domingo, 8 de abril de 2012

Rússia alerta sobre ataque dos EUA ao Irã


7/4/2012, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Obama opõe-se frontalmente à linha de ação aprovada na reunião de Istambul, de a Arábia Saudita armar os “rebeldes” sírios”. [1]

Entreouvido na Vila Vudu: Taí... Obama parece estar contra a Hilária e o Pentágono e a Arábia Saudita (e também contra o Kissinger [2], que tá velho, mas ainda morde, e Israel) e com eleições pela frente. A vida não tá fácil, nem pros liberais de Harvard, nos EUA... Parece que há muito mais coisas em jogo, nas eleições dos EUA, do que faz crer o miserável jornalismo brasileiro e os tais tolos “analistas” à moda do William Waack...

O presidente da Comissão de Assuntos Internacionais da Duma (Parlamento) russa, Alexey Pushkov alertou que o deslocamento do sistema de mísseis de defesa dos EUA no Golfo Persa é sinal de que pode estar em preparação um ataque militar ao Irã [3]. Peshkov é político influente, próximo do Kremlin, com acesso à inteligência russa; o que diz, portanto, merece atenção.

De fato, houve outros alertas desse tipo, no nível do establishment militar e de segurança em Moscou. O comandante geral do exército russo, general Nikolay Makarov, disse recentemente que, em sua avaliação, é possível um ataque militar dos EUA ainda nesse verão. “O Irã é ponto nevrálgico (para os EUA). Acho que tomarão alguma decisão no verão”.

O alerta de Pushkov faz sentido, dado que o sistema de mísseis antibalísticos visa a neutralizar a capacidade do Irã para retaliar [4] . Pushkov associou seu comentário à decisão, dos alemães, de vender seis submarinos classe Dolphin a Israel, que descreveu como abominável, porque amplia a capacidade de Israel montar ataque pelo mar.

Fato é que alguma coisa parece, sim, estar em preparação. Pequim, na 6ª-feira, lançou sua mais forte declaração, até agora, contra qualquer ataque militar ao Irã [5].

E não há dúvidas de que a retórica dos EUA para o Irã assumiu outra vez tons muito ameaçadores. Em visita a Riad, no sábado, para acertar os últimos detalhes do deslocamento dos mísseis antibalísticos e no caminho para a reunião dos “Amigos da Síria” em Istambul no domingo, a secretária de Estado Hillary Clinton subiu ainda mais o tom da retórica de agressão (ou provocação). 

Na volta a Washington, avisou que Teerã não force os limites da paciência dos EUA [6]. O EUA voltaram a falar grosso, culpando o Irã por suas agruras no Afeganistão – questão que ecoa na opinião doméstica, nos EUA. E tudo isso, só na última semana.

A retórica mudou sem qualquer razão visível, e destoa da trilha política prevista para as conversações do grupo “P5+1”, marcadas para 13 de abril. O tom de Clinton tornou-se cada vez mais ameaçador [7], o que só pode ter efeito de provocação, em Teerã. 

Estarão os EUA lançando campanha de “guerra psicológica”, pensando em amolecer a posição do Irã, com vistas às conversações do “P5+1”? Ou, então, será que o governo Obama concluiu que nada sairá, mesmo, daquelas conversas? Outra vez, será que Obama está desistindo, pressionado pelas exigências de ano eleitoral, no plano interno? Ou será que está em posição de nada poder negar à Arábia Saudita – já furiosa com o que chama de ‘falta de espinha dorsal’ de Obama, e ele já desistiu de Síria e Irã? 

Talvez, e pode ser a explicação mãe de todas as explicações, Obama quer apenas que os sauditas não parem de bombear petróleo extra, para manter baixos os preços do combustível até as eleições, para impedir que os consumidores respondam à carestia, nas urnas; e, assim sendo, Obama teria de fazer um favor aos sauditas? É a explicação de Donald Trump – sempre bem informado quando se trata de dinheiro [8].

Não há, no momento, resposta fácil para essas perguntas. Fato é que o caminho da paz é arriscado para Obama, porque, para ser bem-sucedido nas negociações, é preciso que os EUA sejam flexíveis, assim como se espera que Teerã faça concessões. Enquanto isso, resta pouco espaço de manobra para Obama. E, por outro lado, a atitude politicamente mais segura para ele será mostrar-se “super falcão”, em relação ao Irã.

O mais recente vazamento pelos jornais, sobre a “abertura” de Obama para ao Irã [9] visa, provavelmente, a abrir caminho para que, adiante, Obama diga que estava preparado para avançar nas negociações com o Irã, mas a teimosia e a intransigência de Teerã frustrou sua luta pela paz. Por essa via, não é difícil forçar um pouco mais o argumento, e justificar um eventual ataque militar.

Os EUA obviamente estão investindo todas as esperanças na ideia de que o Irã receberá sem reagir os golpes de EUA-Israel. Nada menos garantido. Claro que os EUA têm vasta superioridade sobre o Irã. Um show de “choque e pavor” pela tela da rede CNN impressionará o público norte-americano, que verá que, sim, o comandante-em-chefe é homem durão. E talvez também consiga melhorar o humor dos xeiques das monarquias do Golfo. Mas... e depois? Dentre as respostas “assimétricas” do Irã, com certeza o país se retirará do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Depois disso, que opções restarão a Obama? [10] Bombardear o Irã a cada seis meses?



Notas dos tradutores
[4] 31/3/2012, Washington Post, Karen DeYoung em: “Clinton meets with Gulf nations over missile defense”.
[7] 5/3/2012, First Post, em: “All options open to prevent Iran from going nuclear: Clinton”. 
[9] 6/4/2012, Washington Post, David Ignatius em: “Obama’s signal to Iran”.
[10] 5/4/2012, Global News, Charles Gray em: “Iran war would be quick victory, long defeat”.


*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

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