22/2/2012, Alexey
Pilko, Ria Novosti,
Moscou
Traduzido
pelo pessoal da Vila
Vudu
Alexey
Pilko
é
professor associado na Faculdade de Política Mundial da Universidade Estatal de
Moscou
Não
seria exagero dizer que a crise síria tornou-se a questão internacional mais
importante de hoje. Mudanças dramáticas atingem vasta região na qual se cruzam
os interesses de muitos países, dentre outros a Rússia, os EUA, a China, os
países da União Europeia. A temperatura não para de subir no Oriente Médio, já
próxima do ponto de ebulição. Foi interessante nesse quadro, em meio ao nevoeiro
que a imprensa global só faz adensar, com matérias fortemente opinativas e
raramente colhidas de fontes primárias, ouvir diretamente de funcionários do
governo, com quem conversei recentemente, a versão de Damasco sobre os eventos
na Síria.
A
maior parte da imprensa mundial pinta o regime sírio como cada vez mais isolado
na comunidade internacional, já praticamente sem nada a esperar além do
continuado apoio da Rússia (apoio que, segundo a mesma narrativa, seria motivado
exclusivamente por interesses comerciais). Pois o governo sírio entende que a
situação não é, nem de longe, tão ameaçadora.
Lembram
que o vice-ministro chinês de Relações Exteriores Zhai Jun, em recente visita à
Síria, deixou bem claro que Pequim, como Moscou, não planeja abandonar o regime
do presidente Bashar al-Assad. Também o Irã, submetido a violentas pressões
internacionais, vê a Síria como aliado importante no mundo árabe e, portanto,
está ativamente apoiando o regime. O Irã, já por duas vezes, manifestou
simbolicamente a extensão de seu apoio, ao enviar navios de guerra para o
Mediterrâneo.
Importante,
a observar, que o Egito, que não dá sinais oficiais de muita simpatia com o
governo sírio (e até chamou de volta seu embaixador em Damasco), não impediu a
passagem dos navios de guerra iranianos pelo Canal de Suez, nem na primeira, nem
na segunda viagem. Assim sendo, é prematuro afirmar que o Egito, o país árabe de
maior população, já tenha abandonado completamente a Síria. Quanto a isso, é
importante separar o que diz o governo egípcio nas declarações oficiais, e o que
efetivamente está fazendo.
Além
do mais, o governo sírio diz, em conversas confidenciais, que a Síria está
construindo um relacionamento especial com o Iraque – cujo governo vê com
simpatia os esforços sírios para estabilizar a situação doméstica. É bastante
provável que, com a retirada dos soldados norte-americanos do Iraque, o Irã, a
Síria e o Iraque venham, em algum momento, a constituir no Oriente Médio uma
aliança natural, tripartite, suficientemente solta para que não imobilize os
aliados. Dado que a maioria dos iraquianos são xiitas, e dada a crescente
influência do Irã no Iraque ao longo dos últimos anos, esse cenário nada tem de
impossível ou improvável. E Omã também tem garantido algum apoio aos
sírios.
Funcionários
do governo sírio, entre os quais a vice-presidenta Najah al-Attar e o
vice-ministro de Relações Exteriores Faisal Mekdad, com os quais se reuniram
recentemente alguns professores russos (entre os quais o autor desse artigo),
mencionam Turquia, Qatar e Israel entre os mais ativos instigadores da pressão
internacional sobre a Síria, além dos EUA, que se permanece por trás
desses.
No
momento, um dos principais tópicos de discussão em Damasco é o fator EUA, na
crise síria (e, em menor extensão, o fator Israel). Os sírios destacam que o
principal alvo dos EUA e Israel não é a Síria, mas o Irã; e que os EUA estão
interessados em desestabilizar a Síria exclusivamente para privar Teerã de um
“contraponto” no Oriente Médio, no caso de operação militar contra o Irã. Em
geral, a elite política síria está convencida de que há uma conspiração
internacional contra Damasco.
O
papel de Israel nos eventos sírios é questão sensível para os sírios,
considerando que Israel continua a ocupar as colinas do Golan. De fato, até os
mais altos funcionários do governo sírio dizem ter provas de que a Fraternidade
Muçulmana Síria tem conexões diretas com o governo
israelense.
Sobre
o papel da oposição síria, os funcionários sírios chamam atenção para seu
caráter heterogêneo. Não é verdade, nem de longe, que todos os que fazem
oposição a Assad estejam armados. Ao contrário disso, parte significativa da
oposição a Assad também se opõe a qualquer tipo de intervenção estrangeira, seja
militar seja sob a forma de sanções. As reformas planejadas pelo governo sírio
visam a conquistar esses opositores políticos, pacíficos e não armados. As
reformas incluem um referendo sobre uma nova constituição que acabará com o
monopólio do Partido Ba’ath e imporá limites ao mandato do
presidente.
Muitos
dos que falam em oposição a Assad (sobretudo os que falam de fora da Síria),
fortemente apoiados por alguns estados ocidentais liderados pelos EUA, insistem
em que teria acabado o prazo para encontrar solução pacífica para a Síria; e que
a única alternativa restante seria a força. Ao contrário disso, o governo sírio,
apoiado por outros estados que também conhecem bem o contexto político no país,
e também por uma parte da oposição política a Assad dentro do país, diz que a
janela para o diálogo ainda não está fechada. Como os apoiadores estrangeiros da
oposição síria, as autoridades de Damasco querem pôr fim aos sangrentos combates
no país. Resta saber como. O governo sírio acredita que, se a nova constituição
for apoiada em referendo popular, e se as eleições parlamentares previstas para
maio forem bem-sucedidas, estarão assegurados os pré-requisitos para estabilizar
o país.
O
governo sírio investe grandes esperanças na reforma constitucional. O ministro
da Informação Adnan Mahmoud disse que “será um exemplo a seguir, para toda a
região”. A julgar por alguns itens da reforma da Constituição, divulgados pela
imprensa, não há dúvidas de que pode ter razão, pelo menos enquanto houver na
região, estados autoritários teocráticos como a Arábia Saudita. Para Riad,
reformas como as que estão sendo propostas na Síria são absolutamente
impensáveis.
Contudo,
não se deve esquecer que há radicais armados na oposição síria – até os EUA já o
reconheceram oficialmente – e parecem empenhados em lutar até a morte, tendo
como alvos, em sua campanha de terror, os que apóiam o regime de Assad. A
vice-presidenta Al-Attar observou que o contrabando de armas vindas da Turquia e
do Líbano, e o próprio papel da Turquia na atual crise, surpreenderam os líderes
sírios: “Não esperávamos que a Turquia viesse a ter esse papel no desenrolar dos
eventos”, disse ela.
Interessante
também que as ações dos comandantes da oposição também tenham surpreendido
Damasco. Mekdad disse que “inicialmente, nem os mais altos funcionários do
governo sírio entenderam completamente a natureza dos eventos”. “Os políticos
sírios não esperavam que as manifestações durassem tanto tempo e não tomaram
todas as medidas necessárias para neutralizar, logo na fase inicial, os
potenciais efeitos negativos”.
É
claro que a situação na Síria é complexa. Desenvolvimentos futuros dependerão da
habilidade do governo para estabelecer um diálogo civil no país; para fazer
avançar as reformas; e impedir que a ala armada da população venha a conquistar
o apoio da população. Damasco merece ser ajudada nesses esforços. A paz na Síria
depende também de o mundo entender que a realidade em campo naquele país não é
necessariamente tão simples como faz crer parte significativa do noticiário que
a mídia divulga.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Registre seus comentários com seu nome ou apelido. Não utilize o anonimato. Não serão permitidos comentários com "links" ou que contenham o símbolo @.