domingo, 8 de abril de 2012

Sim, Mélenchon faz a melhor campanha. E depois?


2/3/2012, Eric Dupin, Rue89
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Discursos de Mélenchon (vídeo e tradução) disponíveis na redecastorphoto: 
1/4/2012, em Grigny,  
6/4/2012, em Toulouse,

Jean-Luc Mélenchon à Montpellier (Hérault), 8/2/2012 (DAMOURETTE/SIPA) 

É hora de declarar: Até aqui, Jean-Luc Mélenchon faz a melhor campanha nas eleições presidenciais na França. O talento do candidato da Front de Gauche é elogiado até por um veterano comentarista político, Alain Duhamel (71 anos), que não se pode acusar de simpatia por qualquer tipo de radicalismo:

“Jean-Luc Mélenchon é grandiloquente, provocador, presunçoso, às vezes até fala de uns ou outros com desprezo, mas não há dúvidas de que é hoje o melhor orador da cena política na França. E não me lembro de melhor orador que ele, que parece herdeiro dos oradores do século 19, mas que consegue seduzir e embalar, literalmente, não só os auditórios e as praças, mas também as câmeras de televisão.”

“O rei dos comícios” 

Se Duhamel percebe o tribuno Mélenchon como criatura com passado de dois séculos, mesmo assim é obrigado a admitir que seus melhores momentos acontecem nas praças. O jornal Le Parisien consagrou recentemente o candidato da Front de Gauche, com o título de “o rei dos comícios”.

De fato, os comícios têm sido eventos impressionantes: 10 mil pessoas, dia 7/2 em Villeurbanne (Rhône), para um estranho comício em dois palcos; 8 mil no dia seguinte, em Montpellier (Hérault) [ontem, em Toulouse, foram 70 mil]. Um público misto e entusiasmado. Eleitores comunistas mais velhos, que reencontram o entusiasmo de ver a bandeira vermelha outra vez erguida, ao lado de militantes muito jovens, das origens mais diversas, todos seduzidos pelo Partido de Esquerda de Mélenchon.

Até aqui, o fervor só se traduz em lento crescimento nas pesquisas de intenção de votos (de 6,5% em meados de janeiro a 9% no início de fevereiro).

[Esse artigo é do início de março. Em “La présidentielle en temps réel  há resultados de pesquisa divulgados hoje, mas é pesquisa paga pela da revista Paris Match, que só não é pior que a revista (não)Veja, porque NÃO HÁ, no mundo nada pior que a revista (não)Veja, que é a pior revista DO MUNDO]. 

Mas deve-se prever que a dinâmica da campanha mostrará bons resultados para Mélenchon. Basta ver – por que não? – que Mélenchon já ultrapassou François Bayrou [candidato de centro-direita].

Campeão dos anti-LePen

Mélenchon já pode festejar uma grande vitória na disputa contra Marine Le Pen. Lançar ataque violento e frontal contra o Front Nacional (e os que, na UMP [de Chirac] e às vezes também no Partido Socialista [de Hollande] só pensam no “voto útil”) foi decisão estratégica maduramente avaliada. A candidata da extrema-direita, ao que se vê, caiu na armadilha das provocações que lhe fez a Front de Gauche de Mélenchon, e recusou-se a comparecer ao debate promovido pelo canal France 2 de televisão, dia 23/2.

Alexis Corbière, dirigente do Parti de Gauche, que faz parte “de uma geração que começou a militar em meados dos anos 80, e sempre sofreu com a presença da Frente Nacional de Le Pen na paisagem política francesa”, comemora:

“[Marine Le Pen] lhe virará o rosto, mas Jean-Luc não vai afrouxar. No plano midiático, é terrível para ela. A grande força da extrema direita que virava a cara a qualquer discussão nos anos 80s, 90s e 2000, está calada, agora, frente à Frente de Esquerda. Para nós, é vitória total.”

Mélenchon explica, em seu blog, como a escolha de atacar o adversário na questão dos direitos da mulher, onde a temática da igualdade social entra em flagrante contradição com a divisão tradicional entre sexos com a qual trabalha a extrema direita (a questão do aborto, dentre outras), é estratégia calculada:

“A brecha que abrimos para entrar na questão da igualdade entre homens e mulheres [discutir o caso do transgênero] permitiu-me ir ao coração da cortina de fumaça que mascara as contradições do que a direita diz. Nosso interesse tático é deixar a direita lá onde está, nesse “entre dois” asfixiante para o discurso da FN. Porque a tática deles, de buscar a respeitabilidade, separou-os dos militantes da direita ativa e dos meios sociais para obter votos, sem lhes dar qualquer vantagem no campo da direita, que só tem Sarkozy.”

O único, à esquerda do Partido Socialista

O moderatismo assumido de Hollande, apimentado, vez ou outra, com piscadelas à esquerda, abriu espaço para a candidatura Mélenchon. Contra o “voto útil”, a candidatura Mélenchon está atraindo o voto tático dos eleitores socialistas pouco confiantes e constantemente decepcionados pelo que ouvem do candidato do Partido Socialista. A candidatura Mélenchon ancora-se também e sobretudo numa tradição da esquerda comunista que permanece bem viva na França, apesar da marginalização do Partido Comunista Francês (PCF). O programa de Mélenchon, que circula desde setembro do ano passado, ousa repor as questões fundantes dessa tradição histórica:

“Nosso programa prevê estender a propriedade pública, desenvolvendo os serviços públicos. Promove novas apropriações sociais pela nacionalização das grandes alavancas da ação econômica, industrial e financeira. Propõe formas descentralizadas da propriedade social. E assim visa a sistematizar o recurso à economia social e solidária.”

Contudo, apesar de ter formação trotskista (versão lambertista), Mélenchon não encarna apenas o novo rosto do comunismo francês. A crítica do produtivismo e do consumismo que o Parti de Gauche trouxe, na nova formação com as cores vermelho e verde, acrescenta ao melenchonismo um componente ecológico que não está lá só como verniz superficial. Parte do eleitorado “verde” que se frustrou com Eva Joly, pode reencontrar novo alento, em Mélenchon.

Patriota e franco-maçon, Mélenchon aplica-se também em fazer vibrar a corda republicana. Seus comícios encerram-se sempre ao som de A Internacional, mas sempre seguida da Marselhesa – o que tem suscitado algumas discussões entre seus amigos.

A fraca notoriedade dos candidatos da NPA e do Partido da Luta Operária, contribui também para atrair para Mélenchon os votos de boa parte do eleitorado da extrema esquerda. Desta vez, Mélenchon é o único a ocupar o espaço à esquerda do Partido Socialista. Ora, aí havia 13,8% dos eleitores, em 2002; e apenas 9% em 2007, apesar da lembrança do 21 de abril. Significa que Mélenchon terá de ultrapassar a barreira dos 10% [hoje está com mais de 15% das intenções de voto], para transformar seus talentos políticos e oratórios em real bom desempenho nas urnas.

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