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domingo, 28 de julho de 2013

Pepe Escobar – “China: o fator Bo”

26/7/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Bo Xilai isolado no Politburo chinês
HONG KONG. A questão geopolítica-econômica do nosso tempo, maior que a vida, a mãe de todas as questões, hoje, se pode dizer, não é a Síria, nem a espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA contra o mundo. Nada disso. A questão é a China. Como, santo deus, o Partido Comunista da China (PCC) conseguirá conduzir o modelo de crescimento econômico de Pequim, e como a China conseguirá administrar a ascensão agora mais lenta.

Em qualquer caso, antes, a China precisa livrar-se do “julgamento do século” (nada mais, nada menos).

Bo Xilai, ex-superstar do Politburo atualmente caído em desgraça – conhecido por seu “modelo Chongqing” de crescimento – foi, afinal, indiciado essa semana, acusado só por crimes relativamente menores, de ter aceito suborno de US$3,2 milhões, e ter embolsado cerca de (outros) $800 mil.

O roteiro fascinante começa com o modo como a mídia chinesa reagiu. Três minutos depois de a agência oficial Xinhua anunciar o indiciamento, o jornal People’s Daily já se dedicava a traçar uma meticulosa diferença entre “assuntos pessoais de Bo Xilai” e “o sucesso do desenvolvimento econômico e social de Chongqing”.

15 minutos adiante, Xinhua publicou um comentário essencialmente para alertar que Bo caíra porque um “tigre” local tornara-se excessivamente poderoso; e “a estabilidade nacional de longo termo só estará assegurada se se pode proteger a autoridade da liderança central”.

Também 15 minutos depois, Global Times selou o acordo, explicando que figurões corruptos, como Bo, dentro do Partido, são “um câncer” – a ser enfrentado com o peso da lei.

O problema é que toda essa artilharia pesadíssima não ajuda a contar, sequer, o começo da história.

Ferrari versus Hondas

Alto, ativo, energético, carismático, fluente em inglês (que aprendeu ainda na escola, antes da Revolução Cultural) e princeling a ser detonado – filho prodígio de Bo Yibo, um dos “Oito Imortais”, o grupo de companheiros pessoais íntimos de Mao Tse Tung liderado por Deng Xiaoping, que adiante abriria a China ao mundo – Bo Xilai é a matéria prima de que se fazem os épicos de “ascensão e queda”.

Princeling – como a mídia em Hong Kong o definiu no início dos anos 1980s – é cada um dos filhos de líderes do PCC (são centenas) que sempre viveram imersos em dinheiro, poder e privilégios sem limites. Bo – que herdou a teia de relações e contatos de valor inestimável [orig. guanxi] tecida por seu ilustre pai – sempre preferiu a expressão “sucessor vermelho”.

Xi Jinping
É absolutamente impossível compreender o que está acontecendo a Bo sem acompanhar suas complexas interações familiares com o atual presidente chinês Xi Jinping, com o ex-presidente Hu Jintao e com o ex-premiê Wen Jiabao. É como comparar uma Ferrari e um trio de Honda Civics.

Bo, o garanhão, a Ferrari, é homem da aristocracia comunista por direito de sangue e nascimento. Hu e Wen são trabalhadores, gente que veio do nada. A família de Wen, em Tianjin, foi perseguida pelos Guardas Vermelhos dos princeling  durante a Revolução Cultural. Mas adiante, em 1966, quem terminou por meter na cadeia o pai de Bo foram os Guardas Vermelhos pobres, que controlavam a universidade.

O pai de Hu Jintao era vendedor de chá. Foi perseguido durante a Revolução Cultural – e jamais “reabilitado”. Depois, nos anos 1980s, o pai de Bo, devidamente reabilitado, atirou-se à mais furiosa perseguição contra Hu Yaobang – que era então mentor de ambos, Hu e Wen.

O xis da questão é que esse clima de guerra entre essas famílias foi o nome do jogo ao longo de, pelo menos, uma geração.

No final de 2007, Bo perdera a disputa interna no 17º Congresso do Partido para tornar-se vice-premier. Chegara ao Politburo – mas foi “exilado” para Chongqing, em Sichuan – a 1.500 km de Pequim. Chongqing era município, mas com nível de província, desde 1997. A cidade, que não para de crescer, já tem população de 7 milhões, mas a grande metrópole no vale do Yangtze já alcançou os 33 milhões e continua crescendo. Chongqing foi um dos nós centrais da política de “Rumo ao Oeste” do final dos anos 1990 – o movimento para industrializar em ritmo vertiginoso o interior da China.

Bo chegou a Chongqing pronto para fazer acontecer. 2008 foi o ano crucial, quando o PCC introduziu uma nova narrativa, de uma China autoconfiante que afinal superaria “um século de humilhação” sob o poder de potências coloniais estrangeiras. A resposta de Pequim à crise financeira provocada por Wall Street foi um pacote de quase $600 bilhões de estímulo – o maior da história – para injetar turbopotência na economia chinesa. Mas, antes, foi preciso introduzir mais uma narrativa, para justificar que o PCC tivesse o monopólio do poder.

Hu Jintao
Bo farejou uma jogada para ganhar. Capitalizou o disseminado senso de alienação na população, o ressentimento contra a desigualdade e a nostalgia dos idos tempos de socialismo igualitário. Ao mesmo tempo, capitalizou a seu favor a campanha que Hu e Wen moviam contra a desigualdade, e a ambivalência de ambos quanto ao papel do capital privado. Bo mobilizou todos esses elementos e andou firmemente na direção da esquerda, cada vez mais à esquerda.

Canalizou com mestria o ressentimento popular, o que levou a um “despertar das massas”. Bo voltava a falar outra vez contra o coringa – a burguesia – serviço completo, com produção de valores dos tempos revolucionários (com canções e citações de Mao, que ele sempre conheceu de cor, desde que passou cinco anos numa prisão durante a Revolução Cultural).

Foi a campanha “Cante Vermelho”. Que Bo combinou com o envio de 200 mil funcionários para o interior da província, no melhor estilo Mao, para “aprender com o povo”; e com um programa econômico batizado “PIB Vermelho” – vermelho, como em “igualdade socialista”, com orgia de moradias a preços módicos e excelentes novas rodovias, cenário que já começava a seduzir as gigantes globais (Hewlett-Packard, Foxconn, Samsung, Ford), interessadas em fazer bases em Chongqing... o que fez com que o PIB anual da municipalidade crescesse espantosíssimos 16%.

O problema é que grande parte disso tudo foi financiado com dinheiro emprestado de outras partes da China. Em quatro anos, os bancos de Chongqing endividaram-se muito. Mesmo assim, já estava impressa na mentalidade das massas a ideia de que a China se mobilizava para objetivo mais alto – embora oficialmente Bo sempre repetisse todos os mantras da “sociedade harmoniosa” pregados por Hu e Wen. A diferença é que, ali, havia fatos reais em campo, não apenas retórica vazia.

O tigre caiu na armadilha

Até que o céu se abriu, e o mundo veio abaixo. Logo chegaria o dia em que os brados vagos de Wen, falando de alguma “democracia”, colidiriam frontalmente contra o neomaoísmo de Bo. Em 2010 e 2011 já havia guerra praticamente declarada no Politburo entre Wen e Bo. E aqui havia outro subenredo também crucialmente importante.

Wen Jiabao
Bo sempre foi muito próximo do ex-presidente Jiang Zemin. Jiang sempre protegeu Bo, sempre muito ativamente; e estava apoiando todos os movimentos de Bo contra Wen – inclusive os que visavam a garantir para Bo a posição mais alta na hierarquia da segurança da China, então ocupada por outro protegido de Jiang, Zhou Yongkang, que deixaria o cargo ao se aposentar do Comitê Central do Politburo, no 18º Congresso do Partido.

Até aí, Xi Jinping – outro “sucessor vermelho” e posicionado para substituir Hu Jintao como presidente – apoiava Bo, pelo menos teoricamente; e ambos eram fiéis a Jiang Zemin. Bo sempre foi e continuaria a ser uma Ferrari, comparado a Xi-Honda-Civic.

O pai de Bo, ao longo de 70 anos, sempre esteve um passo à frente e acima do pai de Xi. E, na comparação direta, Bo superava Xi em todos os quesitos: mais bonito, mais brilhante, mais inteligente e infinitamente mais carismático que Xi. A verdade que todos conheciam, mas da qual ninguém falava em Pequim, era que Xi jamais conseguiria manter Bo sob seu controle, se os dois se cruzassem em ação, no ambiente rarefeito do Comitê Central do Politburo.

Todas as tensões acumularam-se e alcançaram o pico em março de 2012, no Congresso Nacional do Povo. Começou com Wen referindo-se aos “erros da Revolução Cultural e do feudalismo” que ainda se repetiam; e pintando Bo como homem do passado, que queria impedir que se fizessem as necessárias reformas econômicas na China, a abertura para o mundo e a plena modernização. Wen sugeriu muito claramente que Bo teria de sair, para que fosse possível enterrar o passado maoísta. Com Bo, disse Wen, “uma tragédia histórica como a Revolução Cultural sempre poderá voltar a acontecer”. O vencedor (póstumo) teria de ser Hu Yaobang – não por acaso mentor de Wen e amigo muito íntimo do pai de Xi.

Tudo isso é jogo duro, muito duro. Dia seguinte, Bo foi demitido, sem cerimônias, do posto de líder do Partido em Chongqing. E, como se não bastasse, até um assassinato foi acrescentado ao roteiro – parte de uma cascata de erros e crimes que já começava a correr solta desde que o chefe-de-polícia de Bo, Wang Lijun, se refugiara e pedira asilo político ao consulado dos EUA em Chengdu, no início daquele ano.

Gu Kailai
Gu Kailai, esposa de Bo e advogada, apareceu como personagem central na trama de negociatas de um advogado inglês (Neil Heywood) que teria sido envenenado pela esposa de um dos grandes do Politburo. E abriram-se as portas do inferno. Em pouco tempo, já se divulgava que Bo teria grampeado os telefones de Hu Jintao; que os filhos de Gu Kilai teriam patrimônio no valor de cerca de $130 milhões; que os filhos do futuro presidente Xi Jinping teriam patrimônio familiar no valor de mais de $1 bilhão; e que a família de Wen, grande cruzado pró “democracia”, era proprietário de bens que ultrapassavam o total de $2,7 bilhões. O mundo conheceu uma imagem do Politburo como vasta e amplíssima cleptocracia.

Bo foi suspenso do Politburo e do Comitê Central por violações “sérias” da “disciplina” do Partido. Todos pararam de falar sobre o “modelo chinês”. Bo passou meses sob a custódia da sinistra Comissão Central para Inspeção Disciplinar – que, traduzida, significa prisão incomunicável e tortura hardcore (nada que Bo não conhecesse, depois de seus cinco anos de prisão durante a Revolução Cultural). Entrementes, o PCC debatia o que fazer dele.

Agora, já se sabe. Mas ainda não se sabe que tipo de “julgamento do século” será esse. O “julgamento do século 20” chinês – estrelado pela “Gangue dos Quatro” – foi integralmente televisionado. Imaginem a imagem de Bo em todas as televisões do país, sete dias por semana, 24 horas por dia, em todos os formatos imagináveis. Não acontecerá. O mais provável é que vejamos um tribunal meticulosamente coreografado – e muito rápido – como no julgamento de Gu Kailai. Ainda assim, o roteiro pode revelar-se uma caixinha de surpresas, no caso de Bo decidir que de nada lhe serviria arrastar prisioneiros, desviar-se do roteiro microgerenciado imposto pelo PCC e puser a boca no trombone.

Beidaihe Beach Resort (China)
Tudo leva a crer que nas próximas férias de verão em Beidaihe, os pesos-pesados do PCC finalmente decidirão sobre o destino de Bo. Toda essa fascinante saga pode ser vista como luta mortal de escorpiões numa caixa (ou guerra interna no Politburo chinês, que só terá um vencedor definitivo – Xi; dois vencedores relativos – Hu e Wen; e um definitivo perdedor – Bo). É a cada dia mais e mais estranho que Jiang Zemin tenha imperialmente rompido o próprio silêncio, como fez essa semana, para divulgar seu veredito, estilo última palavra: anunciou publicamente que apoia Xi.

E assim o fracionado Politburo, depois de um rápido julgamento, poderá finalmente voltar a ser “harmonioso” – a postos para enfrentar a questão tectônica de “dar uma ajeitada” no modelo chinês.

Mas nem assim farão sumir o espectro de Bo. Bo virou a política chinesa de cabeça para baixo, ao revelar muitas de suas práticas extremamente sombrias. Nenhum cineasta chinês será jamais autorizado a tocar em material tão sensível. Mas... quem sabe alguém se interessa, em Hollywood? Que tal? Sugiro Chow Yun-Fat, no papel de Bo: Tigre caído, Dragão cruel. Quem se candidata?

__________________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes The Real News Network TV e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto .
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Pepe Escobar: “Obama, o pivô”


22/11/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
O fabuloso Buda Reclinado em Wat Pho, Bangkok, [1] não subscreve, exatamente, as guerras de aviões-robôs armados, drones, nem “assassinatos predefinidos” – para nem falar de bombardear infraestrutura civil. O Buda, pois, deve ter ficado surpreso e confuso – para dizer o mínimo – quando o presidente Barack Obama, logo no começo de sua “pivoteação” galopante pelo sudeste asiático, e falando de Israel e Gaza, saiu-se com essa: “Nenhum país da Terra toleraria chuva de mísseis sobre seus cidadãos, vinda de fora das fronteiras”.

Imaginem o Buda em nirvana, generosamente supervisionando a triste paisagem desse vale de lágrimas e constando, porque seria impossível não constatar, que o mesmo Obama faz chover drones Hellfires sobre o Paquistão e o Iêmen, enquanto um dos assassinatos predefinidos, marca registrada de Israel – além de ilegal – matava, precisamente, um comandante militar do Hamás, Ahmed al-Jaabari, no preâmbulo da mais recente sessão de castigo coletivo que Israel inflige a Gaza.

Superobama
Chame de “Doutrina Obama” ou chame de o velho excepcionalismo norte-americano; por toda a rua árabe, o apoio de Obama à chacina obrada por Israel foi analisada lado a lado com o seguinte fragmento de sensível análise geopolítica saída da boca do filho de Ariel Sharon: “Precisamos arrasar, até não haver pedra sobre pedra, todos os bairros de Gaza. Gaza, no chão! Os norte-americanos não pararam em Hiroshima – os japoneses estavam demorando para se render. Então puseram abaixo também Nagasaki”. [2] Alguém pensou em “solução final?”.

Nem Obama – nem qualquer outro presidente dos EUA – admitiria a possibilidade de que Telavive vive de terrorismo de estado baseado em punição coletiva. Afinal, como Golda Meir disse um dia, “Esses tais de palestinos não existem”.

Isso torna ainda mais cômica a notícia de que a secretária de Estado Hillary Clinton teria sido mandada construir um acordo entre Israel e Hamás. O governo Obama não tem poder para garantir que seu aliado Israel cumpra qualquer promessa de cessar-fogo. Mas, claro, é preciso fazer algum acordo. E o principal negociador é o Egito, não os EUA; o Egito do presidente Mursi da Fraternidade Muçulmana (FM).

Desde o início Mursi soube que o primeiro-ministro de Israel, Bibi Netanyahu não bombardearia para sempre – crescendo, nos necrotérios, as pilhas de “danos colaterais”. Sabia que Bibi teria de retroceder, porque bombardear Gaza “até não deixar pedra sobre pedra” e bombardeio seguido de guerra em terra gerava risco real de não sobrar pedra sobre pedra em Israel, não só no terreno da opinião pública mundial mas, também, no terreno da geografia, mesmo, propriamente dita, de Israel.

Fraternidade Muçulmana
Já há semanas, o mantra incansavelmente repetido pelos conservadores e pela direita nos EUA é que a política de Obama para o Oriente Médio consiste hoje em beijar os pés da FM (Fraternidade Muçulmana). Ainda que se admita que Obama e seus assessores saibam negociar com a FM (o que absolutamente não é garantido, não, de modo algum), devem-se esperar resultados os mais ensandecidos. A Fraternidade Muçulmana está no poder no Egito: muito bem posicionada para assumir o poder também na Jordânia, aliada dos EUA; lidera hoje a nova oposição, oposição remixada, na Síria; e tem total apoio do Qatar. Como se não bastasse, o Hamás é, na essência, a Fraternidade Muçulmana no poder também em Gaza.

Considerando que o Qatar, cautelosamente, preferiu sentar na última fila, nos trabalhos para resolver o drama em Gaza (porque teme antagonizar Israel), Washington teve de confiar no Egito. Quanto a Mursi, sabia que, se não tomasse distância segura dos EUA, na negociação de algum acordo, a rua egípcia lhe cobraria contas e se vingaria nas próximas eleições parlamentares. E só Mursi tinha suficiente margem de manobra para dançar em torno do objetivo supremo do Hamás – que é romper por bem o bloqueio físico e econômico (além de ilegal) que Israel impõe em Gaza.

Mohamed Mursi
E há também a Síria, caso mais estranho a cada minuto. O conselho da oposição remixada é operação conjunta de EUA e Qatar. O próprio Obama, em sua primeira conferência de imprensa depois de re-eleito disse que queria uma oposição “comprometida com uma Síria democrática, uma Síria inclusiva, uma Síria moderada”. Nada disso jamais apareceu na agenda de Doha – para nem falar de Riad.

Qual terá sido a reação de Obama, ao ser informado de que as gangues do Exército Sírio Livre absolutamente não aceitam e descartam o novo Conselho Nacional Sírio – cujo líder, vale lembrar, acha que Facebook é complô do mal armado por EUA/Israel? Pois as gangues declararam que querem “estado islâmico justo”. Tradução: fodam-se Qatar e os EUA; preferimos a via saudita medieval.

A única coisa certa é a seguinte: nos próximos meses será rotina assistir a Obama na luta para conseguir pivotear-se para bem longe dessa confusão, rumo ao Pacífico Asiático.

O mar congestionado de peixes/Too many fish in the sea  [3]

O que nos leva ao destino final de tanta pivoteação: a China.

A leitura que Pequim faz de toda essa conversa de pivô e pivoteação é papo reto. A Guerra Fria voltou – e a nova ameaça vermelha (amarela?) é a China. O governo Obama não tem nada a fazer intrometendo-se em disputas no Mar do Sul da China. Com o Império do Meio crescendo rumo ao posto de principal potência – primeiro econômica, em seguida também política – do mundo (o que virá, inexorável como a morte e os impostos), todo o sudeste asiático preferirá a integração, em vez da confrontação.

Comparem-se isso e a posição – de fato, é cômica – de Obama, o qual, primeiro passo, já começou por aumentar o nível de tensão, ele e sua pivoteação pelo mundo; e agora faz pose de apaziguador benigno de tensões, envolvendo China, Taiwan e mais quatro nações do sudeste asiático no seu tour galopante de pivoteamento frenético.

Países da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático)
É. A luta já começou. Afinal, estão em jogo quantidades imensas de petróleo e gás por explorar. Pequim só aceita negociações bilaterais. As Filipinas – que seguem a orientação dos EUA – querem internacionalização. O Camboja – na essência, colônia econômica chinesa – anunciou, durante reunião de cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático [ing. Association of Southeast Asian Nations (ASEAN), que todos os membros discutirão o Mar do Sul da China com a China, negociações bilaterais. As Filipinas – que fala de um “Mar das Filipinas Ocidentais” – disse que “Esqueçam!” Nesse ponto, a ASEAN e Pequim só conseguirão um “código de conduta”. Vai demorar. Mas é inevitável.

Obama reuniu-se com o premiê chinês que se vai, Wen Jiabao, a quem disse que EUA e China “devem estabelecer regras claras de percurso” para comércio e investimento. Sem dúvida é mais civilizado que Mitt (Quem?) Romney prometendo deflagrar uma guerra comercial/monetária contra a China, no dia da posse na presidência. Não há qualquer registro de que Wen tenha mencionado, na conversa com Obama, a tal de pivoteação.

Wen Jiabao e Barack Obama (dez/2009)
Assim, sendo, afinal, quero dizer... O que Obama andou fazendo em seu tour galopante pelo sudeste asiático? Para horror dos excepcionalistas norte-americanos de todas as tendências, Obama, por lá, de fato, só fez exportar empregos norte-americanos.

Obama partiu em ofensiva carismática, para expandir para o maior número possível de nações asiáticas, um negócio tipo Acordo Norte-americano de Livre Comércio, hoje conhecido como a Parceria Trans-Pacífico [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)]. Essa TPP é mais uma sensacional ferramenta a serviço das corporações norte-americanas – além de ser mais um prego no caixão da manufatura norte-americana. Funcionários do governo Obama suaram a camisa para implantar na imprensa a ideia de que a TPP seria ferramenta para facilitar a pivoteação de Obama, em termos de “conter” a China. Na contramão, a própria Hillary Clinton anunciou que adoraria que a China fosse parte da TPP.

Pivô? Pivoteação? Pivoteamento? Pivotearia? Não acreditem no conversê. É tudo, só, business.




Notas de rodapé

*Pivô [orig. Pivot]. No basquete e no futebol de salão, jogador que joga frequentemente de costas para a cesta ou para o gol do adversário, para receber a bola e finalizar a jogada ou servir os outros jogadores de sua equipe” (Dicionário Houaiss) [NTs]

[1] Veem-se imagens a seguir: [NTs].


[2] 18/11/2012, Jerusalem Post, Gilad Sharon em: “A decisive conclusion is necessary”  

[3] Título e verso de canção gravada pelo conjunto “The Marvelettes”, na gravadora Motown, em 1964. Vídeo a seguir [NTs]:
 

sexta-feira, 16 de março de 2012

WEN JIABAO: “A China precisa de reformas políticas, sem as dificuldades de outra Revolução Cultural”


14/3/2012, Xinhuanet, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, em encontro com a imprensa,
 depois do encerramento da 5ª Sessão do 11º Congresso Nacional
do Povo, no Grande Salão do Povo, em Pequim, 14/3/2012
O primeiro-ministro da China Wen Jiabao disse ontem que a China não precisa só de reformas econômicas, mas também de reformas políticas estruturais, sobretudo de reformas na estrutura do sistema de comando do Partido Comunista e do governo.

Wen falou a jornalistas, depois de concluída a Sessão Anual do Parlamento [1]; disse que podem voltar a acontecer tragédias histórias como a “Revolução Cultural”, se o país não conseguir implantar reformar políticas que deem encaminhamento satisfatório a problemas persistentes na sociedade chinesa.

“As reformas chegaram agora a um estágio crítico” – disse Wen. “Sem uma reforma política bem-sucedida, a China não conseguirá implantar toda a reforma econômica, e os ganhos que obtivemos nessas áreas poderão ser perdidos. Sem reforma política bem-sucedida, problemas novos que surgiram na sociedade chinesa não poderão ser satisfatoriamente superados e há riscos de que tragédias históricas como a “Revolução Cultural” voltem a acontecer na China”.

Mas observou também que, embora depois de derrubada a Camarilha dos Quatro,[2] o Partido tenha adotado resoluções sobre vários temas históricos e tenha decidido promover reformas e aberturas, nem todos os erros e o feudalismo da Revolução Cultural foram plenamente eliminados.

“A reforma tem de avançar; não pode parar nem retroceder, porque nem a estagnação nem o retrocesso são vias de fuga possíveis”.

Wen lembrou que, em várias ocasiões, dedicou-se a lembrar a questão da reforma política estrutural na China; que em todas as ocasiões expôs o mais claramente possível o seu pensamento; e que sua preocupação e interesse pelas reformas políticas brotam de “profundo senso de responsabilidade”.

Com a economia sempre em desenvolvimento, disse Wen, ocorreram problemas como a desigualdade de renda, a falta de confiança no governo e a corrupção.

“Estou plenamente consciente de que, para resolver esses problemas, temos de seguir adiante com a reforma da estrutura econômica e com a reforma da estrutura política, sobretudo com reformas no sistema de comando do Partido e do país” – disse ele.

O primeiro ministro disse que, para ele, todos os membros do partido e funcionários do governo que tenham senso das próprias responsabilidades devem reconhecer imediatamente que prosseguir nas reformas é “tarefa urgente” para a China.

“Sei muito bem que não será reforma fácil e que não acontecerá sem a participação consciente, o apoio, o entusiasmo e a criatividade do povo chinês” – disse Wen.

Para conduzir essas reformas num país gigantesco com população de 1,3 bilhão, observou Wen, as pessoas têm de assumir com conhecimento as circunstâncias nacionais da China e de desenvolver a democracia socialista de forma gradual, passo a passo.

O premiê disse que sabe que o povo acompanha com interesse não só o que ele diz e suas ideias, mas não perde de vista, tampouco, os resultados que seus esforços visam a obter.

“Até meu último alento, continuo pronto a dedicar-me integralmente a promover as reformas e o processo de abertura chinês” – disse.

Wen disse também que a China implementará sem descanso o sistema de autogoverno dos habitantes do campo, e protegerá seus direitos legítimos a eleições diretas.

As práticas já vigentes em muitas cidades do interior da China já mostraram, segundo Wen, que os camponeses e agricultores podem fazer escolhas muito acertadas, na eleição de comitês de moradores das áreas rurais. Para o premiê, se as pessoas conseguem administrar com sucesso uma cidade, podem administrar uma província e um país.

“Temos de estimular o povo chinês a continuar avançando na via da experimentação criativa”, acrescentou. “Creio que a democracia chinesa crescerá gradualmente, passo a passo, segundo as circunstâncias nacionais, e que essa será tendência que nada e ninguém conseguirá deter”.

Na 4ª-feira, o primeiro-ministro chinês disse também que é importante que a China tenha pleno controle dos próprios negócios e objetivos, para não se deixar arrastar pelas forças ativas na crise financeira internacional e na crise do alto endividamento europeu.

“Ante a atual crise financeira, que se aprofunda dia a dia, e ante a crise da dívida na Europa, o mais importante é que a China conduza bem seus próprios negócios”. 

Disse ainda que o ano de 2012 será muito provavelmente o mais difícil dos últimos tempos; mas que será também ano carregado de oportunidades.

“O povo conta com que o governo se mantenha sereno, resoluto e confiável. E o governo conta com a confiança, o apoio e a ajuda do povo” – disse o premiê.

Essa foi a última vez em que Wen reuniu-se com a imprensa depois de encerradas as sessões do Congresso Nacional e Conferência Política Consultiva do Povo.

“Nesse meu último ano de mandato, não deixarei de cumprir o meu dever de ser fiel às minhas convicções. Sempre estarei ao lado do povo chinês” – concluiu.

 


 

Notas dos tradutores


[1] O Relatório dessa reunião (espécie de “discurso sobre o estado da nação” como fazem os norte-americanos) pode ser lido na íntegra, em inglês, em: “Full Text: Report on the Work of the Government”

[2] Camarilha dos Quatro [ing. Gang of four (1966-1976)] Liderada pela 4ª esposa de Mao Tse Tung, Jiang Qing (1913-1991), a Camarilha dos Quatro foi grupo que chegou a exercer forte influência sobre os rumos do comunismo chinês nos últimos anos da vida de Mao Tse Tung. A influência política de Jiang começou na primeira fase da Revolução Cultural (do Grande Proletariado); adiante, ela aliou-se ao chefe de propaganda de Xangai Zhang Chunqiao (1913-1991), ao crítico literário Yao Wenyuan (1931- ) e ao oficial de segurança Wang Hongwen (1935-1992). Durante a Revolução Cultural, o grupo de Jiang atacou diretamente alguns líderes do Partido, entre os quais Liu Shaoqi, Deng Xiaoping e Xu Enlai. Liu sofreu expurgo e morreu na prisão. Deng foi exilado, mas foi reabilitado e, mais tarde, voltou ao poder. Xu Enlai (1898-1976) enfrentou dificuldades políticas nesse período, mas reemergiu, passada a guerra de intrigas.
Depois da morte de Mao, em 1976, travou-se rápida disputa política entre a Camarilha dos Quatro, de Jiang e Hua Guofeng. Ao final da disputa, os membros da Camarilha dos Quatro foram presos e politicamente desacreditados. Os quatro foram responsbilizados pelos levantes e pelos sofrimentos pelos quais a nação passou durante a Revolução Cultural e foram julgados. Jiang e Zhang foram condenados à morte, mas as sentenças foram depois convertidas em penas de prisão perpétua. Yao e Wang receberam longas penas de prisão. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

No Golfo, a China pesa para o “lado certo da história”


Wen Jiabao

18/1/2012, *M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Ignorou as ameaças dos EUA nas sanções contra o Irã; superou, numa passada, a divisão entre sunitas e xiitas no Golfo Persa; não deu à Primavera Árabe mais atenção que a mínima necessária; e, simultaneamente, saudou elegantemente os islâmicos. E, tudo isso, em concerto solo. A diplomacia chinesa nada de braçada no Oriente Médio.

O premiê Wen Jiabao está em visita de seis dias à Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar, em movimento de diplomacia de primeiríssima qualidade. A China é provavelmente a única grande potência, dentre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que se pode declarar parceira firme de Síria e Irã, por um lado; e também de Arábia Saudita e Qatar, pelo outro lado. 

A China está conduzindo seu festim político e diplomático sem desperdiçar recursos e sem se comprometer em atos ou retórica espetaculosos. 

Prática e político-ideológica 

Mesmo assim, a China está incrivelmente ativa na região, expandindo sua presença de modo consistente e orientado, de olhos postos no futuro distante. 

No “sombrio pano de fundo político e econômico da paisagem internacional” hoje – com os EUA em declínio e a Europa em crise – a China viu uma janela de oportunidades particularmente convidativa para apresentar-se como parceira ideal para o Oriente Médio na “tarefa comum de contornar o impacto negativo do mal-estar econômico global”, de tal modo que os dois lados “possam extrair todas as vantagens de suas respectivas potencialidades e, juntas, trabalhar objetivamente para o desenvolvimento comum” – nas palavras da agência de notícias Xinhua, falando da “enorme importância” do tour de Wen pela região. 

Os fatos falam por si mesmos. A China comprou um combinado de 1,15 milhões de barris/dia de petróleo dos três países de maioria sunita agora incluídos no roteiro de Wen. Nos primeiros 11 meses de 2011, o fornecimento saudita à China permaneceu no patamar de 45,5 milhões de toneladas de cru – aumento de cerca de 13% em relação ao mesmo período de 2010. 

O Qatar é o maior fornecedor de gás natural liquefeito para a China e, nos primeiros 11 meses de 2011 embarcou 1,8 milhões de toneladas, aumento de 76%. O comércio com os Emirados Árabes Unidos ultrapassa $36 bilhões e o reino está surgindo como o principal porto de transbordo para as exportações chinesas que viajam para África e Europa. 

Os investimentos chineses em países árabes chegam a $15 bilhões e o relacionamento econômico se está diversificando, agora que a China estimula fortemente seus projetos de exportação. Em troca, o Golfo Persa é hoje o principal investidor estrangeiro da economia chinesa. 

Mas a China também está comprando muito petróleo do Irã. Cerca de 22% de todo o petróleo que a China importa é petróleo iraniano. O comércio com o Irã chegou a 30 bilhões em 2010 e deve chegar a $50 bilhões em 2015. A China dá conta de 10% das importações iranianas e é o principal parceiro comercial do Irã. 

O número-alvo que China e países árabes haviam definido para o comércio entre eles, para 2015, é $200 bilhões. Mas ao final de 2011 as trocas comerciais já chegavam aos $190 bilhões. 

Wen testemunhou na Arábia Saudita a assinatura de um contrato entre a China Petrochemical Corporation (Sinopec) e a saudita Aramco, para construírem, até 2014, uma refinaria que custará $8,5 bilhões, com capacidade para refinar 400 mil barris por dia, em Yanbu, no litoral do Mar Vermelho, ações distribuídas na proporção de 35,5%-62,5% respectivamente. E um memorando de entendimento foi assinado entre a gigante petroquímica saudita SABIC e a Sinopec para construir pólo petroquímico em Tianjin. 

Os dois países assinaram também acordo de cooperação nuclear, durante a visita de Wen. A Arábia Saudita tem planos para construir 16 reatores nucleares até 2030; e a China investe num plano ambicioso de converter-se em exportadora de usinas nucleares. 

Mas a China não está confiando só nos estreitos laços que a ligam ao Irã. Semana passada assinaram-se em Pequim várias declarações que reafirmam a importância do relacionamento Sino-Iraniano. Na prática, ignoraram-se todas as “exigências” dos EUA com vistas a diminuir as vendas de petróleo iraniano e todas as “sançõe”’ recentemente “impostas”. 

Washington retaliou contra Pequim na 5ª-feira, com sanções contra a chinesa Zhuhai Zhenrong Corp, acusada de estar vendendo petróleo refinado ao Irã. A China imediatamente manifestou “forte insatisfação e firme oposição” ao gesto dos americanos e declarou a decisão de manter “cooperação normal com o Irã em energia, economia e comércio”. 

Um fator de estabilidade 

Evidentemente, o movimento de Washington foi simbólico, feito às pressas e manifesta algum desespero – a empresa Zhuhai Zhenrong “punida” não tem propriedades nos EUA que possam ser “congeladas” – e visou, de fato, a marcar a chegada de Wen em Riad, chamando a atenção para os laços entre Pequim e Teerã, com quem Riad compete por influência na região. 

A questão é que os sauditas estariam supostamente trabalhando ‘a mando’ de Washington, para estreitar laços com a China e arrancar Pequim dos braços de Teerã. Até que Riad e Pequim apareceram com agenda própria, na qual se preservou bom espaço para relações dos dois lados com o Irã. 

A projetada refinaria Yanbu será construída na província leste da Arábia Saudita dominada pelos xiitas. A Arábia Saudita está muito preocupada com crescentes agitações nas províncias do leste (que teme que Teerã esteja estimulando) e, mesmo assim, a China está investindo num grande negócio conjunto exatamente ali. 

O que ninguém deixará de observar é que os sauditas convidaram os chineses para visitá-los, apesar de todos os fortes laços que unem chineses e iranianos. Obviamente, os sauditas já estão tratando os chineses como fator de estabilidade na região. 

Pode-se supor, inclusive, que a China venha a desempenhar algum papel na rivalidade saudita-iraniana, num cenário futuro. Seja como for, durante sua estadia na Arábia Saudita, Wen bateu sempre na estabilidade regional como fator imperativo. Soou como música aos ouvidos sauditas. 

Interessante, também, o que se leu num comentário sobre a viagem de Wen ao Golfo Persa, no China Daily, jornal oficial:

Ao contrário dos países ocidentais, que tendem a tentar impor seus próprios valores e seus sistemas políticos ao resto do mundo, a China interage com o mundo árabe sob os princípios da igualdade, respeito mútuo e busca de mútuas vantagens. 

Os EUA, na grande maioria das situações, tende a favor de Israel no conflito com os palestinos, o que enfurece muitos, no mundo árabe. Bem diferente disso, a China sempre apoiou as justas demandas dos palestinos nos fóruns mundiais, o que valeu aos chineses o respeito do mundo árabe. Ao longo da história da amizade sino-árabe, que remonta à antiguidade da ancestral Rota da Seda, a China jamais tentou impor qualquer agenda política exclusiva, à custa do Oriente Médio ou de qualquer outro povo.

A posição da China tem sido cada vez mais bem acolhida no mundo árabe e muitos estados árabes optaram por “Olhar Rumo Leste” em busca de cooperação e apoio na negociação das grandes questões regionais e mundiais. [1]

Um futuro “verde” 

Wen disse ao rei Abdullah que a China respeita o sistema político da Arábia Saudita, seu modo de desenvolvimento, sua cultura e suas tradições. Em resposta, o rei Abdullah propôs que se instalasse uma comissão de alto nível para acompanhar a cooperação entre os dois países, nos campos político, econômico, cultural e de segurança. O rei Abdullah disse, pensando cada palavra: “O objetivo da política exterior da Arábia Saudita é manter a paz e a estabilidade regional”. 

O rei acrescentou: “Arábia Saudita e China gozam de alto nível de confiança mútua e partilham noções similares sobre várias questões. Os sauditas desejam ampliar as consultas e a coordenação com a China”. 

Em resumo, o tour de Wen deu grande destaque à noção de que a China considera-se “parceira” no Golfo Persa. E deve-se prestar atenta atenção, também, ao fato de que a China não está em conflito com o Islã político no Oriente Médio. Em comentário no People’s Daily, semana passada, lia-se:

A Primavera Árabe mudou a cor principal da situação política no mundo árabe e formou um esplêndido cenário “verde” que preocupa – e assusta – o ocidente. Mas não há aí nenhum tipo de “atraso” [desenvolvimento regressivo] no curso da modernização e secularização dos árabes. O que aí se vê é uma retração da excessiva secularização de longo prazo e da secularização dos regimes agora derrubados; e o retorno de culturas tradicionais. Essa aspiração parece ser aspiração de vários povos. Evidentemente, o mundo deveria buscar mentalidade mais compreensiva e mais inclusiva, e dar boas vindas a todos os povos. Afinal de contas, é direito dos povos árabes elegerem os governos que desejem eleger.

A inclusão do Qatar no itinerário de Wen é ao mesmo tempo intrigante e reveladora de algumas das sutilezas do pensamento chinês. Sabe-se que o Qatar é fonte principal do gás natural liquefeito que a China consome. Mas o Qatar também teve papel central na mudança de regime na Líbia e, ao que se sabe, está dedicado a derrubar o governo do presidente Bashar al-Assad na Síria. 

A China opõe-se à intervenção ocidental na Líbia e na Síria. Mesmo assim, apesar de Rússia e China terem coordenado seus movimentos no Conselho de Segurança da ONU nos casos de Líbia e Síria, nem por isso Pequim vê-se impedida de buscar parceria energética com o Qatar. 

É atitude que contrasta fortemente com as relações entre Rússia e Qatar (hoje em frangalhos) – desde que o embaixador russo foi detido e revistado há algumas semanas no aeroporto de Doha, por agentes de segurança, em movimento que parece ter sido ato deliberado de provocação ou ofensa a Moscou. Em resumo, a China está avançando. Conta com posicionar-se do “lado certo da história” no Golfo Persa. 

O Qatar teria gostado de outro comentário publicado no People’s Daily no sábado, que zomba levemente da recente visita do porta-aviões russo “Admiral Kuznetsov” ao porto sírio de Tartus. 

O comentário deslocou a impressão predominante sobre o apoio russo à Síria e insistiu que, ao contrário, os russos nunca agem movidos por sentimentos de “amizade” com outros países; que os russos sempre agem exclusivamente em nome de seus interesses estratégicos; e que a atual “postura diplomática” dos russos em relação à Síria visaria essencialmente a “alertar todas as forças políticas, para que não agredissem interesses russos”. 

O mesmo comentário dizia que o “Admiral Kuznetsov” poderia ter ganho experiência local, no caso de a Rússia precisar evacuar da Síria cidadãos russos, ou caso tenha de “proteger patrimônio russo”. Em resumo, o comentário (publicado na véspera da viagem de Wen) parece ter sido plantado para sugerir que a coordenação entre russos e chineses no caso da Síria é coordenação limitada; e que os dois países, cada um a seu modo, continuam a trabalhar a favor de seus respectivos interesses.


Nota dos tradutores
[1] 15/1/2012, People’s Daily, Pequim - China: “Cimentando laços com o mundo árabe” (em português) e “Cementing ties with Arab World” (em inglês). 


*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.