3/9/2012, [*] Pepe
Escobar, Asia Times Online – The
Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Drones bombardearam civis no Paquistão |
Sim
Nós Espionamos. Sim Nós Dronamos. E Sim Nós Bombardeamos. A
blitzkrieg [guerra relâmpago] de propaganda da Casa Branca para vender ao
Congresso dos EUA o Tomahawk-eamento da Síria já está chegando à rotação máxima
pré-bombas – festivamente reproduzida pela imprensa-empresa dos EUA [no Brasil, então, nem se fala! (NTs)].
John Kerry |
E
sim, todos os paralelos com Iraque 2.0 foram trazidos devidamente à baila,
quando o Secretário de Estado John Kerry pontificou que Bashar al-Assad “agora
se junta à lista de Adolf Hitler e Saddam Hussein” como monstro do mal. Por que
nunca mencionam Pol Pot do Camboja? Oh yes, porque os EUA apoiaram Pol
Pot.
Cada
bola de capim seco que rola pelo deserto de Nevada sabe quem está babando por
guerra contra a Síria: vastos setores do complexo industrial-militar; Israel; a
Casa de Saud; o “socialista” François Hollande na França, que tem sonhos
eróticos com Sykes-Picot. Praticamente ninguém faz lobby no Congresso
para que os EUA NÃO FAÇAM guerra à Síria.
E
todo esse tão frenético lobby pró-guerra pode até ser supérfluo! O
laureado com o Prêmio Nobel da Paz e iminente bombardeador Barack Obama já
deixou claro – com obscena repetição do “eu decidi que os EUA devem empreender
ação militar” – que pode atacar a Síria, diga o Congresso o que disser.
François Hollande |
A “linha vermelha” que Obama se
autoinfligiu é vírus mutante: de um “tiro de alerta” metamorfoseou-se para
“palmada leve” e agora já está com cara de “Eu Sou o Decisor Bombardeador”.
Inútil especular sobre seus motivos reais. Seu recurso de desespero a um
Congresso extremamente impopular, cheio de idiotas certificados, pode ser um
grito de socorro (salvem-me da minha própria estúpida “linha vermelha”); ou –
considerando os imperialistas humanitários tipo-Susan-Rice que o cercam – Obama
tende a entrar em mais uma guerra para agradar o lobby do Comitê
EUA-Israel de Assuntos Públicos [American Israel Public Affairs Committee
(AIPAC)] e da Casa de Saud, tentando esconder-se sob a carapaça dos “altos
valores morais”. Parte da conversa é que “Israel
tem de ser protegida”. Mas fato é que Israel já está super protegida por
um Congresso dos EUA teleguiado pelo AIPAC.
E
aquelas provas?
Os ex-“macaquinhos rendidos
comedores de queijo” [1] estão fazendo sua parte, apoiando
entusiasticamente as “provas” da Casa Branca, com um relatório que eles mesmos
inventaram, baseado em grande parte em inteligência recolhida no YouTube.
Até
o canal
Fox News admitiu que a
inteligência eletrônica que os EUA têm veio, quase toda, da unidade 8.200 do
exército de Israel – versão israelense da Agência de Segurança Nacional dos EUA.
Em artigo de hoje, o ex-embaixador
da Grã-Bretanha Craig Murray desmonta
convincentemente a conversa de que os israelenses teriam interceptado essa
comunicação.
Dale Gavlak |
O
mais decisivo contragolpe ao que a Casa Branca diz ainda é a matéria da Mint Press News, assinada pelo
correspondente da Associated Press,
Dale Gavlak, escrevendo de Ghouta, Damasco, e que ouviu moradores que se opõem a
Assad e disseram que:
(...) alguns rebeldes receberam armas químicas
por intermédio do chefe da inteligência saudita, príncipe Bandar bin Sultan, e
são os responsáveis pelo ataque com gás.
Tive
um sobressalto quando li – eu também já escrevi sobre o papel
de Bandar Bush como entidade
maléfica por trás da nova estratégia de guerra contra a Síria.
Há
também o fato de que comandos do exército sírio, dia 24/8, ao invadir túneis
“rebeldes” no subúrbio de Jobar em Damasco, encontraram um armazém abarrotado de
produtos químicos para preparar “sarin feito em casa”. Os soldados do comando
foram atingidos por algum tipo de gás de efeito neurológico e recolheram
amostras para serem analisadas na Rússia. O resultado dessa análise, com
certeza, é parte da conclusão a que chegou o presidente Vladimir Putin,da
Rússia, que já disse que as alegações da Casa Branca não têm qualquer
fundamento.
Saleh Muslim |
Dia
27/8, Saleh Muslim, presidente do Partido da União Democrática Curda [orig.
Kurdish Democratic Union Party(PYD), disse à Agência Reuters que o ataque
foi organizado para “culpar Assad”. E por que, caso os inspetores conseguissem
provar que foi obra dos “rebeldes”, “ninguém daria atenção”. Suspense: “Será que
punirão o Emir do Qatar ou o rei da Arábia Saudita? Ou Erdogan da
Turquia?”
Portanto, independente do que tenha acontecido, os moradores de Ghouta já disseram que o autor do ataque é a Frente al-Nusra; e os curdos sírios dizem que foi ataque planejado para inculpar Damasco.
Portanto, independente do que tenha acontecido, os moradores de Ghouta já disseram que o autor do ataque é a Frente al-Nusra; e os curdos sírios dizem que foi ataque planejado para inculpar Damasco.
A
essa altura, qualquer advogado decente já teria perguntado “quem se beneficia
com o crime?” Que motivo teria Assad – para ultrapassar a “linha vermelha” e
lançar ataque com armas químicas, no dia da chegada dos inspetores da ONU a
Damasco, com eles a apenas 15 km do local do ataque?
É
o mesmo governo dos EUA que vendeu ao mundo a história de um bando de árabes sem
treinamento e armados com abridores de latas, que teriam sequestrado aviões
lotados de passageiros para usá-los como mísseis para atacar o espaço aéreo mais
protegido do planeta, a serviço de uma organização transnacional do mal.
E
agora, a mesma organização do mal não seria capaz de lançar um ataque
rudimentar, com armas químicas rudimentares e foguetes feitos em casa? – A ideia
que também me ocorreu, antes até de ler a matéria de
Gavlak. E há muito material que comprova que os “rebeldes”
há muito tempo têm acesso a armas químicas (vídeo a seguir).
Além disso, no final de
maio, as forças de segurança turcas já haviam encontrado gás sarin com
jihadistas da Frente al-Nusra.
Assim
sendo, por que não perguntar a Bandar Bush?
Bandar Bush bin Sultan |
E volta-se sempre e sempre, e
outra vez, àquela fatídica reunião em Moscou, há apenas quatro semanas, entre
Putin e Bandar Bush.
Bandar teve a ousadia de dizer a
Putin
que “protegeria” os Jogos de Inverno de 2014 em Sochi. Teve a ousadia de dizer
que controla os jihadistas chechenos do Cáucaso à Síria. Os quais só
estariam esperando a luz verde dos sauditas, para atacar, feito loucos, as
partes baixas da Rússia.
Bandar
até entregou seu movimento
seguinte:
[nesse caso] não há como escapar da opção militar, porque
é a única escolha disponível atualmente, uma vez que o acordo político acabou em impasse.
É
monstruosa simplificação – em primeiro lugar, porque os sauditas jamais quiseram
Genebra-2. Pela agenda ultra sectária da Casa de Saud, de fomentar por toda a
parte a cisão de xiitas contra sunitas, a única coisa que conta é quebrar a
aliança entre Irã, Síria e o Hezbollah, e custe o que custar.
A novidade mais recente da Casa de
Saud
é que o mundo “deve impedir a agressão contra o povo sírio”. Mas, se “o povo
sírio” concorda em ser bombardeado pelos EUA, a Casa de Saud também concorda.
Muqtada al-Sadr |
Comparada
a esse absurdo, a reação de Muqtada al-Sadr no Iraque soa como a voz da razão.
Muqtada apoia os “rebeldes” na Síria – diferente da maioria dos xiitas no
Iraque; de fato, ele apoia a oposição não armada, e insiste que a melhor solução
são eleições livres e justas. Rejeita o sectarismo – fomentado pela Casa de
Saud. E, porque sabe que se trata só de ocupação militar pelos EUA, também
rejeita qualquer bombardeio norte-americano.
A
aliança estratégica Bandar Bush &
AIPAC não deixará alma viva, para obter essa guerra. Em Israel, Obama já
está sendo pintado, previsivelmente, como “traidor e covarde” frente a “o mal”.
A avalanche das Relações Públicas israelenses sobre o Congresso está centrada em
ameaçar com um ataque unilateral contra o Irã, caso o governo dos EUA não ataque
a Síria. Verdade seja dita: o Congresso aprovaria entusiasmado ataques
simultâneos, para os dois lados. O QI coletivo ali pode ser abaixo da idiotia,
mas alguns podem ser levados a concluir que o único meio para “castigar” o
governo Assad é mandar os EUA fazerem o serviço pesado com a Força Aérea, para
os muitos “rebeldes” e, claro, jihadistas – do mesmo modo como a Aliança
do Norte no Afeganistão, a peshmerga curda no Iraque e os mercenários
anti-Gaddafi na Líbia tanto apreciaram.
E
assim temos, resumida, a nação indispensável, que afogou o Vietnã do Norte sob
um mar de napalm e agente laranja,
que inundou Fallujah sob uma tempestade de fósforo branco e vastas áreas do
Iraque com urânio baixo-enriquecido, aí, já pronta para lançar um coisa dessas,
“limitada”, “cinética”, o nome que inventem agora, contra um país que não atacou
os EUA ou qualquer aliado dos EUA. E tudo baseado em prova muito menos que
confiável, e sem parar de falar em “altos princípios morais”.
Quem
acredite na conversa da Casa Branca, de que serão só uns poucos Tomahawks a descer dos céus sobre bases
militares desertas... que alugue casa no País das Maravilhas de Alice. O projeto
de resolução que já circula no Capitólio é apavorante.
E
ainda que venha a ser seja lá o que for “limitada” e “cinética”, só perpetuará o
caos. O ministro russo de Relações Exteriores Sergei Lavrov falou de “caos
controlado”. Não. O Império do Caos está totalmente fora de controle.
Nota dos
tradutores
[1] Orig. “cheese-eating surrender
monkeys” em referência (depreciativa) aos franceses. A expressão apareceu num
episódio de “Os Simpsons”, de 1999 a seguir:
______________________
[*] Pepe
Escobar 1954) é jornalista
brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em
inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no sia Times Online; é
também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News
Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos,
traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu,
no
blog
redecastorphoto.
Livros
-
Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Nimble Books, 2007
-
Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007
-
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009
"O ministro russo de Relações Exteriores Sergei Lavrov falou de “caos controlado”. Não. O Império do Caos está totalmente fora de controle."
ResponderExcluir_________________________
Ponto.
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E a culpa é de quem mesmo?
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Do vírus, claro; teria dito Marx, que há mais de um século "profetizou" quanto a isso. Só não disse que o vírus seria constituído de zeros e uns, de bits e bytes, mas, enfim, e ainda assim, vírus.
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E por falar nisso, logo, logo, possivelmente, teremos notícias de a "rebeldia dos drones".
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