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sábado, 17 de agosto de 2013

O coma egípcio doerá no império norte-americano

Plano B dos EUA para o Egito: trazer de volta o Regime de Mubarak

6/7/2013, [*] Mahdi Darius Nazemroaya, Strategic Culture [excerto]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Protestos dos apoiadores da Fraternidade Muçulmana e de Mohamed  Mursi (ago/2013)
Apesar do que a imprensa-empresa ocidental diz, repete e “comenta”, a Fraternidade Muçulmana jamais esteve em pleno comando do Egito ou do governo egípcio. Teve sempre de dividir o poder com segmentos do velho regime e com “homens de Washington e de Telavive”. Atores chaves do velho regime foram mantidos em seus cargos, em diferentes setores do governo e corpos da administração. Até no gabinete do presidente Mursi havia gente do velho regime. As discussões sobre a lei da Xaria foram predominantemente manipuladas pelos inimigos da Fraternidade Muçulmana, sobretudo para consumo fora do país, para países predominantemente não muçulmanos e para mobilizar contra Mursi os cristãos egípcios e as correntes socialistas locais.

Mohamed Mursi
Quanto aos problemas econômicos que o Egito enfrentava, há muito tempo são resultado combinado de vários fatores: o legado do velho regime, a ganância das elites egípcias e dos militares de mais alto escalão, a crise global e o capitalismo predatório que EUA e União Europeia assestaram contra o Egito. Os que culparam Mursi pelos problemas econômicos do Egito e pelo desemprego fizeram-no ou por erro de análise ou por oportunismo e má fé. A incompetência de seu governo evidentemente não ajudou a superar as dificuldades, mas com certeza não as criou. Mursi tentava dirigir um navio que naufragava, depois de ter sido devastado economicamente em 2011 por estados estrangeiros e por financistas, agiotas, especuladores, investidores e empresas estrangeiros e locais.

Houve inegável esforço para sabotar o governo da Fraternidade Muçulmana – o que evidentemente não explica nem justifica a incompetência e a corrupção dos Irmãos. O esforço para adquirir respeitabilidade internacional mostrando-se em eventos como a Clinton Global Initiative, hóspede da Clinton Foundation, só apressou seu declínio. A hesitação para restaurar laços diplomáticos com o Irã; o antagonismo contra a Síria, o Hezbollah e seus aliados palestinos só fizeram encurtar cada dia mais a lista de amigos e apoiadores.

A Fraternidade Muçulmana deixou-se usar, praticamente sem qualquer resistência, por EUA, Israel, Arábia Saudita e Qatar, na operação para pacificar o Hamás, na tentativa de separar os palestinos de Gaza e o Bloco da Resistência.

A Fraternidade Muçulmana manteve o sítio contra Gaza e continuou a destruir os túneis usados para abastecer os palestinos com alguns itens de primeira necessidade. Talvez os Irmãos tivessem medo. Talvez tivessem pouco a dizer nessas questões. Mas o fato é que os Irmãos mantiveram as condições pelas quais os militares e os aparelhos de segurança e de inteligência do Egito puderam continuar a colaborar com Israel. Durante o governo da Fraternidade Muçulmana, grande número de palestinos desaparecia no Egito, para reaparecerem em prisões israelenses. O governo de Mursi “esqueceu” a anistia que havia dado a apoiadores da Jamahiriya líbia que buscaram refúgio no Egito.

Os EUA e Israel sempre quiseram que o Egito se consumisse olhando sempre para dentro, mantido em estado de patética paralisia. Washington sempre tentou manter o Egito como estado dependente, que sem a ajuda dos EUA racharia aos pedaços, política e economicamente. Por isso os EUA deixaram degenerar a situação no Egito, como meio de neutralizar qualquer resistência, mantendo os egípcios divididos e exauridos. Agora, porém, o golpe contra Mursi começará a assustar os EUA, como uma assombração.

Praça Tahrir (Cairo - Egito) em janeiro de 2011
Washington sentirá profundamente as repercussões do que aconteceu no Egito. A derrubada de Mursi envia mensagem muito negativa a todos os aliados dos EUA. Todos, no mundo árabe – corruptos e semicorruptos – estão hoje mais conscientes do que nunca de que nenhuma aliança com Washington ou Telavive jamais significará proteção eterna. Diferente disso começam a dar-se contar de que os que se saem melhor hoje são os que se aliaram aos iranianos e aos russos.

Império incapaz de garantir a segurança de seus sátrapas é império que, mais dia menos dia, perderá muitos dos próprios clientes e aliados, que lhe dão as costas, ou o traem. Assim como está fracassando o projeto de mudança de regime que os EUA conceberam para a Síria, assim também o “turno” norte-americano no Oriente Médio aproxima-se do epílogo.

Os que apostaram no sucesso de Washington – os reis sauditas, a Fraternidade Muçulmana, o Primeiro-Ministro turco Recep Erdogan – em breve descobrirão que deixaram-se prender no lado perdedor da equação regional do Oriente Médio...
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[*] Mahdi Darius Nazemroay é cientista social, escritor premiado, colunista e pesquisador. Suas obras têm sido publicadas internacionalmente em uma ampla série de revistas, sítios e jornais. São traduzidos em mais de vinte idiomas, incluindo alemão, árabe, italiano, russo, turco, espanhol, português, persa chinês, coreano, polonês, armênio, holandês e românico. Seus trabalhos em ciências geopolíticas e estudos estratégicos têm sido usados por vários estabelecimentos de ensino e de defesa. É convidado frequentemente por redes internacionais de notícias como analista e especialista em geopolítica no Oriente Médio.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A revolução egípcia traiu-se ela mesma

9/7/2013, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohamed ElBaradei
“A revolução morreu. Longa vida à revolução” – escreveu Eric Walberg, autor e especialista em política do Oriente Médio, logo depois que os militares egípcios derrubaram o presidente democraticamente eleito no Egito, Mohammed Mursi, dia 3 de julho. Mas, com mais precisão, deve-se dizer que a revolução foi assassinada, morte lenta e terrível, por vários, muitos assassinos.

Mohamed ElBaradei, elitista liberal, com triste currículo a serviço das potências ocidentais ao longo de toda uma glamorosa carreira como diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, é exemplo que se destaca, da crise política e moral em que o Egito mergulhou desde a derrubada do ditador Use Mubarak.

ElBaradei teve papel negativo importante nessa triste saga, desde seu espetaculoso retorno ao Egito durante a revolução de janeiro de 2011 – apresentado agora como libertador, sensível, educado no Ocidente – e único substituto “sério” para o primeiro presidente que o Egito jamais elegeu, agora derrubado por militares. Esse duplifalar é manifestação não só de oportunismo político – e ElBaradei sempre foi oportunista no comando de seu Partido Dostour – mas de toda a filosofia política da Frente de Salvação Nacional, grupo guarda-chuva criado para abrigar toda a oposição e que ElBaradei coordena.

Homem de falar suave, que só muito fracamente e muito raramente se manifestou contra as pressões injustas impostas ao Iraque ao tempo em que presidia a AIEA, ElBaradei foi miraculosamente convertido em político duro, com muitas exigências e altíssimas expectativas.

O seu partido, assim como o restante da oposição egípcia, resultaram sempre extraordinariamente mal posicionados em todas as eleições democráticas e no referendo que o Egito conheceu desde o fim do governo Mubarak. A democracia provou que ElBaradei e seu partido são irrelevantes. Mas, depois de cada fracasso eleitoral, ElBaradei e a oposição apareciam falando cada vez mais alto, por ação exclusiva de um aparelho ‘midiático’ operante 24 horas por dia, sete dias por semana, em operação coletiva, coordenada, para alterar o quadro que as eleições haviam definido, sempre a favor de ElBaradei e da oposição, fosse qual fosse o resultado das urnas egípcias.

Abdel-Fattah el-Sisi
Pouco depois de o general Abdel-Fattah el-Sisi ter anunciado um golpe militar, dia 4 de julho, uma evidente e bem organizada conspiração que envolveu o exército; parte significativa da imprensa e demais veículos de mídia; a oposição e juízes dos tribunais da era Mubarak silenciou a Fraternidade Muçulmana – que tinha mídia sua, organizada e operante. O nível de organização que se viu nas ações dos conspiradores golpistas não deixa dúvidas de que os militares mentiam quando, dois dias antes, haviam dado 48 horas para que os partidos políticos conciliassem suas diferenças e resolvessem suas disputas.

Nunca houve espaço para qualquer conciliação entre ElBaradei e os partidos que lhe fazem oposição – o que o exército sabia perfeitamente bem. Dia 30 de junho, um ano depois de Mursi ter assumido a presidência, depois de eleições transparentes, a oposição organizou-se, com o sinistro objetivo de derrubar, a qualquer custo, o presidente eleito.

Alguns convocaram o exército, que já se provou vicioso e nada confiável, para liderar a transição “democrática”. ElBaradei convidou até apoiadores de antigo regime, para unirem-se à sua cruzada para depor a Fraternidade. A ideia era simples: reunir o maior número de pessoas nas ruas, declarar uma segunda revolução e convocar os militares para salvarem o Egito de Mursi e de um suposto desrespeito à vontade do povo.

Os militares, com um show repulsivo de benevolência cenografada, acorreram ao chamado de uns poucos, em nome do povo e da democracia. Prenderam o presidente, fecharam as redes de televisão islamistas, mataram muitos e prenderam centenas de eleitores do partido governante. E vieram os fogos de artifício, com ElBaradei e seus homens comemorando uma suposta “salvação” do Egito.

Mohamed Elmasry
Mas não era nada disso

Os donos dos meios de comunicação de massa da era Mubarak e membros chaves da oposição liberal e secular haviam-se unido para criar uma das mais efetivas campanhas de propaganda de que se tem notícia na história política recente, para demonizar Mursi e a Fraternidade Muçulmana – escreveu Mohamad Elmasry, da Universidade Americana no Cairo.

Nenhuma das empresas da imprensa-empresa no Egito jamais deixou de ser fiel ao antigo regime. Todas as grandes empresas de mídia permaneceram tão sujas e corruptas quanto foram nos tempos de Mubarak. Sempre estiveram naquele posto para servir aos interesses dos grandes comerciantes e das elites políticas. Mas, na realidade mutável do novo quadro político – três eleições democráticas e dois referendos, todos os pleitos vencidos por eleitores dos partidos que apóiam os islamistas – já não era possível para jornais e jornalistas e televisões continuarem a operar usando a mesma linguagem de antes. E todos esses empresários e empresas e jornalistas pularam então para dentro do vagão da revolução, usando o mesmo quadro de referências que sempre usaram, como sempre tivessem estado na vanguarda da luta por liberdade, igualdade e democracia.

As forças reacionárias no Egito, não só a mídia, mas também os juízes pró-Mubarak, os militares – empresários - comerciantes, etc., conseguiram sobreviver ao levante político, mas não por serem especialmente hábeis ou inteligentes. Aconteceu, isso sim, que encontraram muito espaço para se reagruparem e manobrar, porque uma oposição desesperada –ElBaradei e companhia –, só cuidavam de atacar Mursi, de atacar a Fraternidade Muçulmana e de interromper o processo democrático que os levou legitimamente ao poder.

No desespero por mais e mais poder, todos esqueceram de considerar a revolução, seus objetivos iniciais. Assim desonraram a democracia, mas, mais grave que isso, puseram em risco o próprio futuro do Egito.

O que aconteceu no Egito, a começar pela “revolução” orquestrada de 30 de junho, do ultimatum que os militares lançaram, ao golpe militar, à vergonhosa reinvenção da velha ordem – acompanhada de prisões novamente cheias e com os mesmos tanques atacando civis desarmados – não foi frustrante só para a maioria dos egípcios. Foi também terrível choque para muitos, em outros países. O Egito que por um momento serviu de inspiração ao mundo, voltou ao ponto em que estava quando tudo começou.

Praça Tahrir no início da Primavera Árabe em 2011
Desde o início da chamada Primavera Árabe, houve intenso debate em torno de numerosas questões. Uma delas foi o papel da religião numa democracia saudável. O Egito, claro, estava no coração daquele debate, e cada vez que os egípcios iam às urnas, os eleitores como que, de certo modo, repetiam a mensagem de que desejavam ver alguma espécie de casamento entre o Islã e a democracia.

Jamais foi questão simples ou fácil, e até agora não há respostas convincentes. Mas, como em qualquer democracia saudável, a decisão final tem de caber ao povo. Absolutamente nada muda, se o voto e o desejo de um camponês pobre numa vila remota no interior do Egito não coincidem exatamente com a sensibilidade elitista de ElBaradei.

É triste, mas não surpreende, que muitos dos idealistas que tomaram a Praça Tahrir em janeiro de 2011 e falavam de direitos iguais para todos, não sejam capazes de conviver com essa consequência da igualdade de direitos. Alguns reclamaram que décadas de marginalização sob Mubarak não habilitaram os egípcios pobres, analfabetos, sem qualquer educação formal a tomar decisões no campo da representação política ou de uma Constituição democrática.

E, numa triste virada histórica, aquelas mesmas forças estão hoje abertamente empenhadas num golpe para derrubar presidente democraticamente eleito e sem partido, ao mesmo tempo em que celebram a volta da opressão, como se fosse glorioso dia de liberdade. ElBaradei pode assim voltar ao centro do palco, dando “aulas” aos egípcios pobres sobre o que é a verdadeira democracia – e por que, em vários sentidos, nenhuma maioria faz qualquer diferença.




[*] Ramzy Baroud é colunista internacional e editor do jornal Palestine Chronicle. seu último livro foi My Father was A Freedom Fighter: Gaza's Untold Story (Pluto Press) ainda sem tradução em português.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Robert Fisk: A cidade e as trabalhadoras que iniciaram a derrubada de Mubarak


Robert Fisk

Robert Fisk, 6/8/2011, The Independent, UK
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


A cidade de Mahallah, capital do algodão egípcio, esconde muito bem seus saberes políticos.

Local de fábricas stalinistas que trabalhavam 24 horas por dia, casas arruinadas do século 19 enterradas entre blocos de concreto e uma rede de trilhos em cacos, só a aparição de uma barata impressionantemente grande no chão do escritório da prefeitura agita os funcionários e os faz levantar. A barata e outra estranha criatura: esse seu correspondente, encharcado de suor, perguntando sobre uma greve na indústria que começou e acabou há cinco anos.

Cada vez que eu perguntava sobre a greve, alguém me perguntava se eu vira Mubarak naquela gaiola no Cairo. Supunham sempre que eu falasse das batalhas na Praça Tahrir, em janeiro passado. Só começaram a entender quando entrou na sala uma das heroínas da Batalha de Mahallah, Widdad Dimirdash, vestida com o véu, super energética, voz alta e atitude de profundo orgulho. Mrs. Dimirdash participou do comando de uma das primeiras grandes greves contra a empresa estatal (quer dizer: pertencia à família Mubarak) Misr Cotton Company, em 2006. 

“Não se pode dizer que tenha sido greve realmente política” – diz ela, mas não acredito. “Acho que não tivemos escolha. Nossos salários haviam caído tanto e o preço da comida era tão alto que já ninguém nem comia nem vivia.” 

Dos 30 mil operários do algodão em Mahallah – homens e mulheres trabalhavam em fábricas separadas – 6.000 eram mulheres. Elas pararam de trabalhar quando os homens pararam. Tomaram as fábricas “de mulheres” e recusaram-se a sair de lá até que recebessem “massivo” aumento de salário: de £60 por mês, para £100, o que as ainda as mantinha como os trabalhadores de mais baixo salário em todo o Egito. Mas o governo de Mubarak, em três dias, concedeu o aumento que as mulheres pediam.

Não teve escolha. Mahallah, centro do comércio egípcio de exportação, era grande demais para ser desafiada. “Primeira Cidade do Algodão do Delta” – lê-se numa placa enferrujada, quando passo de carro pelas calçadas rebentadas, montes de lixo e muitos carros “toc-tocs”, uma espécie de riquixá movido a petróleo que circula pela velha passagem de nível. A cidade não ostenta a própria história, mas a história parece pairar por ali, entre as ruínas. 

Introduzido na região pelos franceses em 1817, o algodão de Mahallah prosperou quando a guerra civil nos EUA cortou as vias transatlânticas das importações europeias, nos anos 1860s. Adeus, Sul Profundo. Bem-vindo, Delta do Nilo.

No dia 6/4/2008, contudo, o povo de Mahallah acrescentou mais uma nota de pé de página à própria história. Dessa vez, marcharam pelas ruas, negociando com um ministro do governo Mubarak, por melhores salários e condições de trabalho, e enfrentaram a violência dos policiais. Mrs. Dimirdash foi uma das duas mulheres que participaram da equipe de negociação de sete trabalhadores. “As pessoas demarcaram campos na rua principal, a ‘Rua do Presidente’ – relembrou o jornalista Adel Dora. – “Os baltagi [mercenários pró-governo, armados com porretes] nos atacaram com terrível violência; e a Polícia usou gás lacrimogêneo, mas muita gente nos defendeu em todo o país, usando o Facebook”.

Só dois canais árabes de televisão por satélite cobriram a batalha de Mahallah. A imprensa egípcia, diz Dora, “simplesmente mentiu sobre nós – publicaram tudo que o governo Mubarak queria que publicassem”. Os homens e mulheres de Mubarak mantiveram o movimento durante uma semana. 

Em 2009, tentaram novamente, mas dessa vez – e Dora baixou a cabeça ao dizer – o povo estava com medo. “Com medo da Polícia, de serem mortos, de mais violência, do que o governo pudesse fazer contra eles”. Dora falava com ira, mas, estranhamente, como se não percebesse o precedente que a cidade criara. Essa Mahallah sombria, sem brilho, em 2006 e em 2008, foi versão em miniatura, talvez prematura, da grande revolução que derrubaria o governo egípcio em fevereiro de 2011 e mandou Hosni Mubarak para a gaiola com leito que se viu no Cairo essa semana. A união de homens e mulheres, trabalhadores comuns, o Facebook, as tendas armadas na Praça Tahrir, os mercenários baltagi as bombas de gás lacrimogêneo da Polícia, tudo reapareceu depois, aos olhos do mundo, na Praça Tahrir. E naquela praça descobrimos – embora ninguém entendesse quem eram e o que faziam ali – muitos homens e mulheres de Mahallah. Ah, sim, eles sabiam o que fazer para derrubar ditador. 

O jornalista francês Alain Gresh foi dos primeiros a perceber a plena significação de tudo isso: que aqueles trabalhadores eram “atores esquecidos” da revolução egípcia. Lembrou como um repórter industrial egípcio respondeu às suas perguntas no Cairo, perguntando: “Por que, até agora, as rebeliões na Líbia, no Iêmen e no Bahrain falharam?” Poderia ter acrescentado à lista, a Síria. Mas foi na Tunísia, onde os sindicatos eram fortes, que o sindicado geral dos trabalhadores da Tunísia conseguiu finalmente derrubar a ditadura de Ben Ali. Nos últimos dias, o golpe final foi a greve geral que convocaram. Mas tampouco os homens e mulheres de Mahallah foram os únicos trabalhadores da indústria a conseguir derrotar o poder de Mubarak. 

Os operários do complexo de fábricas de cimento em Suez – que também fizeram sua “revolução” miniatura em 2009, pra protestar contra as vendas de cimento a Israel – iniciaram também sua greve política em fevereiro de 2011.

Quanto aos trabalhadores da Síria, Líbia, Iêmen, há muito tempo foram cooptados, Baathizados, hipnotizados pelo Livro Verde ou tribalizados, com o socialismo tomado só como inspiração infeliz para muitos ditadores. Quer dizer então que é preciso que haja movimento de trabalhadores e sindicatos organizados para que as revoluções no Oriente Médio sejam bem-sucedidas? Mahallah é cidade feia, suja, triste – mas seu lugar na história aumenta ano após ano.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Robert Fisk: “A juventude revolucionária egípcia está sendo marginalizada”

Robert Fisk

2/8/2011, Robert Fisk, The Independent, UK (do Cairo)
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Revolução traída. O exército egípcio está em colusão com a odiada Fraternidade Muçulmana para trazer até vocês – ora... um novo Egito, muito parecido com o velho, desinfetado de Mubarak e de alguns (mas não todos) seus capangas, mas mantidos bem assegurados os privilégios do exército corrupto (residência, complexos, bancos etc.), em troca de permitir-se que alguns barbudos participem do governo. Corte e dispensa para os jovens revolucionários seculares que realmente lutaram na rua contra os assassinos da polícia secreta de Mubarak, para livrarem-se do ditador de 83 anos.

O quadro é sombrio – a Primavera Árabe converteu-se em eterno outono árabe. E pão e circo para os jovens egípcios que exigiram dignidade em troca de sua coragem: a imagem televisionada do velho leão infiel em sua jaula de ferro, amanhã, no centro de convenções do Cairo.

Sim, oferecido à juventude irada do Egito – e às famílias dos 850 mártires da revolução – o julgamento cenográfico do trio que comanda toda a imunda empresa, H. Mubarak & Filhos Ltda., todos na jaula que o presidente da empresa inventou para seus inimigos.

Um ex-ditador que se vai, ou uma revolução que se vai? As perspectivas não são boas. Os partidos jovens e seculares suspeitam de que amanhã será apresentada uma “abertura” do julgamento e, em seguida, o adiamento, por um ou dois meses, para que o ex-principal executivo da empresa morra em sua cama, no conforto de Sharm el Sheikh. “Mas o estamos julgando, exatamente como pediram” – dirá o exército. E voltarão às reuniões com a Fraternidade Muçulmana.

Não se trata só de o diretor do show ser o marechal de campo Tantawi, presidente do Superior Conselho Militar e amigo de Mubarak. Aqui, por exemplo, está o major-general Mohamed al-Assar, membro do Conselho Supremo, a contar ao Instituto da Paz dos EUA em Washington o quanto a Fraternidade amadureceu e tornou-se cooperante: “Dia a dia, a Fraternidade está mudando e adotando via mais moderada”, contou a eles. Claro que estão! Tomaram a Praça Tahrir semana passada, exigindo que a nova constituição egípcia seja baseada na Xaria. Mas Tantawi, al-Assar e o resto da brigada emedalhada nada farão para alcançar a mudança real em que insistem os revolucionários.

Em vez de destruir todo o sistema corrupto, os revolucionários receberão “reformas de dentro para fora”, além de alguns barbudos de meia-idade, cuja existência foi a verdadeira razão pela qual os EUA apoiaram Mubarak desde sempre. Mais tarde, claro, poderão ser convertidos em “grave ameaça” – tão logo o espírito do mubarakismo volte a reinar sem oposição. 

domingo, 31 de julho de 2011

Robert Fisk: “Ditadores árabes seguram-se... mas até quando?”


Robert Fisk

30/7/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Embora se saiba que vive mudando de direção conforme sopre o vento, Walid Jumblatt começou a fazer comentários pessimistas sobre a Síria.
O líder druso, chefe do Partido Socialista Progressista do Líbano, “senhor-da-guerra”, foi quem sugeriu que dever-se-ia esquecer o Tribunal Especial da ONU e as investigações sobre o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri, em nome de defender “mais a estabilidade que a justiça”. Ouviu urros de ira de Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro, que atualmente perambula pelo mundo para ficar bem longe do Líbano – o que é compreensível, porque teme ser também assassinado – enquanto a Irmã Síria cala-se para o oriente. Agora, Jumblatt anda dizendo que há forças na Síria que impedem qualquer reforma.

Ex-presidente egípcio Hosni Mubarak vai a julgamento na próxima quarta
Ex-presidente egípcio Hosni Mubarak vai a julgamento na próxima quarta
Parece que “alguns” no regime do Partido Baath não querem ver traduzidas em ação as promessas de reforma que o presidente Bashar al-Assad tem feito. Soldados não devem atirar contra civis. Jumblatt diz que a lição da Noruega é útil também para o regime sírio; o mundo árabe não deixou de anotar que as sandices que Anders Breivik distribuída pela internet incluíam a exigência de que os árabes deixassem para sempre a Cisjordânia e Gaza.

Esse seu correspondente para o Oriente Médio não está prometendo nada, talvez, talvez, nada é garantido, mas é possível que esteja próximo – e como detesto esse clichê – para a Síria, o ponto de não-retorno. 100 mil pessoas (no mínimo) nas ruas de Homs; há notícias de deserções entre os soldados da academia militar síria. Um trem inteiro descarrilado – por agentes “sabotadores” segundo autoridades sírias; pelo próprio governo, segundo os manifestantes que exigem o fim do governo do partido Baath. E tiroteios à noite, em Damasco. Assad ainda estará contando com que medos sectários mantenham o apoio que a minoria alawita e os cristãos e os drusos ainda lhe dão? Manifestantes dizem que seus líderes estão sendo assassinados por pistoleiros do governo; que centenas de manifestantes, talvez milhares, foram presos. Será verdade? Será mentira?

O braço sírio é longo. Em Sidon, cinco soldados italianos da ONU foram feridos, depois que Berlusconi uniu-se à União Europeia e condenou a Síria. Depois, Sarkozy uniu-se à mesma condenação e – bang! – cinco soldados franceses foram feridos na mesma cidade, essa semana. Bomba sofisticada. Todos desconfiam da Síria, mas, com certeza, nada se sabe. A Síria tem apoiadores entre os palestinos do campo Ein el-Helweh em Sidon. 

E, então, Hassan Nasrallah do Hezbollah anuncia que seus militantes vão dar proteção e cobertura aos campos libaneses submarinos de petróleo ainda não prospectados: o perigo é Israel. São 550 milhas quadradas de águas mediterrâneas ao largo de Tiro – e não se sabe sequer, com certeza, se são águas territoriais libanesas. Aí há, claramente, motivo para mais uma guerra.

E, lá no Egito, o velho ex-presidente irá a julgamento com seus filhos Gamal e Alaa Mubarak, na 4ª-feira, além de outros dos favoritos da corte de Hosni Mubarak. Os ministros da Justiça e da Inteligência, hoje, são antigos auxiliares de Mubarak: permanecem, pois, no poder. O que significa isso? Os velhos Mubarakistas seguram-se? Os sauditas ofereceram milhões ao exército egípcio para que Mubarak não fosse julgado – muitos querem condená-lo à morte; o exército gostaria de executá-lo hoje mesmo. E enquanto isso, os sauditas dão tudo que podem para defender o Bahrain e outros potentados do Oriente Médio. Estão preparados para deixar Gaddafi ser derrubado (Gaddafi tentou assassinar o rei, vezes demais). Os sauditas ainda não entenderam qual a posição de Obama em relação à Síria – desconfio que Obama, tampouco. Mas o presidente dos EUA deve estar contentíssimo por não ter soldados norte-americanos no Líbano, nas tropas de paz da ONU. Todos sabemos o que aconteceu com o último pelotão de norte-americanos que lá esteve (1983, na base dos Marines, 241 mortos, um suicida-bomba, a maior explosão que o mundo ouviu desde Nagasaki).

“Foram obrigados a levar Mubarak a julgamento” – disse-me um jornalista egípcio, semana passada. “A rua incendiaria o país, se não fosse levado a julgamento”. Promete ser o julgamento do século no Egito (o Independent lá estará).

O que me leva de volta ao nosso velho amigo Gaddafi, o ditador árabe que não combina exatamente com os demais déspotas. Nesse momento, o mundo político na Líbia é enxame de Kerenskys. – Os Aliados não terem vencido a guerra para os Russos Brancos contra os Bolcheviques depois do conflito 1914-18 acorda alguns fantasmas infelizes que bem farão se assombrarem hoje os também tão infelizes quanto cobertos de medalhas comandantes da OTAN. (Deveriam estudar, na biblioteca da OTAN, o envolvimento de Churchill.)

De fato, o fracasso dos “rebeldes” líbios parece mais semelhante à exaustão de Sharif Hussain depois de capturar Mecca, em 1916; foram necessárias armas de Lawrence e dos britânicos (e muito dinheiro e muitos coturnos em terra) para por em pé novamente o herói, para enfrentar os turcos. Infelizmente, não há Sharif Hussain na Líbia. Assim sendo, porque, diabos, os britânicos nos metemos naquela loucura? (Desconsidero, nesse raciocínio, os assassinatos e confusão geral em Benghazi nas últimas 48 horas.) Teria sido para proteger civis em Benghazi? Há quem acredite que sim. Mas... por que, então, Sarkozy atacou primeiro?

O professor Peter Dale Scott da Universidade da Califórnia em Berkeley tem opinião formada: Gaddafi estava trabalhando para criar uma “União Africana” apoiada na moeda do Banco Central da Líbia e em suas próprias reservas em ouro; se fizesse o que planejava fazer, a França perderia a extraordinária influência financeira que sempre teve em suas principais ex-colônias da África Central. 

O muito divulgado plano de Obama, de impor sanções à Líbia – confiscar dinheiro do “Coronel Gaddafi, seus filhos e sua família e dos principais membros de seu governo” – ajudou a ocultar a parte das sanções que confiscaram também “todas as propriedades e investimentos do Governo da Líbia e do Banco Central da Líbia”. 

No subsolo do Banco Central, em Trípoli, há, em ouro e moedas, 20 bilhões de libras, guardadas para implantar três projetos da federação centro-africana.

E já que estamos nesse tema, examinemos rapidamente uma guerra de ingleses no Afeganistão. Eis o que escreveu uma comissão que investigou a participação (e já quase completa derrota) dos britânicos, naquela guerra: “Nosso objeto (...) é auxiliar nossos concidadãos a entender as vias pelas quais foram envolvidos numa guerra contra a nação afegã e o que tenham a declarar, sobre o sentido dessa guerra, os autores. 

Não apenas o governo não consultou o Parlamento nem houve qualquer comunicação àquele corpo político de qualquer mudança na política britânica que nos levasse a envolver-nos naquele conflito, mas, além disso, quando o governo foi interrogado sobre suas razões, respondeu por vias oblíquas, respostas construídas para nada informar e desviar a atenção do Parlamento. De fato, assim aconteceu: o governo conseguiu enganar até os mais atilados funcionários e especialistas e, através deles, toda a nação.” A citação lá está, no relatório final da investigação, pelo Parlamento britânico, da Segunda Guerra do Afeganistão. A data? 1879.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para o Hamás, a primavera começou mais cedo

 Khaled Amayreh

7-13/4/2011, Khaled Amayreh [da Cisjordânia], Al-Ahram, Cairo, n, 1.042 
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu
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NOTA DOS TRADUTORES: O artigo abaixo não tem novidades. Mas é interessante, porque aí se ouvem vozes que estão totalmente varridas da ridícula imprensa brasileira. A ridícula imprensa brasileira tenta fazer-crer que o destino do mundo se jogaria exclusivamente em Washington ou no Pentágono (os quais, se se acredita no que se lê/vê na ridícula imprensa brasileira, dariam alto crédito às opiniões dos ridículos O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo e Rede Globo). Como se só importasse ao Brasil o que pensam que pensam as tristes Donas Danuzas, Doras, Elianes, saias-justas, papos-calcinha, Jabores, ou os hiperridículos Mervais Pereiras, Datenas, Waacks, BBBs, Magnollis, pânico-na-TV, Lampreias e que-tais). 
O artigo abaixo, hoje publicado no Cairo, mostra, pelo menos, com clareza de algum bom jornalismo, que o mundo se vai rearranjando, apesar do que “declarem” as Clintons, os Obamas, as OTANs e coisa-e-tal, divulgados pelas grandes agências de notícias, religiosamente papagaiadas aqui pelos “noticiários” e “analistas” (só rindo!) ainda tucanos (mas... tucanos?! Como assim?! Que tucanos?! Cadê os tucanos?! O DEM?! Mas... mas... Cadê o DEM?! Que DEM, sô?! [risos, risos]).
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Apesar das muitas afirmativas na direção contrária, os mais recentes esforços para restaurar a unidade nacional dos palestinos, entre Fatah e Hamas, parecem não estar trazendo resultados estimulantes. Fatah e Hamas têm trocado acusações sobre as respectivas sinceridades no trabalho de por fim aos três anos de disputas.

O Hamás ainda não anunciou data definitiva para a hoje já duvidosa visita que consta que  Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, estaria planejando fazer à Faixa de Gaza. Alguns dos líderes do Hamás acusaram Abbas e a liderança do [partido] Fatah na Cisjordânia de planejar “visita de relações públicas”, para deixar a sempre referida ‘bola do jogo’ no ‘campo’ do Hamás.

O Hamás, que não tem posição unânime sobre essa visita, exigiu que a visita não seja anunciada antes de que se possam tomar medidas necessárias para que a visita tenha sucesso. Entre essas medidas, é preciso algum acordo sobre pontos políticos controversos, o fim das prisões políticas, a libertação dos presos políticos e fim à atmosfera ditatorial, de estado policial, na Cisjordânia.

Para o Hamas, a recusa do Fatah, que não aceita negociar seriamente essas exigências, implica que o Fatah não tem intenção séria de reconciliar-se com o Hamas.

“Já várias vezes solicitamos que Abbas envie delegação precursora a Gaza, ou a outro lugar que escolham, para que se possa planejar a visita. Parte desse planejamento implica acertar posições sobre pontos não consensuais, de modo que a visita possa ser, de fato, o coroamento de um acordo entre as duas partes [Fatah e Hamas]. Mas Abbas parece desejar fazer mera visita protocolar e formal, sem associá-la à reconciliação. A posição do Hamás é: primeiro o acordo, depois a reconciliação oficial.” 

Como seria de prever, o Fatah reagiu em fúria. Disse que o Hamás opõe-se à reconciliação, porque teme o resultado de eleições livres e democráticas na Palestina, quando o eleitor dirá a última palavra. “As objeções do Hamás implicam rejeição tácita do gesto de generosidade do presidente Abbas, que quer ir a Gaza e firmar o acordo, para virar definitivamente essa página de nossa história”, disse o deputado Azzam Al-Ahmed.

Mahmoud Al-Zahar, do Hamas desqualificou os comentários do Fatah; disse que “não estão alinhados nem com a verdade nem com a realidade”. “Podemos facilmente firmar um acordo, desde que não se discutam as questões importantes. E o acordo não durará cinco minutos. O Hamás está decidido a não repetir os velhos erros.” 

De fato, parece que os dois lados estão à espera de que o Egito reinicie as conversações de reconciliação, que chegaram a ser iniciadas há algum tempo, coordenadas pelo ex-chefe de segurança do Egito general Omar Suleiman. O Alto Conselho das Forças Armadas [ing. Higher Council of the Armed Forces (HCAF)] que governa atualmente o Egito, recebeu recentemente líderes do Fatah e do Hamas, entre os quais Al-Ahmed e Al-Zahar.

Al-Zahar, que esteve no Cairo essa semana, disse que o Egito não parece inclinado a participar do diálogo entre Fatah e Hamas. “Os irmãos egípcios preferem a posição de observadores. Querem que os palestinos construam o acordo eles mesmos, sem qualquer interferência ou pressa externa. Pedem apenas que a declaração final e a cerimônia de reconciliação sejam feitas no Cairo.”

O Hamas já convidou o Fatah e outros grupos palestinos para “um importante encontro” em Gaza, para discutir os esforços de reconcliliação. Durante esse encontro, que aconteceu na 3ª.-feira, 5/4, Ismail Radwan, do Hamás, disse que o governo egípcio prometeu levantar o sítio de Gaza e permitir o trânsito de bens e pessoas pela passagem de Rafah.

Outro líder islâmico, Ismail Al-Ashkar, revelou que teve dois outros encontros, dois dias antes, no Cairo: um foi coordenado pelo presidente da Liga Árabe Amr Moussa; o outro, com vários líderes do atual governo egípcio. O governo do Egito também convidou  Abbas a visitar o Cairo, provavelmente dia 6/4, 4ª-feira, para revisão dos esforços de reconciliação.

Segundo fontes palestinas, os esforços em curso visam a reestruturar a OLP (Organização de Libertação da Palestina), de modo a garantir representação justa para todos os grupos palestinos, incluindo o Hamás e a Jihad Islâmica.

O Hamas sempre relutou em assinar qualquer documento preparado pelo regime deposto de Hosni Mubarak. Mas o Hamas tem poucas ou nenhuma reserva em relação ao novo governo do Egito, considerado isento de qualquer ranço anti-islâmico, característico do governo deposto de Mubarak.

Quanto ao governo do Egito, tem dito que não favorece nenhuma das organizações palestinas e visa, exclusivamente, a restaurar a unidade dos palestinos.

Os palestinos, de modo geral, investem grandes esperanças nas mudanças revolucionárias em curso no mundo árabe, sobretudo no Egito, que veem como benéficas à causa palestina e militam contra a hegemonia militarista de Israel, na região. Israel sempre considerou o governo de Mubarak como aliado estratégico crucialmente importante do estado judeu.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Islamistas preparam-se para novo papel

Syed Saleem Shahzad

7/4/2011, Syed Saleem Shahzad, Asia Times Online
Islamists prepare for new role
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Ver também: 
9/12/2010, Syed Saleem Shahzad
11/3/2011, Pepe Escobar

LONDRES. A grande revolta árabe de 2011 mudou a dinâmica do Oriente Médio, sobretudo no pensamento dos grupos islâmicos antiocidente que operam no Oriente Médio e Norte da África e que hoje encontram espaço para aliar-se com as forças democrática em territórios comuns. 

A magnitude da mudança é tal que já gerou debate feroz entre políticos ocidentais em torno de uma questão chave: quais as chances de haver paz, se se admitir que grupos islâmicos passem a atuar no processo político hegemônico? E, além disso: de que modo essas alterações afetarão a al-Qaeda? 

“Al-Qaeda é considerada organização que se põe contra todas as nações do mundo” – disse ao jornal Asia Times Online um agente britânico de contraterrorismo, que pediu para não ser identificado, ao ser perguntado sobre a possibilidade de agências ocidentais de inteligência estarem abrindo canais de comunicação com a al-Qaeda, exatamente como já fizeram com os Talibãs.

“Apesar disso, constatamos que vários estados árabes não só já estavam em comunicação com a al-Qaeda, como constatamos também que várias vezes conseguiram construir acordos bem sucedidos, que se mantiveram por vários anos. Isso mostra que a al-Qaeda não é opaca e inabordável e que é capaz de grandes mudanças no campo político” – disse aquele agente.

As principais novidades no Egito no campo dos movimentos islamistas depois da derrubada do governo do presidente Hosni Mubarak forçaram as capitais ocidentais a revisar o que, de modo geral, era pensamento de todas elas, sobre a al-Qaeda. 

O Egito é berço natal dos neoislamistas, das sociedades da Fraternidade Muçulmana e de vários grupos de militantes da luta armada que gravitaram rumo ao Afeganistão, onde formaram um “campo egípcio” que se tornou o eixo gerador da al-Qaeda (ver “O trabalho não terminado da Al-Qaeda”, 1/2/2011, Syed Saleem Shahzad, Asia Times Online, em português). 

Resultado e consequência da revolta no Egito, grande número de neoislamistas foram libertados das prisões egípcias. Entre esses, por exemplo, Abboud al-Zumar, fundador do grupo Jamaatul Jihad responsável pelo assassinato do presidente Anwar Sadat em 1981 e liderado, naqueles anos 80s, pelo ideólogo da al-Qaeda, o egípcio Dr. Ayman al-Zawahiri. 

Nem todos, contudo estão convencidos de que os islamistas chegarão necessariamente à vitória. Abboud al-Zumar, ex-coronel e agente da inteligência militar passou 30 anos preso e, para ele, a democracia impedirá até que os islamistas voltem a pegar em armas contra o Estado. 

“Converso praticamente dia sim, dia não, com Zumar” – disse Yassar al-Sirri ao Asia Times Online. Sirri é dissidente egípcio, que vive em Londres, onde dirige o Centro Islâmico de Observação [orig. Islamic Observation Center]. 

“Zumar votou no referendo recente que houve no Egito [sobre reforma da Constituição], o que mostra que confia na democracia. Eu e outros amigos sugerimos que ele se candidate às eleições presidenciais [em setembro próximo]. Zumar aceite a sugestão, ou não, seja ou não candidato, ele participará do processo eleitoral apoiando algum candidato”, disse Sirri. Em 1994, Sirri foi condenado à morte, em julgamento ao qual não compareceu, acusado de envolvimento num atentado fracassado, que tentou assassinar o ex-primeiro-ministro egípcio Atef Sedki, e no qual foi morta uma menina. 

Sirri nega a acusação. Também foi acusado pelos jornais britânicos, de envolvimento no atentado, dia 9/9/2001, no qual foi morto Ahmad Shah Massoud, líder da Aliança do Norte afegã, por atiradores da al-Qaeda. Sirri é procurado por autoridades dos EUA e do Egito. Foi preso pelo governo britânico para ser entregue aos EUA, mas um juiz britânico ordenou que fosse libertado. 

Hoje, restam pouquíssimos militantes nas prisões egípcias, entre os quais Rafah Taha do Front Internacional Islâmico [ing.International Islamic Front]. 

“No momento, espera-se que todos os islamistas que ainda estão presos – independente do grupo a que pertençam ou tenham pertencido, como Showki al-Islambouli [acusado de envolvimento em atentado para matar Mubarak e que se acredita que, hoje, esteja entre Paquistão, Afeganistão e Irã] – sejam absolvidos das falsas acusações de que foram vítimas, em função das quais foram julgados e condenados sem provas” – disse Sirri. 

“Todos os principais grupos islamistas estão em contato hoje, construindo estratégia conjunta. O resultado será muito positivo: todos os islamistas deporão armas e continuarão a luta dentro dos processos democráticos nacionais”. Sirri acrescenta que as lutas iniciais dos movimentos islamistas foram pacíficas, em movimentos desarmados. Mas em seguida, o confronto com as ditaduras do Oriente Médio, sobretudo no Egito, fechou todas as vias pelas quais poderiam continuar a operar por meios parlamentares e políticos, o que os obrigou à luta armada. 

“Todas as organizações islâmicas, inclusive as que se alinhavam com a al-Qaeda, voltaram-se contra os governos ocidentais porque esses governos apoiavam, protegiam e mantinham as ditaduras em países muçulmanos e, inclusive, ditaduras muçulmanas”, – disse Sirri, que já entrou em contato com a Embaixada do Egito em Londres, pedindo que lhe seja concedido passaporte para voltar ao Egito. 

“Não escreverei carta de desculpas nem pedirei anistia, porque todas as acusações contra mim são falsas. Simplesmente voltarei ao Egito e passarei a participar da vida política do país” – disse Sirri. 

Sirri intercedeu na tentativa de salvar a vida de Kenneth Bigley, cidadão britânico sequestrado por um grupo extremista comandado pelo jordaniano Abu Musab al-Zarqawi em 2004 no Iraque. A pedido de Sirri, Bigley foi poupado durante várias semanas, destino diferente dos dois americanos sequestrados com Bigley. Mas quando os EUA iniciaram uma caçada a Zarqawi, ele assassinou Bigley antes de desaparecer. 

Sirri acredita que, se as atuais tendências se mantiverem, se os militantes forem tratados como seres humanos, até Zawahiri poderá voltar ao Egito para participar do processo político. 

Sirri disse que “atualmente, todos os grupos islamistas estão em processo de consultas internas e entre eles, e já há consenso em torno de alguns objetivos gerais: é preciso criar condições de bem-estar para as populações e é preciso organizar dawa [atividades missionárias] e a luta política pacífica”. 

Há alguns tempo, os ideólogos da al-Qaeda lançaram uma publicação com 20 diretivas para a Jihad, na qual enfatizam a importância de a al-Qaeda reorientar-se para participar na luta política em vários países, que busque reconectar-se com outros grupos políticos islamistas e com intelectuais e pensadores muçulmanos. 

Nas capitais ocidentais, a questão de conversar com a al-Qaeda ainda tem sido apresentada como inadmissível. Mas, pela primeira vez se ouve falar dela como possibilidade. A derrubada da ditadura de Mubarak foi agente catalisador nessa importante mudança.