidente do Conselho Iraniano Norte-americano [25], e diplomatas da União Europeia disseram também a mim em termos bem claros, eles temem que a situação esteja agora a um passo de nova guerra.

Enquanto isso, uma equipe da Agência Internacional de Energia Atômica acaba de visitar o Irã [26]. A AIEA está supervisionando tudo que tenha a ver com programa nuclear no Irã, inclusive a nova usina de enriquecimento de urânio [27] em Fordow, próxima da cidade santa de Qom, que deverá estar em plena produção em junho. A AIEA é positiva: no Irã ninguém cogita de bomba. Mesmo assim, Washington (e os israelenses) continuam a agir como se fosse apenas questão de tempo – e pouco tempo.

Siga o dinheiro 

O mote do isolamento iraniano enfraquece ainda mais se se sabe que o país está abandonando o Dólar no comércio com a Rússia, que passará a ser feito nas respectivas moedas nacionais, Rials e Rublos [28] – movimento semelhante ao que já se vê no comércio entre China e Japão. Quanto à Índia, usina econômica na região, os líderes também se recusam [29] a suspender as compras de petróleo iraniano, troca comercial que, no longo prazo, parece que também não será conduzida em dólares. A Índia já está usando o Yuan em negócios com a China; Rússia e China também já negociam em Rublo e Yuanshá mais de um ano; Japão e China comerciam entre eles em Yen e Yuan. Como para Irã e China, todos os novos negócios e investimentos conjuntos serão pagos em Yuan e Rial.

Tradução, caso seja necessária: no futuro próximo, com europeus excluídos do mix, praticamente nenhum petróleo iraniano será comerciado em dólares.

Importante também, três dos BRICS (Rússia, Índia e China) aliados do Irã são grandes possuidores (e produtores) de ouro. Suas complexas negociações não serão afetadas pelos humores do Congresso dos EUA. De fato, quando o mundo em desenvolvimento assiste à profunda crise [30] no Ocidente da OTAN, o que vêem ali é dívida massiva dos EUA, o Fed imprimindo moeda como se o fim do mundo estivesse próximo, muita injeção de dinheiro nos bancos [orig. “quantitative easing”] e, claro, a eurozona abalada até os alicerces.

Siga o dinheiro. Deixe de lado, por um instante, as novas sanções contra o Banco Central do Irã, que só entrarão em vigência daqui a alguns meses; ignore as ameaças iranianas de fechar o Estreito de Ormuz (pouco viáveis, porque aquela é a principal via pela qual o petróleo iraniano chega ao mercado), e é possível que a razão chave pela qual a crise no Golfo só faz crescer esteja na decisão de torpedear o petrodólar usado como moeda de troca em todos os negócios.

A ideia foi introduzida pelo Irã e com certeza gera ansiedade máxima em Washington, que se vê ultrapassada não só por uma potência regional, mas, também, pelos seus dois principais concorrentes estratégicos, China e Rússia.  Não surpreende que todos aqueles porta-aviões estejam nesse instante em viagem para o Golfo Persa [31], mas enviados para o mais estranho dos combates: naves militares, com ordens para desarticularem arran os econômicos.

Nesse contexto, vale recordar que, em setembro de 2000, Saddam Hussein abandonou o petrodólar como moeda de pagamento pelo petróleo iraquiano [32 ], e mudou-se para o euro. Em março de 2003, o Iraque foi invadido e aconteceu a inevitável mudança de regime. A Líbia de Muammar Gaddafi propôs um dinar de ouro, previsto para ser moeda comum africana e moeda que a Líbia aceitaria em pagamento por seus recursos energéticos vendidos. Outra intervenção e mais um regime “mudado”.

Mas Washington/OTAN/Telavive oferecem narrativa completamente diferente. As “ameaças” dos iranianos seriam o xis da questão da atual crise, embora as ameaças, de fato, só tenham acontecido como reação contra a incansável guerra clandestina que EUA-Israel movem contra o Irã [33], e agora, também, contra a guerra econômica. Aquelas “ameaças” reza a narrativa de Washington, estão fazendo aumentar o preço do petróleo e alimentando recessão cada vez maior. A culpa de tudo é do Irã, não do capitalismo de cassino de Wall Street nem as dívidas massivas de EUA e países europeus. A fina-flor dos 1% nada tem contra altos preços do petróleo, desde que o Irã possa ser atirado às massas, como judas a malhar.

Michael Klare, [34] especialista em energia lembrou recentemente que estamos hoje numa nova era de geoenergia, que com certeza será extremamente turbulenta no Golfo Persa e em outros pontos. Mas deve-se ver 2012 como o ano do início do que bem poderá ser deserção massiva do dólar como moeda global preferencial. Como pensar também é realidade, imaginem o mundo real – quase todo o sul global – fazendo todas as suas necessárias contas; aos poucos, começando a negociar em suas próprias moedas; e investindo quantidades cada dia menores dessas moedas, na compra de bônus do Tesouro dos EUA. 

Claro que os EUA sempre podem contar com o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – Arábia Saudita, Qatar, Omã, Bahrain, Kuwait e os Emirados Árabes Unidos – que sempre prefiro chamar de Clube Contrarrevolucionário do Golfo (basta ver o que fizeram durante a Primavera Árabe). Para todas as finalidades geopolíticas práticas, as monarquias do Golfo são satrapias dos EUA. A promessa imorredoura, que fizeram há décadas, de só usar o petrodólar implica em que são todas, hoje, apêndices do poder do Pentágono projetados para o Oriente Médio. O Comando Central dos EUA (Centcom) está, afinal de contas, baseado no Qatar; a V Frota dos EUA, no Bahrain. 

De fato, em todas aquelas terras imensamente ricas em fontes de energia, que se podem identificar como o Oleodutostão Expandido – que o Pentágono costumava chamar de “o arco de instabilidade” – e que avançam pelo Irã na direção da Ásia Central, o Conselho de Cooperação do Golfo continua a ser elemento crucial da periclitante hegemonia norte-americana.

Se se tratasse de recriação econômica do conto “O Poço e o Pêndulo” de Edgar Allen Poe [35], o Irã seria uma engrenagem numa máquina infernal que estaria lentamente esmagando o dólar como moeda mundial de reserva. Mas é a engrenagem na qual Washington foca hoje toda a atenção. A mudança de regime é ideia fixa. Só falta uma faísca para iniciar o incêndio (em – deve-se acrescentar – todas as direções nas quais Washington não esteja preparada).

Lembrem-se da Operação Northwoods [36], o plano de 1962, rascunhado pelos comandantes do Comando Conjunto, de encenar operações terroristas nos EUA e culpar os cubanos de Fidel Castro. (O presidente Kennedy fulminou o projeto). Ou recordem o incidente no Golfo de Tonkin em 1964, que o presidente Lyndon Johnson usou como justificativa para ampliar a Guerra do Vietnã. Os EUA acusaram barcos armados do Vietnã do Norte de ataque não provocado contra barcos dos EUA. Adiante se comprovou que os ataques sequer algum dia aconteceram e que o presidente mentiu sobre todo o “incidente”.

Não é delírio imaginar que pregadores linha-dura da doutrina da Dominação de Pleno Espectro dentro do Pentágono possam, a qualquer momento, inventar um incidente de falsa bandeira no Golfo Persa para atacar o Irã (ou podem, simplesmente, usar golpe semelhante para induzir Teerã a cometer algum erro fatal de avaliação). Considerem-se também a nova estratégia militar dos EUA que o presidente Obama acaba de divulgar, segundo a qual Washington estaria tirando os olhos de duas guerras em solo fracassadas no Oriente Médio Expandido, para movê-los agora na direção do Pacífico (e, portanto, da China). O Irã está exatamente no meio do caminho, no sudoeste da Ásia, mandando todo aquele petróleo diretamente para as bocas vorazes do Império do Meio, atravessando águas vigiadas [37] pela Marinha dos EUA.

Quero dizer que, sim, sim. Esse psicodrama maior que a vida, que chamamos “caso do Irã” pode vir a revelar-se o caso do dólar norte-americano contra a China; ou o caso das políticas do Golfo Persa, sob o manto de uma inexistente bomba iraniana. A pergunta é: que besta mostruosa, chegada a hora, arrasta-se para Pequim, para renascer? [38]




Notas dos tradutores

1 Face the Nation” transcript: January 8, 2012 










11 Liquid War” 
























35  The Pit and the Pendullum [1843]. em ingles; em português O Poço e o Pêndulo.



38  Orig. “What rough beast, its hour come round at last, slouches towards Beijing [Belém, no orig.] to be born?” É verso de William Butler Yeats (1865-1939), em The Second Coming [A segunda vinda]. Pode ser lido em português (tradução não identificada).