domingo, 15 de abril de 2012

Começa a valsa: P5+1 e Irã


14/4/2012, *MK BhadrakumarIndian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Fato é que, se os brasileiros dependêssemos da mídia-empresa que há por aqui, e dos “especialistas” em Oriente Médio da Rede Globo (os da GloboNews são ainda mais atrasados, atrasistas e metidos a besta!), JAMAIS saberíamos do que aqui se lê. 
A possibilidade de o Irã ter pleno e total direito ao seu programa nuclear para finalidades civis absolutamente não existe na opinião fraquíssima dos “especialistas” de araque e ex-ministros de governos anteriores (e já derrotados DUAS VEZES!) em eleições democráticas, que a mídia-empresa do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) insiste em tentar impingir aos leitores-eleitores-consumidores de jornalismo no Brasil.
O impossível acontece: Os “especialistas” e ex-ministros entrevistados por William Waack no canal (pago) GloboNews ou publicados nas páginas (que os consumidores também temos de pagar para ler!) de O Globo, Estadão, Folha de S.Paulo e revista (NÃO)Veja são mais atrasados, atrasistas e reacionários, até, que a Hilária Clinton! [risos, risos, risos]
O que se lê aí abaixo é também sinal muito claro de que o Irã conseguiu resistir a longo tempo de
(1) uma inacreditável pressão feita contra o país por EUA-Israel; e
(2) às dificuldades da própria política interna. 
E o Irã chega agora à mesa de negociações em posição indiscutivelmente vitoriosa. Grande Irã! (E em vários sentidos, também, grande Obama, o liberal-coitado...)

Há otimismo cauteloso sobre as conversações entre o P5+1 [os “Irã6”, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU + Alemanha] e o Irã, iniciadas no sábado, em Istambul (ver AP  [1],NYT [2], CSM [3], Reuters [4]). Há sinais disso, dos dois lados, bem claros, vindos dos protagonistas, ao longo da última semana, e vindos inclusive do presidente dos EUA Barack Obama [5]. A Casa Branca já falou até de “ações recíprocas responsáveis, em resposta a ações concretas dos iranianos”. Quer dizer: Obama tem interesse em dar os passos necessários para encontrar-se com os iranianos no meio do caminho.

Até o Washington Post publicou um raro artigo assinado pelo ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi [6], como tema de abertura, uma espécie de “abrem-se as cortinas”, das conversações em Istambul. O cerne da manifestação de Salehi é que Teerã fala sério, sobre negociar [7] um acordo amplo. Ninguém espera eventos dramáticos em Istambul, mas o sinal positivo é que já há indicações de que as conversações prosseguirão em maio, em Bagdá. Teerã deu sinais de que talvez apresente propostas novas [8] na reunião de Istambul.

Além disso, o ex-presidente do Irã, aiatolá Ali Akbar Rafsanjani, tradicionalmente identificado com a escola de pensamento de Teerã, e que defende a normalização das relações com os EUA e a Arábia Saudita, voltou à cúpula do poder iraniano. E semana passada, a revista especializada International Studies de Teerã [9] publicou longa entrevista com Rajsanjani, com extensa e profunda crítica à política externa do governo Ahmadinejad. Aqui, alguns excertos:

“A atual atitude em relação aos EUA, segundo a qual nós [o Irã] não conversamos nem podemos estabelecer nenhum tipo de relação, não pode ser mantida. Os EUA são o país mais poderoso do mundo. Que diferença haveria, do nosso ponto de vista, entre Europa e EUA, China e EUA, e Rússia e EUA? Se mantemos conversações com esses outros países, por que não com os EUA? Conversar não implica rendição. Conversamos, para ver se aceitarão nossa posição ou se aceitaremos a deles. Nada além disso.”

“Eu quis estabelecer relações com o Egito, mas não consegui. Quis iniciar negociações com os EUA, sob as condições que fixei, mas não consegui. Não ter conseguido não significa que eu não tenha querido fazer.”

“Nossas relações com a Arábia Saudita também é questão importante. Em primeiro lugar, é país rico; e muitos clérigos islâmicos mantêm algumas relações com a Arábia Saudita, por causa do Hajje das peregrinações. Esses também se interessam por melhores relações. Os sauditas fazem consertos e cuidam da conservação de várias mesquitas e publicam o Corão. Oferecem inúmeros recursos para a divulgação de assuntos religiosos e outros. O que a Universidade Al Zahra costumava fazer no Egito é serviço que, agora, os sauditas prestam, em boa parte. Inclusive trabalhos acadêmicos. E há, ainda mais importante, a questão do petróleo. Se mantivéssemos boas relações com a Arábia Saudita, o ocidente teria inventando essas sanções contra o Irã? Só a Arábia Saudita pode substituir o Irã [no petróleo]. A Arábia Saudita não precisa fazer coisa alguma. Basta que os sauditas se limitem a produzir só o petróleo exigido pela quotas da OPEC, e ninguém mais poderia atacar o Irã. Isso, porque a economia ocidental não funciona sem nosso petróleo. Acredito que ainda é possível construir boas relações [com a Arábia Saudita]. Mas há gente aqui [em Teerã] que não quer isso. Vocês, especialistas em negócios internacionais e política internacional, sabem disso. Se lançarem uma só palavra irresponsável, a reação será imediata. Parte da retórica mais dura, que vem dos dois lados, não é aceitável e tem de ser corrigida.”

“Se inserirmos nossa política de ajuda ao Líbano e à Palestina no contexto da política internacional certa, não teremos problema algum. Se corrigirmos o clima reinante em nossas relações com o mundo, então poderemos separar essa questão. São posições [i.e, a ajuda ao Hezbollah e ao Hamás] defensáveis, desde que não as usemos para criar problemas para os outros [i.e, para EUA e Israel], e desde que os deixemos continuar a fazer os seus negócios. Desde que o governo [do Irã] não tome atitudes de aventureirismo pelo mundo, essas questões [ajuda ao Hamás, ao Hezbollah] são toleradas.”

“Não temos qualquer intenção de construir armas atômicas, e não temos sistemas nucleares militares. Uma vez, eu mesmo disse aos israelenses ocupantes que armas nucleares não são interessantes para Israel, se algum dia irromper alguma guerra nuclear. Israel é país pequeno demais para suportar um arsenal nuclear, e todos os seus recursos seriam facilmente destruídos. Eles interpretaram meu conselho como ameaça, mas, mesmo assim, acreditamos profundamente que não deve haver armas nucleares nessa região. Esse tem sido um dos princípios de nossas políticas, como nunca deixou de ser e ainda é.”

O que está acontecendo? A reinstauração de Rafsanjani na posição que já ocupou, como presidente do poderoso Expediency Council, é mais um sinal claro que uma linha de pragmatismo político está operando para afirmar-se, num momento em que as muitas facções internas tumltuam a estrutura política do Irã. Vale a pena ler o artigo de Mansour Salsabili [10], alto funcionário do Ministério de Relações Exteriores do Irã, atualmente em Harvard para um ano sabático. (Muito interessante, isso sim, que EUA e Irã deem-se tanto trabalho, como hoje se vê, para manter abertas as linhas de comunicação entre os dois países!)



Notas dos tradutores

[1] 13/4/2012, Blooberg-Business Week em: “Iran, 6 powers may make progress at nuclear talks
[2] 13/4/2012, New York Times em: “As Nuclear Talks With Iran Restart, New Hopes for Deal
[3] 13/4/2012, The Christian Science Monitor em: “Iran nuclear talks: Why there's hope for progress this time
[4] 13/4/2012, Reuters em: “Powers seek to ease nuclear deadlock with Iran
[5] 13/4/2012, ABC News (OTUS) em: “Obama to Iran: It's your move in nuclear talks
[6] 12/4/2012, Washington Post em: Iran:We do not want nuclear weapons
[7] 12/4/2012, Washington Post em: “Iran: We do not want nuclear weapons
[8] 13/4/2012, ABC News (OTUS) em: “Iran: We do not want nuclear weapons
[9] A entrevista só é acessível a assinantes. Há longa matéria sobre a entrevista em 11/4/2012, Payvand Iran News em: “Rafsanjani Critiques Iran's Foreign Policy: I Wanted to Directly Talk With the US” . E em Iran Politik em 11/4/2012, “IRGC general fires back at Rafsanjani on the state of US-Iran relations”, lê-se uma resposta do Corpo dos Guardas Revolucionários Iranianos àquela entrevista. Nada é fácil. [10] 13/4/2012, The Science Monitor em: “Iran talks: Why time is ripe for compromise

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

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